Eleições francesas: Lalallande ou Ohlalallande?


Rui Rocha,

Numa eleição, a insuficiência de argumentos pode ser suprida pelo carisma dos candidatos. Mas nesta eleição defrontam-se Sarkozy e Hollande. Não têm ponta de carisma por onde um eleitor lhes possa pegar. Sarkozy tem defeitos. Hollande não tem qualidades. Sarkozy não agrada. Hollande não convence. Sarkozy não cumpriu as promessas que fez. Hollande faz promessas que não pode cumprir. Perante isto, Hollande vai vencer. As eleições ganham-se ao centro. Para sobreviver na 1ª volta, Sarkozy andou em ziguezague, mas encostado à direita. Em nome dos fins, perdeu o meio. Não o vai recuperar. Criou anticorpos onde Hollande recolhe indiferença. Os anticorpos são insuperáveis. A indiferença admite um voto de olhos fechados. A avaliação que o eleitor comum pode fazer sobre Hollande não é positiva. A que faz sobre Sarkozy é negativa. O voto do mal menor vai prevalecer. O melhor virá no dia seguinte. No momento em que Hollande for confrontado com as suas promessas. Ou tenta cumpri-las e desgraça a França, transformando-a na Lalallande, ou não as cumpre e desgraça-se, transformando-se a si próprio em Ohlalallande. De uma maneira ou de outra, o estado de graça do futuro Presidente de França dura exactamente até à noite de 6 de Maio. Sarkozy não merece tanto.

Por qué no hablas claro?


Rui Rocha,

O Rei cumprimenta a “Princesa”

 

O Rei de Espanha apresentou desculpas. Lo siento mucho, me he equivocado. No volverá a suceder. O acto, em si, recebeu um aplauso quase tão unânime como a condenação que a sua aventura cinegética merecera nos dias anteriores. Todavia, a dúvida permanece. Afinal, de que se desculpou? De estar em férias prolongadas quando o seu país e os seus súbditos se encontram à beira do precipício? De o safari ter sido financiado por um nebuloso magnata hispano-saudita? De ter viajado quando um seu neto estava internado na sequência de um acidente com uma arma? De ter caçado elefantes quando é presidente honorário de uma instituição de defesa dos animais? De se ter feito acompanhar pela “Princesa” Corinna zu Sayn-Wittgenstein, cuja intimidade com o monarca é um segredo mal guardado? De o seu casamento com a Rainha Sofia estar acabado? De não informar previamente o poder executivo sobre a sua agenda? De não ter insistido, no âmbito do anteprojecto da Ley de Transparencia, no sentido de as despesas da Casa Real serem conhecidas com detalhe e não apenas nos seus aspectos gerais? Ou de continuar a pactuar com uma lei de sucessão que, num indefensável anacronismo,  privilegia os filhos varões? Na verdade, a quem pediu D. Juan Carlos desculpa? Aos espanhóis, ao Governo, à sua família, ou à Rainha Sofia? A todos, a algum ou a nenhum deles? E, em rigor, o que é que o Rei de Espanha promete que não voltará a acontecer?

Desta vez não há desculpas


Rui Rocha,

A família real espanhola parece não ter emenda. Desta vez foi a Rainha Sofia que, numa visita ao Zoo de Madrid, foi apanhada pelas câmaras a apertar o pescoço de dois simpáticos e indefesos filhotes de panda. Repare-se no sorriso malévolo da monarca e no sofrimento bem visível dos pobres animais:

O estudo de opinião e as opiniões sobre o estudo


Rui Rocha,

O estudo de opinião: 

 

o Edelman Trust Barometer 2012, realizado entre 10 de Outubro e 30 de Novembro de 2011, inquiriu 1.000 pessoas em Portugal pertencentes ao público em geral e 200 respondentes pertencentes ao público dito informado. 

As opiniões Os títulos sobre o estudo:

 

Visão – É no Governo que as pessoas confiam menos.

 

Jornal Digital – Só 29% dos portugueses confia no Governo.

 

RTP – Maioria dos portugueses desconfia do Governo mas são menos do que há um ano.

 

Económico – Maioria dos portugueses não confia no Governo.

 

Agência Financeira – Maioria ainda desconfia do Governo mas menos.

 

A Bola – Confiança no Governo subiu de 9% para 29%.

 

PT Jornal – Confiança dos portugueses no Governo aumentou no último ano.

