O estado do PSD.


Luís Menezes Leitão,

Se há demonstração eloquente do estado miserável em que Passos Coelho deixou o PSD é precisamente o de Santana Lopes, apesar do desastre que foi o seu governo para o partido e para o país, achar que pode voltar a ser o “menino guerreiro“ e apresentar-se a votos. Mas é curioso que tenha andado a pedir autorização a António Costa e a Vieira da Silva. Se ele ganhar as eleições, o PSD terá assim um líder autorizado por António Costa. Que bela maneira de ser um partido de oposição.

O regresso do Conde de Monte Cristo.


Luís Menezes Leitão,

Leio aqui com perplexidade que Santana Lopes está a “ponderar” o regresso à liderança do PSD. E diz com ênfase que “mesmo que cada um comece a apresentar-se em nome de barões ou baronetes quem vota são os militantes“. Se bem me lembro é o mesmo Santana Lopes que há poucos dias queria abolir o voto dos militantes na escolha do líder e voltar a fazê-lo eleger num congresso organizado pelos barões e baronetes, mas adiante. No nosso país, em vez de dizerem de uma vez ao que vêm, os políticos adoram “ponderar” as candidaturas, deixando toda a gente em suspense por uns dias, quando não deixam mesmo por meses, acabando por isso por levar o partido à derrota.  Mas neste caso a “ponderação” não se justifica, pois é evidente para todos que, até pelo seu brilhante contributo para o resultado de Lisboa, Santana Lopes é manifestamente o sangue novo de que o PSD precisa. Foi líder do partido entre 2004 e 2005, andou por aí, e agora regressa em grande, quase catorze anos depois. Já li um romance que contava precisamente esta história. Chama-se O conde de Monte Cristo.

O comentário da semana


Pedro Correia,

«Santana Lopes foi um bom primeiro-ministro. Só esteve três meses no lugar mas, nesse curto espeço de tempo, preparou duas importantes reformas: a introdução de portagens nas SCUTs e uma reforma a sério da lei do arrendamento urbano.
Comparado com os primeiros-ministros anterior e posterior, ele foi muito mais activo.»

Do nosso leitor Luís Lavoura. A propósito deste texto do José António Abreu.

Cenas da vida quotidiana


fiodeprumo,

Na maioria dos países, a notícia está no anúncio de que vai ocorrer ou ocorreu alguma coisa. Em Portugal é diferente. Noticia-se algo que não ocorreu.

É assim que Pedro Santana Lopes anunciou hoje que não se candidatava a um lugar para o qual nunca se havia candidatado.

Tínhamos já uma série de candidatos a Presidentes da Republica. Inauguramos, agora, uma lista de não candidatos. Na qual a maioria dos portugueses se pode rever. É isto que eu gosto na política nacional!

Há sempre uma explicação para os maus hábitos


Sérgio de Almeida Correia,

Bem sei que este é quase um desporto nacional dos partidos quando estão no poder. Como também sei que os maus hábitos, os vícios enraizados, à semelhança de algumas nódoas e da sujidade entranhada, são coisa difícil de eliminar. O que ainda assim não serve de justificação para este deboche que transforma uma Misericórdia num asilo.

Um comandante tem obrigação de saber que nem toda a carga pode subir para bordo. E que meter na embarcação as amigas e os amigos dos marujos normalmente dá para o torto à vista da linha do equador.

Presidenciais (1)


Sérgio de Almeida Correia,

Pedro Santana Lopes, como qualquer pessoa normal, tem virtudes e defeitos. Considero que o seu governo foi um desastre, que nunca deveria ter aceitado a pasta nas condições em que Durão Barroso a passou; e para fazer um “jeito” ao seu partido, ao incumbente que estava de saída e, pensava ele, prestar um serviço a Portugal, enfiou-nos num buraco do qual só Jorge Sampaio nos tirou. Todos sabemos o que veio a seguir e que ainda hoje persiste, pelo que sobre esta última parte poderemos falar noutra altura.

