Coisas que não lerás no Avante


Rui Rocha,

Cuando un opositor muere, en cualquier democracia, se dejan a un lado los odios y se respeta la dignidad del desaparecido. En una dictadura, como la cubana, no es así. La muerte de Payá ha sido groseramente festejada en varios medios oficialistas cubanos. Detrás de ese comportamiento irracional yace la inseguridad moral de quienes no pueden admitir que una persona honesta, convencida de sus ideas, defienda, con métodos pacíficos y desde las propias leyes vigentes, la democracia en Cuba.

 

Rafael Rojas, aqui.

O desastre na colocação de professores


Rui Rocha,

A gestão pelo Ministerio da Educação das colocações e dos concursos dos professores pode já considerar-se um cataclismo de grandes dimensões provocado por falha humana. Entre avanços, recuos, indecisões, dúvidas sobre legislação aplicável, erros de concepção da plataforma informática e falência das soluções técnicas, já se viu de tudo. Não está aqui em discussão o desemprego justificado ou injustificado dos docentes ou a política educativa. O que está em causa é a absoluta incompetência na gestão de um processo administrativo pelos serviços do Ministério da Educação. Existe, naturalmente,  um responsável político por esta situação. Mas esse deve estar, por esta hora, a tentar perceber qual a melhor resposta para um velho problema matemático que consiste em determinar a forma mais eficaz de passar pelos pingos de chuva sem se molhar: correr ou ir a passo? É possível que tenha de recorrer a uma calculadora para fazer as contas.

Que se lixem as eleições


Rui Rocha,

Pedro Passos Coelho tem utilizado uma linguagem colorida em diversas ocasiões. Desde a referência ao pote ainda em campanha eleitoral, passando pelos piegas ou pela porcaria na ventoinha e acabando no mais recente que se lixem as eleições. Em geral, não parece um tipo de discurso apropriado à responsabilidade que lhe cabe. Não existe qualquer necessidade de acrescentar a erosão do nível da linguagem à evidente degradação da imagem das instituições. E a linguagem própria da conversa de café é absolutamente de evitar quando existe o risco de ser interpretada como um rótulo negativo que se cola à generalidade dos portugueses. É provável que nenhum erro governativo tenha afectado tanto a imagem de Pedro Passos Coelho como o célebre episódio dos piegas. Isto dito, há momentos em que a utilização de linguagem não institucional faz todo o sentido. Em situações em que o país ou os governantes se encontram extremamente pressionados e perante escolhas fundamentais, não tem o mesmo efeito utilizar termos redondos como o país está acima dos interesses particulares ou encher o peito para dizer que se lixem as eleições. No primeiro caso, trata-se de uma fórmula estafada, utilizada por todos, a propósito de tudo e de coisa nenhuma. No segundo, a coloquidalidade da linguagem introduz uma nota de novidade e tem o efeito de um murro na mesa. Aqui, a linguagem é o contexto de um subtexto que incorpora uma intenção de ruptura, um corte com práticas e políticas cansadas. Daí que o problema dessas declarações de Passos Coelho não esteja no tipo de linguagem utilizada. Pelo contrário, desaconselhável noutras circunstâncias, esta apresenta-se como totalmente adequada à crise que vivemos, à necessidade de profunda mudança e de corte com o passado. A questão está por isso na vinculação à mensagem.  A expressividade das palavras confere-lhe a natureza de um grito. Que todos ouvimos. Gritada como foi, a mensagem vincula Passos Coelho a cumpri-la nas suas acções. E vincula-nos a nós como juízes do seu cumprimento. Não há decisão que Passos Coelho venha a tomar que possa escapar do pano de fundo desse que se lixem as eleições. E não há juízo que possamos formular que não deva tê-lo em conta. Em caso de incumprimento, Passos Coelho está bem lixado.

