Só agora dei pela polémica que vai nas redes sociais sobre as declarações (desastradas na forma, apesar de absolutamente verdadeiras no conteúdo) de Isabel Jonet num programa de televisão. Li as mais descabeladas, maldosas e delirantes teses sobre a personalidade e as motivações da pessoa que, até agora, era aclamada publicamente pela obra a que há vinte anos dá a quase exclusividade do seu tempo. E a polémica só demonstra que a miséria reinante neste país é ainda mais moral do que física. Há fome, sim, infelizmente cada vez mais. Mas, que se lixe. Abaixo a Isabel Jonet! Abaixo o Banco Alimentar! Afinal, que importância tem denegrir uma instituição que alimenta eficazmente, há décadas, pessoas com carências e não tem mãos a medir? O que é isso comparado com o prazer de podermos apontar o dedo acusador a quem faz o que não somos capazes ou não estamos dispostos a fazer? É sempre tão mais fácil criticar. Difícil, difícil mesmo, é arregaçar as mangas e dar o corpo ao manifesto. Ainda mais quando isso implica dar também a cara, arriscando uma exposição sem rede e a possibilidade de se ser desastrado ou infeliz com as palavras, e, pior ainda, a probabilidade de se ser crucificado em praça pública. Continuamos a preferir que nos digam só o que queremos ouvir, que nos enrolem com uma pirotecnia dialética devidamente inscrita no que é social e politicamente correcto. Francamente, envergonha-me muito esta pobreza farisaica que nos faz atirar pedras na primeira oportunidade de vingança, babando-nos de gozo redobrado quando elas atingem quem nos incomoda porque nos pôs um espelho à frente.
(Podia dizer muito mais sobre este assunto, mas o que penso está perfeita e claramente expresso aqui.)


A Senhora do pecado, de todos os pecados por palavras ditas. É tudo uma questão de roupagem. Tal como alguém mal lavado mas bem vestido passa por limpo e importante, quem não se perde na escolha de discurso rebuscado e moldável, é desde logo alvo preferencial a abater, independente da obra realizada e da nobreza de carácter patenteada. Os autocolantes de esquerda que se alimentam mais de discursos inflamados que de actos que mereçam o rótulo, tudo aproveitam para desferir ataque feroz a vítimas inocentes e desprevenidas que lhe vão caindo nas garras. É disso que fazem vida, mas a impunidade de que sempre gozam é culpa inteira de uma sociedade que os os tolera, os imita e até os aplaude enfurecida. E enquanto proliferarem por aí jornalistas que escrevem como cavadores de enxada e fazem desta caneta, e repórteres de pulverizador às costas que não passam de carregadores de microfones dando-lhes complexada cobertura nada irá mudar. Está a apetecer-me um cigarro.
é. o inferno jonet das boas intenções.
Importa-se de explicar, Marta? É que não percebi o seu comentário, sou uma simples.
de boas intenções está o inferno cheio.
Respondo-lhe com o Sartre, que até parece ter criado o aforismo a pensar neste caso: “O inferno são os outros”.
Penso que a Isabel Jonet falou como economista e como “dona de casa”. Não a vi como representante do BA.
Estou 100% de acordo com ela! Há 2 meses que tenho conversas idênticas com os meus filhos.(com pouco sucesso, infelizmente…….). Só não percebo o que se passa nas redes sociais! O que é que ela disse que não seja verdade???????????
Quem não pode – ARREIA! Acabou o tempo de vivermos acima das nossas possibilidades!
Há quem continue a preferir ser enganado, Anónimo. Sugiro o nome de Sócrates para presidir ao Banco Alimentar. Discursos bonitos não faltarão.
Obrigada por este post e pela sensatez. Como sustenta exemplarmente a miséria maior é a moral. E levantar-se da cadeira para ajudar os outros dá trabalho é muito mais fácil ficar sentado a vociferar no Facebook ou no espaço de comentários dos jornais. O maior cego é o que não quer ver.
É mesmo, Helena.
Quantos dos que hoje pedem a cabeça da senhora não fazem declarações similares em prol da ecologia?
Exactamente. Poupar água passa é um crime, se for dito por uma suposta representante da direita salazarenta. Se for dito por um abnegado representante d’Os Verdes, é uma sábia e imperiosa medida.
É por estas e outras que não tenho paciência para poítiquices.
