A campanha Kony 2012 e os diferentes tipos de preconceito


Rui Rocha,

O preconceito tem manifestações estúpidas e evidentes. Mas, para lá destas, há um outro nível menos explicito, subliminar. O preconceituoso explícito traduz a sua estupidez na depreciação directa e injustificada da vítima (os brancos são isto, os negros são aquilo, as mulheres aqueloutro). Já o preconceituoso subliminar traduz a depreciação  na convicção de que só ele está em condições de proteger as vítimas do preconceito. Só existe uma salvação: aquela que o preconceituoso subliminar proporciona, nos termos em que proporciona. Paradoxalmente, este preconceito subliminar está presente, em alguns casos, nos campeões das causas. Bem intencionados, sobrepõem ao interesse real da vítima aquilo que consideram, sem as ouvirem, ser o seu interesse. O paternalismo é evidente. A campanha Kony 2012 pode muito bem ser um destes casos. Ninguém nega que Kony é um criminoso da pior espécie. Os argumentos dos críticos da campanha também já são conhecidos: o principal problema do Uganda já não é Joseph Kony e as preocupações deviam ser dirigidas à corrupção no poder politico, à  doença e a outras chagas que afligem as populações. A este propósito é útil considerar a reacção de Ugandeses que visionaram o filme da promotora da campanha (IC – Invisible Children) na localidade de Lira. As elevadas expectativas iniciais deram lugar à raiva. Lapidares as palavras de uma das mulheres presentes que comparou a recolha de fundos que a IC está a efectuar com uma hipotética venda de objectos com a imagem de Bin Laden para ajudar os americanos. Parece evidente que a IC procurou apenas a história que mais lhe convinha contar, sem ter em conta a versão daqueles que diz querer proteger. Se o fez de forma ingénua, incorreu no preconceito subliminar que a impediu de perceber que a história  que interessa é a daqueles que a vivem. Se o fez oportunisticamente, com mero intuito de autopromoção, estamos conversados. 

Just Tolkien


Rui Rocha,

Em 1938, uma editora alemã manifestou interesse na publicação do Hobbit de Tolkien. O processo decorria com normalidade até que as autoridades alemãs questionaram a ascendência ariana do autor. Este, furioso, enviou aos editores duas respostas alternativas, desconhecendo-se qual foi efectivamente transmitida. Uma delas rezava assim:

Dear Sirs,

Thank you for your letter. I regret that I am not clear as to what you intend by arisch. I am not of Aryan extraction: that is Indo-Iranian; as far as I am aware none of my ancestors spoke Hindustani, Persian, Gypsy, or any related dialects. But if I am to understand that you are enquiring whether I am of Jewish origin, I can only reply that I regret that I appear to have no ancestors of that gifted people. My great-great-grandfather came to England in the eighteenth century from Germany: the main part of my descent is therefore purely English, and I am an English subject — which should be sufficient. I have been accustomed, nonetheless, to regard my German name with pride, and continued to do so throughout the period of the late regrettable war, in which I served in the English army. I cannot, however, forbear to comment that if impertinent and irrelevant inquiries of this sort are to become the rule in matters of literature, then the time is not far distant when a German name will no longer be a source of pride.

* Retirado do excelente Letters of Note que aproveito para recomendar vivamente.

Alargamento da liga: decisão errada no momento errado


Rui Rocha,

A Assembleia Geral da Liga aprovou o alargamento do escalão principal do futebol para 18 clubes. De acordo com a deliberação, esse alargamento implica que não ocorrerão descidas de divisão na 1ª Liga. A concretizar-se esta situação, a verdade desportiva está irremediavelmente comprometida. Não é preciso um estudo detalhado para perceber que as equipas que lutam para não descer encararão o que falta da competição com uma intensidade diferente. Jogar a feijões não é o mesmo que lutar pela sobrevivência. Quem acreditará, nestas circunstâncias, nos resultados finais do campeonato? Entretanto, o problema da decisão não é apenas o do tempo em que foi tomada. Independentemente disso, a consequência natural do alargamento será a do nivelamento por baixo da competição. As equipas com jogadores que participam em competições internacionais a nível de clube ou de selecção vivem já uma situação de pressão extrema de calendário. As dificuldades que todos enfrentam não permitirão o investimento em planteis mais extensos. A consequência será a diminuição da qualidade dos espectáculos e a perda da competitividade na Liga Europa e na Champions. Perante isto, resta esperar que a Federação e o Conselho Nacional do Desporto intervenham no sentido de preservar os interesses fundamentais da competição que, de outra forma, serão profundamente afectados.

 

* publicado também aqui.

