«Quando eu tinha sete anos, tive um bichinho de estimação. Passo a contar a sua história dramática. Tanto que tornou a minha vida um inferno por largos anos pois esse trauma veio agravar o outro da minha fealdade. Mas isso é outra drama, a história do Pierre é esta.
Vivia eu então em França, na grande quinta da avó que possuía vinhedos a perder de vista, e naturalmente também lá se criavam animais. Um pintainho, ao nascer, partiu a patinha por acidente e por isso a galinha, mãe desnaturada, deixou de tomar conta dele. Estava quase a morrer e eu peguei nele e trouxe-o para casa. A mãe, outra parecida com a mãe galinha, disse logo que o melhor era matá-lo para não andar a sofrer, mas eu insurgi-me com ela, chamei-lhe assassina e até lhe disse que ia ter muito cuidado com ela porque se me acontecesse o mesmo ela matava-me logo, mas ela nem ligou e disse que se devia matar sim!
O pai perguntou como é que eu ia fazer, mas não respondi e como disse trouxe-o para dentro de casa. Arranjei umas tabuinhas, coloquei lá a patinha dele e enrolei com uma fita. Depois arranjei-lhe uma caixa de sapatos e pus lá ração de pintainho e água, e levei tudo para o meu quarto. Ele começou a comer e ao fim de uma semana já queria saltar da caixinha e ao fim de mais uns dias saltou mesmo.
Foi crescendo e foi-se tornando primeiro um frango latagão, depois um galo valente que brigava com os outros galos e ganhava sempre. E andava sempre comigo, acompanhava-me para todo o lado e tinham que o fechar porque ele até queria ir para a escola comigo. Só não dobrava a pata e arrastava-a mas isso não era empecilho para ele.
No meu aniversário dos dez anos, um maldito homem lá do sítio resolveu fazer um coq au vin e o meu Pierre, que andava por ali sem desconfiar porque ele dava-se bem com as pessoas, foi logo o primeiro a ser apanhado.
Depois já podes adivinhar o que se passou. Calhou-me logo no prato a coxa dele e a festa acabou. Gritei e insurgi-me contra todos, especialmente a minha mãe a quem acusei de sempre o ter odiado, chamei-lhe assassina. O pai acalmou-me e disse que a mãe não sabia de nada nem ninguém sabia, que tinha sido um acidente, uma fatalidade terrível, mas ninguém me conseguiu acalmar.
Hoje tenho 36 anos e ainda me lembro muito dele.
Só resta acrescentar que éramos tão amigos que durante toda a prematura vida dele, coitadinho, dormiu sempre comigo no meu quarto.
Por isso já vês como eu te compreendo bem por gostares do teu gato.»
Da nossa leitora Matilde. A propósito deste texto da Teresa Ribeiro.


Realmente… foi galo!
Da vossa leitora, mas não sou mais.
Parece que a menina Teresa se chocou com o meu testemunho sincero que não teve a amabilidade de se dignar dar-me uma resposta.
Sei, pensou que eu era uma parvinha e como senhora jornalista não estava para aturar uma provinciana.
Não sou. Sou médica, educada e de muito boa formação.
Sou também franca de mais e daí a confusão.
Cumprimentos para todos.
Nada disso, Matilde. Apenas considerei que a resposta à questão que eu tinha colocado sobre voltar a ter um bicho de estimação estava dada: havia entretanto uma vida que se tinha preenchido com casamento e duas bebés. Porque haveria eu de ficar chocada com isto? Beijinho
Tens razão, Teresa, eu é que fui uma precipitada e devia ter visto, mas pensei que achasses parvas as minha divagações. Tenho que ter mais calma, mas sou mesmo muito mimada, sabes.
Tudo devido à minha extrema fealdade quando era miúda. Miúda e graúda que a maldição só passou na minha adolescência ao fazer os 18 anos, porque até aí a minha vida foi um desespero de horrores. Era tão feia mas tão feia que até a mim metia medo. Chegava ter pesadelos comigo mesma, imagina.
Era muito alta, ainda hoje sou, tenho 1,74, mas quando era nova isso notava-se mais porque era magra como um palito escavacado, com duas pernas muito compridas finíssimas como duas estacas só com um diâmetro, a cara era um pesadelo de manchas e espinhas. Era mesmo um pau de virar tripas. Toda a gente dizia que eu tinha uns olhos bonitos, mas isso mais me enervava porque ao ver-me ao espelho lembrava-me do que diziam e via que tinha mesmo os olhos do ET.
Claro que quem pagava era a mãe a quem eu fazia a vida um inferno, porque o pai era lindo, o meu irmão era lindo e a mãe era uma beleza estonteante, por isso eu queria saber onde me tinham ido desencantar porque de certeza não podia ser filha deles. O pai dizia que era das hormonas e que ia passar com o tempo, e isso dava comigo em doida porque quanto mais tempo passava mais horrível eu ficava. E lá ia eu martirizar a mãe.
A nossa casa estava sempre cheia de raparigas, mas vinham pelo meu irmão que era lindo como um cravo e não me passavam cartão nenhum. Só me falavam para lhes ir buscar bebidas e sandes. Odiava-as de morte e ia jogar futebol com os rapazes. E isso durou muito para lá da minha transição.
Parece que a melhor maneira de saber quando um ser feminino passa da meninice para a adolescência, é observar o tempo que passa nas suas abluções nocturnas. A minha transição, que na minha família se pode resumir nesta frase – Que estará a Matilde ainda a fazer na casa de banho, – acho que ocorreu por altura dos meus 10 anos, logo depois do trágico assassinato do meu Pierre. Foi quando comecei a notar os anúncios de produtos de beleza nas revistas femininas, que passava horas e horas esquecidas na casa de banho a enfeitar-me.
