Eu ainda tentei a via filosófica, Eugénia, juro que tentei. Fiel ao meu Caeiro, temperei-o de uns pózinhos cartesianos, na esperança de um silogismo redentor que explicasse o Amor. Penso, logo existo. Amo, logo não penso. Mas… e a terceira premissa? Ó diacho, a coisa não me correu bem. Enfim, antes que a conclusão me encurralasse na humilhante escolha entre amar e existir, desisti da armadilha da lógica e decidi-me pela poesia. É mais segura. E, já que foi o Vinicius o inspirador desta odisseia, o soneto pareceu-me um bom berço para aconchegar as palavras do Amor. Aqui fica o meu contributo para tão espinhosa tarefa:
BLIND DATE
Traz na lapela do sorriso um beijo
para que a minha pele te reconheça
E deixa que esvoace algum desejo
sobre o teu ombro, como uma promessa
Não faças nada do que combinámos
que eu quero descobrir-te lentamente
num jogo sem passado nem presente
futuro apenas, tal como o sonhámos
Liberta-te de amarras e feitiços
Abre, por hoje, as asas de condor
Farei o mesmo. Seremos noviços
em claustros de silêncio e de esplendor
Filhos de um deus que acolhe os insubmissos
virgens de medos e de toda a dor
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Nota: Os meus convites ficam em casa e são mais do que dois:
gente delituosa, quem quer pegar neste desafio?


Muitos parabéns pela foto, é extraordinária! E o poema também. E, já agora, a combinação da imagem e do texto!
Obrigada, JJ. De facto a fotografia é extraordinária, as sombras fazem o efeito de degraus.
Ginja
Um belo Soneto ‘cego’
trai-la-rá
😀
Se o amor é cego, os melhores encontros são os blind dates… 🙂
Um soneto em 2012? Tivesse eu chapéu e já não estaria na minha cabeça…
Tenho um fraquinho por sonetos, patrício. 🙂
Ó Ana tu não paras de me surpreender!
Espero que boas surpresas, Helena. Gostaste do soneto? 🙂
Cara Ana,
Ama, logo não pensa? Diz-nos o contrário com o seu soneto. Como diz a Iris (isto é que é tu cá, tu lá), o amor aprende-se amando e, a menos que se trate de reflexo pavloviano, como aprender sem pensar? Sou claro capaz de defender o estrito oposto quando me passar a ressaca. Entretanto, não gosto da foto, gosto do soneto e envio um abraço
Graça, quem diz isso é o Caeiro e ele nunca me enganou. Mas vejo que temos um gosto em comum: defender uma tese e a sua antítese com o mesmo entusiasmo. O que acho difícil é não se gostar da foto! 🙂
Ana,
é um gosto tê-la no Cão. Merci.
Um beijinho
eugénia
Pas de quoi, Eugénia. É um gosto ser visita de uma casa de tão distinto pedigree. 🙂
Um beijinho!
Num entendi nada, Aninha. Será que este cão tem sarna?
Nada disso, Anoniminho. É um Cão de família, a casa é um luxo.
A poesia é linda.
O amor com asas de condor também. Mas quem se liberta de amarras e feitiços? Ninguém!
Ora, Helena, como se eu acreditasse que tu não sabes o que são momentos de liberdade total (aparente, pelo menos) por causa de um amor… pragmatismo não faz voar, minha linda, e tu és menina de voos amplos, que eu sei. 🙂
Amplos voos sim, mas isso é porque tenho brevet!
LOL. Só tu! Pronto, eu admito: já voei muito sem brevet, mas hoje em dia também prefiro a papelada em ordem…
🙂
Ana, parabéns, o soneto é belíssimo. Se não te importas vamos concordar que discordamos já que o amor pode ser amplo mas é sempre uma amarra, seja com um homem, uma mulher ou até com um filho. Digo eu. Beijos querida
Não discordamos coisa nenhuma, querida. Claro que o amor é uma amarra, mas uma amarra que procuramos como se fosse a liberdade. E uma ilusão de liberdade pode ser melhor do que a própria liberdade, pelo menos nos amores que são eternos enquanto duram. Beijos 🙂
Minha querida
É uma amarra em que se marra sempre…
Nem sempre é barra, nem sempre é farra…
Lindo soneto.
A melhor definição que encontrei para o amor é:
Amar é doar-se.
E quem doa não está permutando ou vendendo, portanto não espera nada em troca.
Abraço.
Tem muita razão, Malu.
Um abraço.
A desafios, não resisto
E aqui vai o meu,
Resposta ao seu,
No mesmo registo.
-/-
Gela o sol porque não vens
Secam as fontes murmurantes
Tolda-se o céu de negras nuvens
Tornam-se as belas flores, aberrantes
Quando surgias a toda a hora
E ficavas comigo abraçada
Fazendo-te sentir abrasadora
Mesmo quando a noite era gelada
E tu em mim te manifestavas
Pujante, repleta de harmonia
E no meu peito te aninhavas
Fazendo a negra noite ficar dia
Eu sonhava, cantava, rodopiando
Aumentavas em mim a alegria
Até ao dia em que te dissipando
Te afastaste de mim, doce poesia.
😉
Mas que alma!
Agradeço-lhe o elogio, cara Helena e retribuo-lho com mais um versinho, que intitulo “Alma”.
Sobeja ainda um crepúsculo,
nessa hora em que o canto das cigarras se tolhe.
Em que o mundo, num suspiro se recolhe e,
a paz tenebrosa do escuro, busca as almas desgarradas, que acolhe.
Sobeja ainda um breve crepúsculo,
quando sentada na varanda, recolhes da memória,
pedaços empoeirados de uma já longa história.
Sonhada e não vivida, num quadro de alegria irrisória.
Sobeja ainda um já quase invisível crepúsculo,
quando exausta, colocas entre as rugas do teu rosto, um sorriso.
E de olhos fechados, embarcas nesse sonho, que te leva ao paraíso.
😉
Ena, Bartolomeu! As suas rimas são muito curiosas. Obrigada pelo soneto-resposta. 🙂
Foi um gosto, Ana!
😉
Ana, permita-me que a trate assim, adorei a foto e o soneto.
Não resisti a escrever a definiçao de amor, que na minha infância/juventude escrevíamos nos nossos cadernos escolares ( sempre nas últimas folhas) com a esperança que as freiras não a descobrissem.
O amor é uma flor roxa que nasce no coração dos trouxas.
Espero que não leve a mal meu comentário. Eram definições ingénuas de jovens que sonhavam em encontrar o seu primeiro amor. Já lá vão várias décadas. Abraços
Obrigada, Maria.
(não encontrei uma flor roxa, mas aqui tem uma azul)
E não se envergonhe da sua definição de amor, que é digna do O’Neill!
Abraço.
Que belo soneto, Ana. Tem que ser musicado. E tem que ser cantado por uma das melhores vozes da música portuguesa.
Obrigada, Pedro. Não me importava nada que isso acontecesse, gosto imenso que musiquem o que escrevo. A música enobrece a poesia.