E apenas posso dizer que, quanto a mim, continuarei a contribuir para o BACF, tal como venho fazendo desde há já bastantes anos.
Acho que faz bem. Eu também.
Concordo consigo. Já há umas semanas me tinha parecido que as primeiras pedradas se esgrimiam, por via de uma qualquer outra declaração de Isabel Jonet. Fiquei atenta… E eis que ontem se desencadeia um verdadeiro ataque. O que disse Isabel assim de tão grave? Talvez não tenha sido ultra feliz na forma, talvez o tom tenha sido um pouco irritante, mas é o dela, o da sua circunstância… O que justifica este disparate, quando o BA tem feito trabalho efectivo na área da redistribuição de alimentos? É medíocre, farisaico, desanimador. Fez bem em denunciá-lo, Ana!
Obrigada, Post-it. Acho que já é tempo de acabarmos com esta polémica idiota.
Não vou atrás de Isabel Jonet, nem tampouco dos seus críticos. Mas há algo que julgo importante reflectir sobre a denominada “caridade”.
Sou cristão, católico, e ainda no colo de minha mãe, e de minha família, com especial relevância para as mulheres, fui iniciado no princípio da solidariedade e na resistência a todas as consequências inerentes a esta atitude.
Portugal é efectivamente um país muito estranho, e os portugueses, nós, não muito menos. Há, sem dúvida nenhuma, uma instituição nacional e particular; leva por nome inveja, soberba e idolatria, que é o culto de uma falsa imagem quase sempre focada no umbigo de cada um. Perdoai-me as excepções, que não se constituem como argumento nesta matéria.
Adicione-se a isto uma pitada de falso orgulho e temos a receita ideal para um caldo muito entornado.
Contudo, eu compreendo a razão de tudo isto acontecer. Portugal foi um país amordaçado pela dominação de uma falsa elite que se constituiu como referência moral e chamou a si a também falsa direcção sobre as consciências, pensando mesmo que tinha o poder de decidir sobre como os outros deviam viver. Claro está que se compreende a razão pelo qual ainda se vive uma situação de catarse, que nada mais é que uma descarga emocional provocada por um drama. Como quase sempre acontece a tendência é repetir aquilo que se recebe (ponto final).
Voltemos agora à “caridade”. Pelo que constato, a “caridade”, em regra, mas com excepções, é meio que serve para satisfazer o(a) próprio(a), quase sempre fazendo crer que a sua condição os eleva acima dos outros.
E não raras vezes essa mesma condição, a de caridoso(a), faz pensá-los que suas virtude transformam todos os demais em miseráveis pecadores.
Há uma narrativa no evangelho de Lucas que, se permitem, ilustra muito bem a nossa – dos portugueses – condição e, em simultâneo, serve de trampolim para voos maiores. Aqui vai:
“Ninguém rasga um pedaço de roupa nova para remendar uma roupa velha; porque assim estragaria a roupa nova, e, além disso, o remendo novo não assentaria bem na roupa velha. Também ninguém põe vinho novo em odres velhos, porque o vinho novo arrebentará os odres e entornar-se-á, e perder-se-ão os odres; mas o vinho novo deve ser colocado em odres novos, e assim ambos se conservam. E mais, ninguém que bebeu do vinho velho quer já do novo, porque diz: O vinho velho é o melhor” (fim de citação).
É caso para nos perguntarmos: Será que temos salvação? Cada um responda por si.
O ódio à palavra “caridade” raia o absurdo, se nos concentrarmos no que o conceito verdadeiramente significa e não naquilo em que o transformaram os políticos. Mas compreendo o que diz, este país ainda está muito preso a medos e a preconceitos antigos. Demasiados fantasmas, que não nos deixam crescer sem complexos. É pena.
Sim, Aninha, caridade significa Amor, refiro-me ao Amor Ágape. E quem ama, nunca critica; sofre em silêncio. E quem faz caridade, nunca diz que a faz, muito menos se torna moralista.
Por outro lado, miséria significa carência, por isto mesmo todos somos miseráveis, porque carecemos sempre de qualquer coisa. E mais não digo.
Pode dizer-me, pelo menos, quem é o anónimo que me trata por “Aninha”?
Peço desculpa Foi um diminuitivo usado sem qualquer intenção de infantilizar.
Não tem de pedir desculpa, não me sinto nada infantil por isso. Fiquei só curiosa, porque é um tratamento íntimo e eu não faço ideia de quem é.
