Divagações de Domingo


Ana Vidal,

 

É nos dias mais densos que me lembro deles com mais insistência. Corro à cozinha, rendida, para fazê-los e depois saboreá-los devagar, como de uma iguaria rara se tratasse. Deixo que me envolva o aroma inconfundível da manteiga já escura, quente e borbulhante, a pedir pão saloio, cheiro que me remete como poucos para o aconchego repousante da infância. Ficou célebre na família uma frase minha, muito pequena ainda e portanto sem filtros, em resposta à pergunta “quais as coisas de que gostas mais no mundo inteiro?”. Dizem-me que respondi, sem hesitação, “do meu pai e de ovos estrelados”. Prosaico, admito, mas inteiramente sincero. Com a minha mãe só muito mais tarde descobri e cultivei cumplicidades, nessa época ainda não a conhecia. Pertencíamos a mundos diversos que só a maturidade fundiu. O centro do meu era o meu pai porque tínhamos os mesmos gostos, a afinidade era total. Ambos amávamos a natureza, a música, o mar, os livros, a boa comida, o silêncio. Foi pela mão dele que conheci a Poesia, descoberta em puro estado de fascínio, ao sabor dos dedos, nas prateleiras enceradas da biblioteca que ele ia acrescentando sempre com esmero e prazer. Foi na voz dele, grave e pausada, que ouvi aventuras de mareantes e histórias exóticas de paragens longínquas, porque as viagens eram outra das suas paixões. Foi ele, enfim, quem abriu para mim as dobradiças do mundo e me desafiou a querer conhecê-lo cada vez mais. Guardo do meu pai, além de muitas conversas e de outros tantos silêncios partilhados, a memória indelével de um olhar inteligente, ao mesmo tempo sereno e divertido. É de memórias que somos feitos, são elas o plasma que une tudo o que faz sentido em nós. As minhas são-me tão preciosas como o ar que respiro.

 

Mas era de ovos estrelados que vos falava. Não faltarão Freuds de trazer por casa a lembrar-me de que há mil alegorias num ovo, e que muitas delas me serão caras. É verdade. Reconheço nele, sem resistência, o símbolo de um casulo seguro. De um universo completo, perfeito e frágil como é sempre o de uma infância feliz. De um tempo que já não volta, porque as despreocupações de então deram lugar às batalhas da vida real. Seja. Se o cheiro, o sabor e a alegria simples de um ovo estrelado me trazem renovadas forças para essas batalhas, que não me falte nunca esse consolo.

 

Vem isto a propósito deste belo e tocante texto do Pedro, que me lembrou o meu próprio pai. Os posts, como as conversas, são como as cerejas. Ou como os ovos estrelados. E é também por causa disso que aqui vos deixo um delicioso poema, de um querido amigo que comigo partilha o gosto por firmamentos gastronómicos.

 

O COMETA

 

Eu não quero que o cometa se conforme

Com a cauda que parece o condimento

Da panela sem pressão porém enorme

A que o homem chama só de firmamento

 

Eu não quero que a polar indique o norte

Nem consinto que uma ursa tenha o dom

De marcar o meu azar e a minha sorte

E o destino, seja mau ou seja bom

 

Eu prefiro o universo como o ovo

Unidade mãe da forma e pai da vida

Movimento que aparenta ser parado

 

De tão velho vira vivo e volta novo

E à chegada é mais um ponto de partida

Do orgulho racional de ser estrelado

 

(Manuel D’Orey Bobone, in “Se o Encontro me Acontece”)

22 comentários em “Divagações de Domingo”

  1. Partilhamos simples gostos gastronómicos e ao que parece livrescos, que os nossos Pais nos incutiram. Feliz coincidência.
    E mesmo a trabalhar, arranja-se sempre tempo para um poema…

    Entonces llega el conocimiento, y allá dentro en el nudo del hombre,
    si todavía existe un centro que tiene nombre y que yo no quiero mencionar;
    si aún persiste y exige y golpea imperiosamente, porque nadie quiere morir,
    puedes sonreír de buena gana, y burlarte, y mirándolo con desdén quiere morir,
    decir con voz muy baja, de modo que todo el mundo te oiga:
    «Amigo…: todo está consumado».

