The loser takes it all
Rui Rocha,
António Seguro garante que é a cara do emprego. Isto preocupa-me. Confesso que vi o emprego poucas vezes. E há muito tempo. Mas estava capaz de jurar que tinha um aspecto muitíssimo diferente. Por isso, das duas uma. Ou sou mesmo um péssimo fisionomista e não o consigo reconhecer quando dou de caras com ele, ou Seguro não se tem visto ao espelho. Nenhuma das alternativas é, convenhamos, muito agradável. Em todo o caso, uma coisa é certa. Se Seguro tiver razão, está na cara que se trata de emprego precário.
Presidente de Singapura visita a Feira do Livro instalada na ilha de Pulau Tekong e diz-se entusiasmado com a obra Passos Coelho, Um Homem Invulgar. “Inspirador, embora Portugal seja evidentemente um regime democrático, o que não é exactamente o que nós desejamos para Singapura”, declarou Tony Tan Keng Yam, ele próprio um reconhecido escritor.
É lamentável a cultura média de aversão à coerência dos políticos. O facto de alguém se candidatar a Primeiro-Ministro e de ser eleito não devia ser encarado como uma oportunidade para mudar de opinião de acordo com as suas conveniências. E o exercício do poder democrático não deveria ter de ser encarado pela sociedade como uma situação que fica estigmatizada nas pessoas. E mais, quem está na Oposição tem a obrigação de evitar a tentação de distorcer e de aproveitar qualquer coisa para querer fazer uma tensão enorme no país. Até porque o país está um bocadinho cansado de crises artificiais. É por tudo isto que dificilmente se compreende que Passos Coelho, que considerou, em Maio de 2011, uma taxa de desemprego de 12,4% como um valor extremamente elevado que representava um sinal evidente da crise profunda que estávamos a atravessar, transforme agora, menos de um ano depois, a tragédia social a que então se referia numa promissora oportunidade.
Enquanto o Príncipe herdeiro do trono do Reino Unido apresenta o boletim meteorológico, limitando-se a explicar as consequências da Low Pressure situada sobre as ilhas britânicas, a Ministra da Agricultura da República Portuguesa, também conhecida por “Cristas de Baixas Pressões”, manda chover. Penso que estamos conversados quanto à eficácia de uns e de outros.
Confesso. Esta coisa do protocolo celebrado entre o Benfica e a Servilusa está quase a fazer-me morrer de inveja. A preocupação da equipa de Vieira para com os seus fiéis defuntos entende-se. Em geral, morrer não é projecto de vida para ninguém. Mas, deve ser particularmente difícil desencarnar quando se é um adepto encarnado. Agora, com o desconto de 12,5% nos funerais, imagino que os apoiantes do clube da Luz possam encarar as trevas com renovado entusiasmo. Pena é que a promoção não seja extensível aos adversários que o Javi Garcia vai aviando à cabeçada. Mas, neste mundo, nada é perfeito (com excepção talvez de Vale e Azevedo que pode bem ser o perfeito vigarista). Verdadeiramente inovadora é, entretanto, a possibilidade de incluir no serviço fúnebre elementos alusivos ao clube. Certo. De uma maneira ou de outra, trata-se de bater a bota. Mas, deve haver uma diferença qualquer no facto de essa bota ser a chuteira do Eusébio. E se para alguns morrer com as botas calçadas constitui a ambição de uma vida, percebo que calçar as botas do Rui Costa depois da morte possa ser o desígnio de um benfiquista que, para além de perder o campeonato, perdeu a vida. Não sou, é evidente, um especialista na matéria. Em rigor, só estive perto de morrer duas vezes. Ambas de medo. A primeira foi quando travei conhecimento com a palmatória do professor da primária. A segunda aconteceu quando o LLorente dominou a bola a menos de 75 metros da baliza do Patrício na 2ª mão da meia-final da Liga Europa. Mas admito que o benfiquista comum, ao morrer, possa atravessar uma crise existencial: como será aquilo lá em cima, adaptar-me-ei, será que vou finalmente conhecer o Francisco Calabote, sobreviverei num outro mundo sem o Lucílio Batista? Tudo isto são, reconheçamos, inquietações compreensívies quando se troca um habitat protegido pelo desconhecido. Ora, nesse momento angustiante, qualquer benfiquista sentirá um novo alento para dar início ao seu projecto de vidade morte se, durante a cerimónia, forem projectadas as jogadas mais marcantes do Emerson. Ali, de imediato, se esvairá qualquer derradeiro sopro de vida. E o defunto renunciará incondicionalmente a qualquer desejo de ressurreição. Ansioso por repousar na última morada, o adepto (des)encarnado poderá então desfrutar integralmente do privilégio de ter o seu caixão carregado por Cardozo, o matador. Ou de assistir ao voo triunfal e derradeiro da Águia Vitória em direcção ao seu túmulo enquanto os familiares, chorosos, enxugam as lágrimas com lenços com a imgem do Luisão. Já a possibilidade de ser Jorge Jesus a assegurar o discurso de elogio fúnebre é bem capaz de os fazer morrer de riso.