Sou um pobre romeiro, Aninha. Dei com o DO por acaso e fiz comentário a um post do Rui Rocha. Aproveitei a imagem que ele tinha postado para dissertar sobre o mito de Sísifo. Vai daí, O Rui (que é “humorista” sério e que “amanda-lhe” bem com as palavritas, tal como a Ana), que não conheço, fez-me um convite para frequentar este salão de chá, café e laranjada. Tudo muito bem confeccionado, com salgadinhos e doces à mistura, sem esquecer os ovos estrelados em manteiga (prefiro o azeite). Sem exclusão dos restantes, que não os li a todos ainda, tenho “botado” umas palavritas, com vídeos à mistura, no seu post (gosto de a ler, e de apreciar os seus diferentes momentos de espírito sempre com muita criatividade); no do Luís Menezes (gosto da sua seriedade, às vezes demasiado austera, mas também de sua lucidez, porque, parece-me, preocupa-se com os outros. Cada um tem seu jeito de amar os outros e a vida), que também não conheço; no do Pedro Correia, que é um intelectual abrangente e, parece-me, muito pouco ligado a espartilhos (veja-se a diversidade de seus gostos literários e musicais, que são bons. Ah, sem esquecer as belle toujour!) etc. etc. etc.
Tudo isto para dizer que sem nos conhecermos e sem sabermos uns dos outros (refiro-me a este diálogo na net) criam-se laços e intimidades que se expressam nas palavras usadas; compreendeu, Aninha?
Olhe, depois desta conversa toda, deu-me cá um apetite que tenho que me atirar a umas lascas, refiro-me às lascas de bacalhau:
http://www.youtube.com/watch?feature=rel mfu&hl=en&hl=en&v=RnZp8i-tHJ8
Bons sonhos, o Natal está próximo e adoro os de abóbora.
Pois continue a aparecer e a dizer de sua justiça, que é muito bem-vindo nesta casa. Vou resistir à tentação de fazer-lhe a pergunta fatídica “Romeiro, romeiro, quem és tu?”, porque me palpita que a resposta nunca será muito diferente da do Frei Luís de Sousa…

Alguém, Aninha. Um surfista do teclado pelos sete mares andarilho. Seu servo.
A crucificação blogueira de Isabel Jonet, a petição pela demissão e os apelos a boicotar o Banco Alimentar são uma imbecilidade.
Parte do discurso de Isabel Jonet (atabalhoado, reconheça-se, mas que não se deve misturar com a sua obra) ilustra o que sempre me pareceu o lado bom, se é que se pode dizer isto, da crise: ela pode forçar-nos a repensar (ou abandonar à força, se não repensarmos) o consumismo acéfalo em que caímos, traduzido, por mero exemplo, na compra maciça de LCDs sempre que há um mundial ou europeu de futebol (e os últimos já foram no decurso da crise).
Dito isto, há duas coisas no discurso de Isabel Jonet que me fazem espécie.
A primeira: LCD ou concerto de rock são uma coisa, bife e radiografia são outra. Não convém misturar. “A paz, o pão, habitação, saúde, educação”, resumiria.
A segunda: Dizer que não há miséria em Portugal, mesmo no contexto de uma comparação com a Grécia, é disparatado. Fome, na minha opinião, é miséria. Se há fome, se há necessidade de um Banco Alimentar (e há, e ele cumpre a sua missão muito bem), então há miséria. Devemos alegrar-nos por não termos (ainda) chegado ao nível Grécia? Com certeza. Contentar-nos? Nem por sombras. Baixar a bitola é perigoso…
Por estranho que lhe pareça, estou de acordo consigo em tudo. Não alinho é em linchamentos de pelourinho, muito menos no de alguém que é útil ao país e faz um trabalho notável, premiado até internacionalmente. Provavelmente por quem tem menos complexos de esquerda.
Ora, e porque me pareceria estranho? Acrescento que a expressão “linchamento de pelourinho” é muito boa para descrever o que se passou. Quanto aos complexos de esquerda, ou à arrogância de parte dela, é deplorável e só prejudica a própria esquerda e o que ela tem de bom.
De acordo. Há valores de esquerda que me são caros, mas estas atitudes cegas não abonam a favor de quem os defende.
