Misoginia e dores de crescimento


Teresa Ribeiro,

As dores da puberdade expulsam as meninas à bruta da infância. Desde logo porque ao contrário das outras dores não arrancam suspiros de preocupação a médicos e pais. Pelo contrário, as reacções que suscitam oscilam entre a cumplicidade embevecida e a compaixão ternurenta.

O corpo aos onze, doze anos parece voltar-se contra nós e com ele a própria Natureza, mas o sereno acolhimento dos adultos feito às nossas dramáticas mudanças leva-nos a superar eventuais perplexidades com relativa facilidade. Talvez confundidas, porque de repente exigem-nos que aceitemos conceitos contraditórios nos termos, como “sofrimento bom” e “dores normais”, mas decididas a fazer o que os outros esperam de nós.

É uma iniciação dura, mas que nos prepara para guerras mais subtis. Quando as hormonas começam a confundir-nos, na adolescência, já então estamos familiarizadas com a sensação de perda de controlo do nosso próprio corpo, ainda que passe a ser induzido por uma outra pessoa. 

Ao contrário, os meninos, virgens nesta matéria, só conhecem este sobressalto quando o alter ego que têm entre as pernas um dia acorda com vontade própria. Todos os cóbois e super-homens acabam um dia assim, com as calças na mão. Adormecem heróis e acordam desarmados, à mercê de uma qualquer diáfana salteadora de corações. A sensação de perda deve ser enorme. De uma só vez vai-se a autosuficiência, a harmonia e a paz da infância. Pior, que isso: vai-se a invulnerabilidade. A culpa neste caso tem um rosto. Não é o deles, é o de uma. E o dessa é o de todas.

A misoginia, não tenho dúvidas, nasceu dentro das calças de um adolescente e depois propagou-se como um vírus. Na raiz de todo o mal está um equívoco: o de que temos poderes ocultos, já que as provas parecem irrefutáveis, podem observar-se a olho nu.

É contra esse poder que se insurgem quando nos matam e esfolam. Talvez se não tivessem sido tão poupados pela mãe natureza e durante o crescimento houvessem passado por provas que os fizessem duvidar da sua proficiência percebessem melhor os mistérios do seu próprio corpo e nos deixassem em paz.

 

(Reflexão dedicada a Amina Al Filali)

16 comentários em “Misoginia e dores de crescimento”

  1. Com toda a consideração que tenho pelas mulheres e seus mistérios, lembro de que o que se passa entre as pernas de um rapaz tem o seu início logo na primeira infância. Não raro os bebés masculinos têm erecção.
    Misoginia não se combate com tamanha misandria como a que aqui vejo vertida.
    Da minha parte, como homem, não tenho culpa nenhuma pelas “dores” das mulheres. Muito menos pela misoginia de muitos homens e até de mulheres.

    1. A erecção dos bebés e meninos é apenas reflexa. Nada tem a ver com o que acontece mais tarde.
      Não interprete mal as minhas palavras: gosto muito de homens, não os odeio. O que odeio é a misoginia que reconheço em tantos. É contra ela que falo.
      Claro que os homens não têm culpa das nossas dores. Se as referi é porque penso que essa nossa dolorosa, complexa e tantas vezes conflitual introdução à condição feminina nos dá uma mundividência diferente, porventura mais lúcida, indiscutivelmente menos egocêntrica.
      A relação de causa efeito que estabeleço é, naturalmente, discutível. Quando medito sobre as possíveis origens da misoginia invariavelmente ocorre-me esta reflexão, que quis partilhar.

    1. Uff! Ainda bem que gostaste. Fiquei perplexa com a porrada que levei ali em cima e a perguntar-me se me teria explicado mal ou, o que ainda era mais preocupante, se a minha tese reflectia mesmo uma dose insuspeita a meus olhos de misandria.

      1. Nem uma coisa nem outra, Teresa. Nem tão-pouco misantropia.
        Há, isso sim, um ego altamente inflamado de um machismo exacerbado.
        De facto não tem culpa das “dores” das mulheres.
        Culpas têm elas de abrirem as pernas e suportarem as dores carregadas nos seus ventres nove meses.
        Desde os primórdios, foi sempre a mulher quem deu mais. Mesmo quando pede.
        Muito bem; grande texto!
        Os meus parabéns.

      2. Nos tempos que correm é quase impossível escapar a acusações de incorrecção política (sexismo, racismo, homofobia, etc ) ao abordar certos assuntos, ainda que nada nos textos que suscitam as acusações – muito menos nas intenções dos seus autores – o justifique verdadeiramente. O politicamente correcto tem aspectos positivos e, perante uma crítica, verificar se por acaso não se construiu uma frase de forma ambígua é sinal de inteligência. Mas não se pode ficar demasiado afectado ou acabamos todos em silêncio, com receio de dizer ou escrever algo que pareça errado.

  2. claro que não te explicaste mal, Teresa.

    temos de facto um lado mais “animal” que vocês, que nem sempre controlamos.

    e que não desculpa nada. (até porque ainda há quem defenda que os homens têm o cérebro mais desenvolvido que as mulheres…)

  3. Clap, clap, clap 🙂 Em completa sintonia.
    A misoginia – parece que impropriamente assim chamada se nela quisermos incluir o machismo, coisa ligeiramente diferente, dizem – é obviamente um sinal ancestral de insegurança. E talvez uma represália sobre a não questionabilidade da ‘autoria biológica’ da mulher.
    Mas nós também temos culpas nisso: cheira-me. Ao eternizar o mito de que somos meras receptoras…

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