A campanha Kony 2012 e os diferentes tipos de preconceito


Rui Rocha,

O preconceito tem manifestações estúpidas e evidentes. Mas, para lá destas, há um outro nível menos explicito, subliminar. O preconceituoso explícito traduz a sua estupidez na depreciação directa e injustificada da vítima (os brancos são isto, os negros são aquilo, as mulheres aqueloutro). Já o preconceituoso subliminar traduz a depreciação  na convicção de que só ele está em condições de proteger as vítimas do preconceito. Só existe uma salvação: aquela que o preconceituoso subliminar proporciona, nos termos em que proporciona. Paradoxalmente, este preconceito subliminar está presente, em alguns casos, nos campeões das causas. Bem intencionados, sobrepõem ao interesse real da vítima aquilo que consideram, sem as ouvirem, ser o seu interesse. O paternalismo é evidente. A campanha Kony 2012 pode muito bem ser um destes casos. Ninguém nega que Kony é um criminoso da pior espécie. Os argumentos dos críticos da campanha também já são conhecidos: o principal problema do Uganda já não é Joseph Kony e as preocupações deviam ser dirigidas à corrupção no poder politico, à  doença e a outras chagas que afligem as populações. A este propósito é útil considerar a reacção de Ugandeses que visionaram o filme da promotora da campanha (IC – Invisible Children) na localidade de Lira. As elevadas expectativas iniciais deram lugar à raiva. Lapidares as palavras de uma das mulheres presentes que comparou a recolha de fundos que a IC está a efectuar com uma hipotética venda de objectos com a imagem de Bin Laden para ajudar os americanos. Parece evidente que a IC procurou apenas a história que mais lhe convinha contar, sem ter em conta a versão daqueles que diz querer proteger. Se o fez de forma ingénua, incorreu no preconceito subliminar que a impediu de perceber que a história  que interessa é a daqueles que a vivem. Se o fez oportunisticamente, com mero intuito de autopromoção, estamos conversados. 

10 comentários em “A campanha Kony 2012 e os diferentes tipos de preconceito”

  1. Aqui discordamos Rui.
    Percebendo perfeitamente o alcance dessa perspectiva (porque também eu tenho muito cepticismo na actuação de diversas organizações “ditas” humanitárias) bem como a origem da mesma (!), posso apenas concordar que este vídeo/viral/movimento surgiu sempre tarde demais… e muitas vidas se perderam desde o período em que Kony emergiu e este viral/aknowledge foi lançado…no próprio ano em que finda a participação EUA na sua captura…porêm…em essência..é uma realidade incontornável e tristemente omitida pela comunidade mundial…
    Estou já bem informado…tarde demais informado sobre este tema e sobre esta Besta andarilha que trilha agora pelo Congo e Sudão… e neste caso…em substância/essência é insofismável na minha opinião.

    Abraço..David

    1. Nada a opor quanto ao que diz de Kony, Outside. Ha um ponto fundamental a considerar. Nestas situaçoes, e fundamental afectar os recursos recolhidos as necessidades fundamentais das populaçoes. Aparentemente, os proprios ugandeses discordam da definiçao de prioridades da IC. Em todo o caso aguardemos pelos resultados. Abraço.

  2. De facto existem sempre alguns que julgam que tudo é sempre uma grande conspiração.

    Eu não sou racista muito pelo contrário mas a verdade é que existem muitos pretos burros, quem esteve em missões em Africa sabe do que falo, por isso nada me admira que existam videos a contrariar esta iniciativa contra esse monstro que é Kony.

    A corrupção no Uganda é um facto e deveria ser combatida, mas isso não invalida que se combata contra Kony também.

    Agora cabe a cada um fazer o que acha melhor, se deve participar nela activamente ou conspirar contra tudo e desconfiar de todos os que possam ter boas intenções.

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