As abelhas e Assunção Cristas


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Através de ligações colocadas no facebook chego a esta página do Bloco de Esquerda. Como sempre duvido deste locutores, populistas demagogos, procuro confirmar o conteúdo da notícia. Faço-o na SIC. Nas páginas em português não há muito mais informação substantiva actual. Mas fica o fundamental: as causas para a surpreendente e avassaladora hecatombe das abelhas europeias estão encontradas, um trio de pesticidas (Imidacloprid, Clothianidin e Tiametoxam).  Os indícios científicos são relativamente explícitos, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (que julgo ser um organismo consultivo das instituições europeias) também o considera.

Houve agora uma votação no seio da Comissão Europeia intentando banir estes pesticidas, protegendo a população das abelhas. Mas neste processo não só se introduziram “nuances” (daquelas que minoram os efeitos positivos almejados – no caso julgo que, pelo menos, restringindo a proibição a culturas directamente procuradas por abelhas), como sete países se recusaram a votar favoravelmente, impedindo uma maioria qualificada na votação que permitiria uma rápida, abrangente e eficaz política de protecção.

Portugal, que neste assunto se representa pela ministra Assunção Cristas, numa questão desta gravidade ecológica decidiu … abster-se. Em defesa das indústrias produtoras (Bayer, Syngenta), pedindo (tal e qual num blockbuster americano) “mais estudos”, o velho argumento dilatório. Mais não percebo, pois a imprensa apenas reproduz um qualquer despacho noticioso – e não há um jornalismo “europólogo” em Portugal. Por exemplo, qual a razão efectiva de se constituirem “blocos” de países numa votação destas? Um voto atlântico (abstenção  junto à Grã-Bretanha) contra um voto continental (a Alemanha, casa da Bayer já agora, votou favoravelmente o banimento dos químicos em causa)?  

É sabido que nestas coisas há sempre uns tontos idólatras do mercado livre contra as restrições do demo estatal, que vociferam contra as protecções ecológicas. Virão resmungar contra o catastrofismo, virão com o sarcasmo eunuco apoucando as “abelhas”. A questão é simples, são precisos mais estudos? Façam-se. Primeiro trancam-se os pesticidas, depois estuda-se. Se se infirmar a causalidade volta-se a utilizar. Perde-se dinheiro? Paciência. E é também sabido que nestas coisas de cutucar os grandes interesses industriais a pressão sobre os governos e governantes é enorme.


Sem rodeios, numa questão desta importância e com este conteúdo a atitude do governo português é vergonhosa. Inadmissível. É de exigir um volte-face, e um imediato empenho no combate a esta “guerra química”. E que caia a ministra Cristas, aqui face de uma política tacanha e selvagem. Não há “política real” que justifique tamanha mediocridade, tamanha inconsciência.

E para que não se diga que quero a cabeça (metaforicamente, por enquanto) de Cristas por  “indignismo” oposicionista, recordo que há dois anos bloguei apelando ao voto no seu partido, que há pouco tempo aqui no DO apelei a que Portas fosse içado a PM. E que há um mês calei, meio por fastio meio por patriotismo, a minha irritação aquando da visita de Cristas a Maputo. Uma viagem risível, que “correu mal” (na suave linguagem diplomática), uma pura pantomina. Mais uma do pacote da indigência política, pois nisto da incompetência para as relações externas e da falta de sentido de estado, a gente está mais do que habituado a encontrá-las nos políticos içados ao poder. Cristas foi, aqui, mais um exemplo dos passeios tontos.

Mas agora, com esta asquerosa abstenção, ultrapassou os limites da mediocridade. Que vá já a ex-ministra. E com o ónus da indecência. A colher o desprezo dos compatriotas. Das várias “cores”. (E com menos um voto, com toda a certeza. O meu.)

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Bacelar Gouveia – homem que, nos idos de 1990s, trabalhou em Maputo com evidente garbo e reconhecida competência – foi agora eleito para a direcção do “meu” Sporting. Saúdo isso. Talvez influenciado por esse momento refere-se ao ministro das finanças utilizando o “futebolês”, algo que não gosto mas posso assim entender. Diz  que Vítor Gaspar recebeu do Tribunal Constitucional um “duplo cartão amarelo” equivalente a um “cartão vermelho”. Repito, não gosto do “futebolês”, pacote de metáforas quase sempre empobrecedoras, mas tenho que concordar. O governo e o ministro das finanças repetem um comportamento desajustado, perdão, medidas inconstitucionais e elas são sancionadas. Ou o membro do governo não teve capacidade para imaginar medidas outras ou essas seriam, no quadro actual legal, inimagináveis, inaplicáveis. Em ambos os casos a opção possível parece-me única. A demissão. Pois ou não tem espaço de manobra política (legal, que seja) ou não tem alternativas intelectuais.

