Bem prega frei Gaspar…


fiodeprumo,

Acabara de ouvir na televisão e ainda acreditei que não fosse verdade. Mas era. Eu própria confirmei, quando resolvi pedir um recibo com número de contribuinte relativo à importância despendida no passe dos transportes. Na bilheteira aonde fui, disseram-me que me teria de deslocar ao Marquês de Pombal ou ao Campo Pequeno, nos próximos cinco dias, para o obter.

Perante a minha indignação explicaram-me que o sistema informático estava envelhecido e as máquinas, com a introdução do IVA, não podiam ser reprogramadas.

Tive um acesso de fúria – eu que até sou serena – e perguntei como é que era possível o governo ter exigido a todos os comerciantes que o fizessem e fosse o primeiro a não cumprir a disposição e, por isso, a praticar uma ilegalidade. A senhora da bilheteira apenas dizia que me compreendia, mas não podia fazer nada.

Mas eu, pelo menos, posso escrever a contar o sucedido e dar-lhe a devida visibilidade. Para que todos aqueles que, como eu, usam transportes públicos, reclamem e obriguem a que a situação seja revista. Entupam com mail’s o serviço responsável por esta anomalia, cuja chefia, decerto, nunca usou nem teve necessidade de usar um passe social. Afinal, bem prega frei Gaspar: faz como ele diz, mas não faças como ele faz…

O CDS caiu.


Luís Menezes Leitão,

 

Parece que o CDS, depois de ter jurado que a taxa sobre pensões era uma fronteira que não podia ser ultrapassada, afinal já permite “excepcionalmente” que as tropas estrangeiras passem a fronteira. O problema é que quando as fronteiras são atravessadas, a ocupação só termina se o ocupante quiser. O CDS passou a ser assim neste momento um partido tomado e por muito que queiram negar o óbvio, nem o talento político de Portas o tirará do sarilho em que se meteu. Todas as suas bandeiras eleitorais como o apoio aos reformados e a defesa dos contribuintes se esfumaram nesse instante. Resta-lhe continuar no Governo até ao fim, sabendo-se que agora que já nem sequer conseguirá evitar o descalabro para onde está a ser conduzido.

 

Torna-se assim claro que neste momento já nem sequer existem partidos na maioria mas apenas um grupo de seguidores da troika, chefiados pelo Ministro Vítor Gaspar, que continuará a pôr e dispor pelo menos até Junho de 2014, altura em que poderá ser seduzido por um cargo de comissário europeu. O tal Ministro “que não foi eleito coisíssima nenhuma” e que diz aos partidos da maioria que não quer saber dos “vossos eleitores”, depois de presidir ao arrasar da economia portuguesa irá assistir ao arrasar do sistema partidário nacional, destruindo os partidos que suicidariamente continuam a apoiá-lo. Resta saber por que razão os militantes desses partidos continuam a aceitar isto. 

E se criássemos mais uma comissão?


Luís Menezes Leitão,

 

Este Governo começa a parecer-se cada vez mais com o grupo de conselheiros de Júlio César no Obélix et Compagnie. Temos um problema para resolver? Cria-se mais uma comissão para analisar esse problema, a qual depois se dividirá em sub-comissões específicas ou então combina-se um almoço para discutir o assunto. Sabe-se que para além de ter que alterar o orçamento de Estado em virtude do chumbo do Tribunal Constitucional, o Governo deveria explicar onde é que vai cortar 4.000 milhões de euros na despesa do Estado. Mas depois inúmeros conselhos de ministros, a discutir não se sabe o quê, em que inúmeros ministros decidiram pelejar uns com os outros, chega-se à conclusão que é melhor deixar o assunto para depois do 1º de Maio.

 

Mas, como não podia deixar de ser, Vítor Gaspar não perde a oportunidade de nomear mais comissões. Já tinha criado o Conselho de Finanças Públicas, que foi um excelente estímulo ao emprego no sector. Em seguida criou a ESAME-Estrutura de Acompanhamento dos Memorandos, com nada menos que 30 elementos, com emprego assegurado até 30 de Junho de 2014, sem prejuízo de prorrogação se o país vier a necessitar de novos resgates. Agora, como se isto não bastasse, surge mais uma Comissão de Normalização Contabilística e uma Unidade Técnica de Acompanhamento de Parcerias Público-Privadas, que acabam de tomar posse.

