Sem-Exitpéri


Rui Rocha,

Huxley entrou no seu velho Austen. Qualquer movimento tornara-se muito doloroso. Agora já sabia a causa de tanto desconforto. Onde te dói, perguntara-lhe o médico, bom amigo dos tempos de infância. Aquino dedo grande, respondera-lhe a medo. O diagnóstico veio sem piedade: Thomas, man, tens Goethe. É grave? Lembras-te de quando jogávamos futebol tardes inteiras? Claro. Pois bem, isso era Dante. Agora, acabou-se. E temos de controlar o ácido úrico. Nada de mariscos, entendido? Voltas cá daqui a 6 meses para ver como estão as coisas. Está bem, hei-de Voltaire. Com todo o cuidado, pôs o automóvel em andamento. No rádio, Rui Smallkingdom ensaiava o falsete: Dumas, são como divãs, biombos indiscretos… Vieram-lhe à memória as longas tardes de Verão da juventude e comoveu-se. O telemóvel trouxe-o de volta à realidade. Do outro lado da linha, Magda gritou: Thomas, fui salteada. Estás magoada? O saltante tentou empurrar mas só me Rousseau. Fiquei com um arrelião no pescoço, vou ver se é Maquiavel. E estou muito ensustada. E levou alguma coisa? Só um Fiodór, aquele que me deste quando erasmos em Roterdão. Ah, Hesse, balbuciou Huxley enquanto pensava na infelicidade de ser casado com uma holandesa que, ao fim de 30 anos, ainda não falava correctamente a língua local. Pronto, querida, o que importa é que estejas bem. Swift, Swift, tábem, vou tentar calamar-me, olha e tu, fizeste o exame à Proust? Fiz, fiz e está tudo bem. Custou muito? Um Bocaccio, o problema é que tenho Goethe. Eu sabia, Kafka se fazem Kafka se pagam, tu comes desmiolado menisco. Despediram-se com juras de amor. A consulta médica e a conversa com Magda abriram-lhe o apetite. Era sempre assim quando se angustiava. Reparou que um comboio circulava ao seu lado. Deteve o olhar no anúncio luminoso colocado na fachada da Estação Central: Twain Station Snack-Bar – Aldous you are angry you can still be hungry. Estacionou o velho Austen. Na porta, um pequeno letreiro convidativo: weather you Pull-Gogol or Push-Kin, you are allways welcome. Instalou-se e interpelou o empregado de mesa. Os Ovídios são frescos? Fraquíssimos, senhor. Então, traga-me uma Hamlet, por favor. Decameron, senhor? Sim, que se lixe o ácido único.

31 comentários em “Sem-Exitpéri”

          1. Lol. Isso mesmo. Ficava aqui a tarde toda neste ping-pong, mas agora tenho de Balzac que tenho imenso que fazer… 🙂

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