Mais-almoço-menos-rotunda


jmmcc,

Percebe-se agora melhor por que razões o poder local precisa de mudar, depois da discussão do tema ontem à noite na RTP. É uma necessidade que já se arrasta há muito e que urge reparar de raiz e a partir de um novo mapa. A discussão de ontem provou amplamente o quanto o poder local está enquistado, como se viu pelos muitos dinossauros nervosos presentes numa plateia com contornos assustadores de parque jurássico.

Hoje, com a crise que nos afecta e às voltas com dívidas que as autarquias se encarregaram de aprofundar, a única virtude nova do poder local é que, de cada vez que suporta uma refeição numa escola, é menos uma rotunda na cabeça dos autarcas.

Miguel Relvas não poderá ter descanso enquanto não tocar a reforma administrativa para a frente. De preferência, sem rotundas e cortando a direito onde for mais preciso. Sobretudo, resistindo a duas tentações, visto que um novo mapa administrativo deve ser feito pelo interesse nacional e para muitas gerações vindouras. São elas: a sindroma da disputa partidária, que pode envenenar irremediavelmente o alcance do projecto, e o complexo da interioridade, que pode deformar a própria reforma.

Dois factos a registar


jmmcc,

Um à esquerda e outro à direita, dois factos políticos em redor do PSD atraíram ontem a minha atenção. Passo a registá-los (e a comentá-los, pois claro) para que constem, pois hão-de vir ambos a ser chamados mais tarde, muito possivelmente.

 

1.º – O PS e os limites da reforma administrativa

Num espaço de representantes das autarquias socialistas, António José Seguro abordou a reforma administrativa, enrolou-se no tema e nas ideias e ainda conseguiu usar a frase “autarcas e presidentes de câmara”, como se estes não fizessem parte daqueles.

Que achegas deu Seguro para a reforma administrativa, um dos pontos mais importantes e sensíveis da actualidade política? Zero achegas. No geral, quis apenas dizer que não contem com o PS para aprovar qualquer redução das autarquias do interior.

Ora, Seguro tem obrigação de saber mais umas coisas a este respeito. Por exemplo:

— a redução das autarquias é (ou devia ser) imprescindível há muito tempo, porque a realidade actual é completamente inadequada;

— a reforma administrativa do século XIX começou logo aí por ser uma desgraça, quando a proposta de Mouzinho da Silveira copiada do modelo francês foi chumbada pelo exagero da divisão autárquica já então óbvio, mas acabando a seguir por ser aprovado um critério muito semelhante e muito pouco contido face ao modelo de Mouzinho;

— qualquer novo mapa autárquico não se desenha a partir da localização interior ou costeira do território, mas fundamentalmente pelos dados populacionais reais numa determinada área e aquilo que os enforma;

— os contornos gerais da reforma administrativa que o actual governo tem apresentado dão conta de uma intenção medrosa, pouco ou nada profunda, muito aquém do que é necessário e, sobretudo, frustrante para as expectativas mais comuns.

É perante este quadro, que o PS não pode desconhecer, que o líder socialista vem a terreiro anunciar limitações desgarradas e populistas? Sobre um projecto que ainda vai na rama e que está por encarar de frente, Seguro só tem mais limites a anunciar? Ele lá saberá como fazer, mas devia ser escusado lembrar-lhe as suas próprias palavras: a política tem de ser séria.

 

2.ª – O CDS-PP e o buraco mais enjoativo de Jardim

A uma semana das eleições regionais, o líder do CDS-PP da Madeira contou com a presença do seu líder nacional e disse, para quem quis ouvi-lo e com as palavras todas, que parte das verbas tranferidas de Lisboa para a reconstrução da ilha após a catástrofe foi desviada para as vistosas iluminações de Natal e para o Carnaval (imagino incluído o desfile pseudo-brasileiro que costuma abrilhantar a tradição madeirense).

Esse desvio de verbas, que não foi desmentido, configura não só um escândalo enjoativo, mas um novo (tipo de) buraco nas contas que Alberto João Jardim anda há anos a decidir à sucapa. Pelos vistos, o homem não se limita a fazer letra morta das obrigações que tem, mas também descai para opções à revelia do mais elementar senso comum e do respeito que deve aos outros, ao país, aos que foram acudir à reconstrução da Madeira.