 

Alguém acredita que assim é possível reduzir a despesa pública? Eu não. Talvez por isso o que este Governo vai anunciar será seguramente a criação da CCDE – Comissão para Cortar na Despesa do Estado, com um orçamento de milhões e centenas de funcionários. E depois os Ministros lá poderão reunir com toda a tranquilidade.

O Governo em ruínas.


Luís Menezes Leitão,

 

O problema deste Governo foi desde o início um e apenas um: uma estrondosa falta de liderança. Tal resulta do óbvio défice de competências que Passos Coelho tem para Primeiro-Ministro, uma vez que lhe falta simultaneamente capacidade política e competência económica. Precisamente por isso o Governo que formou assentava em dois pilares principais: Miguel Relvas para a área política e Vítor Gaspar para as finanças. Um dos pilares ruiu hoje e o golpe no Governo é de tal ordem que Passos Coelho nem foi capaz de indicar o substituto. O outro pilar, já muito esboroado, pode cair amanhã se o Tribunal Constitucional trucidar o orçamento de Estado.

 

Miguel Relvas teve habilidade política suficiente para fazer Passos Coelho chegar a Primeiro-Ministro, mas no Governo tomou decisões completamente erradas. Contratou António Borges como consultor, com carta branca para as privatizações, que se revelaram um desastre. Reduziu a reforma das autarquias a uma extinção de freguesias à vontade dos fregueses. De caminho deixou-se enredar em casos pitorescos como espiões, ameaças a jornalistas, licenciatura, etc. No fim ainda conseguiu pôr as candidaturas autárquicas do PSD em combate com os tribunais, para gáudio dos adversários. Era manifesto que já não trazia qualquer vantagem política ao Governo, pelo que deveria ter saído há muito tempo. Sai agora na pior altura possível nas vésperas da decisão do Tribunal Constitucional, ao que se diz por causa de um relatório sobre a Lusófona que já estaria na posse do Governo há meses. A ser assim, é provável que arraste igualmente Nuno Crato na queda.

 

Vítor Gaspar é igualmente um caso perdido como Ministro das Finanças, como aliás se viu desde o seu primeiro discurso, quando anunciou impostos extraordinários em lugar de cortes de despesa, tendo prosseguido nessa senda, contra tudo e contra todos. Amanhã se verá se o Tribunal Constitucional lhe permite manter um mínimo do inacreditável Orçamento de Estado que concebeu, ou se o caso já não tem remédio, tendo que arrumar igualmente as pastas.

 

A ruína deste Governo tem, no entanto, apenas um culpado: Passos Coelho. Foi o seu défice de coordenação e supervisão que deu carta branca a Gaspar para inventar as medidas económias mais loucas possíveis, como a TSU, e permitiu a continuação de Miguel Relvas no Governo até ao limite do insustentável. Um Primeiro-Ministro que coordenasse efectivamente os Ministros nunca teria deixado as coisas chegarem a este ponto. É por isso que não me alegra nada a demissão de Miguel Relvas, aliás substituído pelo vazio absoluto. Ficaria satisfeito era com a demissão de Passos Coelho. É tempo de a maioria arranjar outro Primeiro-Ministro. Se não, será a oposição a fazê-lo. 

Tiro no porta-aviões.


Luís Menezes Leitão,

 

O desastre absoluto de Gaspar era visível desde o primeiro momento em que tomou posse. Mas a culpa não é dele, e sim de quem o escolheu para Ministro das Finanças. Era perfeitamente visível que a política de aumentar impostos e cortar salários em período recessivo só poderia piorar a situação, como qualquer estudante de Finanças Públicas sabe. Mas o Ministro das Finanças não é o senhor absoluto do Governo, devendo ser enquadrado pelo Primeiro-Ministro e até pelo próprio Presidente da República. Ora, o Primeiro-Ministro demonstrou-se totalmente incapaz de exercer qualquer controlo político sobre o Ministro das Finanças, deixando-o a pilotar um navio cada vez mais desgovernado. E o Presidente da República ficou de fora sem dar qualquer indicação, parecendo querer assistir de longe a este naufrágio anunciado.

