Esta é de morte


Rui Rocha,

 

Confesso. Esta coisa do protocolo celebrado entre o Benfica e a Servilusa está quase a fazer-me morrer de inveja. A preocupação da equipa de Vieira para com os seus fiéis defuntos entende-se. Em geral, morrer não é projecto de vida para ninguém. Mas, deve ser particularmente difícil desencarnar quando se é um adepto encarnado. Agora, com o desconto de 12,5% nos funerais, imagino que os apoiantes do clube da Luz possam encarar as trevas com renovado entusiasmo. Pena é que a promoção não seja extensível aos adversários que o Javi Garcia vai aviando à cabeçada. Mas, neste mundo, nada é perfeito (com excepção talvez de Vale e Azevedo que pode bem ser o perfeito vigarista). Verdadeiramente inovadora é, entretanto, a possibilidade de  incluir no serviço fúnebre elementos alusivos ao clube. Certo.  De uma maneira ou de outra, trata-se de bater a bota. Mas, deve haver uma diferença qualquer no facto de essa bota ser a chuteira do Eusébio. E se para alguns morrer com as botas calçadas constitui a ambição de uma vida, percebo que calçar as botas do Rui Costa depois da morte possa ser o desígnio de um benfiquista que, para além de perder o campeonato, perdeu a vida. Não sou, é evidente, um especialista na matéria. Em rigor, só estive perto de morrer duas vezes. Ambas de medo. A primeira foi quando travei conhecimento com a palmatória do professor da primária. A segunda aconteceu quando o LLorente dominou a bola a menos de 75 metros da baliza do Patrício na 2ª mão da meia-final da Liga Europa. Mas admito que o benfiquista comum, ao morrer,  possa atravessar uma crise existencial: como será aquilo lá em cima, adaptar-me-ei, será que vou finalmente conhecer o Francisco Calabote, sobreviverei num outro mundo sem o Lucílio Batista? Tudo isto são, reconheçamos, inquietações compreensívies quando se troca um habitat protegido pelo desconhecido. Ora, nesse momento angustiante, qualquer benfiquista sentirá um novo alento para dar início ao seu projecto de vidade morte  se, durante a cerimónia, forem projectadas as jogadas mais marcantes do Emerson. Ali, de imediato, se esvairá qualquer derradeiro sopro de vida. E o defunto renunciará incondicionalmente a qualquer desejo de ressurreição. Ansioso por repousar na última morada, o adepto (des)encarnado poderá então desfrutar integralmente do privilégio de ter o seu caixão carregado por Cardozo, o matador. Ou de assistir ao voo triunfal e derradeiro da Águia Vitória em direcção ao seu túmulo enquanto os familiares, chorosos, enxugam as lágrimas com lenços com a imgem do Luisão. Já a possibilidade de ser Jorge Jesus a assegurar o discurso de elogio fúnebre é bem capaz de os fazer morrer de riso.

* publicado também aqui.

34 comentários em “Esta é de morte”

  1. Muito, muito bom, Rui!
    Eu, que sou só simpatizante benfiquista não tenho direito ao desconto. Mas, só de pensar nestas magníficas possibilidades, vou pensar seriamente em fazer-me sócia.
    E os funerais serão todos no cemitério de Benfica?
    De forma geral as ideias parecem-me muito boas. Se bem que, na cremação, pelo menos para os católicos, a audição do hino estaria fora de causa. “Ser Benfiquista
    é ter na alma a chama imensa” é demasiado…
    Seria interessante se outros clubes se lembrassem de fazer o mesmo. Os velórios seriam muito mais animados…

    1. Cara Lampeona

      “” Cemitério Do Benfica”

      A direccão do clube está a negociar com todas as Câmaras Municipais a cedência nos cemitérios municipais dum ( talhão)… denominado ” Casa de Repouso do Benfica”.

      Melhores Cumprimentos
      A Direcção
      Luis F. Viilarinho Vale de Azevedo

  2. Só espero que não se atrevam a fazer descontos no dia 1 de Maio. Aí, os comunistas até cortavam os pulsos…

  3. A ASAE já está no terreno a investigar os indícios de prática de dumping.

    A funerária reconhece que o dumping faz parte da filosofia do seu negócio; embora prefira o eufemismo “entregar à terra”…

  4. A ministra Cristas já veio manifestar a sua preocupação pelo impacto que tal promoção poderá ter no sector da agricultura biológica portuguesa.
    É que os morcões também têm dificuldade em digerir derrotas…

  5. Acabei de perceber donde vem a margem para tal desconto.
    É que, normalmente, os benfiquistas enterram-se sozinhos, sem precisarem da ajuda de ninguém…

  6. Domingos Paciência acaba de exigir que o Sporting consiga descontos semelhantes.
    Já que é um cemitério de treinadores…

  7. Está explicado porque é que a Igreja católica prescindiu do feriado do 1 de Novembro.
    É que, a partir de agora, o dia de finados passa a ser comemorado a 28 de Fevereiro…

  8. Também a divisa do Benfas está em vias de ser substituída.
    À porta do estádio, será colocada a sugestiva frase de Dante:
    “Abandonai toda a esperança, vós que aqui entrais”.

  9. Atenção, que é preciso contar com uma sobretaxa de maquilhagem.
    É que pôr um defunto benfiquista com um ar sereno é tarefa quase impossível…

  10. Nota
    Sobre a proposta do S.L.B.

    “A Direcção de Arbitragem da Liga Portuguesa de Futebol — rejeita veemente associar-se a esta promoção … ,etc.”

    A Direcção

    j.Malheiros

  11. Meu caro Rui,

    É de mau gosto, mas a avaliar pelo número de protocolos que eles já têm (http://www.servilusa.pt/Servilusa/Servicos/Protocolos.aspx), a “abrangência” e o grau de satisfação (http://www.servilusa.pt/servilusa/QARS/Qualidade.aspx) que atinge 99%, sendo que o 1% que não ficou satisfeito deverá dizer respeito aos que ressuscitam, já não deve tardar para a Servilusa alargar esse protocolo à tua agremiação.
    Estou certo que a Servilusa não quererá deixar de dar a todos os sportinguistas a satisfação de ouvirem o Cristóvão ou o Futre e a Maria José Valério na hora do “golo final”.

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