Bem pode ele ser reeleito com a esmagadora maioria que anda a pedir para dar uma sova nos políticos de Lisboa, bem pode ele continuar a perorar sobre legítima defesa e independência, bem pode ele inventar mais e novos disparates todos os dias para ocupar os palcos popularuchos levantados à sombra do défice democrático que controla há mais de três décadas. Nada disso servirá para alterar uma coisa: depois de tanto tempo a mostrar a obra feita, acabará por sair de cena um dia (já faltou mais) pela porta baixa.

 

Em breve se verá como estes dois apontamentos aqui focados regressarão à mesa da política.

O PS tem agora a Madeira a nu


jmmcc,

Seguro e Zorrinho, incansáveis, insistem à exaustão que Passos Coelho devia retirar a confiança política ao chefe do executivo madeirense. Pois bem: retirar a confiança política seria o quê? Seria dizer que retirava a confiança política ao líder do PSD-M e assobiar? Seria o líder do PSD-M continuar a ser líder do PSD-M e o candidato-líder do PSD-M continuar a ser o candidato-líder do PSD-M? Isto parece-me fracote para justificar a teimosia cansativa do PS.

Mais razoável me parece que o PS se tenha manifestado muito interessado em ver a situação financeira da Madeira a nu ainda em tempo útil para as eleições de 9 de Outubro. Isto não só o PS está a obter como até já obteve mais: em plena campanha eleitoral na região e com toda a oportunidade, com a situação financeira da região obrigada a mostrar-se num strip tease escandaloso, o Governo da República tratou já (e muito bem) de anunciar cortes nos benefícios fiscais e nas facilidades insulares que têm vigorado.

Neste quadro, não vale a pena o PS continuar a pedir que Passos Coelho retire a confiança política ao líder madeirense, coisa que não faz o mais pequeno sentido e só serve para perder tempo. Neste quadro, o que vale a pena é o PS aproveitar tudo o que agora lhe é favorável para ganhar as eleições na Madeira. É assim e mais nada.

O debate e a cassete


discutindoopinioes,

Passos Coelho ganhou o debate de ontem. O lado surpreendente disto, eu não o explico com as virtudes que atribuo a um bom discurso político, virtudes como a argumentação coerente e a clareza. Passos Coelho, tendo sido eficaz na enumeração dos factos que os argumentos do adversário pretendiam negar, ganhou porque já todos sabíamos como Sócrates iria responder às acusações. Não houve nada de novo. Todos conhecemos de cor a narrativa que inclui a crise internacional, o mau momento para o chumbo do PEC, a falta de responsabilidade atribuída aos outros partidos e o comovente eu dei o meu melhor. Por outro lado, não deixa de ser estranho que, neste e noutros debates, o líder do PSD mostrasse alguma dificuldade em defender certos pontos do seu programa. Fica a sensação de que Passos Coelho está desconfortável quando lhe é exigido que entre na discussão ideológica. É pena.

O povo, pá, não vai ao Facebook


discutindoopinioes,

De acordo com o mesmo estudo, os portugueses também não estão impressionados com a actuação do Presidente da República, Cavaco Silva. 85,9% defende que o chefe de estado devia ter sido «mais activo ao longo da crise» e 44,1% diz mesmo que este tem «muita responsabilidade na situação» que o país vive. (ler o resto aqui)

Ingénuos & Devoristas


lauraramos,

 

Escandalizam-se com Fernando Nobre.

E com este, não?!

 

Co-fundador do CDS (secretário-geral e vice-presidente da Comissão Política Nacional e presidente da Mesa do Congresso).

Deputado à Assembleia Constituinte e à Assembleia da República

Ministro do Comércio e Turismo nos II e VI Governos

Ministro de Estado no VII Governo

Ministro da Agricultura, Comércio e Pescas no VIII Governo

Vice-presidente da Assembleia da República

Conselheiro de Estado

Candidato à Presidência da República

Representante permanente de Portugal na OCDE.

Presidente do Conselho de Administração da AICEP

 

Agora, 400 milhões de saldo negativo de investimento estrangeiro depois…

é cabeça de lista pelo PS em Leiria.

