A calçada ou a vida?


André Couto,

Anda tudo aos saltos com as petições contra a retirada da calçada portuguesa de Lisboa, como se alguém tivesse anunciado isso. O que foi anunciado, e bem, foi a sua restrição, em alguns pontos da Cidade, nos quais ela não represente uma mais valia. Lisboa é terra construída sobre colinas e, nos últimos anos, padecendo de um envelhecimento galopante. Campolide, bem no centro, por exemplo, recebe diariamente centenas de turistas. Vêm pelo Aqueduto das Águas Livres, pelo Corredor Verde de Monsanto ou pelo Palácio da Justiça. Nenhum, no entanto, vem pela calçada portuguesa que ocupa a quase totalidade das ruas. Ali raramente se encontra a alternância entre o calcário branco e o calcário negro, que nos proporciona obras de arte como a retratada na imagem. Ali a calçada é tão só composta por cubos do branco, cujo passar das décadas se encarregou de puxar o lustro e tornar em superfícies aptas à patinagem artística, em especial durante os períodos de chuva. Em Campolide, e na maior parte da Cidade de Lisboa, a calçada portuguesa não é arte nem atracção, é um perigo público, um atentado à segurança daqueles que, mais velhos ou mais novos, na fragilidade física da idade ou na pressa dos dias, nela se espalham e acumulam mazelas e problemas físicos que, em muitos casos, são irreversíveis. Sou testemunha de Vizinhos que se magoaram e que, com outro piso, seriam ainda hoje cidadãos autónomos e com qualidade de vida. Nestas zonas da Cidade não há calçada que valha mais do que a segurança e a saúde das pessoas. Ao limitar a calçada às zonas onde ela é efectivamente apreciada, executada com arte, e alvo da atenção turística de estrangeiros, nacionais ou Lisboetas, a Câmara Municipal está a cuidar das pessoas, e a preservar o património cultural. É lá que ela deve ser conservada e estimulada, nos outros pontos vamos cuidar da segurança e da vida dos nossos.

Por fim sugiro ainda um exame de consciência: quantos daqueles que assinam as petições não estacionam os seus automóveis em cima da sacrossanta calçada, um pouco por toda a Lisboa? É como a petição do Cinema Londres: quantos dos que assinam lá foram nos últimos, vá, cinco anos? Não é só bater com a mão no peito e rasgar as vestes, convém ser consequente no dia a dia…

23 comentários em “A calçada ou a vida?”

  1. Concordo, e mais afirmo:

    Quantos mestres calceteiros acompanharam os trabalhos nos passeios de Lisboa que hoje embaraçam qualquer cidadão nacional?
    Se chamam calçada à portuguesa aos passeios que qualquer um, aí resida ou não, vê em Lisboa então é melhor mudar de calçada.

    Quanto ao Londres: deixem para lá ir os chineses, porra! A cultura tem de vir para a calçada. Portugal tem excelentes praças e jardins que podem ser transformados em espaços de cultura. Haja vontade e disposição para isto! Parece-me que querem transformar o Londres numa outra polémica semelhante ao Monumental: lembram-se!?

    Façam também cinema ao ar livre no verão! Tirem as pessoas dos casulos e transformem-nas em comunidades.

  2. Me caro

    Pra se admirar a beleza e arte da calçada portuguesa não é preciso pisá-la!

    Há várias soluções, mas a CML agradece a achega para mais uma oportunidade PPP – Calçadinha!

    1. A CML não tem esse historial nos últimos anos e esta medida encontra justificação mais do que bastantes no argumentos que aduzi. Obrigado pelo seu contributo.

  3. A Rua da Vitória, em plena Baixa Pombalina e numa zona absolutamente plana, também era extremamente perigosa – dada a sua inclinação, todos os dias lá escorregava alguém. Por isso foi muito bem levantada a calçada à portuguesa e substituída por umas lajes a armar ao fino, onde, quando chove, a água forma um lindo espelho nada perigoso.

    1. Não sou conhecedor dessa intervenção, nem dos seus fundamentos, mas certamente que eles existirão, ainda que possamos não concordar com eles. Nesse caso sugiro-lhe que apresente uma exposição à CML, estou certo que a sua Autarquia prestará todos os esclarecimentos.

      1. Fundamentos e muito pensados? É evidente que sim!
        Mas faz-se alguma coisa em Portugal sem sólidos fundamentos e pujante reflexão?
        Não é por acaso que estamos como estamos, a inveja da Europa.

