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André Couto,
“Estar desempregado não pode ser, para muita gente, como é ainda hoje em Portugal, um sinal negativo. Despedir-se ou ser despedido não tem de ser um estigma, tem de representar também uma oportunidade para mudar de vida, tem de representar uma livre escolha também, uma mobilidade da própria sociedade”, disse hoje o nosso visionário Primeiro-Ministro.
Os piegas, aqueles que não vivem na bolha dos Gabinetes e das Assessorias, nem viveram sempre para a Jota, ficariam imensamente felizes, não fosse a precariedade que os coloca em situações delicadas quando são despedidos, sem direitos nem protecção. Para além disto são ainda os afogamentos violentos em impostos e as barreiras insuperáveis ao empreendedorismo. Oportunidade? Onde? Como? É uma visão fofinha do desemprego, não fosse ser a do País das Maravilhas, não a do nosso.
Eu assisti aos mandatos de Jorge de Brito, Manuel Damásio e João Vale e Azevedo, os três estarolas que em oito anos arrumaram, para décadas, as finanças e o património, acima de tudo o património, do meu Sport Lisboa e Benfica. Eu vi da bancada génios da táctica, treinadores galácticos, que esta gente trouxe para o meu clube, como Artur Jorge, Paulo Autuori, Manuel José (com o seu 3-5-2), Graeme Souness (com a invencível armada inglesa) ou Jupp Heynckes. Vi ano após ano o insucesso desportivo dar lugar à depressão da saída de vinte estrangeiros de qualidade duvidosa, com a entrada de outros vinte estrangeiros de qualidade ainda mais duvidosa. A única coisa que não era duvidosa nestes processos eram as enormidades pagas em comissões, o elevado preço dos jogadores e o depauperar constante do património histórico do meu clube. Manuel Vilarinho, primeiro, e Luís Filipe Vieira, depois, alteraram o rumo da coisa. Pude entretanto voltar a dizer que sou benfiquista, sem me cobrir de vergonha porque ficámos em 6.º no campeonato ou porque o nome do meu clube anda nas bocas da FIFA, em mil processos de pagamentos atrasados, porque, ao tempo, me treinei bem em eufemismos. É por isso que não me passa pela cabeça que surja um novo projecto. Este está a funcionar bem, com limitações, é certo, mas o Benfica não baixa do 2.º há muitos anos e o Porto já tem de lutar por campeonatos até ao fim e de se aplicar a fundo no zelo dos árbitros.
Os Benfiquistas têm memória, Luís. Continua tranquilo, aqui não passam mais.
São inenarráveis as críticas que li ao Zero Desperdício, projecto nascido da mais pura Sociedade Civil, pelas mãos de gente como o Comandante António Costa Pereira, a Patrícia Vasconcelos e a Paula Policarpo. A frase da polémica, presente no hino da iniciativa, “o que eu não aproveito ao almoço e ao jantar / a ti deve dar jeito / temos de nos encontrar”, não é, de facto, feliz, e peca por crua. Deve no entanto analisar-se a fundo a ideia e ver que, para além dos seus méritos, a música foi escrita pelo Tim, sim, o vocalista dos Xutos & Pontapés, e interpretada por nomes como Sérgio Godinho, Jorge Palma, Ana Bacalhau (dos Deolinda) e Boss AC. Parece-lhes mesmo que toda esta gente é passível de ser adjectivada daquela forma? Parece-lhes mesmo que um projecto deste cariz, em que os promotores se limitam a fazer trabalho de diplomacia, através ligação entre privados e autarquias, sem qualquer retribuição ou circulação de dinheiro, merecem ver o seu projecto e nomes vilipendiados desta forma?
É com imenso orgulho que a Junta de Freguesia que os meus eleitores me confiaram, a de Campolide, é a primeira a participar neste projecto. Ao invés de encherem caixotes do lixo, alimentos que sobraram ontem do Hotel Ritz, do Vitaminas do Centro Comercial Amoreiras e do Pingo Doce de Campolide, cobrirão hoje a mesa de mais de uma dezena de famílias carenciadas que os vieram buscar durante o dia. Estas famílias terão uma feliz e tranquila digestão, que a azia dos outros não prejudicará.