Eficácia e ineficácia


jmmcc,

«Depois do congresso de Matosinhos, Manuel Carrilho disse, e repetiu por escrito, que o primeiro-ministro era um “candidato eficaz”, mas, desgraçadamente, um “governante medíocre”. Há aqui um equívoco. Se Sócrates não fosse um candidato eficaz, nunca seria um governante, medíocre ou esplêndido. A primeira obrigação dele é ganhar e Sócrates conseguiu até agora ganhar.» É assim que começa a crónica mais recente de Vasco Pulido Valente, «O triunfo da asneira“. Asneira do respeitável cronista, desde logo. Equívoco?

Estou-me nas tintas para o que Carrilho passou a dizer depois de Sócrates lhe ter tirado o bem-bom e fazê-lo regressar à base. Acho que Carrilho, se tem alguma coisa a dizer de Sócrates, deve começar por dizer-lho na cara. O que me espanta é Pulido Valente ser capaz de concluir que um candidato ineficaz não pode dar um governante. A realidade desmonta este raciocínio ‘abstrôncio’. Sócrates já provou que é um candidato ineficaz, ao perder a maioria absoluta que já teve e que tanto quis conservar. Mesmo assim, continuou governante. Primeiro, foi medíocre. Depois de provada a ineficácia, foi ainda menos.

Um candidato fraco chega a governante quando os candidatos adversários são ainda mais fracos. Manuela Ferreira Leite, por exemplo, era uma candidata pouco ou nada eficaz e, no entanto, se não tivesse dado ouvidos a Pacheco Pereira e outros “conselheiros” que a ajudaram a dividir o PSD com eleições legislativas à vista, teria derrotado José Sócrates sem grande esforço. Pulido Valente já soube isto, mas deve andar distraído com a Líbia de Kadhafi e os fantasmas do islamismo.

O Presidente do Conselho vai a votos


lauraramos,

 

É a desgraça nacional.

O Presidente Sócrates, ciente de que continua em forma e imbatível na arte do conto do vigário, deu um murro na mesa e desafiou os pachorrentos olhares da sua corte muda:

– Ai querem medir forças? Pois não me tiram daqui!

 

Silva Pereira serviu a segunda rodada de ‘absolut-libre’, a bebida oficial do Conselho.

 

E pronto, lá vai ele a votos… enganar novamente essa apetecível aldeia de velhinhos mentais (dos 18 aos 88), com quem conta, fiado, para ser devolvido em ombros ao pódio do poder.

Incautos e taralhoucos, estarão eles prontos a entregar a pensão a troco de uma história qualquer, mirabolante? – diz o contraditório.

Pois, porque não?

Vai resultar, mais uma vez…

Não há duas sem três.

 

Em baixo, na Assembleia, por entre o silêncio estupefacto do anfiteatro subitamente ameaçado de desemprego, há um pequeno nicho de actores que se agita, vibrante de contentamento: são os berloques de esquerda, que acabaram de assegurar o aumento da sua esperança de vida.

 

No final da sessão, entram na casa-de-cima pelas traseiras e juntam-se para a terceira rodada de ‘absolut-libre’ com os conselheiros.

O retrato do país que temos


jmmcc,

O Estado a Que o Estado Chegou – O Verdadeiro Retrato de Portugal (Grande Investigação DN) é uma obra de vários autores editada pela Gradiva que vai ser lançada na quinta-feira em Lisboa (no El Corte Inglés, às 18 horas e 30), apresentada pelo presidente do Tribunal de Contas, Guilherme d’ Oliveira Martins.

O livro reúne um vasto trabalho de investigação efectuado e publicado pelo Diário de Notícias em Janeiro passado e pretende dar conta da derrapagem financeira verificada em Portugal na última década. Os autores quiseram pôr a nu, com profundidade e minúcia, o verdadeiro peso do Estado na nossa economia, com números que nem o próprio Estado possui ou é capaz de fornecer.

Esta edição colectiva é, em suma, serviço público: interessa não apenas a líderes políticos, económicos e sociais, mas também aos cidadãos em geral, porquanto serve para que todos possamos reflectir sobre uma cidadania mais séria. E é dada à estampa precisamente quando mais se ouve falar em rigor, excelência, cumprimento, ética, etc., neste tempo em que tamanha insistência talvez menos corresponda à realidade.

O não-comentador


jmmcc,

José Sócrates respondeu hoje a Soares dos Santos, presidente do Grupo Jerónimo Martins, na sequência de este ter acusado o Governo de mentir sobre a situação do país: “Nem merece comentário” — comentou o primeiro-ministro — “e só prova que não basta ser rico para ser bem-educado.“

Soares dos Santos tinha dito ontem que “não vale a pena continuarmos a mentir“, que “não vale a pena pedir sacrifícios às pessoas sem lhes dizer a verdade“, porque “as pessoas têm de saber para que estão a fazer os sacrifícios“.

