O mundo é de quem o reinventa (44)
Ana Vidal,
“Linhas de Wellington” é um belo filme, com muitas razões para deixar orgulhosa a cinematografia nacional: excelentes actores em papéis marcantes (ainda que curtos, na maioria dos casos), excelentes a fotografia, o guarda-roupa e a banda sonora, e ainda um momento da nossa História que nos toca particularmente. É o retrato, cru e sem artifícios, de um país esventrado, saqueado e exangue. De um povo em fuga desesperada por estradas e caminhos perigosos, deixando atrás de si casas, bens, uma vida desfeita e nenhuma esperança de salvação. De uma manta de retalhos de nacionalidades em convivência forçada, absurda, impreparada, uma Babel onde só a sobrevivência conta. Da condição humana reduzida à sua dimensão mais primária, a da sobrevivência pura e dura, como sempre acontece quando as regras são as de uma guerra. Da lição de grandes e pequenos gestos, tocantes ou desprezíveis, que em momentos extremos definem um carácter e fazem a diferença na vida de alguém.
Vale a pena ver o filme. Estão muito longe no tempo as circunstâncias que ele descreve, é certo, mas servem bem de metáfora e reflexão para os dias difíceis do presente. Se nada disto o convenceu, caro leitor, tenho um último e decisivo argumento: os escassos mas inesquecíveis minutos em que um magnífico Michel Piccoli faz uma comovente descrição dos portugueses.
A moda da stand-up comedy tomou conta deste país, decididamente. De repente, tornámo-nos um povo de cómicos, debitando piadas em qualquer palco, com qualquer público que se preste a ouvir-nos. Já não bastava as estrelas da canção que todos os pais portugueses julgam ter em casa, e que promovem com a convicção inabalável de chegar a ver lançadas no estrelato internacional as suas pequenas Madonnas, agora descobrimos a nossa veia de comediantes. Sobram-nos os motivos e os temas, é certo, sobretudo no que toca ao humor negro. Mas falta-nos quase sempre aquela dose mínima de sofisticação, de ironia e de subtileza que faz dos ingleses os reis da graça inteligente. Há excepções, evidentemente, mas essas são conhecidas e reconhecidas. A maioria é um desastre.
Na impossibilidade genética de imitar os britânicos, acabamos por cultivar um cruzamento entre a piada revisteira e ordinarota (registo em que éramos bons, pelo menos) com uma confrangedora colagem ao humor que aprendemos – mas não apreendemos – com a infindável repetição de séries americanas. Que também as há óptimas, não duvido. Mas que não nos basta passar a beber café por uma caneca, comer hamburgers com ketchup e andar em casa de meias de lã com sola de borracha para nos transformarmos em genuínos Seinfeld’s, disso também não tenho a menor dúvida. Chega a ser deprimente o desfile de mediocridade de hordas de aspirantes a “cómicos” nos canais televisivos, absolutamente seguros do seu talento, como se a comédia não fosse a mais difícil e ingrata das artes de palco.
O fenómeno é irreversível, e já ultrapassou há muito as fronteiras do razoável. Relato-vos um caso que presenciei, há pouco tempo, numa missa de sétimo dia. Sim, é verdade: a “piadomania” também já chegou à igreja, e manifesta-se nas alturas mais inconvenientes. Perante uma assembleia consternada por uma morte prematura, duríssima, o padre resolveu fazer-se engraçado. Disse, entre outras inacreditáveis patetices, que rezava o terço a caminho de casa, a conduzir: “Uma ave-maria e uma aceleradela, uma santa-maria e um pé no travão”, acompanhando esta descrição edificante com um gesto de braços e um estalar de dedos que lembrava o vira do Minho. Ainda estávamos mal refeitos da surpresa e já outra graçola vinha a caminho, no elogio fúnebre: “O … era um artista. Fez muito do que se pede a um homem para que deixe memória na sua passagem por esta vida. A mim, por exemplo, falta-me tudo: nunca escrevi um livro, nunca plantei uma árvore e nunca tive um filho. Pelo menos até agora… ainda!” E sublinhava o “ainda!” com um sorriso malandreco e um inclinar de cabeça, como a sugerir que tencionava tratar nessa mesma noite de colmatar a lacuna. Toda a homilia que se seguiu foi no mesmo tom de stand-up comedy, perante uma plateia contrita pela total ausência de tacto numa ocasião daquelas.
Devo acrescentar que nada tenho contra o casamento e a sequente procriação dos padres católicos. Pelo contrário, penso que uma conjugalidade autorizada poderia talvez contribuir para contrariar as estatísticas da desertificação de vocações. Mas esta declaração em tom de piada fácil, completamente deslocada do contexto, deu-me vontade de vaiar o padre-humorista ali mesmo, como se faz aos maus actores que mais valia fossem aprender o muito honrado ofício de pedreiro.
Sucesso não é termos muitos parceiros sexuais, é termos aqueles que escolhemos. Ou seja, exactamente aqueles que queremos ter – sejam muitos ou poucos – e não outros. Vem isto a propósito deste post do Pedro sobre… galináceos. É a sempiterna questão da qualidade e da quantidade, da oposição ou da intersecção entre esses conceitos, aplicados ao sexo. Se, por um lado, quanto mais alargarmos o universo exploratório, maior será (diz a mais elementar lógica matemática) o conhecimento e a experiência acumulada, por outro lado, a verdadeira e completa intimidade só se consegue com tempo, muito tempo, dedicado a uma única pessoa. A intimidade é uma conquista lenta, valiosa e insuperável, que vai muito além do sexo propriamente dito. Até que um cheiro, um gesto, um hálito ou uma prega de pele se nos tornem familiares a ponto de serem já “nossos”, muitas luas terão de passar. O resto pode ser óptimo – e é, frequentemente – mas não passa de uma ilusão de intimidade e de sucesso.
Não existem (salvo as inevitáveis excepções para os dois extremos) pessoas “boas” ou “más” na cama. Há, isso sim, “boas” ou “más” conjugações. Basta fazer meia dúzia de perguntas cirúrgicas, individualmente, aos membros de um clássico triângulo amoroso, e as respostas serão, com toda a certeza, contraditórias. Aquele(a) que um(a) descreve como uma “bomba sexual”, pode ser visto pelo(a) outro(a) como um monumento à frigidez. Toda a magia está na conjugação. É claro que a tão aclamada “química” é quase sempre perceptível nas primeiras impressões (ou existe ou não existe, é simples), mas ela é apenas o “abre-te sésamo” para uma caverna de Ali Babá cheia de labirintos insuspeitados, repletos de tesouros que só o tempo – e um bom mapa – poderão revelar.