 

Neste aspecto, a fiscalização sucessiva do orçamento por Cavaco Silva foi um presente envenenado para o Governo. Se tivesse realizado uma fiscalização preventiva, o orçamento seria declarado inconstitucional em 20 dias, mas o Governo ainda poderia corrigir a situação. Quase três meses depois, quando o barco já metia água por todos os lados, o chumbo pelo Tribunal Constitucional tem o efeito de um tiro no porta-aviões. Agora já não é só Gaspar que tem que ir para casa, mas sim Passos Coelho. Os partidos da maioria têm que arranjar rapidamente uma nova solução de governo que evite uma tragédia nacional. A meu ver, já há muito tempo que o deveriam ter feito.

 

Não era má ideia…


André Couto,

 

… que Vítor Gaspar viesse tranquilizar a malta e dizer que, caso o acórdão do Tribunal Constitucional venha no sentido que não deseja, a solução não passará por inventar um plano B, que confessou não ter, à base da receita usada em Chipre. Digo eu, só para não desatar tudo a levantar os poucos cobres que restam.

O problema das previsões de Gaspar


Rui Rocha,

Não, lamento mas não. O problema não está em Vítor Gaspar ter-se enganado. Está em Vítor Gaspar ter tentado enganar-nos. O Orçamento de Estado para 2013 era, evidentemente, uma falácia. Quem quer que tivesse um mínimo de destreza no manuseamento de uma calculadora de bolso sabia disso desde Outubro de 2012. Mais difícil é perceber quais os propósitos de tal embuste. É que era também evidente, já então, que o tempo que o governo ganharia com essa manobra de diversão seria pago, à frente, com a perda total da pouca credibilidade que lhe restava. Já no caso particular de Gaspar, a situação é ainda pior. O ministro das finanças já nem como meteorologista se safa. Os meteorologistas falham previsões, é certo. Mas não usam previsões deliberadamente erradas para tentar mudar o estado do tempo.

Reflexão do dia


Pedro Correia,

«Eu ouvia ontem o ministro das Finanças. Aquilo parecia-me o administrador financeiro de uma grande empresa falida a ler um relatório burocrático e administrativo, sem soluções e sobretudo sem uma mensagem de esperança. Um director-geral não fazia diferente. Mas um ministro tem que ser muito mais do que um director-geral.»

Marques Mendes, esta noite, na estreia do seu comentário semanal, no Jornal da Noite da SIC

Um falhanço colossal.


Luís Menezes Leitão,

 

Este discurso de Vítor Gaspar deveria ter terminado com uma simples frase: “Por tudo isto apresento obviamente a minha demissão do Governo“. Eu não compreendo como é que um Ministro das Finanças tem cara para continuar como se nada se passasse depois de ter falhado a previsão da recessão em 130% (de 1% para 2,3% do PIB), de andar a brincar a privatizações que não têm qualquer impacto no défice, que assim se fixa em 6,6%, e de gerar um desemprego que vai parar aos 19%. Quanto aos brilhantes resultados da avaliação, estamos de facto no “bom caminho“. Tanto é assim que a troika vai reter a próxima tranche do empréstimo até ver um programa sério de corte na despesa, programa esse que deveria ter sido apresentado nos primeiros dias de posse deste Governo. Devem achar que somos todos parvos.

 

Em qualquer outro país democrático, depois disto, ou o Primeiro-Ministro demitia o Ministro das Finanças ou era o Primeiro-Ministro que tinha que se demitir. Mas como o Primeiro-Ministro não tem autoridade sobre o Ministro das Finanças, e no Parlamento está colocada uma legião de fiéis como deputados, lá irá continuar tudo como se nada se passasse. Iremos assim assistir a mais conferências de imprensa surreais enquanto o país se afunda. Até quando?

Só contas de diminuir


fiodeprumo,

 

Eu gostava de ser inteligente. Até agora, agradecia ao Altíssimo os dons que Ele me havia concedido. E aos meus queridos Pais e a mim própria o esforço que havíamos feito nesse sentido.

Pois bem, estava errada. Acredito que não seja estúpida – seria desastroso chegar a essa conclusão nesta idade -, mas não sou tão inteligente como pensava. Pus o patamar muito elevado e agora, catrapus, caí na realidade.

Qual realidade perguntarão os que me lêem? A do Dr. Vitor Gaspar, pois então. Quem mais havia de ser? Explico-me.

