A luta continua, Soares está na rua.
Adaptar velhas palavras de ordem a novos tempos
Rui Rocha,
A luta continua, Soares está na rua.
O bispo das Forças Armadas tem um problema de continência.
Pode parecer muito, mas nem é o caso. As 53 caricaturas encomendadas ao cartoonista António para embelezar a extensão da linha de Metro até ao aeroporto de Lisboa custaram 200.000€. Todavia, o preço já inclui os materiais e a instalação, esclareceu Cardoso dos Reis, Presidente do Metropolitano de Lisboa. O artista por seu lado, declara-se mal pago. É bem capaz de ter razão, se tivermos em conta a qualidade da obra. A caricatura de António Costa, por exemplo, está muito fiel ao original.
Houve um tempo em que tínhamos a nossa vida e, quando precisávamos de ver flores, passarinhos a chilrear e ribeiros a transbordar depois do degelo da primavera, íamos ao cinema. Sentávamo-nos, esperávamos cerca de duas horas e, com mais ou menos peripécias pelo meio, chegava invariavelmente um final feliz. Depois, voltávamos ao rame-rame com a alma lavada e os índices de esperança em máximos históricos, como se o mundo tivesse lançado uma OPA ao melhor dos nossos sentimentos. Com um bocado de sorte, e se evitássemos Sartre e outros macambúzios, podíamos obter o mesmo efeito com um livro.
Depois, algum desmancha-prazeres, certamente por puro despeito e mesquinho sentimento de inveja da felicidade dos outros, decidiu que os finais felizes estavam fora de moda. Na literatura e no cinema, os pais divorciados dos meninos da nossa idade deixaram de reconciliar-se. As namoradas dos artistas principais passaram a ficar feridas nos tiroteios e nem sempre recuperaram. Um ou outro herói morreu. Veja-se bem que em livros como As Horas, é só um exemplo, não basta ao autor deixar morrer a Virginia Woolf. Não, como se isso fosse pouco, ainda há um bolo de aniversário estragado, uma mãe que foge de casa e um filho que tem uma doença gravíssima. Por incrível que pareça, este último morre. Mas, suprema crueldade, nem sequer morre da doença, o que seria relativamente aceitável e poderia até ter um enquadramento poético e um fundo moral redentor. Não, para piorar as coisas, morre porque se suicida. Claro que tudo isto é insuportável para gerações que se habituaram a chorar no momento em que prenderam a mãe do Dumbo, mas que no fundo confiavam numa organização do mundo que assegurava um final feliz para todas as personagens importantes. E para a mãe do Dumbo também.
Com o desmoronar deste universo de hetero-ajuda, de acesso fácil e prazenteiro, espíritos atentos notaram algo que também não passaria despercebido ao olhar crítico de Marx se ainda estivesse entre nós: o fenómenos da transferência de tarefas dos trabalhadores para os consumidores. O voo pode ser low cost, mas quem faz a reserva e imprime a passagem é o turista acidental e não o funcionário da agência de viagens que passou a ocupar-se, apenas, de preencher o euromilhões. Daí à explosão da literatura de auto-ajuda foi um passo. O princípio é o mesmo. Podes ser muito feliz, mas tens de ser tu a fazer por isso: se leres isto, podes ser um bom chefe, um excelente empregado, mil e trezentos truques para gerir as tuas emoções, vais ser bom, vais ser melhor, mais um bocadinho e passas supra-sumo da batata, se não conseguires travar a tempo, ainda és promovido a supra-sumo da barbatana, ai vais ser tão feliz e tu bem sabes que o êxito é a pedra basilar da felicidade, ai vais ser tão bom que vais conseguir transformar frustração em oportunidade!
Mas isso é fantástico, clamam alguns. É evidente que não é. No tempo dos finais felizes de hetero-ajuda, não tínhamos de fazer nada. A única coisa que nos pediam era a paciência de esperar umas horas até acabar o filme ou o livro. E não havia como contestar o viveram felizes para sempre. A história acabava e no dia seguinte não íamos a casa da Cinderela ver se o sapato afinal lhe apertava os joanetes ou se o Príncipe Encantado era um gabiru que passava mais tempo a caçar elefantes no Botswana do que a aspirar a casa. Não, as histórias acabavam por ali. E acabavam bem. Com a auto-ajuda, os protagonistas da história somos nós. E isso é terrível. Porque a tese do optimismo radical só é defensável em relação à vida de terceiros e é válida, sobretudo, quando os outros são personagens de ficção. Não há optimismo que sobreviva aos azares da nossa própria vida. A crises, a doenças graves, a cataclismos, a separações definitivas, a perdas irreparáveis.
Aqui chegados, é justo perguntar se há futuro. Há, mas tudo indica que não é grande coisa. Perante o descrédito da auto-ajuda, temo que sobrevenha o tempo do salve-se quem puder. Os protagonistas da história continuaremos a ser nós. Mas, incapazes de protagonizarmos histórias que acabam sempre bem, ficaremos ainda pior. No fundo, escreveremos livros e realizaremos filmes na primeira pessoa, em que enfrentaremos inúmeros perigos, tal como o McGyver. Só que, no nosso caso, existirão alguns episódios em que acabamos por ser presos pelos maus, por nos magoarmos ou até coisa pior. O cenário não é, já sei, grande coisa. Mas, isso resulta, em boa medida, de em rigor não ser um cenário, mas a própria realidade. E se tivermos sorte, pode ser que as coisas acabem por compor-se. Quem sabe, um dia destes, voltam a escrever livros com final feliz e a realizar filmes que acabam ainda melhor. Isso seria fantástico porque, como se viu, com a felicidade das personagens fictícias, podemos nós bem. Em alternativa, e apenas no caso das mulheres, presumo que seja possível alcançar alguma paz interior com uma ida ao cabeleireiro.
– Jardim quer equivalência a Veterinária, Biologia, Informática e Astronomia.
– Alberto João Jardim engasga-se e é salvo por bombeiro.
– Marcelo Rebelo de Sousa lança Marques Mendes para substituir Relvas.
– Berlusconi diz que será candidato às eleições do próximo ano.
– “Lei do silêncio” em vigor no centro de Londres cala McCartney e o Boss às 22h30.
– Yannick Djaló jogou a defesa direito.
Pinto Monteiro está atento a todas as notícias sobre a Universidade Lusófona, no âmbito do ‘caso Relvas’.
– Olá…
– Olá.
– E então, já sabes alguma coisa?
– Não, os resultados da autópsia (silêncio, um segundo, uma vida)… quer dizer, da biópsia, ainda não chegaram.
Já não sou capaz de responder. Há lapsos que nos esmagam.
Atendendo à composição da Assembleia da República, o que ali se debate é o estado da Nação ou o estado do mação?
De acordo com o Welt Online, Frau Merkel, acusada por muitos de ser rígida e inflexível, estará disponível para dar mais tempo à Grécia. Num gesto de surpreendente benevolência, a Chanceler alemã admite prolongar o prazo para os gregos cumprirem as suas obrigações por algumas… semanas. Em todo o caso, não mais de meia dúzia que isto da generosidade tem limites.