“Estas manifestações são planeadas, coordenadas e têm um objectivo. (…) Continuar a ouvir, em 2012, falar de PSP como força de repressão é uma coisa que eu acho que deve fazer pensar todos. Uma força de segurança, num estado democrático, não é uma força de repressão, é uma força que garante o direito dos cidadãos, (…) e é uma força que garante a ordem democrática.”, Miguel Macedo, Ministro da Administração Interna, Audição Parlamentar no âmbito da actuação policial durante as manifestações do dia da Greve Geral de 22 de Março.
Assusto-me quando assisto a intervenções que artisticamente questionam o direito à manifestação, com o argumento de que a força serviu para assegurar o Estado de Direito, como se fossem setentas pessoas pô-lo em questão e não a forma, amplamente documentada, como as forças da autoridade agiram. Uma força de segurança, num estado democrático, é, ou não, uma força de repressão, consoante a forma como age e sentimento que transmite às pessoas, e não pelas perniciosas declarações de um Ministro que tenta formatar mentalidades, distorcendo a realidade daqueles factos.
Quando diz, com fito pejorativo, que “estas manifestações são planeadas, coordenadas e têm um objectivo”, como se o planeamento, a coordenação e a objectividade não fossem três ingredientes intrínsecos ao próprio exercício da manifestação e do direito de organização, o Ministro da Administração Interna questiona todo este direito, que não é por acaso que aparece blindado na nossa Lei Fundamental, ainda que as décadas actuem como amnésia em muitas mentes.
Em 2012, perigoso não são setenta jovens a manifestar-se, perigosos são uma polícia que agiu com intuitos repressivos e um Ministro que questiona habilmente este histórico direito que nos assiste. Se não tivemos, até hoje, problemas com manifestações em Portugal, porquê muscular a actuação policial? Impedir a livre e pacífica manifestação não é o caminho, em vez de manter a calma, coloca em questão a paz social.
(Declaração de princípio: sou sócio do Sport Lisboa e Benfica desde os quinze anos. Nunca votei Luís Filipe Vieira, porque um tipo que era associado dos três grandes e Presidente do Alverca, não me garante credibilidade. Saramago versou sobre as virtudes do voto em branco e foi essa a arma que usei nos dois últimos actos eleitorais.)
Ano após ano o filme é o mesmo. Ou bem que o Benfica faz uma boa época, ou bem que vêm os arautos da desgraça, quais abutres, debicar o frágil e quase inanimado cadáver. Gente desta, que não contribui com ideias ou debate, que não festeja conquistas e limita o seu benfiquismo a sentenças e alarves saltos para o poleiro quando o barco afunda, repugna-me. Estes são ainda menos fiáveis que o outro que era sócio dos três grandes.
De José Veiga conhecemos o seu portismo, gravado nas paredes da Casa do Futebol Clube do Porto no Luxemburgo. De António Figueiredo, conhecemos a (in)competência de quem soube destruir uma equipa vencedora atirando o Benfica para o período desportiva e financeiramente mais delicado da sua história, do qual ainda agora nos erguemos.
O Benfica é hoje um projecto sólido e credível, com equipa e equipa técnica estabilizadas, com pecursos europeus sólidos ano após ano, com rigor financeiro e constante realização de mais valias desportivas. Não será uma má época a colocar em questão quem tanto tem conquistado, porque uma Instituição como o Benfica é bem mais que resultados, é mística e reputação, e essas, há oito anos, andavam bem perdidas na lama.
Agora é tempo de erguer a cabeça, que domingo há uma Taça a conquistar!
Ainda que provocada, o que não parece ter sido o caso, a Polícia não se pode comportar como um puto na idade do armário, a rebentar de testosterona, e ver cada impropério ou palavra de ordem como uma luta de galos. É para o evitar que é investida da possibilidade de uso da força e demais poderes que a lei lhe confere. Assim começará a importação do caos das ruas gregas para as portuguesas, não pelo lado do indignado Povo mas pelas mãos da Autoridade, a que agride de gravata e a que decide de bastão.
(Por lapso não fiz o upload da fotografia que faz prova do que afirmo, fica agora o acrescento.)
Vira o disco e toca-me a vez de escolher o Blogue da Semana.
Em tempo de eleições achei por bem escolher um blogue político, não daqueles de propaganda previsível e gratuita mas um verdadeiro espaço de reflexão, livre e plural.
Deixo-vos por isso o Ladrões de Bicicletas, um espaço de debate político à esquerda, um exemplo de como as esquerdas devem ser pensadas e vividas.
Boas leituras!