* publicado também aqui.
Na Grécia, a Janela de Overton tem os vidros todos partidos.
A França é reconhecida mundialmente por produzir, em boa cadência, um número assinalável de ociosos, artistolas, canalhas, falsários, crápulas e idiotas que se diferenciam das aves de arribação que lhes correspondem noutras paragens por apresentarem, em lugar de penugem, uma fina camada de verniz, aqui lhe chamaríamos presunção, que vista à distância se confunde com certos ares de intelectualidade (pronto, agora já sabem a origem do termo vernissage). O auto-proclamado intelectual francês ascendeu ao mundo das ideias não para as discutir e aprofundar, mas para as contrabandear. Sim, é daí que vem o célebre apelido Cohntra-bendit que, mais do que designar um expoente individual da circunstância francesa, serve de abrigo taxonómico para uma longa e profícua genealogia de inúteis soi disant bem pensantes. O segredo do relativo êxito da França está assim na sua incapacidade para concretizar as ideias que produz (veja-se o celebérrimo caso do socialismo dito francês) e no sucesso que alcança quando se trata de exportá-las. Os países que as importam, encandeados pela luminosidade aparente das ditas, acabam por concretizá-las com entusiasmo e com um profissionalismo que a França nunca seria capaz de alcançar. Ora, como as ideias são em si mesmas más e não valem um vinte e sete avos do marketing que as rodeia, tais países acabam por prejudicar-se, o que deixa a França numa posição relativa mais vantajosa. Sendo tudo isto assim, como é (pronto, posso admitir que a Revolução Francesa teve aspectos positivos, mas estou convencido que, na verdade, só aconteceu porque no meio daquilo tudo alguns perderam a cabeça e que, em todo o caso, o contributo decisivo para a modernidade veio da Inglaterra), devo entretanto reconhecer que os franceses apresentam, episodicamente e, provavelmente, de forma involuntária (a tal coisa da Revolução Francesa), momentos em que se conseguem superar. Por exemplo, nas recentes eleições presidenciais, parecia impossível que pudessem encontrar um sucessor com a estatura de Sarkozy. Pois bem, honra lhes seja feita, eles conseguiram:
Afirmar que Mário Soares é um animal político pressupõe uma definição incompleta do pai presumido da nossa democracia. Soares não é um animal qualquer. O que o caracteriza, antes de tudo o mais, é o faro apurado. Esse faro que lhe permitiu, em tantas ocasiões, suprir as suas evidentes limitações. Soares é um perdigueiro. Espetou as narinas na realidade destes dias que nos consomem. To Zé Seguro olha para Hollande e vê uma tábua de salvação. O olfacto de Soares diz-lhe que Hollande passou a representar uma urgência. Louçã carrega mais nos erres com o resultado do Syriza na Grécia. A Soares cheira-lhe a esturro. Enquanto outros se encantam com a transformação da França em Lalallande e da Grécia numa Nãopagamoscracia, Soares já viu o filme todo. A oportunidade para empunhar a bandeira do manguito à Troika tem prazo de validade limitado. Dura exactamente até ao momento em que Hollande começar a rasgar promessas e em que a Grécia embater com a realidade. É, portanto, coisa de dias. Soares não é homem de deixar para amanhã o que pode dizer hoje. Sobretudo quando sabe que os factos de amanhã apoiarão menos a tese que lhe dá jeito defender. Não se trata, é claro, da tese que tem fundamento no interesse do país. Mas isso não é novo. Ontem, como hoje, Soares privilegia a vaidade pessoal e esta alia-se, por estes dias, à ânsia de fazer a prova periódica de vida política. A defesa da quebra do compromisso com a Troika, já e em força, deve ler-se à luz da circunstância de ilusões que não tardarão a esboroar-se e do homem que, se não tivesse encarnado na pele do perdigueiro, ostentaria as penas do pavão.
Já estou por tudo. Que aumentem impostos, que cortem na saúde, que esqueçam compromissos, que prometam repor os subsídios às pingas, que nos mandem emigrar, que ponham 30 alunos em cada turma, pronto, um tipo torce-se todo, mas ainda vá que não vá. Agora isto, isto já me parece um bocadinho de mais: Corpo de Deus suspenso até 2017.
No fundo, Tó Zé Seguro é apenas mais um português que se vê obrigado a ultrapassar as fronteiras para encontrar o sucesso que lhe tem sido negado dentro de portas.
Os presidentes franceses mudam, mas a Merkel é a mesma.