12-12-12


Ana Vidal,
“A persistência da memória”, Salvador Dali

Acho graça a esta excitação toda em volta do dia 12-12-12, e ao argumento dramático de que é um dia único porque “nunca mais vamos ter um dia igual no tempo de vida que nos resta”. Como se isso não acontecesse todos os dias, como se cada dia não fosse único, sempre diferente de todos os que já passaram e dos que virão. A vida renova-se, não se repete.

Ravi Shankar


Ana Vidal,


É muito estranho – e sobretudo muito injusto – ver por aí a notícia da morte de Ravi Shankar referenciando-o como “o pai de Norah Jones”. Como se ele não tivesse sido um grande músico, mundialmente reconhecido muito antes dela nascer. E como se não existisse Anouska Shankar, a outra filha igualmente ligada à música e muito mais próxima do ambiente musical do pai. A memória das pessoas é curta, ou então é a ignorância que é comprida.

Uma “força-tarefa” suicida


Ana Vidal,

 

Acabo de receber um mail de uma agência literária brasileira (Agência Lis), apresentando os seus serviços em Portugal e convidando autores, ilustradores, revisores e tradutores a tirarem partido deles. Não temos cá no burgo, como é costume em outros países, tradição de agenciamento literário. Enfim, admito que será só uma questão de tempo. Mas… como quer uma agência literária – repito, LITERÁRIA – conseguir convencer alguém com uma apresentação escrita neste português miserável??


“Para a Lis, uma agência literária cumpre dentro do mundo da cultura, e publicação em particular, a função social de levar a autores e editores, tanto nacional como internacionalmente, e para suportar a forma do texto para os leitores. Portanto acompanhar o autor em seu processo criativo e nos envolvemos na divulgação de textos.

Acreditamos na formação de uma força-tarefa composta pela agência, autores, editores e livreiros para os nossos escritores atingir leitores.”

Mais um fim do mundo


Ana Vidal,

“Meus caros companheiros australianos, o fim do mundo está a chegar. Afinal, o calendário Maia estava certo. Independentemente se o fim vier com zombies comedores de carne, bestas demoníacas ou o triunfo total do K-Pop, saibam que vou sempre lutar por vocês, até o final”.

 

Eis o estranho sentido de humor, ou o ainda mais estranho faro político, da primeira-ministra australiana. Os tempos não estão para brincadeiras deste género, e Julia Gillard parece desconhecer que as pessoas tendem a tomar como certas as notícias catastróficas. Assim como parece desconhecer um antecedente famoso: foi com uma destas graças que Orson Welles aterrorizou a América. O alvoroço tem sido tão grande que a Nasa, depois de milhões de telefonemas e mails desesperados, já teve que desmentir, pública e formalmente, possuir quaisquer informações secretas que confirmem a veracidade da célebre previsão Maia.

 

Por cá, a habitual ignorância confunde os Maias com a Maya, que com toda a certeza não se importa nada com a inesperada publicidade. Mas não é a única a ganhar com a histeria geral: as agências de viagens registam picos nunca vistos de viagens vendidas para o México nesta data, e justificam o boom dizendo que as pessoas querem estar perto dos locais sagrados dos Maias quando chegar o dia D, ou porque acreditam que uma força qualquer as livrará do destino fatal, ou simplesmente porque querem morrer perto deles. Ou talvez, acrescento eu, porque acham que o dinheiro não lhes fará falta nunca mais e, assim-como-assim, sempre ganham uma corzinha nas praias de Cancun para a grande viagem.

 

E la nave va, como diria o sábio Federico.

Viva o atrevimento


Ana Vidal,

 

Depois de uma longa pausa, está de volta Um Amor Atrevido, com novo fôlego e a qualidade de sempre. Ler a Sofia é sempre um prazer, e continua a ser um mistério para mim que nenhuma editora, sobretudo as que estão atentas ao que de bom se vai escrevendo na blogosfera, se tenha interessado ainda por esta escrita original, forte e intimista, rica como poucas. Aqui fica um aperitivo, para aguçar a curiosidade a quem ainda não conhece:

“Gostava de ti como és, eu com os tornozelos imperfeitos, os pêlos que escapam à gilete romba, o verniz das unhas lascado. Tu, deus pátria e família e eu a abalar-te a fé, a pisar a bandeira nacional e a arrastar-te os parentes pela lama. Tu, a pose de exilado real a banhos no estoril e eu, a plebeia de um só nome e do apelido comum, aos milhares nas páginas amarelas. Gostava de ti como és, a camisa de algodão às riscas, o relógio antigo do avô que te calhou em partilhas, as botas de montar ensebadas, os sapatos de vela no verão, o perfume italiano e eu, o desodorizante hipoalergénico e o creme nívea nos ombros, as chanatas enfiadas nos dedos, os lenços de seda ao pescoço, a filha de um deus menor enfeitada na loja chinesa.”

Como manter a sanidade mental


Ana Vidal,

 

Podemos cortar os pulsos, é uma opção como outra qualquer e nem sequer muito descabida, nos tempos que correm. Ou podemos – eu vou preferindo fazê-lo, pelo menos enquanto puder – tentar manter a sanidade mental, talvez a ferramenta mais útil à sobrevivência para quem tem princípios (para quem não os tem, é sabido, a caixa de ferramentas é muito mais variada). Sem sanidade mental não há lucidez. E sem lucidez não há soluções, pelo menos para mim.

 

Cada um tem as suas defesas, as suas próprias receitas. Há quem se agarre furiosamente ao futebol ou a uma seita evangélica (a trip é a mesma, o ópio é que muda), quem deixe a casa de família e se mude de vez para as redes sociais, quem desligue a televisão para não ver os telejornais nem os programas da Fátima Campos Ferreira, quem mate o patrão, quem faça hortas ecológicas na marquise ou na rotunda mais próxima, quem abrace o despojamento de uma vida zen aproveitando o facto de ter sido despojado de tudo o que gostava, quem se dedique à pesca, quem encontre refúgio na astrologia, quem se entregue ao prozac.

 

Por mim, escolho o humor. Não falho a Britcom, revejo velhos filmes dos Monty Python e leio as crónicas do Ricardo Araújo Pereira. Estou tão pobre e tão tramada como a maioria dos portugueses, mas ainda consigo sorrir. Entretanto, vou pensando.

 

(Nota: Tudo isto, claro, para quem acha importante manter a sanidade mental. Os mais espertos há muito que a dispensaram.)

Publicidade a quanto obrigas (7)


Ana Vidal,

 

– Bom dia, é do Wall Street Institute?

– Exactamente. Deseja inscrever-se num dos nossos cursos?

– Sim, sim. Eu frequentei um curso aí há cerca de dois anos, com o professor Littlebed, e gostei muito. Agora queria fazer uma pós-graduação, mas só se for com o mesmo professor. Ele ainda dá aulas?

– Hã… não, nada feito. O professor Littlebed ganhou tanto dinheiro com os cursos de kamasutra, que deixou de trabalhar. Mas ficou muito ligado a nós. Agora, para se entreter, é ele que escreve os nossos anúncios publicitários.