Mas tirando esse episódio, e alguns outros menos conseguidos na Secretaria de Estado da Cultura ou na Câmara Municipal de Lisboa, o ex-primeiro ministro tem três características que eu aprecio em qualquer pessoa. Mais ainda num político. É inteligente, frontal e corajoso. É evidente que tudo isso junto não chega para fazer um bom líder ou um bom governante, menos ainda um bom Presidente, mas confesso que às meias-tintas, à dissimulação e sonsice de alguns que nunca se definem e vão mascando pastilhas, prefiro tipos como ele que se chegam à frente e dizem que estão presentes.

Ficamos todos a saber com o que contamos, as coisas ficam claras e os coelhos são obrigados a sair da toca para não levarem com o chumbo dentro dela.

Portugal não é ainda uma república de santanas


Rui Rocha,

Vamos cá ver uma coisa. Não tenho nada contra o facto de o Dr. Passos, individualmente, dar asas a um desejo incontrolável de se cobrir de ridículo. Por mim, pode pintar a cara de verde, caminhar de andas, fazer piruetas no tejadilho de um eléctrico ou tocar ferrinhos num daqueles programas televisivos de domingo à tarde. Outra coisa bem diferente é tomar decisões que são ofensivas para os portugueses, independentemente das suas preferências políticas. Bem sei que o facto de ter escolhido e mantido o Dr. Relvas no governo para lá de todo o mais elementar bom senso, de ter aguentado o Dr. Machete como ministro não sei de quê ou de continuar a ter como porta-estandarte a Dra Teresa Leal ao Coelho e a sua écharpe, sem que tenha sucedido revolução, motim ou cataclismo, dariam a qualquer um certa sensação de impunidade. Há, todavia, limites para tudo. E é bom que o Dr. Passos perceba que, se persistir na tresloucada tentação de empurrar o Dr. Santana Lopes para as presidenciais, sujeitará o seu partido e o candidato a uma monumental humilhação, inversamente proporcional, aliás, à votação que poderá ambicionar obter. Apesar de todo o esforço do Dr. Passos e da elevada concentração de palermas, tarolas e bananas evidenciada pela política doméstica, não chegou ainda o tempo de sermos considerados oficialmente uma república de santanas.

O candidato.


Luís Menezes Leitão,

 

Resulta claramente desta entrevista que Santana Lopes não pensa noutra coisa a não ser em candidatar-se a Belém, no que parece ter pelo menos o ámen de Passos Coelho, que continua a apostar teimosamente na estratégia TMMRS (Todos menos Marcelo Rebelo De Sousa). Neste enquadramento, o lugar de Provedor da Santa Casa da Misericórdia, que misericordiosamente foi atribuído a Santana, seria apenas um estágio para que ele pudesse adquirir uma imagem de simpatia social, após o que transitaria para Belém. Claro que Passos Coelho preferiria Durão Barroso, mas não estando este disponível, prefere naturalmente apostar em Santana do que deixar Marcelo avançar.

 

A questão é que esta estratégia foi claramente posta em causa pelo avanço de António Guterres. Efectivamente António Guterres secou completamente o espaço à esquerda, tanto assim que António Costa, mal soube desse avanço, mergulhou logo nas absurdas primárias do PS em vez de se guardar para Belém. Neste espaço apenas Marinho Pinto pode conservar algum eleitorado, se conseguir manter o seu discurso populista e contra a classe política, que tantos votos lhe trouxe nas europeias. Já os candidatos da esquerda tradicional cederão naturalmente o lugar a António Guterres.

 

A questão é que António Guterres entra também muito no eleitorado da direita, com o seu catolicismo social e com o facto de ter sempre resistido a entrar nas questões fracturantes, em que o PS se fracturou logo após a sua saída. É por isso que na área da direita só alguém com o perfil de Marcelo Rebelo de Sousa lhe poderia dar alguma luta. Durão Barroso percebeu isso e afastou-se logo da corrida presidencial. Já Santana Lopes, pelo contrário, acha que Guterres “não é imbatível” e que até seria “altamente estimulante” enfrentá-lo.

