O mundo é de quem o reinventa (74)
Ana Vidal,
Na SIC, uma reportagem denominada “Momentos de Mudança” revela-me o universo dos jovens empreendedores portugueses. Grande destaque para um deles (escapou-me o nome, mas, a avaliar pelo sotaque, é um verdadeiro homem do norte), que conta a sua história de sucesso e dá conselhos aos outros com a absoluta segurança dos vitoriosos. Entre mil chavões – decalcados dos discursos dos gurus Jobbs, Krugman ou Gates e devidamente explicados no esterilizado economês de Silicon Valley – o rapaz pára um momento e aventura-se numa ideia própria, ou, pelo menos, expressa na sua própria língua, para responder a uma pergunta da plateia: “Pá, além de proactivo, polifacetado, hands-on, tás a ver?, tens de ser perspicaz. E a tua perspiquidade tem de se ver logo na universidade”.
Eu ainda tentei a via filosófica, Eugénia, juro que tentei. Fiel ao meu Caeiro, temperei-o de uns pózinhos cartesianos, na esperança de um silogismo redentor que explicasse o Amor. Penso, logo existo. Amo, logo não penso. Mas… e a terceira premissa? Ó diacho, a coisa não me correu bem. Enfim, antes que a conclusão me encurralasse na humilhante escolha entre amar e existir, desisti da armadilha da lógica e decidi-me pela poesia. É mais segura. E, já que foi o Vinicius o inspirador desta odisseia, o soneto pareceu-me um bom berço para aconchegar as palavras do Amor. Aqui fica o meu contributo para tão espinhosa tarefa:
BLIND DATE
Traz na lapela do sorriso um beijo
para que a minha pele te reconheça
E deixa que esvoace algum desejo
sobre o teu ombro, como uma promessa
Não faças nada do que combinámos
que eu quero descobrir-te lentamente
num jogo sem passado nem presente
futuro apenas, tal como o sonhámos
Liberta-te de amarras e feitiços
Abre, por hoje, as asas de condor
Farei o mesmo. Seremos noviços
em claustros de silêncio e de esplendor
Filhos de um deus que acolhe os insubmissos
virgens de medos e de toda a dor
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Nota: Os meus convites ficam em casa e são mais do que dois:
gente delituosa, quem quer pegar neste desafio?

A querida Eugénia Tão Balalão faz-nos aqui um convite – a mim e à Gui – que é assim mais ou menos a quadratura do círculo. Mas ela, que é sabida e já viveu muitas vidas, sabe bem que não há nada mais irresistível do que uma boa utopia. E esta é de luxo. Definir o amor… O AMOR? Ó valha-nos Deus. Ó valham-nos todos os deuses do Olimpo e arredores, os maiores, os menores e os que só trabalham em anos bissextos. O que eu queria mesmo, mesmo, era que nunca ninguém tivesse lido o Caeiro, para fazer um brilharete com esta tirada como se fosse minha: Quem ama nunca sabe o que ama. Nem sabe por que ama. Nem o que é amar. Amar é a eterna inocência. E a única inocência é não pensar. Mas não pode ser. Cheira-me que alguém já conhece isto e logo eu, que às vezes ando atrás de plagiadores, havia de dar-me mal com a gracinha.
Enfim, vai ter de ser sem rede. Noblesse delituosa oblige. Resta-nos arregaçar as mangas da alma até Almeida e atirarmo-nos de cabeça (de cão?) ao desafio. Vamos a isso, Gui?
«Seria bom, no entanto, que pensássemos no reduzido valor que têm leis e reformas quando não respondem a uma necessidade íntima, quando não exprimem o que já andava, embora sob a forma de vago desejo, no espírito do povo; a criação do estado de alma aparece-nos assim como bem mais importante do que o articular dos decretos».
(Agostinho da Silva, in Textos e Ensaios Filosóficos)
Refrigera os sãos e cura os doentes. Nada menos. Era o tempo em que ainda podia anunciar-se um produto com estas extraordinárias promessas de paraíso, sem risco de processo em tribunal por publicidade enganosa. Ainda não havia a Deco, as comissões vigilantes, a concorrência feroz que hoje não deixa nenhuma marca pôr pé em ramo verde. Era o tempo em que os números de telefone tinham só três algarismos. A melhor, a mais pura e a mais barata das águas de mesa. A única? A verdade é que dura até hoje e continua de boa saúde. Se não a curar os doentes, pelo menos a refrigerar os sãos.