A verdade em menos de 60 minutos


Sérgio de Almeida Correia,

Quando o estilo, que me abstenho de qualificar, do apresentador depara com uma deputada que se permite comportar como uma tasqueira de baixo nível, a quem ainda por cima aquele tenta proteger perante todas as evidências, o resultado só podia ser mesmo este. Alfredo Barroso escusava, embora ela o merecesse, de também a ter tratado por “senhora Teresa”, pois que nessa altura já todos tínhamos percebido tudo. E quanto à ignorância a gente também não estranhava, em especial depois de ler algumas entrevistas e de conhecermos a obra (?) que deixou como secretária de Estado. Mas, que diabo, por muito que a senhora deva a Paulo Portas pela carreira e o salário que aufere em tempos de crise, será que alguma coisa justificava tanta baixeza, tanta falta de chá?

 

Talvez que Paulo Portas, sendo um homem educado e inteligente, possa “sugerir” a substituição da dita pelo “nosso” Adolfo. Sempre teria outro nível. E o Adolfo não precisa de saltos altos para dar nas vistas.

A fórmula Cavaco


José Maria Gui Pimentel,

Cavaco junta, numa fórmula, as características mais apreciadas pelos portugueses: austeridade e simplicidade. Tal (com a ajuda dos fundos europeus) permitiu-lhe arrecadar duas maiorias absolutas e, depois de 10 longos anos de governo, obter um resultado que considero bastante honroso contra Jorge Sampaio nas Presidenciais. Sócrates possui – ou possuia nos primeiros anos de governo – a primeira característica, ao passo que a simplicidade nunca foi seu apanágio.

Passos Coelho, tenho reparado, já percebeu o truque e tem “envidado” esforços no sentido de se fazer parecer cada vez mais com Cavaco. Primeiro a simplicidade: nada de presentes para a filhota no Natal, nada de viver na capital (nesta superou o mestre, com a sua Travessa do Possolo), nada de fatos Hugo Boss, etc…. Depois a austeridade: vi as entrevistas a propósito do seu lado “mais pessoal” e Passos demonstrou (intencionalmente ou não) ser desinteressantíssimo. Tal como Cavaco, o líder do PSD deu a impressão de só saber falar de economias – a do Estado e a do seu lar. Trata-se, aliás, de uma auspiciosa antítese em relação a Portas, com quem dá a sensação de se poder falar de tudo, desde cinema à decoração de sua casa. Será interessante observar a convivência entre os dois.

Legislativas (21)


Pedro Correia,

A SUBIR

 

Pedro Passos Coelho. Venceu as legislativas suplantando todos os vaticínios e contrariando até o que alguns companheiros de partido antecipavam. A sua clara vitória no frente-a-frente com José Sócrates, como aqui logo se sublinhou, foi vital para que os portugueses acreditassem nele. O seu discurso de vitória, contido e sóbrio, contribuiu ainda mais para se perceber que entrámos num novo ciclo.

 

Paulo Portas. O CDS cresceu em número de votos e número de deputados, consolidando-se em áreas urbanas como Lisboa e Setúbal. Mais importante que isso: fará parte da próxima solução governativa. Um momento alto na carreira política de Portas.

 

Jerónimo de Sousa. A CDU ganha apenas um deputado mas é a única força de esquerda que resiste nestas legislativas. E alcança sobretudo um saboroso triunfo sobre um rival de estimação: o Bloco de Esquerda. A personalidade do secretário-geral comunista desempenhou um papel importante neste resultado.

 

Debates. Não há campanha sem debates. Esteve mal, portanto, um jornal que titulava recentemente em manchete “O povo não vai em debates”. Pelo contrário, nestas legislativas os debates televisivos tiveram nível, substância e uma influência determinante. Com destaque natural para aquele que opôs Sócrates a Passos Coelho. Porque o povo vai mesmo em debates.

 

Fernando Nobre. Foi uma aposta arriscada de Passos Coelho para encabeçar o distrito de Lisboa. Aposta ganha: Nobre contribuiu para reforçar a votação social-democrata no principal círculo eleitoral do País (mais cinco deputados e mais 9% dos sufrágios), onde o PSD obtém o melhor resultado desde 1991, depois de ter vencido claramente um debate televisivo na TVI 24 com o cabeça-de-lista do PS em Lisboa, Ferro Rodrigues.

