A mágoa de um Republicano


André Couto,

Vitorino Salomé, Hino da Maria da Fonte 

 

Já somo alguns debates República vs. Monarquia. É um confronto que me dá gozo, o salientar das virtudes da primeira e dos defeitos da segunda. Sim, sou assumidamente faccioso, a minha posição permite-o. Um dos argumentos que mais esgrimi foi o contestar da ideia de alguém ser, desde tenra idade, preparado para o exercício de determinadas funções, neste caso de Rei, e da suposição de que isso o tornaria melhor preparado que os demais. Preferia, dizia eu, cidadãos comuns para Chefe de Estado. Alguém que o Povo escolha pelas suas características e que, investido dessa superior confiança em sufrágio universal, aliado ao seu perfil, saiba exercer essas competências respeitando a Constituição, em nome de todas as portuguesas e de todos os portugueses.
Depois de ontem, a somar aos últimos anos, este é um argumento que dificilmente repetirei. O Povo escolheu o seu Presidente em exercício, nada a dizer, mas o falso à República provou que ela, sendo a melhor via, não o é por aquele argumento.

Mais: mostrou que o sistema é falível pois colocou na cadeira um cidadão comum que é um Presidente de facção, que não celebra a República na sua data fundadora e divide o seu Povo, do qual representa, assumidamente, apenas parte. Temos um Presidente que, no fundo, é um hino à Monarquia.
Resta-nos que os Deputados respondam ao seu apelo divisionista, honrando a Maria da Fonte.

Zonas de Emissões Reduzidas – Para variar, uma reflexão a sério


André Couto,

Em Portugal, mal surge uma questão polémica aparece o grupo costumeiro, aqueles que vão a todas, umas vezes por má fé, outras por protagonismo. Vestem roupagens de especialistas e rasgam-nas, de seguida, debitando ignorância e juízos fáceis de vender.

Muito tem sido dito sobre as Zonas de Emissões Reduzidas (ZER), em muitos casos sem olhar ao enquadramento da questão. Em 2008 foi aprovada a Directiva Comunitária n.º 2008/50/CE, que convém ler antes de lançar bitaites, a qual fixou objectivos e parâmetros para a qualidade do ar de forma a reduzir, prevenir e evitar os seus efeitos nocivos para a saúde. As Directivas Comunitárias são de transposição obrigatória para o ordenamento jurídico interno. Foi o que aconteceu com a aprovação do decreto-lei n.º 102/2010, de 23 de Setembro, que determina, para as zonas onde os níveis de poluentes são superiores aos valores limite, a elaboração de planos de melhoria da qualidade do ar. Desde 2001 que Lisboa apresenta concentrações poluentes acima dos valores legais, colocando em risco a saúde pública. Este facto já originou um processo contencioso interposto pela Comissão Europeia, contra o Estado Português, no Tribunal de Justiça Europeu. A CCDR-LVT, a quem o referido decreto-lei atribui papel específico, celebrou com a Câmara Municipal de Lisboa (CML) os Planos e Programas de Melhoria da Qualidade do Ar na Região de Lisboa e Vale do Tejo. Uma das medidas foi a introdução de ZER nesta cidade. Estes planos já conheceram três fases, sendo os resultados positivos. Nos diferentes poluentes avaliados deu-se uma redução da sua emissão em valores entre os 6% e os 16%. Positivo, mas insuficiente, pois ainda acima dos valores máximos estipulados, o que implica a implementação de novas etapas, as quais têm causado mais celeuma.

 

Vários têm sido os argumentos aduzidos nesta polémica. Uns defendem que se deve ir mais longe, apertar com a fiscalização e não excepcionar os táxis, outros defendem que se devem alterar os critérios, sem concretizar bem para quais, ou seja, no fundo, terminar com as ZER. Este segundo caso tem contornos engraçados, pois o PCP pede a manutenção e investimento numa rede de transportes publica, a montante, para depois, a jusante, não aprovar a possibilidade de a CML puxar esta gestão para si. Por outro, é polémico aferir até que ponto as pessoas mais carenciadas se deslocam para o centro da cidade de automóvel. As que conheço, mesmo carenciadas, não têm meios para o fazer, mas isso são outras contas. Nenhum actor político pode ignorar que a União Europeia prevê, para 2030, a probição de circulação de viaturas de combustão convencional no centro das principais cidades. A mudança de paradigma na circulação, contra a qual tanto se luta, já está em curso e é irreversível.