    ( Vicente Aleixandre )

    Obrigado pelo momento, Ana.

    1. Obrigada pelo poema, Fanas. Gosto sempre das suas escolhas.
      Sim, partilhamos gostos simples e, ao que parece, também infâncias felizes. Pode pedir-se muito mais? Acho que não.
      🙂

  2. Acontece-me, exatamente, o mesmo com as torradas. Nos dias mais frios, sem televisão, nem Foxes Lifes, nem nada disso, apenas a manta em cima das pernas – ainda que fosse por breves momentos – a hora mais esperada, principalmente, por mim, que não comia nada, absolutamente nada,era a hora do lanche, era a hora da reconciliação com a comida, não com a comida toda, essa chegaria mais tarde, reconciliava-me com a tolha branca, as chávenas, o açucareiro, os guardanapos de pano – punha a mesa do lanche. ” Uma menina tem de saber fazer tudo”, teria, eu só percebia a utilidade de pôr a mesa para lanchar, ou melhor, para comer torradas. Amarelas de pão “que já não prestava para acompanhar o jantar, pão do almoço”. Algumas ficavam mais acastanhadas, rijas, estalavam quando as trincava. Pingavam manteiga pelos buracos “da alma do padeiro”, besuntavam-me as mãos, a boca, as mangas do vestido e até a pose – felizmente – besuntada de manteiga. Vinham do fogão diretamente para a mesa. “Estão quentes, espera um bocadinho”. Não esperava. Torradas, manteiga e faca caíam-me das mãos. Os gestos eram muito apressados, desajeitados, eu só pensava no momento em que enchia boca com uma enorme fatia de pão a transbordar de manteiga. Estalavam dentro da boca, quando os dentes trincavam a parte mais dura da torrada amarela, ainda não amolecida, nem pela saliva, nem pela manteiga, estalavam os sentidos todos. Os dentes todos a fazer “música” com a torrada que não me deixava comer de boca fechada, ” Tem maneiras”. Não tinha: aquele era o momento em que comer tinha, para mim, algum significado e condescendia ficar sentada à mesa, a abanar as pernas na cadeira alta, enquanto houvesse t o r r a d a s para comer, estalar na boca e, depois, uma a uma comer as migalhas amarelas, castanhas muito escuras, negras que ficavam espalhadas em cima da toalha que momentos antes tinha sido branca. Ah! Aquelas torradas eram o único alimento que eu achava que deveria ser comido. Mastigado. Saboreado. O cheiro era, igulamente, delicioso. Toda a casa ficava a cheirar a torradas. Felizmente, fazia frio, por isso, não era necessário abrir as janelas.Cheiro, cor, estalidos e um sabor que justicava sentar à mesa e comer. Enquanto comia torradas era um exemplo de sossego e tranquilidade. Ainda hoje, sem muito esforço, consigo imaginar o lanche, a torradeira de alumínio e cabo de madeira, que se punha em cima do fogão, ainda hoje consigo imaginar as torradas a estalar e a escorrer manteiga.Quando apareceram as torradeiras – um eletrodoméstico muito útil e sofisticado, que até se podia pôr em cima da toalha branca- as torradas deixaram de ter o mesmo sabor, o mesmo cheiro. Aquele utensílio era perigoso e o traço de luz encarniçada que lá estava dentro era, afinal, um inimigo da minha curiosidade. Continuei a comer e a lambusar-me de manteiga e torradas, mas torrada que é torrada vem do fogão, dentro de um prato de loiça branca, diretamente, para a mesa. Acabei por me habituar e hoje até lancho, pacificamente, uma torrada numa pastelaria, mas terei sempre a nostalgia dessas torradas à hora do lanche.

