Blind date


Ana Vidal,

 

Eu ainda tentei a via filosófica, Eugénia, juro que tentei. Fiel ao meu Caeiro, temperei-o de uns pózinhos cartesianos, na esperança de um silogismo redentor que explicasse o Amor. Penso, logo existo. Amo, logo não penso. Mas… e a terceira premissa? Ó diacho, a coisa não me correu bem. Enfim, antes que a conclusão me encurralasse na humilhante escolha entre amar e existir, desisti da armadilha da lógica e decidi-me pela poesia. É mais segura. E, já que foi o Vinicius o inspirador desta odisseia, o soneto pareceu-me um bom berço para aconchegar as palavras do Amor. Aqui fica o meu contributo para tão espinhosa tarefa:

 

BLIND DATE

 

Traz na lapela do sorriso um beijo

para que a minha pele te reconheça

E deixa que esvoace algum desejo

sobre o teu ombro, como uma promessa

 

Não faças nada do que combinámos

que eu quero descobrir-te lentamente

num jogo sem passado nem presente

futuro apenas, tal como o sonhámos

 

Liberta-te de amarras e feitiços

Abre, por hoje, as asas de condor

Farei o mesmo. Seremos noviços

 

em claustros de silêncio e de esplendor

Filhos de um deus que acolhe os insubmissos

virgens de medos e de toda a dor

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Nota: Os meus convites ficam em casa e são mais do que dois:

gente delituosa, quem quer pegar neste desafio?

33 comentários em “Blind date”

  1. Cara Ana,

    Ama, logo não pensa? Diz-nos o contrário com o seu soneto. Como diz a Iris (isto é que é tu cá, tu lá), o amor aprende-se amando e, a menos que se trate de reflexo pavloviano, como aprender sem pensar? Sou claro capaz de defender o estrito oposto quando me passar a ressaca. Entretanto, não gosto da foto, gosto do soneto e envio um abraço

    1. Graça, quem diz isso é o Caeiro e ele nunca me enganou. Mas vejo que temos um gosto em comum: defender uma tese e a sua antítese com o mesmo entusiasmo. O que acho difícil é não se gostar da foto! 🙂

  2. A poesia é linda.
    O amor com asas de condor também. Mas quem se liberta de amarras e feitiços? Ninguém!

    1. Ora, Helena, como se eu acreditasse que tu não sabes o que são momentos de liberdade total (aparente, pelo menos) por causa de um amor… pragmatismo não faz voar, minha linda, e tu és menina de voos amplos, que eu sei. 🙂

  3. Ana, parabéns, o soneto é belíssimo. Se não te importas vamos concordar que discordamos já que o amor pode ser amplo mas é sempre uma amarra, seja com um homem, uma mulher ou até com um filho. Digo eu. Beijos querida

    1. Não discordamos coisa nenhuma, querida. Claro que o amor é uma amarra, mas uma amarra que procuramos como se fosse a liberdade. E uma ilusão de liberdade pode ser melhor do que a própria liberdade, pelo menos nos amores que são eternos enquanto duram. Beijos 🙂

  4. Lindo soneto.
    A melhor definição que encontrei para o amor é:
    Amar é doar-se.
    E quem doa não está permutando ou vendendo, portanto não espera nada em troca.
    Abraço.

  5. A desafios, não resisto
    E aqui vai o meu,
    Resposta ao seu,
    No mesmo registo.
    -/-
    Gela o sol porque não vens
    Secam as fontes murmurantes
    Tolda-se o céu de negras nuvens
    Tornam-se as belas flores, aberrantes

    Quando surgias a toda a hora
    E ficavas comigo abraçada
    Fazendo-te sentir abrasadora
    Mesmo quando a noite era gelada

    E tu em mim te manifestavas
    Pujante, repleta de harmonia
    E no meu peito te aninhavas
    Fazendo a negra noite ficar dia

    Eu sonhava, cantava, rodopiando
    Aumentavas em mim a alegria
    Até ao dia em que te dissipando
    Te afastaste de mim, doce poesia.
    😉

      1. Agradeço-lhe o elogio, cara Helena e retribuo-lho com mais um versinho, que intitulo “Alma”.

        Sobeja ainda um crepúsculo,
        nessa hora em que o canto das cigarras se tolhe.
        Em que o mundo, num suspiro se recolhe e,
        a paz tenebrosa do escuro, busca as almas desgarradas, que acolhe.

        Sobeja ainda um breve crepúsculo,
        quando sentada na varanda, recolhes da memória,
        pedaços empoeirados de uma já longa história.
        Sonhada e não vivida, num quadro de alegria irrisória.

        Sobeja ainda um já quase invisível crepúsculo,
        quando exausta, colocas entre as rugas do teu rosto, um sorriso.
        E de olhos fechados, embarcas nesse sonho, que te leva ao paraíso.
        😉

  6. Ana, permita-me que a trate assim, adorei a foto e o soneto.

    Não resisti a escrever a definiçao de amor, que na minha infância/juventude escrevíamos nos nossos cadernos escolares ( sempre nas últimas folhas) com a esperança que as freiras não a descobrissem.

    O amor é uma flor roxa que nasce no coração dos trouxas.

    Espero que não leve a mal meu comentário. Eram definições ingénuas de jovens que sonhavam em encontrar o seu primeiro amor. Já lá vão várias décadas. Abraços

    1. Obrigada, Maria.
      E não se envergonhe da sua definição de amor, que é digna do O’Neill!
      Abraço.
      (não encontrei uma flor roxa, mas aqui tem uma azul)

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