Sai uma garrafa de bruto para este pobre de espírito
Rui Rocha,
A educação em Portugal continua no caminho certo. Depois de Maria de Lurdes Rodrigues ter afirmado que a Parque Escolar foi uma festa para as crianças, Nuno Crato pretende criar condições para que as salas de aula tenham as raves mais concorridas das redondezas. Não é difícil adivinhar as consequências da medida na qualidade do ensino. Mas lá que vai ser uma diversão, lá isso ninguém pode negar. Os sorumbáticos alunos finlandeses não sabem o que estão a perder.
A EDP podia limitar-se a promover o seu produto. Não é difícil imaginar mensagens adequadas para campanha: dê às suas tomadas uma energia rica em cargas eléctricas (campanha tipo ração para cães), a energia eléctrica da EDP tem uma fina camada de electrões que prolonga a vida útil dos electrodomésticos (tipo detergente), o vento utilizado pelos nossos parques eólicos é 100% natural (tipo sumo de laranja) e por aí fora. Mas não. A EDP não quer apenas promover o seu produto. A EDP é tão extraordinária como as suas (dela) rendas. Por isso, quer-nos vender valores. Para tal, na nova campanha institucional, recorre a filhos de trabalhadores (diz-se colaboradores em edepês) que são quase todos loiros. Como era de esperar numa empresa com operações na Península Ibérica e no Brasil. O nome da campanha é “Pela Energia de Amanhã” e demonstra, dizem, o que a empresa é hoje. E o que é hoje a EDP? Pelo visto, é uma empresa com posicionamento global, postura inovadora e cada vez mais humanizada (sim, alguém pagou a outrem para escrever isto). Meras intenções? Nada disso. A EDP não deixa para amanhã o que pode fazer hoje. Por isso, cortou o fornecimento de energia eléctrica ao Centro de Saúde de Meadela. Que serve cerca de 3.500 seres humanos. Se não fosse cada vez mais humanizada, a EDP poderia ter provocado um pico de tensão de que resultasse o estoiro do frigorífico onde se guardam as vacinas para as crianças ou da máquina de raio X com que se avalia a evolução da osteoporose das velhinhas. Mas a EDP limitou-se a cortar a corrente. Poupou, assim, os utentes ao susto, à comoção e, quem sabe, às quebras de tensão. Se dúvidas houvesse, estão definitivamente afastadas. A EDP é uma empresa coerente com os valores que nos quer vender. O Emerson é o melhor jogador da equipa da Luz. E o Mexia e o Catroga são uns génios. Da lâmpada.
Efeitos do congresso do PSD: nuvem de poeira com origem no deserto atinge Portugal até segunda-feira.
Efeitos da situação interna no PS: aguaceiros, trovoadas e possibilidade de granizo a partir desta sexta-feira.
Não nos enganemos. A crítica a uma acção policial pode ter diversos pontos de partida. Aquele em que me coloco é o da defesa do estado de direito democrático. Sob este prisma, uma actuação policial será criticável sempre que se situar à margem da legalidade ou violar os princípios da proporcionalidade e da adequação à ameaça que pretende prevenir ou mitigar. Se tal acontecer, a crítica deve ser radical e o apuramento de responsabilidades, com as respectivas consequências, é um imperativo. Neste contexto, a crítica e a responsabilidade são a melhor defesa, em rigor a única, dos fundamentos do estado de direito e da própria polícia. Posição bem diferente é, todavia, a daqueles que, por princípio, atacam a actuação policial em qualquer circunstância. E que aproveitam os erros das forças da ordem para minar a sua credibilidade e limitar (ou esvaziar) a sua capacidade de intervenção. Pretendem uma sociedade sem regra e sem lei. Ou melhor dito, querem substituir a ordem vigente por uma outra, a sua, muito mais tenebrosa. Com estes, naturalmente não alinho. Nem com aqueles outros que encontram modo de vida em fumar umas ganzas, beber umas cervejolas e mandar umas bocas e umas cadeiras à bofia. Os meus heróis não fumam ganza. Ou, se fumam, não são meus heróis por fumarem ganza, mas por fazerem outras coisas que valorizo. E os meus heróis também não são papagaios que, debaixo da penugem da falsificação intelectual, escondem a vontade de nos encurralar em sistemas totalitários ou na anarquia. Esta parece-me ser a matriz de leitura correcta para os acontecimentos do Chiado, para as novas imagens que vão sendo divulgadas e para as múltiplas reacções a que temos assistido nos últimos dias.