 

Santana Lopes tem um problema com as eleições presidenciais, semelhante à percepção que ele tem do seu governo, e que ele próprio quis expor no seu livro de 2004, et pour cause chamado Percepções e Realidade, na altura objecto destes dois fabulosos sketches dos Gato Fedorento. Na sua percepção, o seu governo foi óptimo e foi uma grande injustiça ter sido derrubado por Jorge Sampaio. A realidade é que o seu governo foi o pior da história da democracia portuguesa, e se há alguma coisa a censurar a Sampaio — e a Durão Barroso — foi precisamente o terem permitido que ele tomasse posse. Já em relação às presidenciais, ele tem a percepção de que, passados dez anos do seu governo, e com o seu currículo na Santa Casa, tem condições de bater Guterres nas eleições. A realidade é, no entanto, que nem com mais cem anos na Santa Casa Santana conseguiria ultrapassar Guterres na área social, e que tem tantas hipóteses de ser eleito presidente como a torre Eiffel de dançar o samba. Mas, conhecendo a teimosia de Passos Coelho, é muito provável que venha a ser ele o candidato presidencial do PSD. 

Uns em pleno processo autofágico em curso, outros em fase conclusiva para a escolha do candidato ao cavaquistão


Sérgio de Almeida Correia,

“É preciso saber arriscar para vencer a crise. A Comissão Europeia ficou ensanduichada entre o duo Alemanha-França e as outras instituições“;

 

“Arriscou pouco. Quem quer liderar – então numa situação de crise – tem que ousar vencer“;

 

“As pessoas sentiram a falta de uma voz de comando nas instituições europeias”;

 

“Não estou a dizer que a responsabilidade fosse da Comissão, mas da maneira como esta crise foi gerida criou-se uma enorme desconfiança e fracturas entre os Estados. E a Comissão não esteve à altura da sua responsabilidade para impedir que uma certa narrativa punitiva dos Estados periféricos acabasse por fazer o seu caminho“;

 

“Não era um problema de pôr dinheiro em cima da mesa, mas de arquitectar uma resposta e uma estratégia. Aí a comissão levou bastante tempo a tentar reagir à crise.”

 

Quem disse estas frases? Carlos Abreu Amorim? Marinho e Pinto? Francisco Assis? O Papa Francisco? Respostas aqui.

 

 

Seguro nunca conseguiria ser tão directo


Sérgio de Almeida Correia,

O primeiro-ministro Passos Coelho quando aponta o dedo ao antecessor é caricato e ridículo, o seu antecessor foi um primeiro-ministro com visão, a culpa da crise foram os factores externos e Passos Coelho tem falta de autoridade, o que não me impediu de ir apoiá-lo ao congresso que ainda há dias terminou.

A entrevista está no Público, para quem consiga aceder ao link.

 

Da incubadora ao pulmão mecânico


escafandro,

Quando ouço Sócrates acusar a oposição de ter provocado a crise, penso em Santana Lopes. (O que é chato porque em quase todas as circunstâncias prefiro pensar em pessoas com níveis mais elevados de estrogénio.) Se Santana se queixava dos companheiros de partido darem pontapés na incubadora onde o seu jovem governo lutava pela sobrevivência, Sócrates não faz mais do que acusar, vociferante, direita e esquerda de terem desligado a máquina que mantinha a respirar o seu velho governo exangue. Mas Santana obteve 28,7% dos votos em 2005. Ganhe ou perca, Sócrates deve conseguir mais. Parece que preferimos berros a lamúrias.