Curiosamente, disse também que “truques é para o Sócrates“, pois “ele é que gosta de truques“, no dia em que se soube que não-sei-quantos imóveis do Estado libertados pelo Governo e supostamente vendidos a privados foram, afinal, “comprados” por uma, mais uma, empresa pública, a Estamo-Participações Imobiliárias (que agora tenta vender esse património) — uma manha que baixa o défice e esconde as contas públicas, mas mantém a realidade na mesma para sermos os mesmos a pagar. Se isto não é um truque…

Curiosamente, Soares dos Santos responde ainda ao i que “seria uma bênção que o FMI entrasse em Portugal“, no dia em em que se soube pelo JN que o “TGV entre Caia e Poceirão fica 25% mais caro que na versão anterior“. Se não é uma mentira ter suspensa (?) uma obra que, afinal, avança à velocidade de milhões de euros…

O primeiro-ministro, assim apanhado em mais um périplo folclórico de primeiras-pedras e inaugurações, fez de conta que não sabe que há quem não tenha precisado de prometer empregos para empregar e conseguir crescer, mesmo perante um Governo que prometeu empregos para só empregar boys que todos pagamos e continuarmos a descer. Por isso é que Sócrates comentou que não comentava.

Fez também de conta que não sabe que a opinião sobre ele está longe de ser coisa de ricos. “Nem merece comentário e só prova que não basta ser rico para ser bem-educado” é mais do que um comentário: é uma não-verdade e um não-não-truque de retórica.

Ex-ministra esqueceu o passado


jmmcc,

«O sistema democrático assenta nalgumas regras que nos devemos esforçar por cumprir, designadamente a dos mandatos do Governo» — disse ao DN Maria de Lurdes Rodrigues, presidente da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD). «Desde a saída do primeiro-ministro António Guterres que se criou um precedente de acabar com os mandatos legislativos a meio.» Mas «houve eleições há muito pouco tempo, foram claros os resultados eleitorais» e «os mandatos devem ser para cumprir».

Assim de repente, a actual presidente da FLAD parece cheia de razão. Porém, ao afirmar que «o primeiro-ministro é uma pessoa de grande coragem, invulgar coragem e determinação, e isso tem sido um benefício para o país», deixou cair uma nódoa no pano: o país não só não tem ganho qualquer benefício com o ainda primeiro-ministro, como tem sentido que a extensão do seu exercício é um malefício agravado. Se Maria de Lurdes Rodrigues tivesse razão e como José Sócrates não está a cumprir as promessas eleitorais e o programa do Governo, isso significa que as promessas e o programa constituíam um conjunto de disparates. Ou seja: se ele estivesse a cumprir, não poderia estar a beneficiar o país, conforme se conclui daquela declaração.

A razão que Maria de Lurdes Rodrigues perdeu ao expor o seu ponto de vista explica-se, afinal, de modo muito simples: um mandato é (ou devia ser) uma via com dois sentidos, o que implica (ou devia implicar) que o Governo cumprisse o seu programa para merecer cumprir o mandato. Porque o programa é dele, mandatado, mas o mandato é nosso.

Não cumprindo um único ponto relevante do que assumiu fazer, resta ao Governo cair. E resta à ex-ministra da Educação perceber que a democracia assenta em regras, sim, e também que é normal que elas tenham um efeito de vai-vem: aplicam-se para cá e para lá. Para quem tem um passado esquerdista da maior vivacidade, a ex-ministra deixou um bocado a desejar.

O mau e o pior


jmmcc,

«Mais de metade das empresas municipais teve prejuízos em 2009 e vive em dificuldades. O Governo aponta casos de facilitismo e garante que irão acabar.» Segundo José Junqueiro, secretário de Estado da Administração Local, tal facilitismo “aconteceu em alguns casos de que agora vamos tendo conhecimento“. Junqueiro até já acha que «há empresas municipais a mais».

Pelos vistos, o Governo está surpreendido e começa agora a achar aquilo que toda a gente já sabe há muito, o que é mau. Mas o pior é o governo prometer que o facilitismo vai acabar, o que deve significar exactamente o contrário, como é costume.