O preconceito tem manifestações estúpidas e evidentes. Mas, para lá destas, há um outro nível menos explicito, subliminar. O preconceituoso explícito traduz a sua estupidez na depreciação directa e injustificada da vítima (os brancos são isto, os negros são aquilo, as mulheres aqueloutro). Já o preconceituoso subliminar traduz a depreciação na convicção de que só ele está em condições de proteger as vítimas do preconceito. Só existe uma salvação: aquela que o preconceituoso subliminar proporciona, nos termos em que proporciona. Paradoxalmente, este preconceito subliminar está presente, em alguns casos, nos campeões das causas. Bem intencionados, sobrepõem ao interesse real da vítima aquilo que consideram, sem as ouvirem, ser o seu interesse. O paternalismo é evidente. A campanha Kony 2012 pode muito bem ser um destes casos. Ninguém nega que Kony é um criminoso da pior espécie. Os argumentos dos críticos da campanha também já são conhecidos: o principal problema do Uganda já não é Joseph Kony e as preocupações deviam ser dirigidas à corrupção no poder politico, à doença e a outras chagas que afligem as populações. A este propósito é útil considerar a reacção de Ugandeses que visionaram o filme da promotora da campanha (IC – Invisible Children) na localidade de Lira. As elevadas expectativas iniciais deram lugar à raiva. Lapidares as palavras de uma das mulheres presentes que comparou a recolha de fundos que a IC está a efectuar com uma hipotética venda de objectos com a imagem de Bin Laden para ajudar os americanos. Parece evidente que a IC procurou apenas a história que mais lhe convinha contar, sem ter em conta a versão daqueles que diz querer proteger. Se o fez de forma ingénua, incorreu no preconceito subliminar que a impediu de perceber que a história que interessa é a daqueles que a vivem. Se o fez oportunisticamente, com mero intuito de autopromoção, estamos conversados.
A campanha Kony 2012 e os diferentes tipos de preconceito
Rui Rocha,



















