Os pobrezinhos, tão engraçados


Ana Vidal,

 

No rescaldo do “caso Jonet” e sem querer reabrir as hostilidades de um debate levado à esquizofrenia nos últimos dias, tudo o que li e ouvi sobre o assunto me conduz a uma conclusão bizarra: aparentemente, todos neste país desejam que a pobreza se mantenha. O argumentário usado por ambas as barricadas políticas – a da esquerda e a da direita – para esgrimir tiradas de grande efeito e destilar os mais atávicos ódios de estimação, assenta, surpreendentemente, na mesmíssima premissa:

– A esquerda acusa a direita de querer manter os pobres sempre pobres, para poder brincar à caridadezinha e assim exorcizar remorsos e culpas da sua própria opulência, mantendo ao mesmo tempo uma posição de supremacia e ainda ganhando, como bónus, o orgasmo místico da gratidão eterna daqueles a quem dá uma côdea.

– A direita acusa a esquerda de querer manter os pobres sempre pobres, para poder semear e cultivar neles a revolta que só um corpo faminto e uma vida de privações mantêm acesa, sabendo que o conforto e a barriga cheia não dão votos aos partidos do povo e são inimigos mortais de qualquer revolução.

 

E enquanto todos estes intelectuais se lambuzam em delírios de auto-satisfação devidamente acompanhados de um caprichado amuse-bouche no Gambrinus ou na Bica do Sapato, conforme o humor do momento, os pobres – essas curiosas criaturinhas que dão um jeitão para as estatísticas e justificam todas as teorias – fazem fila à porta de uma instituição humanitária, agradecendo ao céu da boca que ainda haja quem se deixe de conversa fiada e lhes ponha alguma coisa no prato.

Pirataria nos greens


Ana Vidal,

A RTP2 tem estado a passar um documentário cuja sinopse, apresentada no próprio site da RTP, é esta: “A pirataria marítima e as suas adversidades – Documentário contando a história do “boom” da pirataria, junto às cidades costeiras da Somália devastada pela guerra, a operação a bordo de navios de guerra no Golfo de Aden e a situação dos reféns”. O autor da peça jornalística é James Rogan e o título original “The Trouble With Pirates”.


Pois pasmem, senhores. A tradução do título que a RTP2 achou por bem fazer é esta pérola: “O Problema dos Piratas do Golfe“. É assim que aparece no guia de programas do canal e no próprio genérico do documentário. E é este o serviço público que queremos defender.

A primeira pedra


Ana Vidal,

 

Só agora dei pela polémica que vai nas redes sociais sobre as declarações (desastradas na forma, apesar de absolutamente verdadeiras no conteúdo) de Isabel Jonet num programa de televisão. Li as mais descabeladas, maldosas e delirantes teses sobre a personalidade e as motivações da pessoa que, até agora, era aclamada publicamente pela obra a que há vinte anos dá a quase exclusividade do seu tempo. E a polémica só demonstra que a miséria reinante neste país é ainda mais moral do que física. Há fome, sim, infelizmente cada vez mais. Mas, que se lixe. Abaixo a Isabel Jonet! Abaixo o Banco Alimentar! Afinal, que importância tem denegrir uma instituição que alimenta eficazmente, há décadas, pessoas com carências e não tem mãos a medir? O que é isso comparado com o prazer de podermos apontar o dedo acusador a quem faz o que não somos capazes ou não estamos dispostos a fazer? É sempre tão mais fácil criticar. Difícil, difícil mesmo, é arregaçar as mangas e dar o corpo ao manifesto. Ainda mais quando isso implica dar também a cara, arriscando uma exposição sem rede e a possibilidade de se ser desastrado ou infeliz com as palavras, e, pior ainda, a probabilidade de se ser crucificado em praça pública. Continuamos a preferir que nos digam só o que queremos ouvir, que nos enrolem com uma pirotecnia dialética devidamente inscrita no que é social e politicamente correcto. Francamente, envergonha-me muito esta pobreza farisaica que nos faz atirar pedras na primeira oportunidade de vingança, babando-nos de gozo redobrado quando elas atingem quem nos incomoda porque nos pôs um espelho à frente.