  4. E os problemas não se resolveriam se se mudasse a calçada de anos a anos, até com as mesmas pedras, sempre que estas se tornassem escorregadias?
    Em terra de gente sensata, e com gosto, a subsitituição de um pedaço de calçada não seria, por si, um problema. Mas estamos em Portugal, país firmemente ancorado na cauda da Europa e onde a falta de gosto campeia e a asneira alastra como nódoa de azeite e onde as maiores barbaridades são sempre justificadas com as melhores intenções.

    1. E onde estão os meios financeiros e humanos para se virar os quilómetros quadrados de calçada que existem em Lisboa? A calçada portuguesa manter-se-á o que vai acontecer é a existência de locais onde não vai possível colocá-la ou onde será substituída, sempre por motivos de segurança…

      1. As outras soluções não são grátis. Podem mesmo revelar-se mais caras.
        Tem estudos económicos?
        E preservar uma profissão em risco – a de calceteiro – e uma arte pode revelar-se vantajoso, um bom investimento.

        1. Não são grátis , não. Podem ser, à cabeça, mais dispendiosas, o que não acontece com todas, mas poupa-se na manutenção de que não carecem em tanta quantidade.
          Quanto à profissão de calceteiro ela não se perde porque, repito, a calçada portuguesa não termina, apenas é limitada.

          1. Quer dizer que 1 – há meios financeiros; 2 – trata-se da costumada selvajaria nova-rica.

  5. A substituição de calçada branca por lajes ou pavimentos em betão cinzento (como já se está a fazer nalgumas zonas da cidade), vai provocar uma alteração do aspeto das ruas que não é pequena. Não sei se sou só eu, mas como lisboeta uma das primeiras sensações que tenho quando chego a outra cidade é de que os passeios estão sujos, e as ruas são mais escuras.
    As soluções económicas têm mau aspeto, as que têm bom aspeto são caras, o que indica que não serão as escolhidas.
    Lisboa não é só as calçadas mas se andarmos a tirar o que lhe é característico com o que é que ficamos?
    Quanto à ideia de que há uma zona nobre para o turismo e uma zona pelebeia para os nacionais é um pouco perigosa. Dá a ideia de que se pretende uma cidade de fachada.

  6. excelente post,muito certeiro. para quem tem outra opinião, e quer perpectiva diferente, disponho-me para uns passeios desde que me acompanhem e paguem o seguro de acidentes pessoais para ver porque razão ateimo tanto em andar nas estrada mesmo como perigo delevar comum carro em cima. e tambem perceberão que apesar de achar a arte interessante preconizo que em muitos sitios se usem os paralelipipedos apenas na area que é mais pisada pelas rodas dos carros.(alias já na Alemanha écomo usam as nossas calçadas que comprama aqui.

  7. Pensei nisto mesmo hoje quando verifiquei que era mais confortável andar no meio da estrada de asfalto do que no passeio.
    Nem foi por razões de segurança.

  8. Tens a minha compreensão e apoio. Eu próprio posso testemunhar que nos últimos anos dei duas quedas dignas dos “Apanhados” quando me dirigia para o quiosque dos jornais. Pasta para um lado, jornais para o outro, e por pouco não acertava em cheio num brinde deixado à beira do passeio por um dos cachorros da vizinhança.

  9. Moramos, desde há 2 anos e meio, na Rua Professor Sousa da Câmara, com os seus palacetes grafitados, intervalados por prédios “Amadora-style”. Antes morei 4 na Mouraria. A calçada está mázinha (e o impacto sonoro dos carros na piso de “paralelo” ainda ultrapassa o dos aviões – mesmo com vidros duplos não foi fácil a adaptação!), mas o Sr. Presidente acredite, que, se me tirar da rua a calçada, despacho a casa e vou para onde houver calçada. Será difícil de perceber para um cidadão que só mora em Lisboa porque, pronto, sendo presidente da câmara dava mau aspecto viver em Belas, mas só é Lisboa onde há calçada, e nós queremos morar em Lisboa. Curvo-me (que remédio) ante a persistência deste país de iluminados, que derrubou paços seiscentistas para fazer praças, arcos romanos para passarem alimárias e torres medievais porque “podiam cair”, e, agora, se assanha contra a calçada que nos ilumina (tanto que, todas as manhãs, me impede de, como eles, olhar em frente).

  10. Totalmente de acordo com o post. A calçada dita “portuguesa” (na verdade, lisboeta) deve ser extirpada. Eu próprio já escorreguei montes de vezes nela, e só por sorte ainda não parti nada em nenhuma das muitas quedas que já dei. A primeira função de qualquer arquitetura é garantir a segurança e o conforto: o efeito decorativo deve ser sempre secundário.

  11. Se somarmos à calçada portuguesa, as folhas que se acumulam nos passeios, temos quedas e mais quedas, e graves muitas das vezes…

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