Precisamente. Continuo é sem saber porque haveria de achar estranho que concordasse comigo…
Entre as opiniões polarizadas, julgo que existem argumentos válidos de ambas as partes. Por um lado, a malta da esquerda caviar não costuma ser muito voluntariosa, principalmente para questão primárias (como dar alimentação e abrigo). Se for para “levar música, tipo, independente, aos pobres” já é mais provável. Por outro lado, a solidariedadezinha também é condenável. Até sou da opinião que a própria existência de solidariedade só prejudica as pessoas no longo prazo. Porque as pessoas deveriam ter direito a alimentação, e a abrigo, independentemente das suas circunstâncias. A competição pelo consumo devia ser pelas TVs e pelos carros, não por quem tem dinheiro para alimentação e quem não tem. As pessoas estão a trocar por favores aquilo que deviam ter como direitos. E enquanto houver instituições que compensam este desajustamento, as pessoas reclamam menos pelos direitos.
Acha que sim, Cenas? E entretanto, enquanto os direitos não são respeitados, o que sugere que aconteça às pessoas em situação dramática que os reclamam? Que morram de fome, para não se sujeitarem à “solidariedadezinha”? É tão fácil dizer isso quando não se está na pele… que tal perguntar aos próprios se querem virar mártires de uma ideologia qualquer? Parece-me que teria uma surpresa.
O ponto parece-me que aqui não é o trabalho meritório que é feito pelo BA, mas sim a forma de pensar de Isabel Jonet. Podemosdar-lhe o crédito do trabalho que o BA faz, mas isso não invalida que se critique a forma de pensar de Jonet. As suas declarações, e não foram estas as primeiras, pois recordo-me de uma entrevista há uns meses na TSF em que ela descrevia a sua acção no BA como uma caridade aos pobres, representam o modo de pensar que infelizmente ainda existe entre aqueles afortunados que pertencem às grandes famílias que nunca passaram por provações em Portugal. O discurso do “viver acima das nossas possibilidades” curiosamente é sempre feito por quem nunca passou necessidades. Mas, cara Ana Vidal, deixe-me que lhe diga; sabe quem de facto viveu e ainda vive acima das possibilidades de Portugal? São aqueles, como a Isabel Jonet, que por terem tanto se destacam do resto da população. É que por cada individuo com um rendimente de milhões, Portugal necessita de ter alguns milhares a viver no limiar da pobreza.
Curiosa coincidência, Tiago: vejo que conhece muito bem a situação familiar e financeira da Isabel Jonet. Mas deve ser uma homónima, porque esta conheço eu e nunca foi rica, quanto mais ter um rendimento de milhões.
Não Ana, não conheço a situação financeira nem familiar de Isabel Jonet. Não sou seu conhecido e muito menos amigo. O que sei ouvi da própria, numa entrevista na TSF. E mais uma vez afasta-se do ponto principal; não critico a obra realizada por Jonet, mas por isso não sou obrigado a concordar com a forma como ela vê a pobreza e a miséria(será que não existe mesmo em Portugal?). Era este o ponto e a Ana desviou o assunto para uma mera questiuncula de conhecer ou não a Isabel Jonet.
Não é obrigado a concordar com coisa nenhuma, mas seria mais recomendável se fizesse jogo limpo. Quem trouxe para aqui a situação financeira da Isabel Jonet foi o Tiago, não eu. Logo, não fui eu quem desviou o assunto.
Se fizesse jogo limpo? Acusa-me de não fazer jogo limpo? Mas por quem me toma?? Acha que mencionar a condição priveligiada de Isabel Jonet, que lhe permite não trabalhar para ter que pagar contas, é jogar sujo? Que topete! Por mim acabou aqui o diálogo.
Por mim já estava acabado. E se a condição privilegiada de Isabel Jonet lhe permite não ter de trabalhar para pagar as contas, é ainda mais admirável que ela ocupe o seu tempo trabalhando. E sem ganhar um tostão.
A verdade dói…. não fossemos nós um país de individualistas /egoístas que só pensam no seu umbigo e trabalhássemos para o BEM COMUM não estaríamos assim de certeza….bem hajam as pessoas frontais, sinceras, que não são as mais queridas dos outros mas que dormem bem à noite concerteza….porque são verdadeiras e não dizem o que os outros querem ouvir…..numa época em que quase todos se tratam por “queridos” e “queridas” vejo com hipocrisia as criticas a quem luta há 20 anos por uma causa….é tão fácil criticar os outros, mas tão difícil fazer a diferença!!!!