 

Cavaco Silva. Estaria agora a ser alvo de todas as críticas se o PS voltasse a ganhar as legislativas. A clara derrota eleitoral dos socialistas, menos de dois anos após o anterior escrutínio, confirmou que a maioria parlamentar já não correspondia à maioria sociológica do País. A dissolução do Parlamento foi, portanto, a melhor decisão que havia a tomar.

Pequenos gestos


Pedro Correia,

José Sócrates e Paulo Portas saudaram publicamente o vencedor da noite, Pedro Passos Coelho. Outros dois líderes partidários, Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa, não o fizeram – pelo menos que eu tivesse ouvido em directo nas televisões. Há pequenos gestos que dizem muito sobre o espírito democrático dos políticos e sobre a forma como encaram o veredicto popular expresso nas urnas.

 

ADENDA: Leitor atento avisa-me, nesta caixa de comentários, que Louçã também dirigiu palavras de parabéns ao vencedor. Fica feita a rectificação.

Avivar a memória (3)


Pedro Correia,

 

O que escrevi sobre Paulo Portas:

 

10 de Setembro de 2009: «Basta por vezes uma só frase para decidir um debate. Paulo Portas proferiu-a esta noite, no frente-a-frente com Manuela Ferreira Leite na RTP. “Experimente um dia ser oposição na Madeira“, disse o líder do CDS à sua interlocutora. A social-democrata, que tanto tem clamado contra a “asfixia democrática”, ficou sem resposta. Para quem tivesse dúvidas, o vencedor deste debate estava encontrado.»

 

22 de Outubro de 2009: «Enquanto o PSD continua entretido com as suas guerras intestinas, o líder do CDS vai marcando pontos.»

 

9 de Maio de 2011:«Sócrates nunca tinha ouvido em directo, na televisão, algumas das frases com que Portas o brindou neste frente-a-frente. Frases que revelam uma realidade elementar: o líder socialista, chefe do Governo desde Março de 2005, “é o político responsável pelo estado a que chegámos”. Mais: “Este primeiro-ministro vai perder as eleições porque as pessoas vão votar com os bolsos quase vazios.”»

Legislativas (10)


Pedro Correia,

  

 

DEBATE PAULO PORTAS-FRANCISCO LOUÇÃ

 

Francisco Louçã e Paulo Portas protagonizaram esta noite, na SIC, o mais equilibrado dos debates televisivos desta campanha. Foi um debate em que ficaram evidentes as clivagens ideológicas mas sem crispações pessoais. O presidente do CDS-PP e o coordenador do Bloco de Esquerda, ambos com longa experiência em televisão, souberam dirigir-se aos seus eleitorados específicos – jovens, desempregados e pensionistas sociais, no caso de Louçã; idosos, agricultores e portugueses da classe média-baixa, no caso de Portas. Louçã foi hábil ao associar por duas vezes o seu antagonista ao primeiro-ministro. “O seu programa é hoje o do engenheiro Sócrates”, acusou o bloquista, lembrando que Portas apoiou o memorando assinado entre o Governo e o triunvirato composto por membros da Comissão Europeia, FMI e Banco Central Europeu. “O responsável pela situação a que Portugal chegou chama-se José Sócrates”, demarcou-se Portas, acentuando que aprovou o memorando por absoluta falta de alternativa: “Uma declaração de insolvência do Estado português significava que Portugal era posto fora do euro e que o dinheiro das pessoas ficava a valer metade.”

Portas aproveitou o início do frente-a-frente para detalhar algumas das medidas que propõe aos eleitores. Nomeadamente a concessão de um crédito fiscal às empresas que contratem novos trabalhadores neste tempo de recessão e a obrigação de as universidades avisarem os alunos para os índices de emprego dos seus cursos. Louçã também foi capaz de descer ao concreto, advogando a “criação de emprego com o impulso do Estado” na ferrovia de proximidade, em novas redes de lares de terceira idade e na reabilitação urbana. Trocaram argumentos fortes em questões como o emprego, o rendimento mínimo e a renegociação da dívida externa portuguesa. Portas aproveitou para criticar Louçã por ter recusado uma audiência com os membros do triunvirato que se deslocaram a Lisboa: “As suas ideias, deixou-as nas mãos de José Sócrates. Porque teve medo de perder votos para o Partido Comunista.” Louçã deu-lhe o troco, acusando-o de “conseguir votos” à custa da diabolização dos beneficiários do rendimento mínimo, “degradando a cultura da solidariedade”. E, tal como fizera no debate com Paulo Portas, voltou a mencionar o ex-ministro democrata-cristão Bagão Félix entre os que defendem a renegociação da dívida. Sem esquecer outras personalidades distantes da sua área ideológica que já exprimiram a mesma tese, como Pedro Ferraz da Costa e “o seu antigo primeiro-ministro, Santana Lopes”. Palavras ditas olhando Portas com um sorriso irónico.