Electrocutado


Rui Rocha,

O governo sofre a primeira baixa exactamente no ponto onde não podia quebrar. A governação de Passos Coelho, até ao momento, teve como resultado um ataque feroz dirigido à classe média e uma diminuição significativa das garantias de protecção social. Este empobrecimento objectivo da generalidade da população constituiu, alias, uma das promessas do Primeiro-Ministro. Honra lhe seja feita, tem cumprido. E tem-no feito, afirmou-o também, não porque o memorando da troika o imponha, mas porque esse é o caminho inevitável e necessário para a cura. A tudo isto os portugueses responderam com natural descontentamento mas, acima de tudo, com sentido de responsabilidade. Todavia, é evidente que as reformas estruturais e essenciais de Portugal são de outra natureza. A governação socialista deixou o país prisioneiro de interesses corporativos que se incrustaram em diversos sectores económicos. E que comprometem a competitividade e o desenvolvimento. O teste definitivo à governação de Passos Coelho está, portanto, na capacidade de os afrontar e de libertar a economia de tal baraço. O Secretário de Estado Henrique Gomes foi, até hoje, das poucas vozes que no governo tiveram a coragem de enfrentar a EDP, uma das grandes vacas sagradas do regime. Ousou investir contra uma cerca electrificada. Morreu politicamente. Electrocutado. A sua saída, independentemente dos motivos que a determinaram, tem um valor simbólico. O da cedência do poder executivo democrático perante o poder de facto corporativo. Passos Coelho, entretanto, deve perceber que não é moralmente aceitável continuar a exigir sacrifícios ao cidadão comum enquanto promove ou permite a perpetuação de interesses que colocam em causa os fundamentos do próprio Estado.

Prefácio ou epitáfio?


Rui Rocha,

A semana que chega ao fim foi um desastre em termos de credibilidade dos políticos. A luta de galos no governo no que diz respeito à gestão do QREN é incompreensível para o cidadão comum. A gestão do episódio da Lusoponte, mesmo na interpretação mais benigna, só pode ser vista como uma tremenda trapalhada. De que resulta a certeza de que é muito mais fácil mandar portugueses para a emigração do que afrontar os interesses instalados nesta corporocracia em que vivemos. A proliferação de excepções nos cortes salariais (TAP e, agora, a CGD) só pode gerar estupefacção. A troca de argumentos baratos entre António José Seguro e Pedro Passos Coelho no debate quinzenal na Assembleia da República constitui uma triste forma de representação dos eleitores. As referências no processo Face Oculta a situações de imoralidade na gestão da coisa pública protagonizadas por Sócrates, mais do que atingir o próprio (que carácter existe para assasinar se ele nunca teve um?), atingem em cheio a imagem de uma Justiça que nos recorda a cada passo que é cega porque não quer ver e minam a confiança dos cidadãos no sistema político e nos seus actores. Neste cenário, a polémica em torno do livro de Cavaco Silva é apenas a confirmação do lamaçal em que aqueles que elegemos decidiram chafurdar. O PS tem razão. Cavaco não tem moral para falar de falta de lealdade. E Cavaco tem razão. Sócrates não só não foi leal como não tem moral. E o PS não tem lealdade para falar de falta de moral. No fundo, o que tudo isto revela é um conjunto de políticos inábeis, mesquinhos, interesseiros, focados no seu umbigo e alheados dos interesses dos portugueses comuns. E estes ficam como o tolo no meio da ponte, sem perceberem para onde vão as portagens de Agosto, mas com a certeza de que esta lusa ponte só leva a um de dois caminhos: ou a mais desemprego, ou a mais impostos e menos salários. Neste cenário, mais do que um prefácio, as palavras do livro de Cavaco Silva são o epitáfio de um sistema político putrefacto e insuportável por aqueles que pagam para assistir a este espectáculo.