Miguel Relvas sai do governo. Por causa da sua biografia. E para satisfação muito alargada. Por causa da impopularidade do governo, em muitos casos. Mas também por causa da sua biografia ministerial: as tropelias com os serviços de informação, o maçonarismo esconso, as afrontas ao jornalismo, são as coisas mais evidentes.

Fica Passos Coelho frágil com isto tudo. Com o evidente insucesso do seu governo. Mas também (fundamentalmente?) por ter a imagem ligada a Relvas, pelo seu empenho na via de Vítor Gaspar, o que implica que PC não surge no governo acima dos seus ministros mais importantes mas sim com eles co-ligado. Do seu destino dependente.

Em Lisboa o sábado é para renovação, azáfama de telefones. Mas o governo já acabou. Mesmo mudando pessoas o seu primeiro-ministro já não o é.

Como fazer avançar o governo de Portugal, em tempos tão difíceis? Este morto, ainda que talvez embalsamável? O PSD não tem alternativas. Desde José Manuel Durão Barroso que o PSD não consegue apresentar a si próprio e ao restante país uma alternativa consistente. Teve uma hipótese aquando da última vitória de Sócrates, e quão danosa foi esta, mas suicidou-se. Agora mesmo os textos “voluntaristas” que chamam Silva Peneda a alternativa de poder são de uma irrealismo inacreditável. É um partido decepado, e porventura sê-lo-á pelos efeitos da partidocracia que o conquistou desde o tempo de Cavaco Silva no poder.

Procurar soluções no Presidente é outro irrealismo. Não pela sua concepção minimalista dos poderes presidenciais, como refere quem lhe lê os prefácios aos discursos. Mas porque Cavaco Silva é fonte de problemas. Não será o momento de procurar no seu consulado tantas das causas do populismo consumista que levou o país ao estado em que está, a idolatria dos grupos financeiros e comerciais, o demencial elogio do improdutivismo, a colonização do estado pelos interesses mais canibais. Mas é com toda a certeza o momento de lembrar o seu conúbio, mesmo que pessoalmente ingénuo, com as forças e os indivíduos que assaltaram a sociedade portuguesa. Em Cavaco Silva não habitam alternativas aos procedimentos políticos – ainda para mais sempre se auto-apresentando como “não político” – nem nunca habitou qualquer visão verdadeiramente desenvolvimentista do país.

Vamos então a eleições, propõe então António José Seguro, como se o seu partido não tivesse governado durante tantos e tantos anos, até este cenário actual. Se o PS dos últimos vinte anos tem sido o cúmulo do populismo, se o pinamourismo e o socratismo resultaram no que resultaram, que poderemos esperar agora? E como se não viesse anunciar que se candidata mas não para resolver problemas, como deliciosamente lembra Rui Rocha aqui abaixo.

É óbvio que o modelo de austeridade, puro e duro, não chega, não é eficaz. Mas o modelo do contrato social populista, o “europeísmo” se se lhe quiser dar um nome “flat”, também já tem não espaço para se continuar a reproduzir, o mundo mudou. Disso reacção é surgir o próprio Tribunal Constitucional a aconselhar o governo a fazer reformas estruturais no estado (julgo que algo inédito, os juízes a ditarem políticas aos políticos).

Urge repensar e reformar o país, urge repensar as relações com o(s) exterior(es) e, se necessário, afrontá-lo(s). Sopesando argumentações e práticas.

Ou seja, é urgente a política. E o desenvolvimento.

Para isso é notório que é preciso mudar o governo. “Já”, como se dizia antes, em momentos convulsos. Como de convulsões é este. Como mudar?

No quadro “político” actual só vejo uma solução, deixada pela constituição, apesar da nossa prática tradicional ser outra. (Pigarreio …)

Portas a primeiro-ministro. E a ver vamos.