O presidente do CDS, mais contido do que é habitual, não hesitou em mencionar áreas de convergência com o Bloco: “Ambos votámos a favor da prescrição da unidose”, acentuou. Também ele defende a “Caixa Geral de Depósitos pública”, estando nesta matéria mais próximo de Louçã do que do PSD. Não deixou, aliás, de marcar distâncias em relação a Passos Coelho num cenário de uma coligação pós-eleitoral PSD-CDS. Passos só a aceita se os sociais-democratas forem os mais votados, Portas defende-a mesmo que o PS fique em primeiro nas urnas mas os dois partidos mais à direita consigam formar maioria aritmética no Parlamento.

“Os indecisos têm que votar. Eles farão a força da democracia”, concluiu Louçã. Portas pareceu de acordo. Não restavam dúvidas: este debate serviu aos dois.

 

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FRASES

Louçã – «A criação de emprego tem que puxar pela economia no seu todo.»

Portas – «O primeiro-ministro que ainda nos governa tinha prometido criar 150 mil postos de trabalho.»

Louçã – «Todas as medidas que afundam a economia criam desemprego.»

Portas – «O senhor não pode enganar-se com quem está aqui. Não está aqui ninguém que congelou pensões.»

Louçã – «Paulo Portas é o único português, junto com o engenheiro Sócrates, que acha razoável pagar 30 milhões em juros.»

Portas – «O doutor Francisco Louçã não foi capaz de falar nem com o FMI, nem com o BCE, nem com a UE. Quando o meu país está à beira da insolvência, eu não fico quieto.»

Louçã – «O doutor Paulo Portas tem muito pouco respeito pelos adversários. Não me acuse de ficar quieto.»

Portas – «A renegociação da dívida não é solução.» 

 

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ADENDA

Por curiosidade, recordo o que escrevi sobre o debate Paulo Portas-Francisco Louçã da campanha legislativa de 2009.

Legislativas (6)


Pedro Correia,

 

 

DEBATE PAULO PORTAS-PEDRO PASSOS COELHO

 

O presidente do PSD perdeu esta noite uma excelente oportunidade de invocar algumas bandeiras sociais do seu partido perante os eleitores indecisos que o escutavam. E a ocasião era até propícia para o efeito: Pedro Passos Coelho tinha pela frente, no estúdio da SIC, o líder do partido situado mais à direita no hemiciclo de São Bento. Passos preferiu, no entanto, falar de temas macro-económicos: poupança do Estado, receita adicional dos cofres públicos, taxa social única, crescimento económico, criação de emprego, um “esforço adicional” dos portugueses para a diminuição do défice das nossas contas. Questões importantes, sem dúvida. Mas insuficientes para quem esperaria do principal partido da oposição uma olhar menos economicista sobre os problemas que afligem o País. Paulo Portas, que recentemente se gabou de liderar um partido situado “à esquerda” do PSD em preocupações sociais, tinha razões para estar satisfeito quando Clara de Sousa deu por concluído o debate.

Portas e Passos mostraram-se cautelosos ao longo deste frente-a-frente. Sabendo que existem fortes probabilidades de coexistirem num governo a empossar por Cavaco Silva após as legislativas de 5 de Junho, mostraram uma notável contenção verbal que em certos momentos roçou a monotonia. José Sócrates, adversário de ambos, esteve mais ausente deste debate do que se esperava. E nos escassos minutos de real despique político a iniciativa coube quase sempre ao presidente do CDS-PP, certamente animado pelas sondagens. “Temos visto o PSD variar em muitos assuntos muito depressa”, afirmou Portas, ironizando acerca da “enésima versão do PSD sobre a taxa social única” ou as posições erráticas que os sociais-democratas têm assumido em matéria fiscal. “O senhor já uma vez teve que se desdizer quando disse que não aumentava impostos”, lembrou. E foi ainda mais incisivo ao apontar o dedo crítico ao partido laranja em questões agrícolas: “A política do PSD para a agricultura, nos últimos anos, foi um deserto.”

