A azia das mesas fartas


André Couto,

São inenarráveis as críticas que li ao Zero Desperdício, projecto nascido da mais pura Sociedade Civil, pelas mãos de gente como o Comandante António Costa Pereira, a Patrícia Vasconcelos e a Paula Policarpo. A frase da polémica, presente no hino da iniciativa, “o que eu não aproveito ao almoço e ao jantar / a ti deve dar jeito / temos de nos encontrar”, não é, de facto, feliz, e peca por crua. Deve no entanto analisar-se a fundo a ideia e ver que, para além dos seus méritos, a música foi escrita pelo Tim, sim, o vocalista dos Xutos & Pontapés, e interpretada por nomes como Sérgio Godinho, Jorge Palma, Ana Bacalhau (dos Deolinda) e Boss AC. Parece-lhes mesmo que toda esta gente é passível de ser adjectivada daquela forma? Parece-lhes mesmo que um projecto deste cariz, em que os promotores se limitam a fazer trabalho de diplomacia, através ligação entre privados e autarquias, sem qualquer retribuição ou circulação de dinheiro, merecem ver o seu projecto e nomes vilipendiados desta forma?

É com imenso orgulho que a Junta de Freguesia que os meus eleitores me confiaram, a de Campolide, é a primeira a participar neste projecto. Ao invés de encherem caixotes do lixo, alimentos que sobraram ontem do Hotel Ritz, do Vitaminas do Centro Comercial Amoreiras e do Pingo Doce de Campolide, cobrirão hoje a mesa de mais de uma dezena de famílias carenciadas que os vieram buscar durante o dia. Estas famílias terão uma feliz e tranquila digestão, que a azia dos outros não prejudicará.

15 comentários em “A azia das mesas fartas”

  1. Que críticas é que o André viu a este projeto? Eu não vi nenhumas, nem concebo como um projeto destes possa ser criticado, e gostaria de saber o que lhe criticam.

      1. Couto, por mim, fico-lhes agradecida. Sobretudo ao Daniel Oliveira.
        Já dizia a Madonna “pouco me importa se falam mal ou bem de mim. Desde que falem”.
        A eles digo: obrigado por ajudarem a espalhar a notícia desta tão meritória iniciativa.
        Ainda que a vossa ideia fosse enterrá-la.
        Munt´agradecidos, todos nós, que se estão marimbando para nomes e musicas, desde que a coisa resulte, si?

        Elodie Ramos

  2. Parabéns, caro André Couto. Em Portugal prestamos mais atenção à forma das coisas do que ao conteúdo delas; e foge-nos mais facilmente a língua para a crítica destrutiva do que para o elogio.

    Além de que se a coisa não vem do Estado não pode ser boa.

    Não dê ouvidos a quem anda ao nível do chão, não oiça quem não vê ao longe, e continue. O resto é ruído.

    1. Luís, o mérito é da DariAcordar, nós somos meros executores que colocam os meios públicos ao serviço de tão meritória e válida ideia.
      Acho que os políticos não devem apenas centrar-se na sua linha de acção, devem também acarinhar e dar meios a estes projectos espontâneos que nascem fora do seio dos Partidos. Da minha parte continuarei a fazer isto, sim Senhor!
      Um abraço e obrigado pelo seu testemunho! 🙂

  3. Para a esquerda a solidariedade não pode ter estigma – ou seja não se pode usar a palavra caridade-porque isso estraga o projecto de poder que é o estabelecimento de clientela.

  4. Se muitas das mentes “iluminadas” que este País possui se fossem era catar, é que seria algo de positivo.
    O que interessa é que houve gente que não passou fome. O resto são fait divers de marretas que por enquanto ainda têem a barriga cheia, mas pode ser que um dia mude…e pardon my french, who gives a f#ck about slogans..

  5. Leio este post e uns posts ali em baixo leio:
    “Podia viver-se sem um Volkswagen? Podia, mas não era a mesma coisa. Vários foram os modelos do velho ‘Beetle’ ou ‘Carocha’ que fizeram parte da minha vida ao longo dos anos.”
    Excelente, muito bom mesmo.

  6. Muito bem, André. O que importa são os resultados, o resto é acessório. Quem critica talvez preferisse que se continuasse a deitar fora comida de qualidade, mas quem critica não sente falta dela. O problema é esse.

  7. E fazes tu muito bem. Também fiquei revoltada quando ouvi essas críticas, de gente que não faz nem deixa fazer. São mais papistas que o Papa. Pois que fiquem a falar sozinhos.

  8. Concordo em absoluto consigo. Isto é tão evidente como passar os livros e a roupa aos irmãos mais novos. É tão óbvio como dividir os restos da jantarada de Sábado pelos comensais, de forma a que nada se estrague (e garantindo que ninguém tem que cozinhar no dia seguinte, enquanto se debate com uma ressaca monumental…). Mas até consigo perceber as críticas… com o aumento do número de escândalos de corrupção, às tantas, a malta desconfia que as pessoas da organização se abotoem a uma travessa de batatinha a murro, ou (valha-nos Deus!) a um iogurte com pedaços…

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