Miguel Relvas em Maputo


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Miguel Relvas deslocou-se esta semana a Maputo para assinar alguns “protocolos desportivos” – sobre a inutilidade destes nem vale a pena esboçar argumentos. Há quem veja apenas fel nesta minha desilusão com as práticas de “cooperação” portuguesa. Mas não o é, é pura empiria. Em 1997 vim para Maputo e parte do meu trabalho era o acompanhamento das relações de “cooperação” no sector desportivo, sei um pouco do “patois”. Daqui a dois anos ou quatro anos faça-se uma verdadeira avaliação dos efeitos destes protocolos e se tiver germinado algo de verdadeiramente real, estruturante, tragam-me o fogo para eu meter lá as mãos. O ministro terá ainda acompanhado uma feira de empresas portuguesas. E, presumo, contactou o estado moçambicano, neste formato actual, em que a desconfiança entre primeiro-ministro e ministro dos negócios estrangeiros o colocou como representante do PM na política externa. Essas já são coisas mais subjectivas, o governo saberá como tecer a sua rede de sustentação. Só espero que benéficas para o país. E, já agora, neste caso, também para Moçambique.

 

Interessa-me o eco local desta visita, e o que ele mostra da apreensão do momento português. “Afinal o Relvas anda por cá?!” (assim mesmo, “o” Relvas), li no mural-FB de um colega académico moçambicano. O qual nem sequer estudou ou trabalhou em Portugal, não tem qualquer relação mais próxima com a realidade portuguesa, este dito vem-lhe mesmo do reconhecimento do ministro português. Sucederam-se alguns comentários jocosos e um outro, de académico bloguista, mais irado. Que se fosse Relvas a uma universidade moçambicana deveria ser boicotado, tal e qual Jonathan Moyo (o académico zimbabweano que como ministro da informação no início de XXI deixou uma vergonhosa imagem, repressiva e venal, e aqui em Maputo foi boicotado). O eco das difíceis relações de Miguel Relvas com alguns jornalistas portugueses a fazerem-se sentir. E, claro, num meio académico, o menosprezo pela vergonha de cidadania que é a “licenciatura” do ministro (e que conspurca letalmente os académicos que dela se tornaram parte, até antropólogo metido naquilo).

 

Miguel Relvas condecorou Mário Coluna. E bem ouvi, num dos locais do “Monstro Sagrado”, no qual sou também cliente habitual, a ríspida ironia,o sarcasmo militante, nas mesas de mais-velhos, gente de longa estrada atrás, sem pruridos, sobre quem condecorava o “Monstro Sagrado”. Veio ainda lançar o jornal “A Bola” aqui (o jornal colou-se às elites políticas de ambos os países, é seu direito estratégico, mas parece-me que isso lhe denota grave crise económica para assim tanto se subalternizar). Discursou na cerimónia de lançamento e disse algo simpático (um pouco na linha de um texto sobre o assunto que escrevi há dois dias aqui), recordando que lia o jornal desde criança, a inócua e gentil frase “Aprendi a ler no jornal A Bola“.

 

Resultado? Logo que o jornal saíu, a primeira edição moçambicana de A Bola, citando o discurso, este foi o curtíssimo rastilho da piada, patrícios a telefonar-se ou a conviver, gargalhando em mesas de café: “Sabes onde é que o Relvas fez a primária?“, “Leu a Bola e teve equivalência“. Não, não são bloquistas (que não abundam por aqui, felizmente), são mesmo portugueses dos negócios, das empresas, alguns até convidados para estes eventos do “beautiful people” maputense. Gente patrícia, do contexto social e político do ministro e dos diplomatas que o acolhem. E que, tal como os académicos moçambicanos, não o respeitam. Precisarão dele. Acolhem-no, até pressurosos. E temem-no (“não escrevas sobre o Relvas …” estou farto de ouvir. Entre-paredes e não só.). Mas não lhe têm pingo de respeito.

 

Como se pode governar assim? Mais, como se pode governar democraticamente assim?

O Torgal Ferreira


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O Torgal Ferreira manda umas bocas aos homossexuais e a esquerda homofílica cala-se. Diz que os acusados (sejam lá do que sejam) têm de provar que estão inocentes e a malta cala (o provedor dos advogados, um advogado não castrado como perorou recentemente, fica-se no silvo do eunuco). E de novo vem vituperar o governo e apelar a manifestações (“ai se me pudesse manifestar”, geme) de rua? Torgal Ferreira é general, e nessa condição diz o que quiser sobre os homossexuais e diz o que quiser sobre o sistema jurídico? Talvez. Mas quando critica publicamente o governo e apela a manifestações de rua o que se deve fazer? Voz de prisão, sem mais nem menos. Só a cobardia acossada de um sistema político degenerado permite isto.