Passos, aparentando mais calma do que o seu interlocutor, aludiu a uma maioria absoluta em que nem sequer no PSD já ninguém parece acreditar: na sua opinião, “não é irrealista” que os eleitores dêem aos sociais-democratas “as mesmas condições que deram ao PS no passado”. Nenhum estudo de opinião sustenta tal tese. O presidente laranja sabe, portanto, que uma coligação com os democratas-cristãos constitui o maior seguro de vida política pós-eleitoral para o partido que lidera. Daí talvez a excessiva bonomia com que tratou Portas. Noutros tempos, com outros líderes, este jamais teria sido um debate entre iguais. Mas o PSD já não é o que era. E o CDS também não. Algo se vai movendo no aparente imobilismo da política portuguesa.

 

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FRASES

Portas – «As pessoas estão preocupadas em soluções para o País e não em tricas entre os políticos.»

Passos – «Um governo PS-CDS-PSD seria uma salada russa.»

Portas – «O PSD não fez o suficiente para ser premiado com o voto.»

Passos – «O programa desenhado pela troika é o preço da incompetência que tivemos durante seis anos a governar Portugal.»

Portas – «O senhor foi muleta de José Sócrates.»

Passos – «O PSD não é muleta de ninguém.»

 

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ADENDA

Por curiosidade, recordo o que escrevi sobre o debate Manuela Ferreira Leite-Paulo Portas da campanha legislativa de 2009.

Legislativas (2)


Pedro Correia,

 

 

DEBATE JOSÉ SÓCRATES-PAULO PORTAS

 

Pela primeira vez, que eu me lembre, José Sócrates perdeu um debate eleitoral. Foi esta noite, nos estúdios da TVI, perante um Paulo Portas em boa forma que lhe disse o essencial, olhos nos olhos: este primeiro-ministro “vive na estratosfera”. Vive num país só dele, que nega a realidade quotidiana dos portugueses: a dívida pública duplicou em seis anos, há hoje quase 700 mil pessoas sem emprego, o “estado social” tornou-se uma figura de retórica, Portugal viu-se forçado a estender a mão à caridade internacional.

Incapaz de reconhecer um erro, dando continuamente o dito por não dito, sublinhando mais de uma vez que o Governo“deu o seu melhor”, Sócrates começou o debate com o ar mais cordato deste mundo: “abertura” e “diálogo” foram as primeiras palavras-chaves do seu discurso. “Portugal precisa de um governo forte”, declarou o líder socialista. Nem parecia o mesmo que foi incapaz de esboçar uma coligação pós-eleitoral quando venceu as legislativas de 2009 muito longe da confortável maioria absoluta de que dispôs nos quatro anos anteriores.

Sócrates nunca tinha ouvido em directo, na televisão, algumas das frases com que Portas o brindou neste frente-a-frente bem moderado por Judite Sousa. Frases que revelam uma realidade elementar: o líder socialista, chefe do Governo desde Março de 2005, “é o político responsável pelo estado a que chegámos”. Mais: “Este primeiro-ministro vai perder as eleições porque as pessoas vão votar com os bolsos quase vazios.”

Sócrates não tardou a perder o ar de bonomia: a natureza de “animal feroz” acaba sempre por vir à superfície neste homem incapaz de estabelecer pontes com adversários. E com isto estragou irremediavelmente a imagem de indivíduo dialogante que levara para este debate. Apertado por Portas, não resistiu a um número de fácil demagogia televisiva: exibiu uma pasta vazia dizendo que aquele era o programa eleitoral do CDS, que “ainda não existe”. Com isto irritou o líder democrata-cristão e marcou certamente alguns pontos junto dos telespectadores. Mas também confirmou que não está minimamente vocacionado para o diálogo político. Sendo aliás ele o campeão dos programas eleitorais por cumprir, esta deveria ser a última das suas opções argumentativas. Lembram-se ainda daquele socialista que prometia criar 150 mil empregos, inaugurar as linhas ferroviárias de alta velocidade e pôr Portugal a crescer 3% ao ano?