Na sequência desta sondagem promovida pelo serviço online da RTP,
lanço um novo inquérito de opinião aos nossos leitores:
Acha que, se a RTP continuar a degradar-se, devem ser dados ao Otelo Saraiva de Carvalho os meios necessários e suficientes para entrar nos estúdios e partir aquilo tudo?
As respostas devem ser apresentadas na caixa de comentários.
Ser pai do Dinis e da Leonor é tão bom, tão bom, que é difícil imaginar forma de ainda ser melhor. Mas é possível. O segredo está em ser pai deles em Braga. Nesse caso, a experiência é ainda mais doce. Isto porque a tradição manda que, em dois dias por ano, as confeitarias locais tenham disponíveis uns saborosos moletinhos. Um dos dias é o de S. Vicente (22 de Janeiro). A tradição terá começado, ao que se diz, na histórica Doçaria de S. Vicente, antes de se estender a outras confeitarias da cidade. O outro dia é precisamente o de S. José que hoje se comemora. E não há pai bracarense que se preze que prescinda dos seus moletinhos. Aliás, para dizermos tudo, em muitas confeitarias já era possível encontrá-los durante o último fim-de-semana. E faz sentido. Hoje é dia do pai, mas somos pais todos os dias. Por isso, ontem já marcharam dois moletinhos. E hoje não prescindo de mais uns quantos. Percebo que este post poderá ser um nadinha cruel para os pais que não residem em Braga. Não pretendo azedar-lhes o dia. Por isso, procurei afincadamente a receita para a poder partilhar. Encontrei esta. Mas em verdade vos digo. Tudo isto tem o seu segredo. E não há receita que faça justiça ao sabor dos moletinhos comprados em Braga. Por isso, sendo possível, o melhor é porem-se a caminho enquanto ainda há tempo e não se acabam os moletinhos.
Estamos num refeitório de uma universidade alemã. Uma aluna loirinha e indiscutivelmente germânica retira a bandeja com o prato do dia e senta-se numa mesa. Nesse momento, repara que se esqueceu dos talheres e vai buscá-los. Ao regressar, descobre com surpresa que um rapaz negro – vindo provavelmente de algum lugar bem ao sul do Sahara – está sentado no seu lugar e come da sua bandeja. A rapariga sente-se desconcertada e indignada. Mas ocorre-lhe que o africano não está habituado ao sentido de propriedade privada e de intimidade dos europeus. Ou, quem sabe, que talvez não tenha dinheiro suficiente para comprar a sua própria refeição, apesar de esta ser barata na universidade quando comparada com o elevado custo de vida na Alemanha. A rapariga decide então sentar-se em frente ao rapaz negro, sorrindo amistosamente. Ele responde com outro sorriso pacífico. Em seguida, a alemã começa também a servir-se da bandeja, tentando demonstrar a maior naturalidade possível. Compartilha a refeição com o colega com saborosa generosidade e cortesia. Assim, ele vai comendo a salada, enquanto ela come a sopa. Dividem o prato principal. Para sobremesa, ele escolhe o iogurte. Ela fica com a fruta. Tudo isto sempre acompanhado de diversas expressões educadas e tímidas por parte do rapaz. E condescendentes e compreensivas por parte dela. Terminado o almoço, a aluna alemã levanta-se para ir buscar um café. Descobre então, na mesa que estava atrás dela, o seu próprio casaco colocado numa cadeira e, em frente a esta, uma bandeja de comida intacta. A sua própria bandeja.
* tradução livre do texto publicado por Rosa Montero, em 2005, no El Pais.