 

Não, não, dizem os hipócritas dos argumentos a la carte, não é general, é “apenas” um bispo equiparado? Chame-se o Núncio Apostólico, em explícita linguagem diplomática, e ponha-se o vate em ordem – numa qualquer paróquia argelina ou saudita. E, já agora, acabe-se definitivamente com a pantomina (Inconstitucional? Ridícula.) do “capelão das forças armadas”. E quando os beatos da “tradição católica”, do “santo padroado” vierem resmungar com isso, responda-se-lhes, apenas, “torgal”. Será argumento suficiente para acabar a discussão. Que nem sequer o merece ser.

O Grandolismo


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(José Afonso, “Os Vampiros”)

Regresso a casa e leio que em Portugal grassa uma onda ideológica, a do “grandolismo”. A juventude universitária, prenha de hormonas esfuziantes (e catapultada por uma bem sucedida pateada ao ministro Miguel Relvas, a qual tem levado a reacções adversas exageradíssimas, que encontram um quasi-criminoso atentado no mero apupar de um ministro até que este desista de botar e se cale, um excesso de pruridos que me parece um bocado patético), alia-se à meia-idade universitária, esta no afã da reorgasmização da vidinha. E o amplexo assim constituído anda por aí a “grandolar” ministros e (presumo) afins.

José Afonso foi um enorme músico-compositor, o maior da sua geração, a qual marcou e nisso alimentou nomes queridos como o magnífico Adriano Correia de Oliveira, Sérgio Godinho e Fausto, estes que felizmente continuam connosco e como tal não precisam de adjectivos. Um pouco como Pedro Ayres de Magalhães (num registo menos heróico) na geração seguinte. Militante, radical, se estivesse vivo muito provavelmente concordaria com este ressurgimento reutilizador da sua “Grândola”.

Mas ela, em boa medida, já não lhe pertence, como sempre acontece aos símbolos. Pertence a quem a utiliza, cada um à sua maneira, e nisso avaliado pela forma como o faz. A “Grândola” ficou como símbolo do 25 de Abril. Polissémico, como qualquer símbolo. Mas centrado no advento da liberdade, diz, pensa e acima de tudo sente, o discurso higiénico português. Esse que, bem na tradição colonialista da “esquerda”, do “centro” e da “direita” portuguesa, esquece que ela é também (fundamentalmente?) o símbolo da paz, do fim do nacionalismo bacoco, serôdio, anacrónico, que se traduzia em práticas político-administrativas-económicas brutais e numa guerra violentíssima, prolongada, injusta. E … inútil.

Assim sendo este “grandolismo”, que o indignismo bloquista descobre e agita, não vem apenas retomar a usurpação do sentimento democrático. Subliminarmente (?) armando-se das polaridades de 1974, isso do “nós, democratas, que cantamos” vs “vocês, fascistas, que vão mudos“, essa velha vontade monopolista (latifundiária) do pensar democraticamente (a qual que em outros tempos indignistas encheu o país de dísticos e pinturas intitulando de “fascistas” homens como António Barreto, Pezarat Correia ou Franco Charais, como exemplos hoje surpreendentes, mas que convém lembrar para entender o terrorismo intelectual de quem assim ia. E vai.). 

Na verdade este actual “grandolismo”, agit-prop que quer associar o poder político actual à memória do pré-25 de Abril, promove (e disso se alimenta) o esbatimento das características estruturais políticas, repressivas e sociais desse período, para as poder imputar ao hoje. Essas características coloniais, como refiro, mas também as especificamente internas. É um espantalho, um instrumento de desconhecimento desse passado, como tal da actualidade, naquele constituída, daquele tão diversa. O festivo, até erótico, “grandolismo” é um desejado instrumento de desconhecimento, friso. 

Por isso mesmo, e por exemplo, um ícone como “Os Vampiros” – tão adequado a uma crítica cantada ao momento actual (concorde-se ou não com a crítica intentada) – não surge. Pois não é a crítica que se pretende, apenas a invectiva (bipolarizadora). E nisso se torna doloroso assistir à promoção disto por quem tem como função profissional investigar (aka, criticar) e ensinar (aka, criticar). Nessa pantomina a fazer-me lembrar Zeca Afonso, cantando magnificamente um obscuro poeta:

 

(José Afonso, “No Comboio Descendente”)

Os incómodos


lauraramos,

Mais um político incómodo que sofre as consequências da hipocrisia nacional.

– Alguém tem dúvidas?

Só que  há gente que não perde tempo com guerras de final previsível, travadas com armas desiguais contra carrascos de cara tapada, manejando forcas feitas com o fio do cinismo.

