Como manter a sanidade mental


Ana Vidal,

 

Podemos cortar os pulsos, é uma opção como outra qualquer e nem sequer muito descabida, nos tempos que correm. Ou podemos – eu vou preferindo fazê-lo, pelo menos enquanto puder – tentar manter a sanidade mental, talvez a ferramenta mais útil à sobrevivência para quem tem princípios (para quem não os tem, é sabido, a caixa de ferramentas é muito mais variada). Sem sanidade mental não há lucidez. E sem lucidez não há soluções, pelo menos para mim.

 

Cada um tem as suas defesas, as suas próprias receitas. Há quem se agarre furiosamente ao futebol ou a uma seita evangélica (a trip é a mesma, o ópio é que muda), quem deixe a casa de família e se mude de vez para as redes sociais, quem desligue a televisão para não ver os telejornais nem os programas da Fátima Campos Ferreira, quem mate o patrão, quem faça hortas ecológicas na marquise ou na rotunda mais próxima, quem abrace o despojamento de uma vida zen aproveitando o facto de ter sido despojado de tudo o que gostava, quem se dedique à pesca, quem encontre refúgio na astrologia, quem se entregue ao prozac.

 

Por mim, escolho o humor. Não falho a Britcom, revejo velhos filmes dos Monty Python e leio as crónicas do Ricardo Araújo Pereira. Estou tão pobre e tão tramada como a maioria dos portugueses, mas ainda consigo sorrir. Entretanto, vou pensando.

 

(Nota: Tudo isto, claro, para quem acha importante manter a sanidade mental. Os mais espertos há muito que a dispensaram.)

28 comentários em “Como manter a sanidade mental”

  1. Eu vou optar por desligar a televisão (e não, nunca consegui ver um programa da Drª Campos Ferreira, também, carácoles!, evito que a coisa chegue a um ponto sem retorno…

  2. Aninhas como te compreendo. Mas, no meu caso, nem sorrio com o RAP. Cansa-me aquele humor rentável e ainda não me recompus da bajulação dos políticos que foram ao programa dele, incluindo o meu descendente.
    Estou mais com o canal de cozinha que me abre a mente q.b. porque, como sabes, as mulheres não se querem muito informadas. Faz-lhes mal…

    1. Olha, lembras bem, esqueci-me dos programas de culinária. Não me fazem rir mas fazem muito bem à alma. E sim, tens razão, ajudam a manter-me razoavelmente desinformada, como convém. 🙂

      Bem sei, o RAP é o menino querido da esquerda e tem o país na mão, e sabe disso. Mas não é por acaso… é inteligente e tem muita graça, duas coisas a que não resisto bem. Há muito que me rendi.

      1. Vês a minha sorte com os programas de culinária? É que não me rendo.
        A inteligência emociona-me quando presta serviço e não se impõe. Quando nos servimos dela para impor uma “certa forma de poder” – ter todos os políticos com medo de serem trucidados, se não se renderem aos putos! – fico bastante indiferente. Mas isso sou eu que tenho mau feitio…

        1. Concordo com a Helena, há muito que o RAP ultrapassou a graça do início de carreira, pelo menos na minha opinião, tornou-se um pouco cansativo o uso do próprio poder que sabe ter, junto de tudo e todos.
          Em contrapartida, a vertente culinária é mesmo muito mais engraçada e programas de cozinheiros de simplicidade extrema, são um convite simpático para os escutarmos.

          Ana, não haverá maneira de darmos algo de comer ao cãozinho da foto?, coitadito, embora mantenha um ar e porte altivo, precisa de urgentemente comer qualquer coisa, a menos que seja algum ” modelo ” da Dior.

          1. Não acho que ele tenha perdido a graça, Cr, acho é que está a ficar preguiçoso e a descansar à sombra dos louros antes mesmo de os ter assegurado como humorista. Mas começo a acreditar que o RAP é muito mais político do que humorista, ou pelo menos que se limita a usar o humor inteligente como instrumento político.