 

Dinheiro Vivo – Confiança no Governo sobe mas continua a ser baixa.

 

Sábado: Portugueses não confiam no Governo.

Há menos católicos e os católicos são cada vez menos jovens


Rui Rocha,

Um estudo da Universidade Católica revela que existem menos católicos em Portugal (86,9% da população há 12 anos contra 79,5% actualmente). Em comentário de circunstância, o porta voz da Conferência Episcopal declarou a propósito que o essencial é a qualidade e não a quantidade. Se a qualidade se mede pelo compromisso dos católicos com os ritos e actividades da igreja, os resultados não são, todavia, muito animadores. Na verdade, mais de metade são católicos nominais (nunca vão à missa) ou praticantes ocasionais ou irregulares (vão à missa até 11 vezes por ano). Entretanto, o dado mais contundente no que diz respeito ao afastamento progressivo da população da matriz católica encontra-se no quadro em que se analisa a posição religiosa por escalão etário:

 

No escalão até 24 anos, apenas 61% dos inquiridos se dizem católicos. E no escalão entre 25 e 34 anos os católicos são menos de 70%. Isto é, não só a ICAR está a perder fiéis, como revela uma progressiva incapacidade de cativar o interesse das pessoas à medida que a sua idade baixa. Não faltarão explicações para o facto. Pela minha parte, atrevo-me a sugerir que a ICAR nunca poderá constituir uma proposta atractiva para uma população que, nascida em liberdade e educada num contexto em que a igualdade da mulher se tornou inquestionável, não encontra na proposta católica mais do que o reconhecimento relutante e, aparentemente, a contragosto, dessa realidade. A retórica católica sobre a protecção dos mais fracos não se compreende, hoje em dia, se não incluir, mais do que a tolerância perante essa igualdade, um compromisso forte no sentido do seu reconhecimento e da sua promoção ali onde ela ainda faltar.

Coutada real


Rui Rocha,

Diz-se por aí que na escaramuça entre o monarca e o elefante estiveram em confronto duas espécies em vias de extinção. É, sem dúvida, um exagero. Ao que parece, o Botswana até tem excesso de elefantes.

Kirchner e a nacionalização da YPF


Rui Rocha,

A decisão de Cristina Kirchner de nacionalizar a YPF, controlada pela espanhola Repsol, coloca ao comentador um dilema sem solução. Tomar partido quando estão em disputa os interesses do mais básico populismo, por um lado, e os de uma petrolífera, por outro, apresenta o mesmo grau de dificuldade que enfrentaria qualquer mortal se tivesse que optar entre regiões diferentes do inferno. Assim, mais do que tomar posição sobre a medida, vale a pena sublinhar alguns aspectos de contexto. O Kirchnerismo defronta-se com a perspectiva de implosão do modelo económico que promoveu. A Argentina tem assegurado uma posição sólida na primeira metade da tabela dos estados com risco mais elevado de bancarrota. Kirchner sabe que o caminho escolhido é insustentável. Confronta-se assim com uma escolha: ou altera a política, ou fecha os olhos e acelera. Kirchner é política. E um político só obedece a duas leis: a da lógica de curto prazo e a da escalada de compromisso (tendência para insistir em soluções que sabemos inviáveis só porque as defendemos em determinado momento). Kirchner atirou-se de cabeça. Com a nacionalização obtém um instrumento adicional, que se junta à subsidiação dos preços ou ao crédito a taxas negativas, para suportar artificialmente o boomdo consumo e a ilusão do bem-estar . Que a decisão tenha sido tomada apesar de todas as suas consequências (perda de confiança de investidores e outros desastres) diz bem do estado de desespero de Kirchner. Pelo visto, para controlar a situação já não é suficiente dar ordem de prisão a quem questiona os dados oficiais da inflação. Neste contexto, faz cada vez mais sentido uma definição de Kirchnerismo que circula em Buenos Aires: “com Peron cantávamos combatiendo el capital, embora fizéssemos coisa bem diferente; com Menem o refrão foi seduzir o capital; com Kirchner já nem sequer cantamos”. A pergunta que fica é se, apesar de tudo isto, a nacionalização vai dar bons resultados. Não vai. Se dúvidas houvesse, bastaria ter em conta o desastre de gestão das Aerolineas Argentinas, cujo controlo foi também assumido pelo estado, para perceber como tudo vai acabar. O problema? O problema é que do outro lado de Kirchner está uma petrolífera. E este comentador não tem especial preferência por encarnações terrenas do demo. Da mesma maneira que tem dificuldade em ser definitivo quando as alternativas às nacionalizações se reconduzem à venda de activos aos chineses.