Paulo Júlio é desses empreendedores que não alinha em jogos florais entretecidos de calúnia. E tem a impaciência típica das pessoas eficientes. 

Foi à sua vida?

Pior para nós, que adoramos palha.

Política portuguesa


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Não vim para o Delito de Opinião para opinar sobre política portuguesa, matéria que, diz-me a experiência, rapidamente me transforma em delinquente, tamanho o azedume face à “gasta pátria”. Mas uma querida amiga real, e blogoleitora, acaba de saudar esta minha transferência blogal. Através da oferta deste “ex-voto”, descoberto no seu sótão. Já agora, e abuso eu, a lembrar tempos outros, também de FMIs. A lembrar, que, e ao contrário do que dizem os furiosos assalariados do jornal “Público”, também em Portugal – e em tantas outras austrais paragens – o FMI não foi nem quis ser o coveiro da democracia.

 

E para lembrar/ensinar tempos, não muito longínquos, em que os protagonistas, e mesmo que apesar deles-próprios, eram melhores.

Just for the record (2)


Ana Vidal,

 

Tal como o José Gomes André, também eu faço questão de manifestar o meu desacordo com o rumo que este governo está a tomar. A diferença é que eu teria ido à manifestação, só não o fiz porque não me foi mesmo possível. O que não significa que subscreva o lema “Que se lixe a troika”, que  me parece irresponsável e infeliz. Eu não quero que a troika se lixe, porque seria o mesmo que dizer que quero que a troika nos lixe. Mas, sendo certo que a alternativa ao cumprimento das imposições da troika seria ainda mais desastrosa para o nosso país, com duras consequências a curtíssimo prazo, a verdade é que há sempre alguma margem de negociação e este governo não está a utilizá-la. Esta atitude “mais papista que o papa” tem-se traduzido num esmagamento social intolerável e numa enorme cegueira a todos os indicadores de alarme. Cortar as pensões aos reformados não é retirar-lhes benesses porque os tempos estão maus, é recusar devolver-lhes o seu próprio dinheiro, que entregaram ao Estado confiando numa gestão capaz de assegurar-lhes uma terceira idade tranquila.

 

E também não quero que caia o governo. A última coisa de que precisamos neste momento é o caos que seria uma crise política, a somar a tudo o resto. Espero é que os responsáveis pelo destino das nossas vidas a curto prazo percebam que o significado de tantos milhares de pessoas nas ruas em protesto por todo o país não pode ser ignorado. Somos pacíficos, mas não estamos dispostos a aguentar tudo de cabeça baixa.

 

Just for the record


josegomesandre,

Não vou à manif de amanhã porque não me apetece ser instrumentalizado pelos partidos de esquerda em que não confio e porque não sou contra a “saída da troika” do país (não me dou bem com bancarrotas, desculpem lá). Mas depois dos disparates desta semana – a ridícula proposta da Seg. Social, a patética entrevista de PPC, o desnorte da política económico-financeira e o absoluto pandemónio instalado no Ensino Secundário e Superior – deixei de apoiar este Governo. Só para que conste.

Pontos nos is (14)


jmmcc,

LAMAS

Pela boca do deputado Basílio Horta, o PS «considerou hoje “um mau negócio” a Oferta Pública de Aquisição (OPA) da Camargo Corrêa à Cimpor, afirmando que “lesa” o interesse público e o Tesouro.» Até pode ser, mas José Sócrates e os seus pares de má memória também foram um péssimo negócio para o País e fartaram-se de desprezar o interesse público e o Tesouro sem que o ex-centrista ou qualquer outro deputado socialista abrisse a boca para denunciar o descalabro.

A OPA à Cimpor e o desgoverno de Sócrates representam bem o modo como o PS costuma reflectir: dois pesos e duas medidas. Com a agravante de termos agora de vender os parcos haveres nacionais para tentarmos sobreviver e sair do charco socialista e lamacento em que mergulhámos.

Se Basílio Horta ainda vivesse à sombra do CDS-PP, por certo conseguiria reflectir melhor sobre a crise que nos entalou e os maus negócios lesivos do interesse público seriam então outros lamaçais.

Descoco


jmmcc,

Maria de Lurdes Rodrigues considerou ontem no Parlamento que a Parque Escolar demonstrou boa prática no cumprimento da recuperação de escolas e que o programa foi «uma festa» para todos os envolvidos. Isabel Alçada afirmou hoje perante os deputados que «a derrapagem não foi excessiva» e que a Parque Escolar era a oitava maravilha do mundo. Para ambas, a ausência de concursos públicos foi coisa de somenos.

