EMPOBRECIMENTO
O termo anda gasto. Começou por servir para lembrar que temos um caminho duro para percorrer e, desde então, a nossa (!) Esquerda faz dele uma marca do tempo, uma característica capaz de distinguir a nossa crise da situação periclitante generalizada que consome outros povos por essa crise fora, uma diferenciação que nos confere um lugar marcado na plateia das crises que grassam. E como o faz essa Esquerda? Histericamente, de dedo acusador em riste, como se fosse coisa nunca vista, impensável e completamente ao arrepio de tudo o que pudesse ser razoável acontecer-nos.
Não viria daí qualquer mal ao mundo, se não fosse tal atitude um ditame básico de certa(s) ideologia(s). Aproveita-se a fragilidade dos mais frágeis, acrescenta-se a dos que estão a fragilizar-se e junta-se a dos que temem a fragilidade que se aproxima como um susto. Porquê? Faz parte do plano básico: toda a gente sente o drama e alinha inconscientemente com os que bradam. Não por concessão ideológica, mas por parecer que discordar resolve o assunto e altera a triste realidade. Alinha-se por mero desabafo, portanto.
Vamos então ao ponto. O empobrecimento é chocante? Até pode ser, mas nada existe que o substitua. Todos o sabemos, se pararmos para pensar antes de alinhar no coro de protestos. Sabemos que andámos anos e anos a viver com mais do que tínhamos, a gastar acima do que auferíamos, a comprar mais do que podíamos e a recorrer a linhas de crédito acima das nossas possibilidades.
Chegada a hora de arrumarmos as contas, temos de fazer o quê? Temos de viver com o que temos, de gastar só o que auferimos, de comprar só o que podemos e de esquecer o recurso ao crédito. Isto é: temos de viver com menos, muito menos. Significa isto que temos de viver pior, abaixo dos hábitos que criámos. Claro que devemos trabalhar mais, para minorar as consequências, mas o próprio trabalho escasseia e a receita fica sem tradução.
Ora, isso quer dizer que nos resta empobrecer. É isto o empobrecimento. Inevitável. Fizemos vida de ricos com dinheiro de remediados, agora caímos na realidade, mas já cheios de dívidas e sem posses. Se alguém quiser interromper os protestos para apresentar alternativas, que o diga já ou que se cale para sempre. O resto é folclore de muito mau gosto.

“Temos”?! Todos, ou só alguns?!
Cada um tira as conclusões que melhor entender, não é?
Concordo consigo que temos todos, individualmente, que cortar nas despesas. Cada um cortará conforme as suas prioridades.
A minha discordância com este governo está nas prioridades que tem vindo a estabelecer para os cortes ao nível do Estado.
Admito que isso seja um ponto de vista defensável.
O Governo cubano vai despedir centenas de milhar de funcionários públicos.
Jeronimo e Louçã… irão lá à revelia D’ El Comandante … apelar à revolta popular e à greve geral…
De caminho, passam pela Coreia do Norte!
A qual, aliás, fica mesmo à mão…

Tens muita razão, João. Atiram em todas as direcções. E fogem dos espelhos a 7 pés.
Sempre me custou entender o motivo por que o fazem, sabes? Essa gente nem se vê ao espelho e depois fogem dos espelhos! Deve ser uma fezada qualquer…
não, mas… (engasguei-me)
Cof-cof… resolve?…
peço desculpa, mas não era a este post que se destinava o comentário
Palpitou-me.
Se fosse assim tão simples… O que chateia é que não é. Nem toda a gente compra esse lema que nos impingiram, “andamos a viver acima das nossas possibilidades”. Reduzir quem alinha em protestos como “inconscientemente”.
Covém perceber, se se quer realmente por algum ponto certo num i, que uma grande parte da população não andou a levar vida de rico, não andou a viver acima das suas possibilidades. Pelo contrário. Ser-se criticado por protestar perante esta injustiça, este lema barato, é abaixar a cabeça e dizer que, daqui para a frente, os nossos líderes, a nossa elite, os mercados, o raio que os parta, podem fazer de nós o que quiserem, que nós vamos todos dizer em coro que a culpa é nossa e agradecer aos deuses por ainda termos um tecto e uma códoa de pão.
A bem da Nação, já agora.
Receio que a leitura com que me honrou tenha sido feita na diagonal. Nem pouco mais ou menos se entende que eu tenha sugerido o que cosnta da “parte forte” do seu comentário, que tem em vista indignidades que eu partilho e não referi no texto.
Já quanto à sua parte inicial, tenho de discordar em absoluto. O facto é que andámos a viver acima das nossas possibilidades, sim, levando (no geral) uma vida de ricos acima das nossas possibilidades, que o crescente recurso ao crédito e os números assustadores do crédito malparado iam comprovando ao longo destes anos. Já sem falar no novo-riquismo de mau gosto e desastroso que caracterizou os governos anteriores.
Também não tenho dúvidas sobre uma certa inconsciência colectiva que tenta muita gente a juntar-se aos protestos, nascidos de intenções ideológicas muito concretas. A prova é simples: nenhuma dessas ideologias ganharia hoje eleições, por muitos adeptos que arrastem para os protestos. As últimas eleições são recentes e um novo acto eleitoral feito hoje não iria alterar substancialmente o quadro actual, como a evidência e as sondagens confirmam.
“grande parte da população não andou a levar vida de rico, não andou a viver acima das suas possibilidades. “
Não mas a População deixa os Políticos venderem dívida. E 75-80% dessa Dívida é gasta em salários e pensões.
Dívida Publica
31 Dez 2004 : 90 mil milhões de Euros
31 Dez 2010 : 151 mil milhões de Euros
31 Out 2011 : 178 mil milhões de Euros
Pois.
Caro anónimo, pensões para as quais as pessoas descontam uma vida inteira. Não é um favor que o cândido Estado faz às pessoas. Se há quem receba pensões milionárias, creio que essa será uma ínfima minoria. Os funcionários públicos também fornecem um trabalho ao Estado, razão pela qual devem ser pagos. Constituem também a maioria da população? Não.
Então deixem de repetir essa barbaridade que é a de que a população portuguesa andou a viver acima das suas possibilidades e a levar vida de rico. Terá andado uma minoria, ao mesmo tempo que os nossos governantes andaram a gerir muito mal o país.
Até porque os verdadeiramente ricos não são os mais afectados (se é que o chegam a ser) com estas medidas de austeridade.
Quaisquer conclusões precipitadas ou aligeiradas nada retiram à realidade dos números. O facto de haver uma minoria muito rica não vem ao caso. Os funcionários públicos, por exemplo, eram excessivos e andaram a ser pagos acima do que era possível o País pagar? São perguntas assim que devemos fazer e as respostas, infelizmente, são afirmativas.
Espero que não lhe passe pela cabeça que eu me sinta muito bem por isso, porque é fácil perceber que sempre vivi do meu trabalho esforçado e nada mais.