 

A meu ver, a solução encontrada, e há anos em prática, é equilibrada. O cerne da questão são os critérios ambientais, os quais têm obrigatoriamente de ser cumpridos. É triste que quem fala sobre o assunto não informe que veículos anteriores à data limite podem circular livremente desde que aplicados equipamentos homologados pelo IMT (Instituto da Mobilidade e dos Transportes). Já os táxis devem beneficiar de um período extra de adaptação, porquanto constituem postos de trabalho, per si, sendo uma questão de sustento e não de mobilidade. Esta polémica demonstra o quanto urge que a política de transportes públicos, em Lisboa, seja definida, gerida e executada pela CML. Desta forma, seria possível adaptar esta rede de transportes aos constrangimentos das ZER, acertando-a com a política ambiental da cidade. A sua entrega a privados, com diferentes prioridades e preocupações, só levará ao arrastar desta dissonância entre a Carris/Metro e a CML/Cidadãos.

Quem é mais Syriza?


André Couto,

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Começou a disputa sobre quem é mais Syriza. A análise dos factos é fácil: apenas o Bloco de Esquerda pode reclamar ser camarada político de luta reconhecido na Grécia. Ainda assim, em Portugal, não consegue unir o que o Syriza uniu na Grécia. Nos últimos meses muito menos. Para além dos laços de sangue a vitória do Syriza é, também, de todos aqueles que têm lutado por uma mudança política na Europa, não interessando o partido político, até porque muitos são independentes. Esta noite, por exemplo, vibro com o Syriza como amanhã com o Benfica. A mudança na Europa, uma nova confiança e agenda, não é propriedade de ninguém, é de todos os que a desejam, anseiam e lutam por ela há muitos anos.

Boyhood na história do cinema


André Couto,

Boyhood é um filme que não vai andar nas bocas do mundo, é uma produção discreta, refinada, com orçamento baixo, condenada a não gerar grande receita de bilheteira. Mais um motivo para falar dele.

É produto do genial Richard Linklater e segue, em grande medida, o formato já adoptado na trilogia “Before Sunrise“, “Before Sunset” e “Before Midnight“, na medida em que foca o relacionamento humano com uma atenção sobre o amadurecimento das relações e o efeito do tempo. Tempo, aliás, é a palavra chave deste filme, que foi filmado em pequenos períodos ao longo de doze anos, durante os quais a evolução natural dos personagens foi acompanhando a narrativa, como retratado nesta imagem. 

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Não há, assim, cortes artificialmente induzidos, efeitos especiais ou máscaras. A evolução física é a evolução natural que registaram nas suas vidas e isso confere uma envergadura única ao filme. Envergadura também obtida em tudo o que é evolução do clima envolvente, a banda sonora que vai acompanhando hits dos últimos anos, passando de Sheryl Crow a Coldplay, a evolução dos computadores da Apple, começando com um dos primeiros iMacs e terminando com um MacBook, entre muitos pormenores históricos e políticos, que não vou desvendar. Nada ao acaso, garanto.

Implicou isto que, um dia, em 2002, Linklater olhasse para o pequeno Ellar Coltrane, ao tempo com seis anos, lhe adivinhasse potencial como actor, uma evolução psicológica e intelectual no sentido pretendido, falasse com os pais, e lhe colocasse nas mãos o projecto de uma vida: a realização de um filme ao longo de doze anos, até que fizesse dezoito. É fácil imaginar a incerteza e o risco que um projecto destes representou, em termos artísticos e de evolução do pequeno Ellar. O resultado, felizmente para nós, doze anos decorridos, às portas de 2015, é fantástico. Este filme é obrigatório, batendo ao pontos todos os blockbusters que vão dominar o cinema natalício.

Qual o critério para que um filme figure na história do cinema? Orçamento? Audiências? Impacto nos media? Naipe de actores? Podemos discutir isto horas a fio. Sempre me interessou mais a alma com que é realizado e interpretado, a mensagem transmitida, a forma como o drama emerge do écran e nos suga para dentro da história. Boyhood tem isto tudo, encanta ao longo de mais de duas horas e entra na galeria mais restrita de filmes que revisitarei ao longo dos anos.

A ver voar o elefante


André Couto,

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Assim ficou a direita, talvez por efeito da papoila.

Contra todas as previsões o XX Congresso do PS ficou mais marcado pela ausência do suposto, do que pela presença dele. À reunião não faltou energia e novidade, factos políticos que marcarão a agenda e que ofuscaram os wishful thinkings externos.