 

(Podia dizer muito mais sobre este assunto, mas o que penso está perfeita e claramente expresso aqui.)

Divagações de Domingo


Ana Vidal,

 

É nos dias mais densos que me lembro deles com mais insistência. Corro à cozinha, rendida, para fazê-los e depois saboreá-los devagar, como de uma iguaria rara se tratasse. Deixo que me envolva o aroma inconfundível da manteiga já escura, quente e borbulhante, a pedir pão saloio, cheiro que me remete como poucos para o aconchego repousante da infância. Ficou célebre na família uma frase minha, muito pequena ainda e portanto sem filtros, em resposta à pergunta “quais as coisas de que gostas mais no mundo inteiro?”. Dizem-me que respondi, sem hesitação, “do meu pai e de ovos estrelados”. Prosaico, admito, mas inteiramente sincero. Com a minha mãe só muito mais tarde descobri e cultivei cumplicidades, nessa época ainda não a conhecia. Pertencíamos a mundos diversos que só a maturidade fundiu. O centro do meu era o meu pai porque tínhamos os mesmos gostos, a afinidade era total. Ambos amávamos a natureza, a música, o mar, os livros, a boa comida, o silêncio. Foi pela mão dele que conheci a Poesia, descoberta em puro estado de fascínio, ao sabor dos dedos, nas prateleiras enceradas da biblioteca que ele ia acrescentando sempre com esmero e prazer. Foi na voz dele, grave e pausada, que ouvi aventuras de mareantes e histórias exóticas de paragens longínquas, porque as viagens eram outra das suas paixões. Foi ele, enfim, quem abriu para mim as dobradiças do mundo e me desafiou a querer conhecê-lo cada vez mais. Guardo do meu pai, além de muitas conversas e de outros tantos silêncios partilhados, a memória indelével de um olhar inteligente, ao mesmo tempo sereno e divertido. É de memórias que somos feitos, são elas o plasma que une tudo o que faz sentido em nós. As minhas são-me tão preciosas como o ar que respiro.

 

Mas era de ovos estrelados que vos falava. Não faltarão Freuds de trazer por casa a lembrar-me de que há mil alegorias num ovo, e que muitas delas me serão caras. É verdade. Reconheço nele, sem resistência, o símbolo de um casulo seguro. De um universo completo, perfeito e frágil como é sempre o de uma infância feliz. De um tempo que já não volta, porque as despreocupações de então deram lugar às batalhas da vida real. Seja. Se o cheiro, o sabor e a alegria simples de um ovo estrelado me trazem renovadas forças para essas batalhas, que não me falte nunca esse consolo.

 

Vem isto a propósito deste belo e tocante texto do Pedro, que me lembrou o meu próprio pai. Os posts, como as conversas, são como as cerejas. Ou como os ovos estrelados. E é também por causa disso que aqui vos deixo um delicioso poema, de um querido amigo que comigo partilha o gosto por firmamentos gastronómicos.

 

O COMETA

 

Eu não quero que o cometa se conforme

Com a cauda que parece o condimento

Da panela sem pressão porém enorme

A que o homem chama só de firmamento

 

Eu não quero que a polar indique o norte

Nem consinto que uma ursa tenha o dom

De marcar o meu azar e a minha sorte

E o destino, seja mau ou seja bom

 

Eu prefiro o universo como o ovo

Unidade mãe da forma e pai da vida

Movimento que aparenta ser parado

 

De tão velho vira vivo e volta novo

E à chegada é mais um ponto de partida

Do orgulho racional de ser estrelado

 

(Manuel D’Orey Bobone, in “Se o Encontro me Acontece”)