Sem-Exitpéri


Rui Rocha,

Huxley entrou no seu velho Austen. Qualquer movimento tornara-se muito doloroso. Agora já sabia a causa de tanto desconforto. Onde te dói, perguntara-lhe o médico, bom amigo dos tempos de infância. Aquino dedo grande, respondera-lhe a medo. O diagnóstico veio sem piedade: Thomas, man, tens Goethe. É grave? Lembras-te de quando jogávamos futebol tardes inteiras? Claro. Pois bem, isso era Dante. Agora, acabou-se. E temos de controlar o ácido úrico. Nada de mariscos, entendido? Voltas cá daqui a 6 meses para ver como estão as coisas. Está bem, hei-de Voltaire. Com todo o cuidado, pôs o automóvel em andamento. No rádio, Rui Smallkingdom ensaiava o falsete: Dumas, são como divãs, biombos indiscretos… Vieram-lhe à memória as longas tardes de Verão da juventude e comoveu-se. O telemóvel trouxe-o de volta à realidade. Do outro lado da linha, Magda gritou: Thomas, fui salteada. Estás magoada? O saltante tentou empurrar mas só me Rousseau. Fiquei com um arrelião no pescoço, vou ver se é Maquiavel. E estou muito ensustada. E levou alguma coisa? Só um Fiodór, aquele que me deste quando erasmos em Roterdão. Ah, Hesse, balbuciou Huxley enquanto pensava na infelicidade de ser casado com uma holandesa que, ao fim de 30 anos, ainda não falava correctamente a língua local. Pronto, querida, o que importa é que estejas bem. Swift, Swift, tábem, vou tentar calamar-me, olha e tu, fizeste o exame à Proust? Fiz, fiz e está tudo bem. Custou muito? Um Bocaccio, o problema é que tenho Goethe. Eu sabia, Kafka se fazem Kafka se pagam, tu comes desmiolado menisco. Despediram-se com juras de amor. A consulta médica e a conversa com Magda abriram-lhe o apetite. Era sempre assim quando se angustiava. Reparou que um comboio circulava ao seu lado. Deteve o olhar no anúncio luminoso colocado na fachada da Estação Central: Twain Station Snack-Bar – Aldous you are angry you can still be hungry. Estacionou o velho Austen. Na porta, um pequeno letreiro convidativo: weather you Pull-Gogol or Push-Kin, you are allways welcome. Instalou-se e interpelou o empregado de mesa. Os Ovídios são frescos? Fraquíssimos, senhor. Então, traga-me uma Hamlet, por favor. Decameron, senhor? Sim, que se lixe o ácido único.

Contributos da sabedoria popular para percebermos QREN, como e porquê


Rui Rocha,

  • QREN não quer ser lobo não lhe veste a pele.
  • QREN te avisa teu amigo é.
  • Diz-me com QREN andas, dir-te-ei QREN és.
  • QREN tudo quer tudo perde (sugestão do José da Xã).
  • QREN vende sardinha come galinha.
  • QREN come até fartar, cedo vem jejuar.
  • QREN comeu a carne que chupe os ossos.
  • QREN não se farta ao comer, não se farta ao lamber.
  • QREN arrotinho dá, satisfeitinho está (sugestão minha sogra).
  • QREN não é para comer, não é para trabalhar.
  • QREN come à mesa alheia, mal janta e mal ceia.
  • Bem jejua QREN mal come.
  • QREN merendas come, merendas deve.
  • QREN quer bom ervilhal, semeia antes do Natal.
  • QREN semeia ventos, colhe tempestades.
  • Não tira bom resultado QREN vai onde não é chamado.

QREN quiser pode contribuir com mais ditados e frases populares que nos ajudem a compreender QREN é QREN.

Queridos, vamos remodelar a casa?


Rui Rocha,

Ficha de Inscrição para a nova temporada de episódios da série:

1. Nome completo: 

Ah, podem chamar-me só Álvaro.
2. Morada: 
Se demorarem mais de uma semana, o melhor é tentarem a de Vancouver.
3. Qual a divisão que pretende renovar?: 

A divisão provocada pela gestão das verbas do QREN.
4. Quais as razões que levam a querer remodelar? 
Infiltrações.
5. Casa própria ou alugada? 
Imprópria.
6. Há quanto tempo habita a casa?: 
Praí oito meses.
7. Quantas pessoas habitam a casa?: 
É para incluir os grupos de trabalho?
9. Tem crianças em casa? Idades? 

Em princípio sou só eu, tenho quarenta e tais mas estão sempre a dizer-me que sou um menino.
9. Como define o seu estilo na decoração? (moderno, art deco, minimalista, clássico, étnico, rústico, romântico ou outros…) 
Dou-me bem com todos os estilos meramente decorativos. Só não queria é que fossem demasiado minimalistas.
10. Quais as suas cores favoritas? 
Cores pastel.
11. Que elementos/objectos gostaria de manter na divisão a decorar: 
Um nadinha de autonomia.
12. Faça uma breve descrição da divisão a renovar (quantas janelas, portas, muita ou pouca luz, pavimento, cores predominantes, etc). 
Predominância de tons negros. Porta de saída. Pavimento a fugir-me debaixo dos pés. Luz ao fundo do túnel, mas pode ser um comboio.
13. Quais as dimensões da divisão a decorar? 
Devem ser uns milhões largos de euros. Mas o Gaspar nem me deixa saber o valor exacto da coisa.
14. Algum dos ocupantes da casa sofre de alergias ou alguma incapacidade física que deva referir? 