Percebe-se agora melhor por que motivo as duas ex-ministras da Educação de Sócrates nunca deviam ter chegado a cargos de topo na gestão pública e nunca mais devem voltar. Se Deus existe e é justo, que lhes dê uma longa vida e, sobretudo, que mantenha uma e outra bem afastadas da gestão orçamental do país que deixaram de rastos para nós pagarmos. É que não há saco para tamanho descoco.

Pontos nos is (8)


jmmcc,

MAÇONARIA

I

José Xavier Mouzinho da Silveira (1780–1849) matriculou-se em Outubro de 1797 na Faculdade de Direito de Coimbra, onde obteve o grau de bacharel cinco anos mais tarde e terminou a formatura com a classificação final de nemine discrepante a 10 de Julho de 1802.

Colaborou na resistência às Invasões Francesas e esteve colocado em Marvão, de onde foi tranferido para ser empossado como juiz de fora na então vila de Setúbal a 29 de Maio de 1813, lugar que manteve até 22 de Novembro de 1816.

«Sete anos mais tarde, o corregedor da comarca vai acusá-lo de ter propagado em Setúbal a seita dos “pedreiros-livres”, garantindo constar que até “estabelecera duas lojas deles, sendo um libertino de primeira ordem, e tão escandaloso que nunca ouvia aqui missa”. Sem dúvida, quando se fala do movimento liberal, a Maçonaria está necessariamente implícita e faz tempo que Mouzinho, no mínimo, se sente muito chegado aos maçons com quem costuma privar.» (O Supremo Tribunal de Justiça em Portugal: Dois Séculos e Quatro Regimes de Memórias; João Carvalho; STJ, 2003.)

Como se vê, mesmo sem ser líquido que Mouzinho da Silveira fosse já um maçon aos 30 anos, foi acusado de o ser, pois era um libertino que parece que nem ia à missa. Uma acusação proferida e posta a circular por um superior de Mouzinho, que se referia ao eventual comportamento dele sete anos antes.

II

Mouzinho foi uma figura de proa do Liberalismo e até do Portugal que temos hoje. A sua reforma administrativa era totalmente irrealista na dimensão, mas foi em frente com alterações insuficientes e ainda agora está por corrigir. Contudo, a sua construção de raiz de uma nova Justiça independente revelou um trabalho sem paralelo que ainda prevalece e que já então colocava Portugal entre os países mais avançados, segundo um regime com um sistema judicial que ainda é comum aos Estados civilizados.

Em suma: há coisas que a Maçonaria não pode tolher, como sejam a questão civilizacional que nos consome, a transparência do desempenho político, a ética na gestão dos assuntos públicos. Se assim não for, certas obediências, obscuras ou não, tornam-se incongruentes e destituídas de sentido, especialmente quando reclamam o seu altruísmo e os seus elevados valores.

Enquanto se trocam galhardetes ocos, convém recordar que o País fica a marcar passo em discussões menores e o tempo escasseia cada vez mais para os avanços imprescindíveis. Tenham juízo e tentem manter a cabeça levantada. Lembrem-se que Mouzinho foi um exemplo indiscutível de patriotismo, entrega e seriedade.

O único problema que actualmente se coloca entre quem exerce cargos e funções políticas de relevo é simples: estão a ser sérios ou não? Porque o facto é este: a exigência que todos fazemos não tem de estar incluída ou de vir a fazer parte de qualquer estatuto político. Pode incluir-se, sim, se fizerem muita questão disso, mas o que se quer de facto sempre fez parte de qualquer estatuto. Chama-se seriedade — e isso é obrigatório.

Pontos nos is (3)


jmmcc,

CHOURIÇOS

Estou farto de ouvir dizer cobras-e-lagartos de João Duque e do relatório da comissão que liderou sobre o futuro da RTP. Dizem os opinadores correntes que ele nada sabe de televisão, que as conclusões constituem uma aberração e que o serviço público televisivo deve ser garantido pelo Estado. Ora, como eu também sou parte do Estado, nada mais razoável do que pedir licença para apontar o que penso sobre o assunto. Divido o apontamento nos mesmos três pontos que tanto andam a excitar os comentadores do costume: o que João Duque e a comissão ad hoc sabem de televisão, as consequências do relatório e o papel da RTP.