Agarrem-me senão demito-me


Pedro Correia,

Pedro Santana Lopes quer voltar a ser vice-presidente do PSD. Foi nisto que pensei hoje ao ler a manchete do semanário Sol: «Santana pré-anuncia saída do PSD – ‘Sinto-me já muito distante do partido’» Quando Santana ameaçou pela última vez abandonar o PSD, em 1999, Durão Barroso nomeou-o depois seu braço direito, como primeiro vice-presidente do partido. Sabemos quais foram os resultados. Espero por isso que Passos Coelho não faça o que Durão fez. Até porque, como Marx ensinou, quando a História se repete é sempre como farsa.

Falar da Constituição em português


jmmcc,

Diz Pedro Santana Lopes que «Marcelo Rebelo de Sousa sabe bem que Francisco Sá Carneiro me solicitou» qualquer coisa relacionada com questões constitucionais e que não vem aqui ao caso. O que vem ao caso é o meu espanto por uma bacoquice de Santana Lopes que eu não esperava dele, tão dado a pergaminhos (?) que é. Ninguém (e muito menos o próprio) deve dizer que outro lhe solicitou algo. Há uma hierarquia em solicitar e pedir: solicita-se de baixo para cima e pede-se de cima para baixo. Além disso, por simples bom gosto, ambos devem dizer que lhes foi pedido (e nunca solicitado), quando reportam o facto a terceiros, para não se inferir que se está a colocar o outro em plano inferior. Assim sendo, só quando se quer dar importância ao outro é que pode usar-se solicitar na primeira pessoa do singular: solicitei.

Por isso, pode ser que Sá Carneiro tenha pedido algo a Santana Lopes, mas seguramente não lhe solicitou. Mesmo que (por absurdo) o tivesse feito, Santana Lopes só devia dizer que Sá Carneiro lhe pediu. Não consigo imaginar Santana Lopes casado e a dizer “a minha esposa“, mas a piroseira é a mesma e fica-lhe mal. Ou pior ainda, já que a confusão entre pedir e solicitar não é apenas uma saloiada, mas um problema de bom português.

Marcelo e «a unidade para o futuro»


oanonimoanonimo,

Já por aqui escrevi e repito: o próximo líder do PSD – seja quem for – será sempre um líder de facção e um líder transitório. A não ser que, por uma qualquer razão do destino, Sócrates caia antes do tempo – fulminado – e o PSD chegue ao poder, momento em que, em nome do poder, todas as divergências se esquecem. Não estou sozinho nesta reflexão – há mais quem assim pense. Lendo o Expresso de hoje, creio que esta será também a perspectiva de Marcelo Rebelo de Sousa, que resiste a apoiar qualquer dos candidatos à liderança, optando pela neutralidade. Justificação: «Alguém vai ter de preservar a unidade para o futuro». Alguém? Trocada por miúdos, a expressão quererá dizer que Marcelo sabe que a próxima liderança do PSD é apenas um interlúdio. E sabe que, a seguir, a solução passa por alguém capaz de unir os destroços do PSD. E sabe que, nesse momento, talvez não haja ninguém, para além dele, tão bem colocado para o fazer. E sabe que, nesse momento, Sócrates estará mais frágil do que agora. Malandro, este Marcelo. Mas não deixa de ter razão.

 

P.S.: (DECLARAÇÃO DE VOTO) Nas últimas directas votei em Pedro Passos Coelho. Mais por exclusão de partes do que por convicção. Não me revia em Manuela Ferreira Leite e no seu baronato tantas vezes insuportável, do mesmo modo que achava que a candidatura de Santana Lopes andava ali a destempo. Se eu fosse um tipo esperto, agora que tudo indica que PPC vai ganhar, diria agora publicamente que o meu voto era seu, cavalgando a onda. Mas não sou um tipo esperto. Por isso, não tenho qualquer problema em dizer que vou votar em José Pedro Aguiar-Branco, mesmo sabendo que não tem hipóteses de ganhar. Voto por uma questão de proximidade pessoal, porque confio nas suas capacidades, porque sei que a sua vida resiste a um escrutínio apertado e, também, porque me parece que é o único candidato que pode fazer a síntese entre os barões e a "carne assada". Isto é: parece-me o candidato "mais PSD" de todos.