François Hollande ocupa o lugar que Paul Krugman deixou vago na playlist de João Galamba.
Eleições francesas (5)
Rui Rocha,
François Hollande ocupa o lugar que Paul Krugman deixou vago na playlist de João Galamba.
Só um político sem qualidades ganharia por margem tão curta a um adversário tão cheio de defeitos.
François Hollande tem tudo para ser um líder de cariz asmático.
Com Hollande, a França pode tornar-se num dos países baixos.
É preciso ter muitos defeitos para perder com um homem sem qualidades.
As mães são especialistas em amor, abraços e carinho. E também em conselhos e frases impregnadinhas de bom senso maternal. Sobre tudo, sobre nada. E também sobre sobretudos. Lembro-me de alguns e de algumas. Que a minha mãe me deu. E que a mãe dos meus filhos lhes vai dando:
Reconhece estas frases e conselhos? Lembra-se de outros? Qual foi o melhor conselho que a sua mãe lhe deu?
A inabilidade política de António Seguro começa a tornar-se um caso de estudo. O último tiro no pé foi dado com a colagem a Hollande. Ao fazê-lo, Seguro caucionou o entendimento de que o candidato socialista é a esperança para uma Europa melhor e para uma alteração de políticas de que Portugal também sairia beneficiado. Ora, alguém deveria explicar a Seguro que, ao remeter a esperança e a responsabilidade por putativas soluções para um espaço político exterior a Portugal, está a desresponsabilizar Passos Coelho dos insucessos da sua governação. Vejamos. É pouco provável que Hollande esconda por trás daquele olhar vagamente atoleimado dotes de político genial e de ilusionista com a cartola cheia de soluções que colocarão a Europa numa rota de crescimento e prosperidade. E que Portugal vá a reboque. Admitamos todavia que sim. Nesse caso, Passos Coelho poderá sempre dizer que antes de Hollande, o génio, não era possível fazer melhor. Isto é, o êxito de Hollande (escrever êxito e Hollande na mesma frase é de facto arriscado) implicará o insucesso político de Seguro pois ajudará à sobrevivência política de Passos Coelho. Por outro lado, se como tudo indica, o tal olhar de Hollande corresponder a uma predestinação para o fracasso, António José Seguro ficará associado a mais um cidadão residente em França com especialização em filosofia do incumprimento. Ora, já não é fácil carregar a cruz que um certo vendedor de ilusões (que agora abrilhanta os serões das margens do Sena) lhe deixou. Pior seria ficar agora pregado naquela que Hollande se prepara para erigir no Eliseu. É claro que não deve ser fácil exercer de pastor de um rebanho de ovelhas, umas negras, outras tresmalhadas, como as que compõem o grupo parlamentar e o Partido Socialista. A tentação de fugir para lá dos Pirenéus é humana e compreensível. Mas, as escassas hipóteses de sucesso que a roda do destino entendeu reservar a Seguro estão na luta política no espaço nacional e nos assuntos internos. Para aquilo que lhe interessa, de França não vem, em qualquer circunstância, nem bom vento nem bom casamento. Dali, o vento que sopra traz a memória de Sócrates, o fantasma do passado. Por outro lado, o casamento com o futuro de Hollande só pode prejudicá-lo no presente e, sobretudo, no futuro.
Diz que foi uma Mixórdia:
Uma alternativa de esquerda à grande (re)distribuição protagonizada pelo Pingo Doce. Zombie não entra:
Não me parece que o Pingo Doce tenha conseguido uma vitória estrondosa sobre os sindicatos. É certo que as lojas da Jerónimo Martins estiveram a abarrotar. Mas, para isso, o Pingo Doce teve que dar promoções de 50% aos clientes. Os sindicatos, por seu lado, já promoveram manifestações com centenas de milhares de trabalhadores. E todos sabemos que não dão nada a ninguém.
O desemprego entre os jovens é uma catástrofe. Estamos em risco de perder a geração mais qualificada de sempre. Não podemos permitir que os nossos cérebros fujam para o estrangeiro. É preciso combater o emprego sem direitos. A precariedade e o desemprego são um drama social. Frases com esta são repetidas uma e outra vez. Todavia, para lá dos discursos inflamados e das afirmações de solidariedade de circunstância, o mercado de trabalho português continua a ter uma natureza dualista. Um segmento da população trabalhadora tem vínculo permanente e garantia de estabilidade alicerçada sobre a proibição do despedimento individual sem justa causa e pela previsão de indemnizações generosas em caso de despedimento. O vínculo laboral do outro segmento é precário e implica direitos mitigados. Neste cenário de excesso de protecção para uns e défice de protecção para outros, o ajustamento faz-se sempre à custa destes últimos e de forma rápida. Diz-se que a existência de indemnizações pesadas protege os trabalhadores da arbitrariedade patronal. Não é a verdade toda. Protege também esses trabalhadores dos outros que estão fora do mercado ou que são precários. O mundo do trabalho divide-se, então, entre insiders e outsiders (desempregados e precários que, nas actuais circunstâncias, são desempregados a prazo). Ora, este estado de coisas, que bloqueia o acesso dos jovens ao mercado de trabalho, não é uma fatalidade. Não há qualquer escritura sagrada que imponha a existência de um mercado de trabalho dualista. Este existe, apenas, porque essa é a vontade política (e esta é formada por partidos, sindicatos e outros actores sociais que têm também interesse no bloqueio do mercado de trabalho porque esse é o estado que mais convém aos seus militantes, filiados e clientelas). Todavia, se aquilo que se pretende é assegurar a solidariedade intergeracional, promover o mérito e não perder a flexibilidade de ajustamento aos ciclos económicos, o sistema mais adequado é o do contrato único (reservando-se os contratos temporários para situações residuais como as substituições por doença), com indemnizações moderadamente baixas e progressivas em função da antiguidade. Note-se que o despedimento não seria demasiado facilitado, assegurando decisões ponderadas e uma protecção adequada da evolução da carreira. O primeiro passo no sentido do reequilíbrio do mercado foi dado com a diminuição das indemnizações. Falta agora acabar com o dualismo ou, o mesmo é dizer, com a existência de filhos e enteados no mercado de trabalho. Mas… claro. É muito mais fácil produzir discursos inflamados sobre a tragédia do desemprego entre os jovens.