Acho que sim. O Gaspar quando me vê começa logo a espirrar.

O aborto pós-natal


Rui Rocha,

Neste artigo, Alberto Giubilini e Francesca Minerva defendem o aborto pós-natal. A abordagem não é científica, mas filosófica.  Não se trata de discutir a partir de que momento existe vida. O que está em causa é o entendimento de que um recém-nascido, sendo um ser vivo, não tem um direito moral e absoluto à vida por não ser capaz de lhe atribuir valor ou de determinar a sua conduta por objectivos e aspirações. Ora, entendendo os autores que os recém-nascidos, tal como os fetos, são apenas pessoas em projecto, concluem que a sua morte provocada é admissível em todos os casos em que a sobrevivência implica um sacrifício que não pode ser exigido a alguém. E essas circunstâncias, ainda de acordo com Giubilini e Minerva, podem ir dos casos em que a criança é portadora de doença ou deficiência, às situações em que permitir-lhe a  vida implica para terceiros (nomeadamente para a mãe, mas eventualmente também para a família ou até para a comunidade) um custo social, económico ou psicológico considerado insuportável. Ou seja, o projecto de pessoa (para utilizar a terminologia dos autores) pode ser sacrificado sempre que a sua vida implica um sacrifício para para uma já-pessoa. E, nesse caso, a morte da criança será, dizem Giubilini e Minerva, preferível à via da adopção. Porquê? Pois porque a mãe que dá a criança para adopção não deve ser confrontada com a angústia do desejo de um dia poder reaver o filho. Melhor será, então, tornar a perda irreversível em nome da estabilidade emocional da mãe. Confrontar esta posição com questões como até que idade poderiam as crianças ser sacrificadas ou em que casos o sacrifício seria admissível, questionar se a mesma posição “moral” não levaria à admissibilidade do sacrifício de qualquer ser humano, independentemente da idade, em função de limitações cognitivas mais ou menos profundas, ou perguntar se não se estaria com ela a abrir a porta à geração de seres humanos destinados ao abate depois de extraídos os seus órgãos, seria admitir-lhe uma validade de princípio que não lhe reconheço. Prefiro parar um pouco. Estará talvez na altura de respirar fundo para nos interrogarmos, depois de constatar que experiências humanas como a religiosidade, a cultura, a política, a filosofia ou a ciência não nos afastaram da barbárie e, em muitas circunstâncias nos conduziram a ela, em que momento perdemos o instinto básico de protecção de que parecemos cada vez mais afastados.

O SOL errou


Rui Rocha,
A incursão de Krugman em território português parece ter constituído, para muitos, uma tremenda desilusão. Habituados a invocar o seu pensamento económico como justificação para políticas de estímulo artificial da procura por via do endividamento do Estado contra toda a racionalidade, os argumentos dos arautos domésticos dessa abordagem foram desmistificados, olhos nos olhos, pelo próprio nas intervenções que fez nos últimos dias. Todavia, e ao contrário do que decorre da 1ª página do SOL de hoje, não houve qualquer inflexão recente no discurso de Krugman, nem qualquer influência de Passos Coelho sobre as posições do Prémio Nobel da Economia. Por exemplo, est post publicado em 23 de Fevereiro deixa bem claro que as propostas de Krugman não se dirigem, nas actuais circunstâncias, aos países periféricos e sobreendividados da Zona Euro. Aliás, a necessidade de desvalorização de salários como forma de recuperar a competitividade é algo que Krugman tem defendido ao longo dos últimos dois anos. Bem significativa desta perspectiva e do sentido do que defende é a afirmação feita em Portugal de que não será necessário atingir o nível dos salários chineses (sublinho isto para atalhar alguma interpretação que recorra a conceitos como salários nominais e inflação). A importância de deixar claro que Krugman não defende agora algo de diferente do que vinha fazendo há anos está em  chamar os boys pelos nomes. Aquilo a que assistimos nos últimos tempos foi à invocação do argumento de autoridade de forma descontextualizada e abusiva como meio para justificar políticas desbragadas que contribuíram para cavar o buraco em que nos encontramos. Portugal tem duas soluções. A saída do Euro ou o cumprimento da austeridade que nos é imposta. Aos portugueses e ao governo que os representa cabe escolher o caminho. E, depois disso, assegurar uma repartição eticamente aceitável dos sacrifícios que qualquer das soluções implica. Prometer mais do que isso, invocando Krugman, Schumpeter ou o Bruxo de Fafe não é mais de que insistir no caminho da desonestidade intelectual. Na senda do pensamento mágico que, em boa medida, nos trouxe até aqui onde estamos.