A forma como as universidades mais recentes incorporam as praxes académicas, adaptando-as à sua realidade, é um fenómeno interessante. Na Universidade Lusófona, por exemplo, também há rasganço. Tal como acontece em Coimbra, os participantes atiram-se ao estudante com unhas e dentes e este fica todo esfarrapadinho, contorcendo-se conforme pode para tapar o mais possível. Todavia, e aqui encontramos já alguma marca de adaptação e originalidade, na Lusófona o rasganço só acontece uns anos depois de concluída a licenciatura e a cerimónia não tem lugar no Largo da Porta Férrea, mas em plena Praça Pública. Ou no Expresso e no Correio da Manhã. Apesar das diferenças, e mesmo tratando-se de uma praxe algo violenta, é curioso notar que os doutores, sejam eles de Coimbra ou da Lusófona, aparentam submeter-se-lhe com assinalável entusiasmo, como se esta fosse uma etapa fundamental no caminho da procura do conhecimento permanente.
O rasganço
Rui Rocha,


Parece-me que sim, que a praxe mantém-se. O estigma do “conhecimento permanente” é algo que perdura. Quero com isto dizer que o “conhecimento permanente” neste país não vale sem um qualquer papelito. Como os papelitos são muitos o país arde sempre à primeira fagulha. Com o devido respeito pelos doutos, com ou sem papelitos, deixo aqui um apelo: Rasgue-se os papelitos, para que se prove quem é verdadeiramente douto.
Post Scriptum: A miséria deste país não reside nos papelitos, mas naqueles que deles necessitam para se afirmar “doutos”. Tantos que existem!!! Basta ter uma licenciatura para exigir o cognonome “doutor”! Que miséria a praxe produz! Andam por este país muito(a)s “doutor(a)(e)s” (com papelito) que necessitam dar os passos das primeiras letras. Já agora, quando é que iniciaremos o processo de nostratarmos por senhor ou senhora? Será que não existem senhores e senhoras neste país!? Ou há senhores e senhoras de um lado e “doutore(a)s do outro!? De que lado ficam verdadeiramente os doutos!? No lado do(a)s senhore(a)s ou do(a)s “doutore(a)s”!? (Já agora, não esqueçamos outras classes doutas (“senhor(a)” engenheiro(a), arquitecto(a) and so on). Isto é que vai por aqui uma crise!!!! Um dia destes ainda irei escutar alguém a dizer: senhor doutor enfermeiro. Sim, porque os enfermeiros também são licenciados!
Nota: Rui, gostei de seu texto. Todavia, por incompleto, entendi ser meu dever acrescentar algo mais. Um abraço.
E eu gostei do complemento, Anónimo.
Rui
Sempre achei esta coisa das praxes meio medieval.
Que sentido faz, humilhar alguém?
Falando das praxes propriamente ditas, acho que nenhum, Cr.
Rui Rocha, permita-me contar uma pequena historia que se passou à minha frente: nos idos dos 60’s e passava as ferias grandes viajando com uma mochila às costas por essa Europa fora, quando se acabava o dinheiro tinha de trabalhar. Em França, arranjei trabalho nas obras de um predio. Quando estava na fila para assinar os papeis, à minha frente estavam uns italianos; quando chegou a vez do italiano que estava antes de mim assinar a folha, escreveu duas cruzes. O capataz, perguntou-lhe o que é que aquilo significava. E o italiano, calmamente apontou prá primeira cruz a disse: “doctore” e apontou prá segunda e disse: “Cavalli”, e foi-se embora trabalhar.
Qual é a diferença entre o “doctore Cavalli” e tantos “doctores cavallis” que andam por aí?
Deliciosa história, Alexandre. Quanto à diferença, está tudo dito…
As praxes irão acabar naturalmente quando o povo português fôr suficientemente educado. O mesmo se aplica à doença cultural vulgo chico-espertismo.
A.F.