    1. Gostei de lê-la, Linda. Boas memórias. As torradas bem podiam juntar-se aos ovos estrelados na galeria das minhas melhores memórias gastronómicas. Lembro-me muito bem dessas de que fala, feitas numa grelha de alumínio (e mais tarde de amianto) directamente em cima do bico do fogão. Melhores ainda – inesquecíveis, agora que penso nisso! – eram as que aprendi a fazer quando vivi no Alentejo: uma fatia grossa de bom pão caseiro em que se espetava um garfo que servia de apoio para mantê-la em pé de frente para as brasas da lareira. Depois era só virá-la e finalmente pôr-lhe manteiga fresca, também caseira, de vaca ou de ovelha. Uma delícia.

  3. Emocionante! O ovo, alias, esta na liturgia da Pascoa (bem como o oelho) porque o ovo eh o embiao da vida; e o coelho a rapida proliferacao …dos fieis. Parabens pela apresentacao, digna de um Fialho de Almeida ou um Guerra Junqueira.

  4. Ana, eu adoooooooro ovos estrelados. E não tive uma infância assim tão feliz e despreocupada…

    Uma tia minha de Trás-os-Montes estrelava ovos de pata. Eram irresistíveis, com uma gema enorme. Infelizmente, ela já não cria patos.

    1. Sim, os ovos de pata tinham uma gema enorme e uma clara translúcida, esbranquiçada. Também me lembro dos ovos com duas gemas, que eram um festim para molhar o pão. A província é sempre um precioso relicário de memórias vedado aos urbanos, mesmo que nem sempre sejam tão boas como gostaríamos.

  5. Muito bem, Ana. Da próxima vez, por favor, para mim, coloque sal no ovo e estrele-o em azeite. Quanto às outras iguarias, recomendo. Seria, efectivamente, difícil uma filha não ser apegada ao pai, também.

    1. Os meus (não é o caso deste da imagem) levam sal grosso e pimenta moída na hora. Mas por muito que eu goste e cozinhe quase exclusivamente com azeite, para mim os ovos estrelados são melhores com manteiga.
      🙂

      1. Com excepção para a manteiga, está tudo perfeitíssimo. Estes dias mais densos lá vão criando alguma sintonia. Bons sonhos, tal como os da almofada por cima deste post.

    1. Obrigada, Ivone. Para mim, cozinhar e escrever são duas coisas que se equivalem, por isso as junto tantas vezes. Não resisto a citar Agostinho da Silva, naquele poeminha de que gosto tanto:

      A quem faz pão ou poema
      só se muda o jeito à mão
      e não o tema

      🙂

  6. Os sabores da infância são tantas vezes os mais gratos. Fazem-nos regressar a um território que já perdemos e que tentamos recuperar no prato à nossa frente ou quando reconstruímos uma receita. Beijo, Ana.

  7. Para mim o melhor da blogosfera, cada vez mais, são estes textos que vão desfiando memórias com sensibilidade e subtileza. Sugerem mais do que desvendam mas ainda assim com suficiente partilha de pormenores para estabelecer uma terna cumplicidade entre quem escreve e quem lê. É o caso deste teu texto, Ana. Uma vez mais.
    Como salientas, e eu subscrevo, “é de memórias que somos feitos, são elas o plasma que une tudo o que faz sentido em nós”.
    Belíssimo poema, o que aqui transcreves e me fez ter vontade de ler outros do mesmo autor.
    (E fiquei com vontade também de estrelar um ovo, vá-se lá saber porquê…)

    1. Obrigada, Pedro. Com a pressão permanente da realidade actual e sabendo que a “pasta” do comentário político está bem entregue a quem tem mais apetência do que eu para essas matérias, prefiro escrever sobre temas mais intimistas. 🙂

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