Assusta, compreendo, que o PS fure o balão de oxigénio alheio erguendo-se em capacidade de união interna e de mobilização da sociedade civil. Um PS que contorna a agenda mediática e ainda afirma, preto no branco, numa semana delicada, que a solução não vai estar à direita, chamando a esquerda a estar presente e a organizar-se para um futuro Governo. Recordo que, em Lisboa, o PS tem maioria sozinho e ainda assim não deixa de governar com os “Cidadãos por Lisboa” e a “Associação Lisboa é Muita Gente”. É o PS que indica o futuro do País e não as circunstâncias vindouras.

Foi também o Congresso em que o não-militante Sampaio da Nóvoa fez subir punhos esquerdos cerrados, os mesmos que cortaram o ar do Pavilhão ao longo de dois dias, como há muito não se via. Até a Grândola foi entoada ao ritmo das vozes e dos corpos a balancearem-se como manda a tradição. Fogo de vista? Não. Afirmam-se bandeiras como o rumo para a Europa, o fim da ideia única de família, o respeito pelas instituições, a dignidade da pessoa humana, na sociedade e no trabalho, e toda a estratégia da “Agenda para a Década”, que vai fazendo o seu caminho, num discurso sustentado onde a despesa encontra cobertura nas finanças e na evolução da economia.

É este o papel que o PS vai desempenhar em Portugal. E veio para ficar. Habituem-se.

De onde jorra o sangue?


André Couto,

Um Cidadão chega ao Aeroporto de Lisboa e é detido, como se estivesse a partir e houvesse risco de fuga. Com devida antecedência a Justiça avisou uma cadeia de televisão para ir filmar o momento. Para além disso uma antiga inimiga do Cidadão, repórter sensacionalista, foi municiada com a suposta matéria do crime, aquela que devia ser um Segredo guardado pela própria Justiça, de forma a criar vários artigos, que narram factos e não suspeitas, em forma de romance, prontos a partilhar pelas pessoas ao raiar do sol. Isto, na pior semana do Governo. Coincidências que todos ignoram olhando para onde lhes apontam. Quando as coisas se passam assim não é o sangue de José Sócrates que está a jorrar. É o da Justiça. É o do País. É o da democracia como a concebemos.

Tudo na mesma, oportunidade perdida!


André Couto,

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A Lei do Orçamento de Estado 2015 prevê aumento das receitas das Freguesias em 1,38%, pouco acima da taxa de inflação esperada. É adiar, novamente, o reforço daqueles que melhor aplicam o dinheiro no Estado, pela proximidade dos eleitos e fiscalização a que são sujeitos. Por terem os problemas e as pessoas à porta, as Freguesias têm melhores condições para responder aos crescentes problemas sociais. Por paradoxal que pareça, o alargamento das competências, com aumento das receitas, seria benéfico para o OE2015. Um euro gasto numa Freguesia equivale a três e quatro euros noutros níveis do Estado. A transferência de competências e seus recursos financeiros permitiria, assim, uma evidente poupança, dentro do espírito presente em Lisboa, quando se passaram competências do Município para as Freguesias, com evidente economia de recursos. Mas as Freguesias são uma pequena parcela da tabela de excel e as vistas são demasiado curtas.
Tudo na mesma, oportunidade perdida.

Delitos poéticos (9)


André Couto,

PEDRO, LEMBRANDO INÊS

 

Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que

me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a

manhã da minha noite. É verdade que te podia

dizer: “Como é mais fácil deixar que as coisas

não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos

apenas dentro de nós próprios?” Mas ensinaste-me

a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,

até sermos um apenas no amor que nos une,

contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:

ver-te mesmo quanto te não vejo, ouvir a tua

voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo

esse que mal corria quando por ele passámos,

subindo a margem em que descobri o sentido

de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo

que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,

de chegar antes de ti para te ver chegar: com

a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água

fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:

a primavera luminosa da minha expectativa,

a mais certa certeza de que gosto de ti, como

gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.

 

Nuno Júdice

 

 

Frederic Leighton, “O Pescador e a Sereira”, 1856-1858

Agitar antes de abrir.


André Couto,

Estranhei, sem questionar publicamente, como se anuncia o voto favorável a uma Moção de Censura ao Governo, de iniciativa do PCP, sem antes se ler o texto. Depois do anúncio feito, quero ver como é que os deputados do PS vão subscrever o parágrafo que versa sobre “o retrocesso económico e social a que conduziu a política de direita executada nos últimos 37 anos por sucessivos governos”.

A calçada ou a vida?