Quando recebi o documento relativo à pensão do Banco de Portugal, de Janeiro, não quis olhar para ele. Pareceu-me ter mais rúbricas do lado do débito, mas morreram-me nesse mês vários amigos e eu “dei-me” um tempo de serenidade. Mas Gasparito não mo deu, essa é que é essa.

De facto, quando hoje recebi uma carta da Segurança Social, dei um pulo. O choque foi tal que reuni, num ápice, os papeis todos – são poucos, infelizmente -, com a estranha sensação de que fora tributada duas vezes, uma em sede do Banco e outra em sede da chamada Solidariedade Nacional.

Passei a tarde inteira de uma sexta feira chuvosa a refazer cálculos. Nenhum batia certo com o que me haviam tirado. Como não fui aluna do Ministro das Finanças, cuja capacidade previsiva é muito pior do que a minha, tive que chegar à trágica conclusão de que, só sendo mesmo muito inteligente, é que os nossos cálculos coincidiriam. Ora como tal não aconteceu, não só fiquei sem o dinheiro, como vi substancialmente reduzida a minha massa cinzenta, ou, pelo menos, aquela que eu julgava ter.

Conclusão, nestes tempos perigosos, nunca mais me vou “dar” um tempo, porque, se o fizer, já sei o que acontece: vão-me ao bolso! 

 

Tragam-nos sol e dinheiro


fiodeprumo,

Para amenizar a política nacional, aqui fica um presente, sob a forma de vídeo, no dia da primeira ida aos mercados com que nos “surpreendeu” o Ministro das Finanças, pouco dado a este tipo de surpresas. Pergunto: se este retorno estava previsto para Setembro, será que  o ministro técnico está a virar político?!

Os melhores filmes de 2012 – parte 3


enlil,

“O povo português revelou-se o melhor activo de Portugal”

Qualquer médico que vá à televisão predispõe-se a dizer coisas como “foi diagnosticada no paciente uma patologia de índole cutânea” só para complicar a frase “o doente tinha comichão”. Quando ele assim fala não é a nós leigos e abstractos que se dirige mas aos seus colegas de serviço que não o levariam a sério se se exprimisse doutro modo. Um dia numa viagem com um emérito gestor ele propôs que “consolidássemos as malas num dos quartos” antes de fazer check out no hotel. Pobre prisioneiro do seu linguajar, que já dele não se libertava mesmo em situações profanas.

A máxima em epígrafe, proferida com o crispado e possível enlevo, como o maior elogio ao seu alcance, é toda uma autópsia da mentalidade reduzidíssima do sr. Vítor Gaspar. Adeus ó personalismo cristão, sus ao humanismo existencialista, arreda-te ó cidadania iluminista; pela voz do Ministro passámos a existir meramente na coluna dos activos na folha de excel, como mais uma variável no cálculo.

 

Os melhores filmes de 2012 – parte 1


enlil,

 

A cerviz dobrada, o olhar abaixado, a pose mendicante, foi deste modo que o crespo meridional se dirigiu ao seu equivalente alemão a pedir-lhe pela mercê de deus. O germano tem rugas na testa como se tivesse sido abordado por um pedinte famélico à entrada de um restaurante de luxo. Nem se levanta nem olha de frente – enfadado.

O nosso murmura “that’s much appreciated” querendo dizer “obrigado” em idioma técnico.

Isto é o que se vê, mas na verdade trata-se de uma emboscada.

O manhoso do tuga foi lá pedir batatinhas, na crença de que o otário se descairia. Este, habituado ao escrúpulo dos media alemães, e julgando, como é próprio deles, que todo o mundo se pauta pelas suas regras, murmurou umas vacuidades para despachar o inconveniente, ignorando que estava uma câmara a compromete-lo.

Ficaremos sempre por saber o grau de ressentimento e de má vontade que desta cena em diante terá havido da parte de Wolfgang Shauble nos assuntos referentes a Portugal.

Há lá melhor exemplo de como nos dispomos a sermos vistos no mundo.

Os meninos do coro.