 

Primeiro, manifesto já o meu enorme espanto por haver tanta gente a achincalhar João Duque. Como é que um tão grande número de iluminados pode acusá-lo de nada saber de televisão, é para mim um mistério. Pois se há tantos a saber tanto sobre televisão ao ponto de tentarem desmontar todo o trabalho realizado, se até é uma característica bem portuguesa todos nós termos uma opinião a emitir sobre tudo, faz algum sentido deixar de fora João Duque? Não faz. Só por preconceito, o que retira imediatamente qualquer valor aos que andam a perorar.

Depois, há que reconhecer um aspecto que ainda não vi focado: ao contrário dos hábitos que nos são mais familiares, a comissão foi célere. Não andou a perder tempo ou a enrolar uma meada sem fim. Foi nomeada, trabalhou como lhe competia, registou o que entendeu e despediu-se. Num ápice, honra lhe seja feita. Concluiu bem ou mal? Na verdade, para se ser justo é preciso que se diga que nem concluiu de facto, porque a última palavra pertence ao poder político. O que a comissão (que integrou nomes reconhecidamente sabedores de televisão, sublinhe-se) fez foi analisar a realidade e acordar numa saída para uma situação claramente insustentável. Cabe ao poder político aceitar ou recusar o trabalho e decidir com a legitimidade obtida recentemente em eleições.

Em terceiro lugar, o serviço público que se esperaria da RTP (usando o exemplo inevitável do canal principal em sinal aberto) está muito, muito longe dos mínimos desejáveis. Ora porque se cola à programação das televisões privadas com o olho nas audiências, ora porque não se cola e não sabe o que há-de fazer além de encher chouriços — chouriços que ficam pela hora da morte, mais caros que as morcelas gourmet da mesa do rei — o certo é que andamos todos a pagar ordenados principescos que seriam obscenos mesmo que fossem entregues aos melhores profissionais do mundo. Convém lembrar ainda que o número de pessoas da RTP, incluindo os que ganham sem trabalhar nem encher chouriços, corre o risco de ultrapassar o dos funcionários da Administração pública.

 

Para terminar, já que nenhum daqueles opinadores habituais o referiu, deixem-me que lembre que o presidente da RTP foi recentemente à Assembleia da República explicar perante os deputados de uma comissão os seus pontos de vista. Disse ele, em resumo, que a RTP é quase fantástica, mas que até consegue fazer melhores enchidos com menos gorduras. Fazer mais com menos? É isso? E ninguem lhe pergunta porque é que não fez? Palpita-me que João Duque seria incapaz de reconhecer que andava a fazer menos com mais. Seguramente, por não ter o perfil dos que sabem imenso de chouriços e de televisão. Ainda bem.

Pontos nos is (2)


jmmcc,

DECISÕES

I

Sempre que ouço dizer que o Governo atirou fora as questões da Cultura dá-me vontade de rir. Lamento que isto assim dito por pessoas que têm responsabilidades públicas arraste gente anónima que facilmente absorve este tipo de pregões, mas estou-me nas tintas por dois motivos:

— não é a primeira vez que a representação governamental da Cultura deixa de ter um ministro e passa a ter um secretário de Estado;

— a Cultura não dá de comer no imediato a quem tem fome e os tempos são de óbvia e necessária austeridade, o que obriga a hierarquizar com especial critério a intervenção de quem governa.

Porém, acho que há ainda uma boa razão para contrapor aos pseudo-críticos do costume. Desde logo, a vida tem-me demonstrado que a intervenção institucional na Cultura é um tema que suscita sempre ideias geniais à mais distinta intelectualidade da nossa praça, enquanto do lado de fora, mas que os mais iluminados, quando se vêem a decidir, perdem depressa a imaginação criadora e a acção raramente ultrapassa a simples distribuição de verbas (leia-se: redistribuição de impostos).

A boa razão a que me referia é, pois, um dado substantivo e não um devaneio: a Cultura institucional está entregue a um homem de cultura que nada tem a provar para fazer currículo. Chega-me.

II

Vem agora a talhe de foice registar a decisão de Francisco José Viegas, não por ter substituído o director do Teatro Nacional D. Maria II, mas sim por ter demitido Diogo Infante do cargo.

Digo isto sem querer saber das possíveis qualidades de quem foi demitido. Diogo Infante pode ser um excelente actor, encenador, líder de uma companhia de artistas e até um bom economista, dentista, jornalista ou motociclista. Não me interessa. Interessou-me saber, em data recente, que era um mau director do Teatro Nacional D. Maria II, ao exceder as suas funções de modo inadmissível e com consequências públicas de claro impacto.

Ora, ao contrário dos péssimos hábitos portugueses, quando Diogo Infante declarou que a época de 2012 ficava sem efeito, não houve inquéritos nem quaisquer daquelas coisas que ficam a arrastar-se de gabinete em gabinete para intermináveis trocas de argumentos. Nada. O secretário de Estado apontou-lhe a porta de saída sem mais sobressaltos. Caso encerrado.

Teria Diogo Infante fundamentação para encerrar uma das mais importantes instituições culturais do Estado? Dou de barato: até podia ter. Contudo, faltava-lhe o fundamento dos fundamentos, o fundamento supremo, o fundamento indispensável: Diogo Infante não foi eleito pelos portugueses para qualquer posto que lhe permitisse tomar decisões políticas. Não fazia parte das suas atribuições.

O poder político está legitimado por eleições recentes e Francisco José Viegas está à altura do cargo. É bom saber que as questões da Cultura, afinal, não foram atiradas fora, mesmo que os meios sejam modestos. Chega-me.

Pontos nos is (1)


jmmcc,

EMPOBRECIMENTO

O termo anda gasto. Começou por servir para lembrar que temos um caminho duro para percorrer e, desde então, a nossa (!) Esquerda faz dele uma marca do tempo, uma característica capaz de distinguir a nossa crise da situação periclitante generalizada que consome outros povos por essa crise fora, uma diferenciação que nos confere um lugar marcado na plateia das crises que grassam. E como o faz essa Esquerda? Histericamente, de dedo acusador em riste, como se fosse coisa nunca vista, impensável e completamente ao arrepio de tudo o que pudesse ser razoável acontecer-nos.

Não viria daí qualquer mal ao mundo, se não fosse tal atitude um ditame básico de certa(s) ideologia(s). Aproveita-se a fragilidade dos mais frágeis, acrescenta-se a dos que estão a fragilizar-se e junta-se a dos que temem a fragilidade que se aproxima como um susto. Porquê? Faz parte do plano básico: toda a gente sente o drama e alinha inconscientemente com os que bradam. Não por concessão ideológica, mas por parecer que discordar resolve o assunto e altera a triste realidade. Alinha-se por mero desabafo, portanto.

Vamos então ao ponto. O empobrecimento é chocante? Até pode ser, mas nada existe que o substitua. Todos o sabemos, se pararmos para pensar antes de alinhar no coro de protestos. Sabemos que andámos anos e anos a viver com mais do que tínhamos, a gastar acima do que auferíamos, a comprar mais do que podíamos e a recorrer a linhas de crédito acima das nossas possibilidades.

Chegada a hora de arrumarmos as contas, temos de fazer o quê? Temos de viver com o que temos, de gastar só o que auferimos, de comprar só o que podemos e de esquecer o recurso ao crédito. Isto é: temos de viver com menos, muito menos. Significa isto que temos de viver pior, abaixo dos hábitos que criámos. Claro que devemos trabalhar mais, para minorar as consequências, mas o próprio trabalho escasseia e a receita fica sem tradução.

Ora, isso quer dizer que nos resta empobrecer. É isto o empobrecimento. Inevitável. Fizemos vida de ricos com dinheiro de remediados, agora caímos na realidade, mas já cheios de dívidas e sem posses. Se alguém quiser interromper os protestos para apresentar alternativas, que o diga já ou que se cale para sempre. O resto é folclore de muito mau gosto.

Os comícios parlamentares


jmmcc,

 

Perante a proposta de Orçamento do Estado, será o comportamento dos diferentes grupos parlamentares idêntico? Ano após ano, a resposta é a mesma: não. Este ano, por exemplo, a proposta pertence ao Governo do PSD e CDS e coube ao PS manter o suspense durante um certo tempo sobre o seu sentido de voto.

Já o PCP e o BE mal esperaram para dar uma vista de olhos à proposta. Saltaram para a praça pública sem demora e apressaram-se a dizer que iam votar contra ela. É suposto que tenham então explicado as suas razões. Devem tê-lo feito, mas também sentiram certamente o receio de não ter sido ouvidos o bastante.

Onde está a diferença entre uns e outros? Uns privilegiam o debate parlamentar, enquanto outros usam o hemiciclo da Assembleia da República como palco para comícios. O PCP e o BE são incapazes de entender um regime que sempre odiaram. Olham para o Parlamento e o que vêem é mais um palanque.