Pois é, Mónica. Pior ainda é vivermos numa sociedade em que a forma vale mais do que o conteúdo.
Sem tirar, nem pôr, Ana. Acho que doí quando nos colocam o dedo na ferida. E a opção foi atacar quando devia ter sido reflectir.
Reflectir? Nah, não há tempo para isso. O facebook e o twitter não se compadecem com reflexões, é preciso reagir logo, muito e a quente.
1. Toda a gente tem direito à sua opinião, e se ela passa por achar terríveis as declarações de Isabel Jonet, tudo bem. Coisa diferente é boicotar o trabalho de toda uma instituição idónea e com provas dadas por causa disso.
É claro que é legítimo e pertinente levantar a questão da representatividade: não se tratam de declarações de alguém anónimo, na esfera privada (nem sequer de alguém público, num contexto privado), e neste caso particular trata-se mesmo de alguém que, enquanto presidente de uma instituição, é sua cara e tem função de ser a sua voz. No entanto tenho de perguntar: quem é que (especialmente no contexto em que vivemos hoje) não se sente no direito de não se sentir representado por aqueles que, efectivamente, são os nossos dirigentes, democraticamente eleitos? Não é exactamente a isso que se tem assistido nas manifestações? Quem é que não se sente no direito de discordar de algumas opiniões do seu partido, religião, clube, ou o que seja, e ainda assim sentir que lhes pertence?
Então porque é que a Isabel Jonet é diferente, e as suas opiniões determinam o boicote ao trabalho da instituição que dirige? (E se há essa total e inquebrável ligação entre uma instituição ou pessoa e o seu corpo de trabalho, então volto a fazer a pergunta de Lourenço Cordeiro, no Complexidade e Contradição: como vai esse boicote ao Pingo Doce? Ou já agora, a recusa peremptória do trabalho de Heidegger ou Céline, com as simpatias que sabe? E o boicote a todas as figuras públicas que já foram apanhadas em público a fazer comentários anti-semitas? Ou do mundo da moda e de todas as modelos que aceitaram ser expoentes de uma noção doentia de beleza? – A lista é infindável e para todos os gostos e inclinações.)
Portanto vou ser pragmática e perguntar antes pelos factos: alguém vê consequências destas declarações de Isabel Jonet no trabalho do Banco Alimentar, na sua missão, corpo dos funcionários, voluntários e na ajuda dada aos seus destinatários? Eu não, portanto continuo a acreditar no Banco Alimentar, e não percebo quem, continuando a achar a instituição idónea, opte pelo boicote.
2. Parece-me que haverá uma quantidade expressiva de gente para quem estas declarações apenas servem para justificar uma ideia que já tinham: de que há alguma coisa intrinsecamente errada com a caridade, tal como é exercida por várias instituições, entre elas o Banco Alimentar, porque quem a exerce está necessariamente agarrado ao poleiro, deseja manter os pobres assim e não tem interesse em colaborar para soluções de longo prazo. Esta generalização preconceituosa tem um nome: má-fé.
E ver a caridade paliativa (chamemos-lhe assim) como um entrave à procura de soluções de longo prazo para a pobreza parece-me uma falácia demasiado óbvia. Porque diabo se parte do princípio que as duas coisas têm de ser incompatíveis? E vamos esperar por essas soluções definitivas para começar a dar ajuda prática a quem precisa?
Absolutamente de acordo consigo, Inês. Mas, como já disse ali atrás, reflectir dá muito trabalho e não há tempo para isso. Disparar a eito é que está a dar.
Às vezes, preciso de uma boa abanadela.
Tão decepcionado e mesmo indignado ando com os partidos do chamado arco governativo que constatar a cretinice e pobreza de espírito da esquerdalha ressabiada, inútil, invejosa, frustrada, madraça, mal-formada que desatou a disparatar a despropósito das (aceito que menos felizes) afirmações de quem dá o seu melhor para ajudar os desamparados me fez caír em mim…
Os ataques vieram de todos os lados, não foi só da esquerda, embora tenha sido orquestrado pela esquerda. Tudo isto é o fado portuguesinho de reagir acefalamente à primeira onda de choque, sem parar para pensar pela própria cabeça. No fundo, a atitude que os mesmos criticam na direita, o que não deixa de ser irónico.