Luís Menezes Leitão,

 

 

Em Portugal há uma frase emblemática e bastante realista que se limita a dizer: “Ou comem todos ou haja moralidade”. É por isso evidente que a partir do momento em que são dadas condições especiais à Grécia, Portugal deve imediatamente beneficiar de idêntico tratamento, como aliás reconheceram logo Jean-Claude Juncker e Vítor Gaspar. No entanto, como a Alemanha está empenhada em tratar a Grécia como um caso particular em ordem a abrir o mínimo possível os cordões à bolsa, lá irão apenas os gregos beneficiar de algum alívio enquanto Portugal ficará a penar com um dramático e provavelmente mortal aperto de cinto em 2013.

 

Isto só por si não deveria ser motivo de espanto. O espanto é, no entanto, a forma como políticos que deveriam defender com convicção os interesses dos que os elegeram se transformam em meninos do coro, mal Wolfgang Schäuble exprimiu a sua posição, passando todos a entoar a nova canção. Jean-Claude Juncker disse que tinha sido apanhado num canto escuro por uns perigosos jornalistas portugueses, balbuciando questões incompreensíveis para ele. Vítor Gaspar desdisse as suas próprias palavras, acusando os jornalistas de quererem simplificar questões complexas. Passos Coelho quer-nos fazer crer que Portugal foi muito elogiado por Schäuble, quando este recusou dar-lhe as condições da Grécia. Marcelo Rebelo de Sousa também veio dizer que considera irrealista Portugal beneficiar dessas mesmas condições da Grécia, sem explicar se é mais realista apostar no Orçamento para 2013. E agora até Durão Barroso, que se julgava ser  Presidente da Comissão Europeia, também veio alinhar obedientemente com Schäuble, pedindo a Portugal que não peça condições idênticas às da Grécia. A única voz desalinhada deste coro parece ser Cavaco Silva, mas não sei por quanto tempo.

 

É inacreditável ver políticos portugueses e europeus transformados em meninos do coro a entoar colectivamente a voz de Berlim. Não haverá em Portugal e já agora na Europa alguém que defenda coerentemente uma posição própria e não se limite a ser his master’s voice?

Falem-me a cantar


Rui Rocha,

A equipa de Passos Coelho não ficou indiferente aos acontecimentos dos últimos dias. Embora no executivo todos estejam convencidos de que o trabalho realizado é até agora excelente ou mais, também se reconhece que existe um pequeníssimo problema de comunicação (não mais do que um grão de areia, em todo o caso). E, se é certo que os portugueses são os principais responsáveis pela deficiente interpretação que têm atribuído às palavras absolutamente cristalinas que os governantes têm vocalizado, o certo é que estes não prescindem da possibilidade de contribuir para melhorar o processo comunicacional com os governados, libertando a respectiva flauta interior.

 

Assim, e em concreto, a partir de agora o primeiro-ministro Passos Coelho falará sempre a cantar:

 

Entretanto, e por seu lado, o ministro Vítor Gaspar será substituído nas intervenções públicas por um novo assessor de comunicação com dom de palavra. E boa imagem:

Clarinho, não?

Apesar de te sentires tratado como um peru na engorda, é importante saberes que não há razões para isso


Rui Rocha,

 

Esta coisa da divisão de metade dos subsídios em duodécimos faz-te sentir como um peru de aviário na engorda? Pois fica sabendo que é completamente abusivo afirmar-se que a preocupação do governo com o teu rendimento líquido mensal  é semelhante ao desvelo que o criador de perus dedica às aves da sua criação. É certo que, num e noutro caso, sabemos como as coisas terminam. Na criação de perus, com o abate. Na relação tributária, com a execução orçamental (ao que parece, por motivos humanitários, em matéria de imposto sobre o rendimento acabaram com os abatimentos). É verdade, também, que o método é semelhante. O criador de perus divide o alimento em rações. Vítor Gaspar dilui afanosamente os subsídios em duodécimos. Todavia, o paralelismo termina por aí. Desde logo, tu não tens verrugas ou carúnculas coloridas na cabeça e não podes abrir a cauda em leque. Em todo o caso, se tens ou podes, o melhor é ires tratar disso. Por outro lado, o criador tem um interesse egoísta mas genuíno em manter as aves gordinhas e com saúde. O governo, em contrapartida, pretende apenas que tenhas a quantidade de alimento  necessária  para te manteres vivo até pagares os impostos. Nem mais, nem menos. Aliás, se for possível, menos.