Interessava-me especialmente uma substância milagrosa chamada de barro da formosura. Nos anúncios a história da sua descoberta era uma obra-prima de prosa lírica. A julgar pelas fotos do antes e depois, o tratamento até beneficiou o nariz, olhos e cabelo. Ponderando tudo isso compreendia-se por que um frasco custava tanto dinheiro. Aliás era barato considerando-se os resultados, a minha preocupação era saber onde ir arranjar dinheiro necessário para ele.
Com o espírito absorto no barro da formosura, era natural que as minhas notas no colégio dessem para trás. Todos os meses o jornal da vila publicava o quadro de honra do colégio que incluía os nomes dos dez estudantes mais bem classificados de cada classe. Todos os meses o meu nome brilhava pela ausência. De nada valia os meus pais apelarem para os meus sentimentos, orgulho e honra de família. Finalmente o pai disse que se o meu nome figurasse no quadro de honra me dava dois contos. Estava em França e eram francos, mas valia dois contos. Num segundo compreendi que isso era mais ou menos o preço para uns cinco frascos do barro da formosura e no mês seguinte, por milagre, consegui nota a matemática para ser incluída no quadro de honra. O pai fez uma festa em minha honra e até se abriu champagne, mas eu deixei-os a beber e exigi logo o dinheiro. O pai deu-me e corri logo e comprei seis frascos porque tinha umas economias e com o dinheiro do pai dava para eles.
Mas agora vou parar que pareço mesmo um TGV a debitar vitesse, que já me deves estar a ver pelos cabelos.
Desculpa e um beijinho pa ti.
Foi um mal entendido sem importância. O que interessa agora é comentar esta tua história. Foste claramente o caso da lagarta que se transformou em borboleta. Demorou mas o milagre acabou por acontecer 🙂 Há quem faça o percurso ao contrário. Esses não têm traumas na infância, mas depois amargam. Conheço um caso assim.
Antes de mais, vamos deixar uma coisa muito bem clara a fim de evitarmos mal-entendidos. Não me respondes a este comentário porque senão ficamos para aqui a dialogar eternamente, e mesmo porque tu tens o teu trabalho. Eu também tenho mas agora tenho ficado em casa a tomar conta das gémeas que tiveram umas febrezitas, por isso tenho todo tempo livre para brincar com elas e vir aqui.
Fiquei mesmo muito bonita, parece um milagre do céu, mas fiquei mesmo. Fiquei tão bonita que depois já eram as raparigas que vinham todas para ao pé de mim e queriam ser minhas amigas, porque onde eu estivesse estavam os rapazes todos.
Acredita que sou tão bonita que quase nem uso maquilhagem, porque às vezes até penso que se usar o que não preciso até ofendo Deus que foi tão generoso para mim.
Tenho muita pena do caso que tu conheces, e faço sinceros votos que não seja ninguém a quem tu estimes.
Beijinho e um miminho ao teu gatinho
Matilde, e deduziu tudo isso do simples facto de a Teresa não ter respondido ao seu comentário???? Caramba, ou alguma coisa me escapa ou não há dúvida de que habituámos mal os nossos comentadores!
Não viu o meu comentário a pedir desculpa à Teresa?
Deduzi, mas deduzi mal. È crime? Ou a Ana faz sempre as coisas direitinhas e nunca se enganou?
Não, Matilde, não vi. Mas vejo que a sua agressividade continua em boa forma.
Não é uma questão de não me enganar ou fazer as coisas direitinhas, é não ter o hábito de reagir a tudo com sete pedras na mão.
Não viu, Ana, mas vê bem a minha agressividade, não é?
Eu vi, Ana. Sem agressividade, porque não sou agressiva, vi perfeitamente a sua provocação.
Sei bem que não tenho o dom de expressão nas palavras escritas, não sou jornalista como a Ana, mas conheço o suficiente para compreender o epigrama do seu comentário a meu respeito. Também sou licenciada.
Ou desagrada-lhe o bom entendimento que tenho com a Teresa?
Entre o reagir a tudo com sete pedras na mão, entre a Ana e eu, creio que sou mais credora que devedora.
Fique bem…
Há aí um problema qualquer, algures entre as licenciaturas e os epigramas.
Enfim, Matilde, ficamos por aqui. Boa noite.
Lamento dizê-lo, mas esta história abriu-me o apetite.
Não me admiro mesmo nada. Há pessoas com muita insensibilidade.
Por acaso eu também pensava que isso se comia.
Tenho que rever o meu conceito de sensibilidade.
Eheh…
Um dia, em África, era eu militar, adoptei uma cabrinha recém-nascida. Com o tempo habituou-se a mim e seguia-me por todo o lado. Certa manhã deixei de a ver. Estranhei, mas não me preocupei. Desfiz-me em pranto quando, após o almoço, me disseram que a minha amiga tinha sido o nosso repasto. Chamei canalhas aos algozes e entrei em depressão.
A história vale o que vale; o que importa mesmo é os sentimentos dedicados aos seres que elegemos amar: tenham eles duas ou quatro pernas.
Um beijo solidário para a Matilde.
Compreendo-o, Observador, e posso sentir a sua raiva.
Por que um animal de estimação tem de ser um cão ou gato? Pode ser qualquer um que as circunstâncias nos levem a adoptar.
Obrigada pelo beijinho, que retribuo
Boa história.
Há alguém que anda com os nervos em franja. Por que será? A crise não explica tudo… falta qualquer coisa…