André Couto,

Anda tudo aos saltos com as petições contra a retirada da calçada portuguesa de Lisboa, como se alguém tivesse anunciado isso. O que foi anunciado, e bem, foi a sua restrição, em alguns pontos da Cidade, nos quais ela não represente uma mais valia. Lisboa é terra construída sobre colinas e, nos últimos anos, padecendo de um envelhecimento galopante. Campolide, bem no centro, por exemplo, recebe diariamente centenas de turistas. Vêm pelo Aqueduto das Águas Livres, pelo Corredor Verde de Monsanto ou pelo Palácio da Justiça. Nenhum, no entanto, vem pela calçada portuguesa que ocupa a quase totalidade das ruas. Ali raramente se encontra a alternância entre o calcário branco e o calcário negro, que nos proporciona obras de arte como a retratada na imagem. Ali a calçada é tão só composta por cubos do branco, cujo passar das décadas se encarregou de puxar o lustro e tornar em superfícies aptas à patinagem artística, em especial durante os períodos de chuva. Em Campolide, e na maior parte da Cidade de Lisboa, a calçada portuguesa não é arte nem atracção, é um perigo público, um atentado à segurança daqueles que, mais velhos ou mais novos, na fragilidade física da idade ou na pressa dos dias, nela se espalham e acumulam mazelas e problemas físicos que, em muitos casos, são irreversíveis. Sou testemunha de Vizinhos que se magoaram e que, com outro piso, seriam ainda hoje cidadãos autónomos e com qualidade de vida. Nestas zonas da Cidade não há calçada que valha mais do que a segurança e a saúde das pessoas. Ao limitar a calçada às zonas onde ela é efectivamente apreciada, executada com arte, e alvo da atenção turística de estrangeiros, nacionais ou Lisboetas, a Câmara Municipal está a cuidar das pessoas, e a preservar o património cultural. É lá que ela deve ser conservada e estimulada, nos outros pontos vamos cuidar da segurança e da vida dos nossos.

Por fim sugiro ainda um exame de consciência: quantos daqueles que assinam as petições não estacionam os seus automóveis em cima da sacrossanta calçada, um pouco por toda a Lisboa? É como a petição do Cinema Londres: quantos dos que assinam lá foram nos últimos, vá, cinco anos? Não é só bater com a mão no peito e rasgar as vestes, convém ser consequente no dia a dia…

Blogue da semana


André Couto,

Libertemo-nos das amarras da política e da intelectualidade. A blogosfera também é moda e há muitos e bons blogues neste campo. O Fashion-à-Porter, da Pepa, sim, essa que tinha como sonhos para 2013 ter “uma mala preta da Chanel” e ser muito feliz “namrado” pode, ou não, ser um desses exemplos.

Ao tempo não embarquei no bullying de que a Pepa foi vítima. Se o nosso mundo está como está, não se deve a gente que alimente o sonho de adquirir “uma mala preta da Chanel” de forma honesta, ou ser feliz com o seu “namrado”, ainda que de voz afectada.

Gostei do design, do conceito expresso e senti boas ondas em modelos que apresentou. Surpreendeu-me o humor com que trata alguns temas e admirei como dá cara e corpo em alguns post do seu projecto. Talvez o bom português e o tom de alguns posts surpreendam aqueles que a tenham julgado por cento e vinte segundos de vídeo.
Boa semana para a Pepa e para todos!

Algo de novo à esquerda


André Couto,

Há um novo Partido à esquerda, o Livre.

Não sei se o Rui Tavares tem envergadura política para conseguir ocupar o espaço que reclama, um espaço cada vez mais vazio, fruto de um percurso errático do PS e da indisfarçável inconsequência do BE. Sozinho não conseguirá, mas não me surpreenderia que figuras com mais peso se juntassem nesta cruzada, vislumbrando-se, já, José Sá Fernandes e Joana Amaral Dias. Basta ver que a papoila, símbolo do Partido Livre, é o mesmo do Manifesto Para uma Esquerda Livre, onde participaram insuspeitas figuras, como testemunham os registos. Ao tempo, assinei esse Manifesto, por concordar com as suas premissas, mas a criação de um partido não era uma delas.
A verdade é que há espaço para um CDS à esquerda. Um Partido que radicalize o discurso com parcimónia, que proponha alternativas viáveis, que aponte caminhos e, acima de tudo, que não assobie para o lado chegado o tempo de governar. Sim, “governar” não pode assustar a esquerda além PS. Chamar-lhe-ão uma muleta do PS, talvez, mas se for para o pôr em sentido, influenciar positivamente a sua governação e ajudar na viabilização de soluções, a democracia e a governabilidade País sairão a ganhar. É por isso que a resposta a esta pergunta do David Dinis deve ser afirmativa: é um passo atrás, fomentando a divisão, sim, mas para criar possibilidades de união no futuro.