Monges admitem substituir tonsura por corte de cabelo à Passos.
Há tempos, vem a oferta (S) cruzando com a procura (D) nos compêndios de economia. No final do século XIX, o sábio Alfred Marshall lhes havia recomendado a posição da tesoura, com as hastes semiabertas, na busca de um equilíbrio natural entre a dor da verticalidade (P) e o prazer da horizontalidade (Q):

Nos anos 30, sofrendo de Grande Depressão, saíram a oferta e a procura em busca de posições mais estimulantes. Sugeriu-lhes, então, Keynes que a oferta se deitasse passivamente na horizontal, deixando à procura, revigorada por pílulas governamentais, assumir o papel ativo de estimular a atividade:

Por muitos anos viveram felizes assim, até que, nos anos 1970, padecendo com o Choque do Petróleo, a oferta se rebelou e assumiu a posição vertical. A prescrição de Keynes para obter maior Q-prazer através de estímulos da demanda tornou-se então fonte de pura P-dor:
Os seguidores de Keynes recomendaram então maior controlo do governo para diminuir a P-dor. Ressabiadas, a oferta e a procura saíram interior adentro, em busca de alternativas que mantivessem sua liberdade de movimentos. Encontraram-se com Milton Friedman, que lhes deu uma receita diretamente oposta à de keynes: devia a procura assumir uma posição horizontal passiva, mantendo assim a P-dor sob controlo. A oferta ficaria na posição vertical, crescendo à taxa natural, sem amarras do governo:
Deu-se então a Grande Moderação, com a P-dor sob controlo e o Q-prazer expandindo-se sob a égide dos casinos financeiros desregulamentados. Final feliz, entretanto, só nos contos de fadas. Desde o início do século XXI, a expansão da procura passou a depender cada vez mais do crédito facilitado pelos casinos. Sobreveio a Crise Financeira em 2008. Sobrecarregada de dívidas, a procura encolheu-se, não mais conseguindo responder aos estímulos creditícios. Também endividados, os governos não conseguiram mais estimulá-la com suas pílulas. A procura verticalizou-se, encolhida como estava, deixando um vácuo entre sua posição e a da oferta:
Descasadas, a procura e a oferta padecem agora de uma Q-dor que não sentiam desde os anos 1930. Prazer com a queda de P também não têm, pois ela apenas aumenta o peso das dívidas acumuladas. Estão agora a lamentar não ter dado mais atenção a Hayman Minsky, o profeta esquecido, que há tempos advertira sobre os perigos dos casinos financeiros. Como fazer para acasalar novamente procura e oferta? Velhos receituários retornam em tempos de crise. Ultra-Keinesianos só desejam mais estímulos, acreditando que a oferta vai atrás da procura onde ela for. Ultra-Friedmans só querem saber de menos controlo, pois acreditam, ao contrário, que a oferta gera sua própria procura. Melhor deixar os ultras com suas manias de lado e retornar ao ponto de partida do sábio Marshall. Reconhecer as individualidades da oferta e da procura, sabendo que uma não vive sem a outra, e almejam cruzar-se harmonicamente como se hastes fossem de uma mesma tesoura. Posições extremas são excitantes de tempos a tempos, mas somente o Caminho do Meio unifica e transcende a dualidade.
* Reprodução do texto de Edmar Bacha publicado no Globo, com ligeiríssimas alterações destinadas a facilitar a leitura.
