Cohntra-bendit


Rui Rocha,

 

A França é reconhecida mundialmente por produzir, em boa cadência, um número assinalável de ociosos, artistolas, canalhas, falsários, crápulas e idiotas que se diferenciam das aves de arribação que lhes correspondem noutras paragens por apresentarem, em lugar de penugem, uma fina camada de verniz, aqui lhe chamaríamos presunção, que vista à distância se confunde com certos ares de intelectualidade (pronto, agora já sabem a origem do termo vernissage). O auto-proclamado intelectual francês ascendeu ao mundo das ideias não para as discutir e aprofundar, mas para as contrabandear. Sim, é daí que vem o célebre apelido Cohntra-bendit que, mais do que designar um expoente individual da circunstância francesa, serve de abrigo taxonómico para uma longa e profícua genealogia de inúteis soi disant bem pensantes. O segredo do relativo êxito da França está assim na sua incapacidade para concretizar as ideias que produz (veja-se o celebérrimo caso do socialismo dito francês) e no sucesso que alcança quando se trata de exportá-las. Os países que as importam, encandeados pela luminosidade aparente das ditas, acabam por concretizá-las com entusiasmo e com um profissionalismo que a França nunca seria capaz de alcançar. Ora, como as ideias são em si mesmas más e não valem um vinte e sete avos do marketing que as rodeia, tais países acabam por prejudicar-se, o que deixa a França numa posição relativa mais vantajosa. Sendo tudo isto assim, como é (pronto, posso admitir que a Revolução Francesa teve aspectos positivos, mas estou convencido que, na verdade, só aconteceu porque no meio daquilo tudo alguns perderam a cabeça e que, em todo o caso, o contributo decisivo para a modernidade veio da Inglaterra), devo entretanto reconhecer que os franceses apresentam, episodicamente e, provavelmente, de forma involuntária (a tal coisa da Revolução Francesa), momentos em que se conseguem superar. Por exemplo, nas recentes eleições presidenciais, parecia impossível que pudessem encontrar um sucessor com a estatura de Sarkozy. Pois bem, honra lhes seja feita, eles conseguiram:

 

Sim, bem sei. Mas o Sarkozy está com a cabeça inclinada para baixo.

10 comentários em “Cohntra-bendit”

  1. O segredo do relativo êxito da França está […] no sucesso que alcança quando se trata de [exportar as ideias que produz]

    O mesmo se pode dizer – aliás, hoje em dia é muitíssimo mais verdade – do Reino Unido e dos Estados Unidos da América, que fazem muitíssimo dinheiro a exportar ideias e produtos culturais em geral. Esses países são hoje em dia os exportadores de ideias por excelência – como aliás se pode claramente ver no blogosfera portuguesa, na qual grande parte das ideias são importadas desses países.

  2. É verdade que o Sarkozi está com a cabeça inclinada para baixo, mas veja bem os tacões dos sapatos dele… O Durão Barroso parece peremptório no tamanho que lhes atribui!!!

    1. Digo que não, Pedro. Repare no gesto que Sarkozy faz no exacto momento em que se dá conta de que deixou as tamancas em casa. Pelo menos, é a interpretação que faço, embora conceda que a fotografia não é definitiva quanto ao que Sarkozy traz calçado.

  3. Não concordando, em rigor, com nada do que diz (tenho uma predileção pela França), devo admitir que o texto está fantástico: quase me convenceu…

  4. Eh eh eh, boa malha.
    … a Monarquia Parlamentar vs. a República Monárquica,
    conforme os ingleses gostam de salientar.

    E é engraçado, porque as lojas de chá da monarquia parlamentar inglesa parecem coisa da Queen do Queens.

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