As declarações de Isabel Jonet não foram “um mau passo”. Pelo contrário, são consistentes com as alarvidades que a banqueira alimentar não perde oportunidade de tonitroar, com os modos de quem se dirige à criadagem, sempre que tem tempo de antena. Quem não se lembra das vezes em que a senhora apareceu, pressurosa, ao lado de Ricardo Salgado, para caucionar a cristianíssima visão do mundo que os próceres do BES propõem? Quem não se lembra de páginas inteiras do Expresso, verdinhas de publicidade do banco das “lavagens”(não, não é comida para animais),em que a dra. Jonet perorava sobre as virtudes do capitalismo selvagem e da sua válvula de escape de eleição, a mega-esmola? Etc. Na mundividência jonetiana, a condição de privilegiado é uma condição natural, ungida pelo Além, um destino caucionado por decreto divino, tal como, de resto, a inversa condição de pobre. A justiça não passa da máquina judiciária e a esmolinha, uma oportunidade para exaltação da condescendente benevolência dos “bem-aventurados”.A economia e a organização social devem, pois, nesta prometedora visão, ser deixadas ao brutal jogo de forças do mercado, já que o sobrepujamento da complacência dos felizardos tudo rematará na perfeição das decoradoras de interiores. É neste contexto que surge o banco da dra. Jonet, como ela não se cansa de explicar: o Estado, quer dizer, uma solução estrutural para a pobreza concretizada pelas instâncias representativas de toda a sociedade, só estorva, deve afastar-se para dar espaço à roda livre do banco alimentar e dos bailes da Cruz Vermelha.
Deveria ser óbvio que isto nada tem de cristão. A vocação da Igreja não é a filantropia, aspiração vulgaríssima entre ricos. Pablo Escobar,o famigerado traficante de drogas, também dirigia uma organização sócio-esmoleira, só não consta que lhe chamasse “banco”.A Igreja é depositária da Palavra de Cristo e Cristo veio pregar a pobreza aos pobres, que esperavam outra coisa. Cristo convida-nos, pois, como diz Georges Bernanos, a olharmo-nos na pobreza como num espelho, porque ela é a imagem da nossa decepção fundamental, o lugar do Paraíso Perdido, o vazio dos nossos corações e das nossas mãos. Este vazio que só pode ser preenchido pelo mistério do amor de Deus é, nesse instante, a Cruz, a Caridade. A relação entre quem dá e quem recebe é uma relação de igualdade, mutuamente agradecida através de Deus. A Igreja, guardiã da Palavra, é defensora da honra da pobreza. A vocação da Igreja é a Caridade, que não se confunde com a esmola. A sede e fome de Justiça dos que seguem a Cristo, o Justo, não pode deixar de buscar, como de resto ensina a doutrina social da Igreja, a redenção de toda a sociedade humana. O discurso ideológico que a dra. Jonet não perde ocasião de matraquear, é, no fundo, um discurso irmão dos discursos dos Mitts Romney, Miltons Friedman, Pablos Escobar, ou Ricardos Salgado deste mundo. O discurso político de Isabel Jonet, no qual ela assenta a razão de ser do seu banco alimentar, é um discurso pornográfico e obsceno. Pornográfico, porque é a macacada de uma coisa séria. Obsceno, porque oferece uma“solução” completamente fora de cena para as reais questões que a pobreza suscita. É verdade que perante situações de fome sem solução à vista é necessário acudir urgentemente com comida, e esse trabalho é meritório. Mas defender a desnecessidade de acorrer às raízes da injustiça e propor a normalização da esmola em grande escala como solução social é repugnante. Como católico, considero vergonhoso, revelador da distância a que nos colocámos do Evangelho, que a destrinça entre esmola e Caridade não seja óbvia para os cristãos. Como católico, considero lamentável que o senhor bispo do Porto tenha sobre esta questão apenas a dizer que Isabel Jonet pretendeu somente propor uma reequação da distribuição da riqueza. Precisamente.
Depois do Isaltino, agora é o Pablo Escobar com quem a Isabel Jonet é comparada?? Nada menos?
Temos aqui um iluminado, portanto. Eu diria mesmo um ayatollah do catolicismo, um inquisidor pronto a queimar na fogueira as bruxas capitalistas. E já reparei que anda em cruzada. Cola este mesmo texto em todas as caixas de comentários, a ver quem o publica? Pois teve sorte aqui, mas só publiquei o seu comentário para que se veja até onde pode ir a intolerância e o fanatismo de quem se julga santo.