“Linhas de Wellington” é um belo filme, com muitas razões para deixar orgulhosa a cinematografia nacional: excelentes actores em papéis marcantes (ainda que curtos, na maioria dos casos), excelentes a fotografia, o guarda-roupa e a banda sonora, e ainda um momento da nossa História que nos toca particularmente. É o retrato, cru e sem artifícios, de um país esventrado, saqueado e exangue. De um povo em fuga desesperada por estradas e caminhos perigosos, deixando atrás de si casas, bens, uma vida desfeita e nenhuma esperança de salvação. De uma manta de retalhos de nacionalidades em convivência forçada, absurda, impreparada, uma Babel onde só a sobrevivência conta. Da condição humana reduzida à sua dimensão mais primária, a da sobrevivência pura e dura, como sempre acontece quando as regras são as de uma guerra. Da lição de grandes e pequenos gestos, tocantes ou desprezíveis, que em momentos extremos definem um carácter e fazem a diferença na vida de alguém.
Vale a pena ver o filme. Estão muito longe no tempo as circunstâncias que ele descreve, é certo, mas servem bem de metáfora e reflexão para os dias difíceis do presente. Se nada disto o convenceu, caro leitor, tenho um último e decisivo argumento: os escassos mas inesquecíveis minutos em que um magnífico Michel Piccoli faz uma comovente descrição dos portugueses.

Deve, então, ser esse que me mencionaram na outra noite e que eu julguei tratar-se do “Mistérios de Lisboa”, inspirado no romance de Camilo Castelo Branco, que tenho ainda para ver.
*a tomar nota*
Ainda não vi “Mistérios de Lisboa”, CeC, mas também está na minha lista.
“Linhas de Wellington” segue esta moda recente dos filmes compostos de pequenas histórias soltas, mas no caso faz todo o sentido. Nessa época negra nada tinha continuidade garantida em Portugal. Todo o país estava em retalhos, vivia-se cada dia como se fosse o último. E era, para muita gente.
Convenceste-me, Ana. Vou ver.
Acho que não te vais arrepender.
Que filme tão rasca! Com aqueles meios todos, gente de peso convidada, uma produção com qualidade, resulta um filme sem unidade nenhuma, sem um fio condutor, uns farrapos no fim de contas. Acham que este filme conta bem a história? Parece um capricho de novo-rico mas vazio. Lamentável. Eu, sem formação nenhuma de cinema, era capaz de fazer melhor.
Bem, é a sua opinião. Eu gostei, e de uma coisa tenho a certeza: era incapaz de fazer igual, quanto mais melhor…