D. Juan Carlos Alfonso Víctor Maria de Borbón y Borbón-Dos Sicilias andava a reinar


Rui Rocha,

 

A Espanha atravessa uma profundíssima crise. O desemprego afecta cinco milhões e meio de pessoas. Mais de 50% dos jovens estão desempregados. Os juros da dívida pública testam o limiar dos 6%, aproximando-se da fasquia Seven Up celebrizada por Teixeira dos Santos. O governo Rajoy corta na saúde, na educação e no apoio social num país deixado em pantanas por Zapatero. A bolha da construção estourou, as insolvências sucedem-se. As autonomias estão falidas e a banca, com as Caixas à cabeça, está descapitalizada. No catálogo dos argumentos da causa monárquica há dois aspectos que são sempre referidos: i) o Rei está sempre ao lado do seu povo; ii) o poder do Rei é independente de quaisquer outros poderes e imparcial perante todos eles, o que lhe confere uma especial e única autoridade. Pois bem, num cenário de catástrofe iminente, em que o seu povo enfrenta grandes dificuldades, o que faz o Rei de Espanha? É muito simples. Consternado com o sofrimento dos seus súbditos, entendeu que a melhor forma de estar junto deles seria fazer uma caçada no Botswana. Independente como é, decidiu exercer a sua autoridade dando uns tiros nuns elefantes. Referir que uma caçada de elefantes no Botswana tem o custo mínimo de 30.000 euros, a que acrescem certamente muitas outras despesas que fazem disparar o “investimento” para umas dezenas largas de milhares euros, é só sublinhar uma parte da anedota. Esta só fica completa se tivermos em conta que o acidente sofrido por D. Juan Carlos ocorreu em 14 de Abril, data que assinala a instauração em Espanha da 2ª República (1931). A questão essencial é, porém, outra: o que sucederia a um Chefe de Estado republicano se o seu genro estivesse envolvido em gravíssimos esquemas de corrupção como sucede com IñaKi Urdangarin e se, perante uma situação interna de extrema gravidade, entendesse tirar umas semanas de férias para se dedicar à caça grossa? Não, não devemos julgar os sistemas políticos a partir de anedotas ou episódios. Mas, são as caricaturas que, por vezes, nos permitem perceber melhor os contornos da realidade. E esta diz que a monarquia tem natureza pré-democrática e que assenta numa ideia de pré-determinação e de hereditariedade estranha a qualquer ideal de igualdade. Entretanto, o Rei de Espanha pode continuar a reinar.

Em nome da MAC, talvez… fazer


Rui Rocha,

Tal como acontece com 99,78% dos portugueses que já se pronunciaram, não percebo um caraças do assunto. Isto dito, constato que têm sido produzidos abundantes argumentos e até alguns não-argumentos para defender a continuidade da MAC. No que diz aos não-argumentos, eles foram apresentados pelo Daniel Oliveira, com razoável poder de síntese, neste post. Quanto aos argumentos, agrupei-os em categorias e atrevo-me a fazer na tabela que se segue alguns comentários tão ignorantes como bem intencionados (sublinho que, em geral, as observações de outros comentadores podem ser catalogadas como ignorantes e mal intencionadas ou conhecedoras mas mal intencionados, dispensando-me neste preciso momento de tecer quaisquer considerações sobre o efeito da utilização de uma adversativa):

Isto é, se querem defender a MAC deviam perder mais tempo a estruturar argumentos para que não fosse possível a um tipo que não percebe do assunto rebatê-los com uma tabela mal amanhada. Da mesma maneira, não me parece grande trunfo comparar a situação da MAC com encerramento de maternidades em outros pontos do país. É que, no caso da MAC, a alternativa não está  a mais de 50 km de distância. Significa isto que não vejo solução para a MAC? Nada mais falso. O que é preciso é dar utilidade à capacidade instalada por via do aumento da natalidade. E, basicamente, só há uma forma de chegar a esse resultado, embora nem toda a gente goste de praticar a modalidade homologada para o efeito. Mas o activismo consiste precisamente na disponibilidade para colocar a causa acima dos interesses pessoais. Por isso, rapaziada, em nome da sobrevivência da MAC (e até do SNS) o que é que deviam fazer? Pois, talvez… fazer.