Os anéis olímpicos e as diferenças entre continentes
Rui Rocha,
Groucho: Tens motorista… Qual é a marca do teu automóvel?
Chico: Não tenho automóvel. Só motorista.
Groucho: Bem… posso estar a ver mal, mas se tens motorista não devias ter um automóvel?
Chico: Bem, eu tinha um, mas ficava muito caro ter um automóvel e um motorisa, por isso vendi o automóvel.
Groucho: Bem, isso demonstra o pouco que sei sobre as coisas. Eu teria vendido o motorista e ficado com o automóvel.
Chico: Não pode ser. Preciso do motorista para me levar ao trabalho.
Groucho: Mas… se não tens automóvel, como pode ele levar-te ao trabalho?
Chico: Não é preciso levar-me. Não tenho trabalho.
The Marx Brothers, Horse Feathers (tradução livre)
Gerhard Müller, o novo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, considera que a exclusão das mulheres da ordenação sacerdotal na Igreja Católica segue a vontade e chamamento de Cristo. Se virmos bem, é capaz de ter razão. Os apóstolos eram todos homens. Já então, para que eles pudessem acompanhar Jesus na proclamação da Boa Nova, era preciso que ficasse alguém a trabalhar. Assim sendo, presumo que não será nada fácil mudar este estado de coisas. A menos que, um dia destes, Deus nos envie uma filha para salvar as mulheres (e, já agora, se tiver tempo, também os homens que andamos bem precisados). Com um bocado de sorte, a filha de Deus calha de ser negra e ficamos logo com dois problemas resolvidos: o do machismo e o do racismo. Pensando bem, melhor seria que viessem duas filhas, sendo a segunda chinesa. Para além do racismo e do machismo, ainda dávamos um passo de gigante no domínio de outros direitos humanos.
A originalidade das histórias mirabolantes de férias é inversamente proporcional à qualidade dos destinos.
Confirma-se. A música pop está mais chata e barulhenta do que nunca. A coisa é de tal ordem que, em desespero, e estou ciente do risco que corro ao admiti-lo em público, já dei comigo a sintonizar a Rádio Renascença. Nesses momentos, com sorte, até é possível que esteja a passar a Gloria Gaynor. Por incrível que pareça, o I will survive ganha uma dimensão transcendental quando um tipo acaba de sair das profundezas da playlist da RFM ou da Comercial.
A propósito da trágica situação de Lal Bibi, a Zélia Parreira partilhou a seguinte reflexão:
Venho aqui penitenciar-me. Comentei 4 ou 5 vezes “o misterioso caso do vestido repetido” e nem uma palavra a esta história de vida que nos envergonha a todos. Deitamos a cabeça nas nossas almofadas escolhidas a preceito e choramos as férias que queríamos ter, o carro dos nossos sonhos, a mansão com piscina para fazer inveja aos amigos. E ao mesmo tempo, à mesma hora, há mulheres que perdem a vida desta maneira, há famílias que escolhem enfrentar o mundo para salvar a vida de uma filha, há pessoas, seres insignificantes num mundo de biliões que não se importam com elas, que escolhem ser corajosas. Eu, que ando sempre a dizer que sou muito forte e lutadora, sinto-me envergonhada, cobarde e fútil.
Parece-me um comentário exemplar da desorientação e da impotência que todos sentimos, sobretudo aqueles que ainda não desistimos da sensibilidade e da empatia, quando somos confrontados com a barbárie, ou quando constatamos que, apesar de todas as nossas razões de queixa, existe alguém que está, algures, pior do que nós. E existe sempre alguém que está muito pior do que nós.
No essencial, trata-se do impasse moral que Adorno traduziu na frase Nach Auschwitz ein Gedicht zu schreiben ist barbarisch (algo como escrever poesia depois de Auschwitz é uma barbaridade). Sim, como é possível escrever poesia, rir, gostar de futebol, perdermo-nos com futilidades, experimentar a felicidade ainda que momentânea e fugaz, se aconteceram atrocidades? Se, na verdade, as atrocidades continuam a acontecer a cada segundo. Se, na verdade, a maioria dos seres humanos vive em condições de extrema pobreza, em sofrimento ou na injustiça mais intolerável? Ou, se quisermos ser ainda mais totalitários em relação à nossa conduta, como é possível queixarmo-nos nestas circunstâncias?
Nos dias que correm, esta aporia pode tornar-se ainda mais inexpugnável. Com o fluxo de informação constante, multidireccional, é fácil aceder a cada momento à tragédia, à guerra, à desgraça. Elevamo-nos à condição de Deuses num certo sentido de omnisciência, mas faltam-nos os meios de que estes dispõem(?) para actuar sobre o mundo.
Todavia, se aceitássemos submeter a nossa conduta à existência da barbaridade, perder a poesia por Auschwitz, o riso pelos Taliban, a natural e corriqueira futilidade por cada gulag, era a nossa própia humanidade que perderíamos. O fundamental não é deixar de sermos lá o que somos. Porque se deixássemos de ser assim, podendo sê-lo, isso representaria a vitória da opressão sobre Lal Bibi e também sobre nós. Lal Bibi não está disposta a render-se. Não há nenhuma razão para que nós, para quem é mais fácil mantermos o que somos, nos rendamos antes dela. No fundo, o importante não é calar a poesia. O fundamental é não esquecer. A nossa futilidade, que a temos, não se dirige contra Lal Bibi. Dirige-se, precisamente, contra os seus opressores porque só a ostentamos na medida em que eles não nos podem tirá-la, tal como fazem ao direito básico à dignidade de Lal Bibi. E, sobretudo, não sejamos mais duros connosco do que aquilo que merecemos. O desvio está na brutalidade quando se manifesta, na fome onde existe, na injustiça que se comete. Fique a vergonha e a cobardia para os opressores. E também para o(s) Deus(es). Sim, onde está (ou onde estão) e o que faz(em), sabendo de tudo isto e com tantos meios à disposição, relativamente às crianças do Corno de África, às mulheres do Afeganistão ou às vítimas dos gulags e dos holocaustos que se vão sucedendo?
Os tempos não estão mesmo para grandes investimentos. Depois de Angela Merkel ter dado o exemplo, foi Kate Middleton que decidiu associar-se ao espírito olímpico com um vestido de 35 libras:
* Vi aqui.
Os Jogos Olímpicos são como as eleições: realizam-se de quatro em quatro anos e a esmagadora maioria dos portugueses acaba por perder.