Jornalismo interpretativo


Rui Rocha,

D. Jorge Ortiga, arcebispo de Braga, disse isto:

 

“Para eles [os políticos], muitas vezes e quase sempre, vale apenas o bem estar pessoal ou, quanto muito, do seu grupo ou partido”

 

“Nós somos pelo bem de todos, sentimo-nos inquietos e incomodados com aquilo que aflige os outros, quando nós verificamos que neste momento de crise os políticos não são capazes de encontrar o mínimo de convergência para trabalhar à procura de uma solução. Nós teremos que nos empenhar de mãos dadas, sede construtores desta única família, apostai em causas, ideias e projectos. Lutai por eles”.

 

Entretanto, o Diário de Notícias considera que o título adequado para enquadrar estas palavras é: Arcebispo de Braga critica Governo. E não resiste a concluir que D. Jorge Ortiga diz que os governantes não estão a saber responder à crise que o país atravessa. Este já é o segundo bispo, depois de D. Januário Torgal Ferreira, a criticar o Governo num curto espaço de tempo.

Os EUA são um país violento. E Portugal?


Rui Rocha,

Na sequência do ataque de Colorado, Kieran Healy actualizou o seguinte gráfico que compara a evolução da taxa de mortalidade por homicídio (por 100.000 habitantes) nos EUA com a registada em outros países da OCDE:

Interessante é também a desagregação por países que inclui os dados sobre Portugal e que pode encontrar-se no mesmo link.

Verão quente


Rui Rocha,

É lamentável que o espaço de oposição ao governo esteja a ser ocupado por D. Januário Torgal Ferreira e por Mário Soares. E isto é assim pelas pessoas em si, pelo que representam e pelo tipo de discurso que protagonizam. A democracia deve ser o espaço da solução e da sua alternativa. Ora, o bispo das Forças Armadas e o ex-presidente não são solução para o que quer que seja. E muito menos estão em condições de apresentar qualquer alternativa. 

 

Mário Soares é um político reformado e irreformável, dono de algumas poucas virtudes sobrevalorizadas pelo próprio, às quais uma parte significativa dos portugueses foi sensível numa determinada fase e a que se tornou indiferente depois, e de um conjunto razoável de vícios que são, em boa medida, partilhados pelo próprio sistema (o amiguismo, a ideologia balofa, o empurrar os problemas com as bochechas, etc.). Por seu lado, D. Januário acumula, ironicamente, a condição de representante de duas instituições, o Exército e a Igreja,  que enquanto tais e tal como acontece com os árbitros no futebol, são tanto mais úteis ao país quanto menos se notar a sua presença em campo. Para além disto, o discurso de um e de outro constituem o exemplo acabado do mais profundo espírito anti-democrático.

 

O problema essencial das afirmações de D. Januário não é o de ele ser bispo ou major e de nessa qualidade, ou na de simples cidadão, criticar o governo. É de apostar em acusações gravíssimas, generalizadas a um órgão de soberania democraticamente eleito e de não as fundamentar. Com tal comportamento, ofende, antes de mais, os portugueses. A raiva e o excesso quando se aliam à vacuidade não só não atingem o alvo a que se dirigiam, como retiram credibilidade a quem profere as acusações. No mesmo plano se colocou Mário Soares. Defender que os portugueses querem um novo governo revela, antes de mais, a ambição de falar em nome de quem já não lhe reconhece autoridade para isso. Para além do mais, trata-se mais da expressão de um desejo do que do diagnóstico da realidade. Excesso e falta de sustentação de afirmações que só não surpreendem porque ao contrário do próprio, já todos percebemos que o papel político de Mário Soares é meramente decorativo.

 

O problema deste estado de coisas é que o país precisa de oposição ao governo. Forte, credível, sustentada, com propostas que possam constituir-se como alternativa. Com D. Januário e Mário Soares a ocupar o espaço mediático não é só o discurso populista ou radical de Louçã e Jerónimo que perdem palco e oportunidade. É também a incapacidade de Seguro se afirmar como alternativa moderada que se torna mais evidente. Tudo em benefício de um governo que se encontrava há uns dias atrás em grandes dificuldades e com acelerado desgaste e que pode, agora, respirar um pouco e até apresentar-se como vítima de ataques desvairados, com isso reforçando a credibilidade da tese da conspiração de interesses. Repito, tudo em benefício de um governo que estava contra as cordas, mas não necessariamente em benefício do interesse do país.