As dores da puberdade expulsam as meninas à bruta da infância. Desde logo porque ao contrário das outras dores não arrancam suspiros de preocupação a médicos e pais. Pelo contrário, as reacções que suscitam oscilam entre a cumplicidade embevecida e a compaixão ternurenta.
O corpo aos onze, doze anos parece voltar-se contra nós e com ele a própria Natureza, mas o sereno acolhimento dos adultos feito às nossas dramáticas mudanças leva-nos a superar eventuais perplexidades com relativa facilidade. Talvez confundidas, porque de repente exigem-nos que aceitemos conceitos contraditórios nos termos, como “sofrimento bom” e “dores normais”, mas decididas a fazer o que os outros esperam de nós.
É uma iniciação dura, mas que nos prepara para guerras mais subtis. Quando as hormonas começam a confundir-nos, na adolescência, já então estamos familiarizadas com a sensação de perda de controlo do nosso próprio corpo, ainda que passe a ser induzido por uma outra pessoa.
Ao contrário, os meninos, virgens nesta matéria, só conhecem este sobressalto quando o alter ego que têm entre as pernas um dia acorda com vontade própria. Todos os cóbois e super-homens acabam um dia assim, com as calças na mão. Adormecem heróis e acordam desarmados, à mercê de uma qualquer diáfana salteadora de corações. A sensação de perda deve ser enorme. De uma só vez vai-se a autosuficiência, a harmonia e a paz da infância. Pior, que isso: vai-se a invulnerabilidade. A culpa neste caso tem um rosto. Não é o deles, é o de uma. E o dessa é o de todas.
A misoginia, não tenho dúvidas, nasceu dentro das calças de um adolescente e depois propagou-se como um vírus. Na raiz de todo o mal está um equívoco: o de que temos poderes ocultos, já que as provas parecem irrefutáveis, podem observar-se a olho nu.
É contra esse poder que se insurgem quando nos matam e esfolam. Talvez se não tivessem sido tão poupados pela mãe natureza e durante o crescimento houvessem passado por provas que os fizessem duvidar da sua proficiência percebessem melhor os mistérios do seu próprio corpo e nos deixassem em paz.


Com toda a consideração que tenho pelas mulheres e seus mistérios, lembro de que o que se passa entre as pernas de um rapaz tem o seu início logo na primeira infância. Não raro os bebés masculinos têm erecção.
Misoginia não se combate com tamanha misandria como a que aqui vejo vertida.
Da minha parte, como homem, não tenho culpa nenhuma pelas “dores” das mulheres. Muito menos pela misoginia de muitos homens e até de mulheres.
A erecção dos bebés e meninos é apenas reflexa. Nada tem a ver com o que acontece mais tarde.
Não interprete mal as minhas palavras: gosto muito de homens, não os odeio. O que odeio é a misoginia que reconheço em tantos. É contra ela que falo.
Claro que os homens não têm culpa das nossas dores. Se as referi é porque penso que essa nossa dolorosa, complexa e tantas vezes conflitual introdução à condição feminina nos dá uma mundividência diferente, porventura mais lúcida, indiscutivelmente menos egocêntrica.
A relação de causa efeito que estabeleço é, naturalmente, discutível. Quando medito sobre as possíveis origens da misoginia invariavelmente ocorre-me esta reflexão, que quis partilhar.
Ainda que a tese seja discutível – como inevitavelmente teria de ser -, parabéns, Teresa: grande texto.
Uff! Ainda bem que gostaste. Fiquei perplexa com a porrada que levei ali em cima e a perguntar-me se me teria explicado mal ou, o que ainda era mais preocupante, se a minha tese reflectia mesmo uma dose insuspeita a meus olhos de misandria.
Nem uma coisa nem outra, Teresa. Nem tão-pouco misantropia.
Há, isso sim, um ego altamente inflamado de um machismo exacerbado.
De facto não tem culpa das “dores” das mulheres.
Culpas têm elas de abrirem as pernas e suportarem as dores carregadas nos seus ventres nove meses.
Desde os primórdios, foi sempre a mulher quem deu mais. Mesmo quando pede.
Muito bem; grande texto!
Os meus parabéns.
Obrigada, pássaro.
Nos tempos que correm é quase impossível escapar a acusações de incorrecção política (sexismo, racismo, homofobia, etc ) ao abordar certos assuntos, ainda que nada nos textos que suscitam as acusações – muito menos nas intenções dos seus autores – o justifique verdadeiramente. O politicamente correcto tem aspectos positivos e, perante uma crítica, verificar se por acaso não se construiu uma frase de forma ambígua é sinal de inteligência. Mas não se pode ficar demasiado afectado ou acabamos todos em silêncio, com receio de dizer ou escrever algo que pareça errado.
O politicamente correcto é uma tremenda chatice, Jaa. Além de que tem mais inconvenientes do que vantagens.
Eu estava a ser politicamente correcto. 🙂
Não podes. É contra os estatutos do Delito!
Inteiramente de acordo, Teresa, e também em mim não há sombra de misandria (a não ser em relação aos misóginos…). Bela reflexão que aqui fazes.
Gosto de te saber em sintonia comigo nesta questão 🙂
claro que não te explicaste mal, Teresa.
temos de facto um lado mais “animal” que vocês, que nem sempre controlamos.
e que não desculpa nada. (até porque ainda há quem defenda que os homens têm o cérebro mais desenvolvido que as mulheres…)
São os que pensam que o tamanho conta 🙂 Neste caso o tamanho dos crâneos, mais pequeno nas mulheres.
Clap, clap, clap 🙂 Em completa sintonia.
A misoginia – parece que impropriamente assim chamada se nela quisermos incluir o machismo, coisa ligeiramente diferente, dizem – é obviamente um sinal ancestral de insegurança. E talvez uma represália sobre a não questionabilidade da ‘autoria biológica’ da mulher.
Mas nós também temos culpas nisso: cheira-me. Ao eternizar o mito de que somos meras receptoras…
De insegurança e até medo, Laura. A misoginia, bem vistas as coisas, é uma fobia.