Amina Filali morreu. Dizem que se matou. Não é verdade. Mataram-na. Matou-a, primeiro, o animal que a violou pela primeira vez. E que a voltou a violar e a maltratar depois de casarem. E matou-a o artigo do Código Penal marroquino que permite que os autores de violação possam escapar a uma pena de até 20 anos de prisão se casarem com as vítimas. E mataram-na o pai e a mãe, incapazes de se interporem entre a sua filha e a bestialidade de um homem, da lei, dos usos e das tradições. O acto final a que chamam suicídio tem, neste caso, apenas o valor de uma autópsia que Amina fez a si própria. Porque o seu corpo e a sua alma, agora que tinha dezasseis anos, estavam já mortos desde o dia em que, quando tinha quinze anos, o animal a violou pela primeira vez. Não há nada de novo nesta morte. Igual à de tantas mulheres que foram e vão morrendo em vida. Mas, há algo de muito novo na vida que ficou e que prossegue. A indignação já não é um sentimento que se manifesta apenas a norte do Mediterrâneo. Em Marrocos, ali onde um homem e as leis que mataram Amina cavalgam na contramão da história e do sentimento da mais elementar humanidade, há vozes que se levantam pela primeira vez. São vozes que se manifestam, são gargantas que se revoltam num grito novo por aqueles lugares. Amina Filali não somos todos, porque muitos ainda são lá dentro iguais ao homem que a matou. Mas, a cada rajada de vento de liberdade que sopra do deserto esses recuam um milímetro, calam e engolem em seco. Amina Filali não somos todos, mas somos tantos. E sabemos agora que muitos estão lá, onde sopra o vento do deserto. A sul do Mediterrâneo.
Em 9 de Março, o New York Times publicou um anúncio colocado pela Freedom From Religion Foundation. No anúncio, apelava-se a que os respectivos fiéis abandonassem a Igreja Católica. O principal fundamento apontado foi o dos escândalos sexuais com envolvimento de padres e a cumplicidade da hierarquia da Igreja. Uns dias depois, Pamela Geller, líder do movimento Stop Islamization Now (conhecida, é bom dizê-lo, por posições radicais e inaceitáveis) solicitou ao jornal a publicação de um anúncio “simétrico” em que se apelava ao abandono do Islão com fundamento principal na falta de respeito pelas mulheres e pelos não islâmicos.
Desta vez, o New York Times recusou a publicação apesar de Geller estar disposta a pagar os mesmos 39.000 USD cobrados pela colocação do primeiro anúncio. De acordo com as explicações prestadas pelo jornal, não se trata de uma recusa definitiva, mas de um adiamento da publicação, motivado pela violência desencadeada no Afeganistão na sequência do episódio em que foram queimados exemplares do Corão e pelo temor de que vidas fossem postas em causa por novas reacções exacerbadas. A matéria é delicada. Mas, o que a decisão tem subjacente é o entendimento de que a liberdade de expressão deve ser limitada a partir de uma avaliação da perigosidade dos fiéis das duas religiões. Terá o NYT agido correctamente? Ou demonstrou apenas que utiliza inaceitáveis double standards editoriais?
* Mais detalhes sobre a notícia podem ler-se aqui.
Moët para celebrar um feito colossal do Sporting. Xandão para recordar o golo mágico que o enorme central marcou em Alvalade e que abriu a porta ao sonho e desbravou o caminho para o momento fantástico que estamos agora a viver. Não, não foi a vitória da humildade. Não fomos humildes. Fomos grandes. Demasiado grandes para o Manchester. Não, não foi a vitória do esforço. Foi a vitória da classe. Humilde foi o futebol do Manchester em quase toda a eliminatória. Sofremos? Claro que sim. Mas, os ingleses também sofreram os golos necessários para ficarem fora da eliminatória. O Manchester tem muito mais dinheiro? Pois tem. O Sporting teve mais futebol. E temos ainda toda a riqueza de que precisamos neste dia de S. Patrício. A memória dos golos que marcámos hoje e do fantástico calcanhar do Xandão.