      2. Não afirmaria tão perentoriamente que o Ricardo “tenha o pais na mão”, Ana.
        Ele tem efectivamente uma agilidade, natural ou bem treinada, baseada no conhecimento dos personagens e dos factos a eles ligados, assim como uma visão muito abrangente da política e dos políticos do nosso país, que lhe permite ironizar e por vezes colocar os entrevistados numa posição desconfortável. Na melhor das hipoteses, colocar os entrevistados na posição de auto-críticos, o que é um exercício que muitos nunca terão praticado, mas que, se praticassem, evitariam muitas situações ridículas em que se deixam apanhar.
        No entanto, daí a ter “o país na mão”, vai uma distância considerável. Até porque para alguns, o Ricardo é um camaleão, para outros, um Robin dos bosques betinho. E o facto de lhe acharmos graça e até de lhe atribuirmos um grau de inteligência considerável, percebemos que as suas piadas e críticas, não têm valor interventivo, nem causam efeito regenarador, logo, resultam inócuas e não passam de “comedy”. Uma “comedy” que até certo ponto nos oferece um saborzinho momentâneo de vingança e retaliação contra aqueles que nos palcos da política tantas vezes nos (povo) remetem à qualidade única de votadores e nada mais.
        Esta ideia de poder “ter o país na mão” é ambígua e efémera. Recorde-se do caso do mundial de futebol, quando o seleccionador Luiz Felipe Scolari pediu a todos os portugueses que colocassem uma bandeira nacional à janela. A aderência foi eneorme, mas não total e começou a quebrar, assim que os resultados defraudaram a expectativa.
        Antes do início da nacionalidade que este nosso povo é limitado por uma tenebrosa falibilidade, Ana. Esperamos constantemente por alguém que se destaque, que dê a cara e se evidencie e conduza a liderança, mas assim que esse heroi tropeça a primeira vez, somos nós próprios, os seus venereos seguidores, que o pisamos. A noss História está semeada desses mártires. E ainda hoje esperamos pelo D. Sebastião. Só não apareceu ainda, porque os dias de nevoeiro têm sido fracos…

        1. Sim, tem razão na sua análise. Neste país os ídolos caem depressa, mal revelem o primeiro laivo de barro num pé. Passa-se de bestial a besta em três tempos. Mas não subestime o poder dos humoristas, e muito menos dos que são inteligentes e politicamente interventivos. É o caso do RAP, que, como a Helena diz, mantém os políticos em sentido com medo de serem ridicularizados… uma coisa que os portugueses suportam mal.

          1. Pode crer que não os substimo, Ana. Também não os idolatro nem lhes passo procuração daquilo que considero ser os meus deveres de cidadão.
            E não os substimo, essencialmente por duas ordens de razão. Porque não é nada fácil fazer humor inteligente e sério, apesar de o nosso país e a sua política serem um “chão fértil” em ingredientes, e pelo facto já citado de, do lado de cá do ecrã ou dos palcos, assiste uma alcateia ululante que se num momento aplaude o bobo que vai enfiando o dedo na ferida, no momento seguinte, aplaude o político que dias antes disse que não disse o que disse, depois de ter dito o que disse que não disse.

      1. “Por mim, escolho o humor. Não falho a Britcom, revejo velhos filmes dos Monty Python e leio as crónicas do Ricardo Araújo Pereira.”

        1. Está a querer dizer que eu não pus o Rui na lista dos meus analgésicos contra a crise, é isso? Não vale a pena fazer intrigas, Má-língua. Acontece que eu dei só três exemplos, mas felizmente há mais fontes de humor de qualidade que me vão salvando da bancarrota emocional. O Rui é uma delas, e sabe disso.

      1. Ó Aninha, veja lá se desinfecta a faca antes de cortar os pulsos. Faça isso, não vá apanhar uma infecção que a conduza à morte.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *