CHOURIÇOS
Estou farto de ouvir dizer cobras-e-lagartos de João Duque e do relatório da comissão que liderou sobre o futuro da RTP. Dizem os opinadores correntes que ele nada sabe de televisão, que as conclusões constituem uma aberração e que o serviço público televisivo deve ser garantido pelo Estado. Ora, como eu também sou parte do Estado, nada mais razoável do que pedir licença para apontar o que penso sobre o assunto. Divido o apontamento nos mesmos três pontos que tanto andam a excitar os comentadores do costume: o que João Duque e a comissão ad hoc sabem de televisão, as consequências do relatório e o papel da RTP.
Primeiro, manifesto já o meu enorme espanto por haver tanta gente a achincalhar João Duque. Como é que um tão grande número de iluminados pode acusá-lo de nada saber de televisão, é para mim um mistério. Pois se há tantos a saber tanto sobre televisão ao ponto de tentarem desmontar todo o trabalho realizado, se até é uma característica bem portuguesa todos nós termos uma opinião a emitir sobre tudo, faz algum sentido deixar de fora João Duque? Não faz. Só por preconceito, o que retira imediatamente qualquer valor aos que andam a perorar.
Depois, há que reconhecer um aspecto que ainda não vi focado: ao contrário dos hábitos que nos são mais familiares, a comissão foi célere. Não andou a perder tempo ou a enrolar uma meada sem fim. Foi nomeada, trabalhou como lhe competia, registou o que entendeu e despediu-se. Num ápice, honra lhe seja feita. Concluiu bem ou mal? Na verdade, para se ser justo é preciso que se diga que nem concluiu de facto, porque a última palavra pertence ao poder político. O que a comissão (que integrou nomes reconhecidamente sabedores de televisão, sublinhe-se) fez foi analisar a realidade e acordar numa saída para uma situação claramente insustentável. Cabe ao poder político aceitar ou recusar o trabalho e decidir com a legitimidade obtida recentemente em eleições.
Em terceiro lugar, o serviço público que se esperaria da RTP (usando o exemplo inevitável do canal principal em sinal aberto) está muito, muito longe dos mínimos desejáveis. Ora porque se cola à programação das televisões privadas com o olho nas audiências, ora porque não se cola e não sabe o que há-de fazer além de encher chouriços — chouriços que ficam pela hora da morte, mais caros que as morcelas gourmet da mesa do rei — o certo é que andamos todos a pagar ordenados principescos que seriam obscenos mesmo que fossem entregues aos melhores profissionais do mundo. Convém lembrar ainda que o número de pessoas da RTP, incluindo os que ganham sem trabalhar nem encher chouriços, corre o risco de ultrapassar o dos funcionários da Administração pública.
Para terminar, já que nenhum daqueles opinadores habituais o referiu, deixem-me que lembre que o presidente da RTP foi recentemente à Assembleia da República explicar perante os deputados de uma comissão os seus pontos de vista. Disse ele, em resumo, que a RTP é quase fantástica, mas que até consegue fazer melhores enchidos com menos gorduras. Fazer mais com menos? É isso? E ninguem lhe pergunta porque é que não fez? Palpita-me que João Duque seria incapaz de reconhecer que andava a fazer menos com mais. Seguramente, por não ter o perfil dos que sabem imenso de chouriços e de televisão. Ainda bem.

Mas você viu algum argumento dos que criticaram o relatório? Aquilo foi só likes para sim ou para não. Os do sector, claro, não gostaram. Era lícito esperar diferente? Também não!
Queremos sempre que tudo mude desde que fique tudo na mesma.
Tradições…
Estou de acordo com a análise.
Convirá, todavia, enfatizar mais uma vez que a referida Comissão ad hoc não foi remunerada.
É um justíssimo sublinhado, este seu.
Caro João
Concordo contigo plenamente com o direito que me assiste a experiência de mais de vinte anos a trabalhar em televisão e cinema. Dizer-te apenas que ainda esta manhã “postei” no meu blogue uma paulada a uns “experts” que foram ontem “debater (?)” num forum do ‘DN’ sobre o relatório e sobre João Duque. Especialistas da treta que nada entendem de televisão e de informação (dois deles tinham a obrigação de não dizer disparates porque já foram directores de informação) mas que apenas mostram estar interessados em promover certa política com a capa de que a informação não é influenciada por ninguém (risos). Que eu saiba, agora o teatro do socratismo é em Paris…
Tive pena de não ver esse “debate”, que ainda por cima só perdi por não me ter lembrado. Deve ser da idade.
Podes ver no meu blogue. Vale a pena.
Aquilo foi do bom e do bonito. Não sei como fui perder o espectáculo.
Desculpa lá, mas enganei-te. Pensei que estavas a referir-te ao debate do Medina Carreira e Paulo Morais no TVI24. Um grande show. Esse é que tenho no meu blogue. Abraço
Não importa, porque não vi um nem outro.
Assim mesmo, João, pontos nos is. Foi uma típica reacção corporativa, recorrendo (principalmente se debatida dentro da corporação, ou seja, sem contraditório) aos argumentos mais falaciosos. Vai ser muito complicado mudar a RTP.
Não vai ser nada complicado, por uma razão simples: não vai mudar nada. Uma apostinha?
A esperança não é a última a apostar?
Cheira-me que é uma das raras coisas que mais valia deitar fora e fazer novamente de raiz, sabes?
O que acho curioso e intrigante é que vivemos numa sociedade onde toda a gente sabe “tudo”; comenta “tudo”, é “expert” em “tudo”. É impressionante, e quando toca a enxovalhar, não há limites. Não há respeito pelas pessoas, pelas posições que tomam, pela sua actividade profissional, pelo seu mérito.
A RTP dedica uma percentagem mínima da sua programação ao serviço público, é dispendiosa e não é atraente; ponto final.
Parabéns pela sua análise, e pelo item “Depois”.
Obrigado. Tem toda a razão, claro.
Antes de ir ao post, só uma informação acerca de um assunto antigo: 2-de-novembro-de-2011/articles_view?bId=0 2-de-novembro-de-2011&article_id=Delibera%C3%A7%C3%B5es%20da%2 0C%C3%A2mara%20Municipal%20em%20Reuni%C3%A 3o%20Ordin%C3%A1ria&articleType=01
http://www.cm-barcelos.pt/bme/arquivo/0
Não há dúvida de que mexes os teus cordelinhos…
Os cordelinhos da net…
Hum…
Aïe… Só esses, os da informação!
Dá-lhe com força, João (nos pontos nos ‘is’) é assim mesmo. A RTP não pode passar incólume à racionalização de meios, aos cortes, o que quer que lhe chamem. Começa logo por aí: não podem ser excepção. Depois, a oportunidade de pôr aquilo no eixos – os eixos do serviço público – é única.
Cá fico à espera que metas mais “pontos”… 😉
Pois é, Laura.
Olha, queres mais? Calma aí, que os primeiros destinatários ainda não fizeram a digestão…