Estamos num refeitório de uma universidade alemã. Uma aluna loirinha e indiscutivelmente germânica retira a bandeja com o prato do dia e senta-se numa mesa. Nesse momento, repara que se esqueceu dos talheres e vai buscá-los. Ao regressar, descobre com surpresa que um rapaz negro – vindo provavelmente de algum lugar bem ao sul do Sahara – está sentado no seu lugar e come da sua bandeja. A rapariga sente-se desconcertada e indignada. Mas ocorre-lhe que o africano não está habituado ao sentido de propriedade privada e de intimidade dos europeus. Ou, quem sabe, que talvez não tenha dinheiro suficiente para comprar a sua própria refeição, apesar de esta ser barata na universidade quando comparada com o elevado custo de vida na Alemanha. A rapariga decide então sentar-se em frente ao rapaz negro, sorrindo amistosamente. Ele responde com outro sorriso pacífico. Em seguida, a alemã começa também a servir-se da bandeja, tentando demonstrar a maior naturalidade possível. Compartilha a refeição com o colega com saborosa generosidade e cortesia. Assim, ele vai comendo a salada, enquanto ela come a sopa. Dividem o prato principal. Para sobremesa, ele escolhe o iogurte. Ela fica com a fruta. Tudo isto sempre acompanhado de diversas expressões educadas e tímidas por parte do rapaz. E condescendentes e compreensivas por parte dela. Terminado o almoço, a aluna alemã levanta-se para ir buscar um café. Descobre então, na mesa que estava atrás dela, o seu próprio casaco colocado numa cadeira e, em frente a esta, uma bandeja de comida intacta. A sua própria bandeja.
* tradução livre do texto publicado por Rosa Montero, em 2005, no El Pais.

http://www.imdb.com/title/tt0100076/
Na caixa de comentários deste link , também do El Pais, pode ver-se uma interessante discussão quer sobre o preconceito (de quem? também da autora?), quer sobre a originalidade do texto.
Sou fã desta senhora. Esta porrada na arrogância e preconceito do primeiro mundo está fabulosa.
Fiquei sem palavras…
Grande lição de cidadania e humanismo.
que delícia
Esta de chamar “aluna” a uma estudante universitária é coisa que não me cabe na cabeça.
Eu quando trabalhei (já há muitos, muitos anos) numa universidade alemã vi com alguma frequência estudantes alemãs loirinhas abraçadas a pretos, claramente seus namorados. Não é nada infrequente as alemãs gostarem de pretos, bem pelo contrário. Possivelmente por eles serem melhores homens do que os alemães – não me admiraria nada. Ao contrário dos alemães, que são frequentemente arrogantes, as alemãs são bastante amigáveis e abertas.
Gosto muito da Rosa Montero, como escritora e como jornalista. Este texto é exemplar.
Oi, Ana:
Este texto é exemplar e a autora afiança que é verdadeiro, não obstante nada poder comprovar a sua autenticidade.
Mas acredito que seja e aí imagino a cena passada num qualquer refeitório de uma qualquer Universidade nossa.
Bem ia o Negro com a bandeja a grande velocidade pelos ares, acompanhado de um vernáculo chorrilho de piropos apropriados.
Eheh…
O que seria bem mais saudável, afinal. Essa reacção não revela condescendência e é natural, ao contrário da que descreve a Rosa Montero.
Boa, Ana. É assim mesmo.
Comigo também ia em grande vitesse e depois se visse que estava enganada, olha,… azarucho dear…