O dia do trabalhador serve, naturalmente, para comemorar a luta histórica pelos direitos laborais. Mas, não estaria mal que servisse também para reflectir sobre o papel dos sindicatos. Ao longo do tempo, e socorro-me aqui de Olivier Blanchard, as organizações sindicais assumiram as funções principais de i) prover aos seus membros em caso de desemprego, ii) representar os interesses dos trabalhadores a nível nacional, iii) extrair rendas das empresas e do Estado, iv) proteger os trabalhadores da exploração empresarial. Ora, se bem virmos, há uma clara erosão do papel dos sindicatos em qualquer dessas dimensões. Na verdade, a protecção social no desemprego foi progressivamente assumida pelo Estado mesmo nas geografias em que os sindicatos tinham alguma tradição nessa matéria. A representação é também um ponto crítico na análise do movimento sindical. Desde logo, os sindicatos não representam, ou representam mal, uma parte significativa da força de trabalho. Em geral, os desempregados não encontram propostas válidas no movimento sindical. Da mesma forma, os precários também não são a sua prioridade. Em rigor, os sindicatos não representam os trabalhadores. Representam os que têm trabalho estável e, tendencialmente, os menos jovens. E, mesmo assim, com algumas limitações. Na verdade, a esmagadora maioria dos trabalhadores não está sindicalizada nem participa na eleição dos representantes. A legitimidade dos sindicatos estabelece-se de cima para baixo, muito mais por força da lei do que por um real enraizamento do movimento junto dos trabalhadores. Por outro lado, a extracção de rendas do Estado e das empresas já conheceu melhores dias. A contracção dos salários da função pública aí está a demonstrá-lo. Da mesma forma, a protecção dos trabalhadores perante a exploração empresarial foi, também ela, progressivamente assumida pelo Estado. Perante uma denúncia, a inspecção do trabalho é, em geral, muito mais eficaz e detém meios coercivos que não estão ao alcance dos sindicatos. Perante tudo isto, sobra a questão sobre o futuro dos sindicatos. É uma pergunta sem resposta evidente. Mas, é evidente que os sindicatos, se quiserem ter futuro, terão de mudar. Apesar da concorrência do Estado, a luta contra a exploração no local de trabalho parece ser a via de sobrevivência mais evidente. Mas para que seja viável, é necessário que os sindicatos e os sindicalistas regressem aos locais de trabalho e aceitem o risco de encontrar uma nova legitimidade que se estruture de baixo para cima.
Sim, já todos sabemos que o futebol é terreno fértil em factos assombrosos. E que desde que um célebre dirigente viu um porco a andar de bicicleta os fenómenos sobrenaturais começaram a suceder-se a uma velocidade vertiginosa. Se dúvidas houvesse, aí teríamos o cabelo de Jorge Jesus a comprová-lo. Todavia, há fronteiras que eu próprio acreditava serem insuperáveis. Por exemplo, parecia-me impossível que uma equipa com um guarda-redes e sete jogadores de campo pudesse actuar em 4x3x3. Mas isso foi antes de ler a edição online do Record.
Geir Haarde, antigo primeiro-ministro islandês, escapou a ser preso no processo em que era julgada a sua responsabilidade na bancarrota do país. A honra de ser o primeiro político a cumprir pena por tal motivo ainda pode caber a algum velho conhecido.
Esta carta foi recebida pela minha mãe no final da semana passada. Está dirigida ao meu pai. A minha mãe e o meu pai sempre cumpriram rigorosa e atempadamente todas as obrigações perante o Estado: declaração e pagamento de impostos, alterações de estado civil, mudança de residência, óbitos de familiares, etc.. Num assomo de eficiência dos serviços, a carta em causa foi enviada para a nova morada da minha mãe (mudou de casa já em Janeiro deste ano). Também me parece razoável a informação de que o apuramento do rendimento mensal do meu pai aponte para estarem cumpridos os pressupostos de isenção. Tenho a certeza quase absoluta de que não declarou nada nos últimos tempos. Afinal de contas, faleceu há sete anos.