A propósito da trágica situação de Lal Bibi, a Zélia Parreira partilhou a seguinte reflexão:
Venho aqui penitenciar-me. Comentei 4 ou 5 vezes “o misterioso caso do vestido repetido” e nem uma palavra a esta história de vida que nos envergonha a todos. Deitamos a cabeça nas nossas almofadas escolhidas a preceito e choramos as férias que queríamos ter, o carro dos nossos sonhos, a mansão com piscina para fazer inveja aos amigos. E ao mesmo tempo, à mesma hora, há mulheres que perdem a vida desta maneira, há famílias que escolhem enfrentar o mundo para salvar a vida de uma filha, há pessoas, seres insignificantes num mundo de biliões que não se importam com elas, que escolhem ser corajosas. Eu, que ando sempre a dizer que sou muito forte e lutadora, sinto-me envergonhada, cobarde e fútil.
Parece-me um comentário exemplar da desorientação e da impotência que todos sentimos, sobretudo aqueles que ainda não desistimos da sensibilidade e da empatia, quando somos confrontados com a barbárie, ou quando constatamos que, apesar de todas as nossas razões de queixa, existe alguém que está, algures, pior do que nós. E existe sempre alguém que está muito pior do que nós.
No essencial, trata-se do impasse moral que Adorno traduziu na frase Nach Auschwitz ein Gedicht zu schreiben ist barbarisch (algo como escrever poesia depois de Auschwitz é uma barbaridade). Sim, como é possível escrever poesia, rir, gostar de futebol, perdermo-nos com futilidades, experimentar a felicidade ainda que momentânea e fugaz, se aconteceram atrocidades? Se, na verdade, as atrocidades continuam a acontecer a cada segundo. Se, na verdade, a maioria dos seres humanos vive em condições de extrema pobreza, em sofrimento ou na injustiça mais intolerável? Ou, se quisermos ser ainda mais totalitários em relação à nossa conduta, como é possível queixarmo-nos nestas circunstâncias?
Nos dias que correm, esta aporia pode tornar-se ainda mais inexpugnável. Com o fluxo de informação constante, multidireccional, é fácil aceder a cada momento à tragédia, à guerra, à desgraça. Elevamo-nos à condição de Deuses num certo sentido de omnisciência, mas faltam-nos os meios de que estes dispõem(?) para actuar sobre o mundo.
Todavia, se aceitássemos submeter a nossa conduta à existência da barbaridade, perder a poesia por Auschwitz, o riso pelos Taliban, a natural e corriqueira futilidade por cada gulag, era a nossa própia humanidade que perderíamos. O fundamental não é deixar de sermos lá o que somos. Porque se deixássemos de ser assim, podendo sê-lo, isso representaria a vitória da opressão sobre Lal Bibi e também sobre nós. Lal Bibi não está disposta a render-se. Não há nenhuma razão para que nós, para quem é mais fácil mantermos o que somos, nos rendamos antes dela. No fundo, o importante não é calar a poesia. O fundamental é não esquecer. A nossa futilidade, que a temos, não se dirige contra Lal Bibi. Dirige-se, precisamente, contra os seus opressores porque só a ostentamos na medida em que eles não nos podem tirá-la, tal como fazem ao direito básico à dignidade de Lal Bibi. E, sobretudo, não sejamos mais duros connosco do que aquilo que merecemos. O desvio está na brutalidade quando se manifesta, na fome onde existe, na injustiça que se comete. Fique a vergonha e a cobardia para os opressores. E também para o(s) Deus(es). Sim, onde está (ou onde estão) e o que faz(em), sabendo de tudo isto e com tantos meios à disposição, relativamente às crianças do Corno de África, às mulheres do Afeganistão ou às vítimas dos gulags e dos holocaustos que se vão sucedendo?

Obrigada Rui.
Eu é que agradeço o que partilhou connosco, Zélia.
Touchée, Zélia! Apesar das sábias palavras do Rui, eu, que nunca desejei carros espampanantes nem mansões com piscina, sinto-me exactamente assim também perante esta história que não conhecia: envergonhada, cobarde e fútil. De vez em quando precisamos de uma chapada de dura realidade, nem que seja só para apreciar melhor o que temos. E o que temos é sempre muitíssimo, por pouco que nos pareça, em comparação com isto.
Pronto, já posso confessar que este Rui Rocha também não me convenceu totalmente.
Excelentes quer o comentário da Zélia, quer o texto do Rui.
Obrigado, Licas.
Pelo visto, encontrou o que dizer, Rui, e bem.
Ainda bem que gostou, Graça.
Vocês assim até me deixam “sem jeito“.
Honestamente.. a presença mais constante nos meus estados de espírito lendo esse tipo de noticias, é de uma simples apatia.
Será que com isso me considero um individuo de fraco carácter, sem qualquer empatia para com sofrimento dos biliões que sofrem; tudo isso, enquanto a globalização magnanimamente nos permite ter acesso a toda essa panóplia de sofrimento?
A verdade é que não, tal como não me considero nem melhor nem pior que o próximo – talvez mais lúcido, não o nego, mas apenas isso.
Parece-me importante termos noção da crueldade que ganha definição pela mesma humanidade que nos permite sofrer pelos outros mas duvido que deva recair sobre qualquer um de nós o peso do sofrimento alheio ou a sua responsabilidade, quando tal não lhe é devido.
Facilmente se argumentará que se não o fizermos nunca irá surgir a mudança, mas a verdade é que a mudança, ela própria, advém de algo inato à nossa individual e colectiva “ajuda”.
Lendo noticias como a de Lal Bibi, não deixo de valorizar a sua coragem e a da sua família em fazerem frente a algo que não concordam -nem eu tampouco, obviamente!-, mas não deixo que tais batalhas, e dando-lhes todo o já assumido valor, interfiram ou censurem a minha forma de viver – “futilidades” incluídas.
Pois, é o tal impasse moral de que falava, Cec. E que é preciso resolver de alguma maneira…
Rui, é caso para dizer: Uma flor quando esmagada perfuma as mãos do opressor.
Que lhe fique como marca indelével, Anónimo.
“E, sobretudo, não sejamos mais duros connosco do que aquilo que merecemos” – é isso mesmo, Rui. Como já disse à Zélia (no blogue dela), não nos culpemos por morarmos do outro lado do mundo! Na minha opinião, não há motivos para que nos sintamos envergonhados, cobardes e fúteis. Chocados, tristes, revoltados, sim. Mas não culpados! O problema de relativizar é o menorizar dos nossos problemas, o que também pode ser muito prejudicial. Todos temos problemas, grandes, ou pequenos; todos sofremos, todos lutamos. Viver é risco!
Exactamente, Cristina.