Viva o atrevimento


Ana Vidal,

 

Depois de uma longa pausa, está de volta Um Amor Atrevido, com novo fôlego e a qualidade de sempre. Ler a Sofia é sempre um prazer, e continua a ser um mistério para mim que nenhuma editora, sobretudo as que estão atentas ao que de bom se vai escrevendo na blogosfera, se tenha interessado ainda por esta escrita original, forte e intimista, rica como poucas. Aqui fica um aperitivo, para aguçar a curiosidade a quem ainda não conhece:

“Gostava de ti como és, eu com os tornozelos imperfeitos, os pêlos que escapam à gilete romba, o verniz das unhas lascado. Tu, deus pátria e família e eu a abalar-te a fé, a pisar a bandeira nacional e a arrastar-te os parentes pela lama. Tu, a pose de exilado real a banhos no estoril e eu, a plebeia de um só nome e do apelido comum, aos milhares nas páginas amarelas. Gostava de ti como és, a camisa de algodão às riscas, o relógio antigo do avô que te calhou em partilhas, as botas de montar ensebadas, os sapatos de vela no verão, o perfume italiano e eu, o desodorizante hipoalergénico e o creme nívea nos ombros, as chanatas enfiadas nos dedos, os lenços de seda ao pescoço, a filha de um deus menor enfeitada na loja chinesa.”

35 comentários em “Viva o atrevimento”

    1. Mas esse não é um nome comum, aos milhares nas páginas amarelas…

      Houve um humorista (já não me lembro quem era, talvez o Herman) que criou uma personagem caricaturando esse conceito vago e famigerado que dá pelo nome de “tia de Cascais”, chamada Madame Champôlimão. Achei o trocadilho delicioso. 🙂

      1. Tá bem. Mas se for Soares, Silva, Sampaio, nomes comuns, também dá, se lhe acrescentares o nome próprio…

    2. Desculpe, Helena, mas não percebi isso do nome, nem sequer se se referia ao meu nome, ao nome do blogue ou a outra coisa qualquer. Caso tenha sido comigo, adianto que sou como a Floribela: pobre em ouro mas rica em sonhos, e definitivamente plebeia. E não me queixo.

        1. Ao menos não sou uma falsa alegrete tia champô limão (maravilhoso, este Herman, uma no cravo, outra na ferradura. A fortuna sorri-me: vou estar com ele no FDS) 🙂

      1. Cara Vieira do Mar
        Eu sou muito marota e quando li o parágrafo abaixo que transcrevo
        “…Tu, a pose de exilado real a banhos no estoril e eu, a plebeia de um só nome e do apelido comum, aos milhares nas páginas amarelas”,
        meti-me com a Ana, referindo que há apelidos de um só nome que valem muito e mencionei Champalimaud.
        A Aninhas respondeu logo ao meu despique. Eu retorqui. E ela, de novo, também! Gosto de a espicaçar.
        Gostei do texto e até conheço quem eventualmente possa estar interessado em edita-la. Se quiser a Ana da-lhe o meu contacto.

        1. Helena,

          eu bem disse que não percebi bem do que estava a falar, culpa de um tremendo dia de trabalho, com a inteligência reduzida a um décimo. Nem percebi que se referiam ao texto, peço desculpa. Quanto ao publicar, começo agora a pensar nisso a sério, depois de alguns anos de propostas e conversações que não deram certo, se calhar por exigências parvas de alguém que não percebe nada do universo editorial. Peço-lhe que não leia só este texto, leia mais, se tiver disponibilidade e paciência, e então, se gostar de do que leu, genuinamente, voltaremos a falar. Desde já agradecida por se ter colocado generosamente à disposição.

      1. “como o próprio nome do blogue indica“?… Espero que a Ana, nem muito menos a Sofia – da qual me admito, desde já, admirador lírico – se importem mas, passando uma volta pelo blog, fiquei com a sensação de um perverso saudosismo masoquista.

        Irra, que “amor” é tudo menos aquilo; muito menos o atrevido – e já lhe acrescento umas nuances inatamente sádicas; ou egoístas, se preferirem.

        1. Vê-se que é um(a) lírico(a) CeC: então o amor não é egoísta? Quantas e quantas vezes… Quanto ao resto, hummmm, dá que pensar. Mas seria preciso anos de divã para lhe poder responder e saber se tem razão. É capaz, é capaz.

          1. Diz isso com um tempero de teaser? *sorri*
            É que o divã já eu o tenho, e se me for permitida a afronta até o caderno de apontamentos. =P

          2. CeC: perdoe-me o coloquialismo, mas receio que psicoanalizar-me fosse areia de mais para a sua camioneta. 😉 Quanto à sua desilusão, aceito-a, claro, mas não por não ser raw. Na minha perspectiva (que vale o que vale), há no que escrevo coisas muito de “raw”. A auto-depreciação também lá está, claro. A rejeição provoca-a ou revela-a, muitas vezes. Mas atenção, não personalizemos demasiado: há ali muito de mim mas também dos outros. E todos somos diferentes.

        2. CeC, “amor é tudo menos aquilo”? Ora, eu diria antes que “amor é tudo aquilo e muito mais”. Uns pingos de masoquismo, outros de lirismo, outros de perversidade, outros de desilusão, outros de… sei lá. A receita é infinita, enquanto dura.
          🙂

          1. Sem dúvida, Ana, sem dúvida. Apenas me referia à ideia pré-concebida –admito, e acrescento a ‘mea culpa’– que o título do blog me criou; esperava algo raw com todos os encantos e defeitos que tal acarretava.
            Lendo, no entanto, os textos fiquei com uma sensação de auto-depreciação; era apenas por aí a minha desilusão/interpretação.

    1. Sofia, que ideia. Absolutamente nada a agradecer, sabes como gosto do que escreves. E não há nenhuma generosidade, só o gosto que faço em que outros (para além dos muitos que já te lêem) te venham a conhecer também. Porque mereces.

  1. Ana,

    Também já fiz referência ao renascimento do Atrevido. Os textos da Sofia são do melhor que já li sobre este tema, e não só. Saem-lhe das entranhas e passam e ficam nas nossas. Leio-a desde 2004 e fui sempre fã da sua escrita. É controversa? Talvez, mas autêntica e nunca dissimulada – o que, convenhamos, não está ao alcance de todos. Talento e perspicácia aos molhos. Olhe, e perspicuidade também… 🙂

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