 

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FRASES

Sócrates – «Da parte do PS, os portugueses não esperarão nenhuma atitude de radicalismo e sectarismo. Não deixaremos de colaborar, de definir espaços de diálogo e de compromissos com os dois partidos que subscreveram o programa da troika, com o qual o País está comprometido.»

Portas – «Portugal encontra-se numa situação de protectorado.»

Sócrates – «O Governo não pode ser acusado de não ter feito o seu melhor.»

Portas – «Eu nunca disse que não seria primeiro-ministro sem o FMI.»

Sócrates  – «O senhor deputado e o seu partido contribuíram para uma crise política ao chumbarem o PEC IV.»

Portas – «A história não começou há seis semanas: começou há seis anos, com José Sócrates. E começou porque houve uma política irresponsável.»

Sócrates – «Eu invisto no TGV, não invisto nos submarinos.»

Portas  – Para duas pessoas terem uma discussão útil é preciso que habitem a mesma realidade. O candidato José Sócrates não habita a realidade há muito tempo.»

Sócrates – «O acordo [com o triunvirato, vocábulo que Portas prefere a troika, e muito bem] preserva o modelo social em que queremos viver.»

Portas – «O candidato José Sócrates é muito competente a manipular mas não é muito competente a governar.»

Sócrates – «Paulo Portas nunca deu um contributo para que possamos reduzir a dívida, para que possamos reduzir o défice.»

Portas – «Enquanto o senhor dizia que a economia ia crescer, nós víamos a recessão a chegar.»

Sócrates  – «O programa eleitoral do CDS não existe.»

Portas – «O senhor, como candidato, mente mal.»

Sócrates  – «Não lhe admito isso.»

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ADENDA

Por curiosidade, recordo o que escrevi sobre o debate Sócrates-Portas da campanha legislativa de 2009.

Legislativas (1)


Pedro Correia,

 

 

DEBATE JERÓNIMO DE SOUSA-PAULO PORTAS

 

Os debates eleitorais para as legislativas de 5 de Junho arrancaram esta noite, na RTP, opondo o secretário-geral do PCP ao presidente do CDS-PP. Foi um bom frente-a-frente: sem chavões nem retórica, sem tempos mortos. Paulo Portas e Jerónimo de Sousa surgiram em estúdio com tácticas opostas: o democrata-cristão emitiu várias declarações de simpatia em relação ao líder comunista, sem retribuição. Começou logo por lhe chamar “meu caro colega”, revelou aos telespectadores que ele e Jerónimo se dão “pessoalmente bem” e chegou a lembrar que o seu grupo parlamentar votou favoravelmente uma resolução do PCP contra a degradação do salário mínimo. Prestou até homenagem ao partido da foice do martelo acentuando que “só há dois partidos que falam a sério sobre agricultura na Assembleia da República – o CDS e o PCP.”

O secretário-geral comunista optou, pelo contrário, por marcar distâncias: tratou sempre o seu interlocutor por “doutor Paulo Portas” e não tardou a lembrar que o CDS é um dos partidos signatários do recente memorando de entendimento com o Fundo Monetário Internacional, o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia. Um acordo que o PCP considera de lesa-pátria. Portas deu-lhe réplica com uma advertência que repetiu quatro vezes e se tornou a frase central do debate: “Não se engane de adversário, Jerónimo de Sousa.”

Ambos veteranos de debates eleitorais, Jerónimo e Portas confirmaram méritos anteriormente revelados em televisão. O líder comunista transmite sempre uma imagem de convicção e sinceridade, apesar de não evitar a repetição de clichés discursivos que soam algo estafados – expressões como “um governo patriótico e de esquerda” e “os que menos têm e menos podem”. O presidente democrata-cristão tem uma grande destreza argumentativa, bem patente quando rebateu com eficácia as soluções comunistas alternativas ao resgate financeiro de 78 mil milhões de euros, nomeadamente a venda de fundos públicos para comprar dívida pública: “Isso não excederia cinco mil ou seis mil milhões de euros. Portugal precisa quatro vezes mais que isso.”

Jerónimo apela sobretudo à consolidação do seu eleitorado clássico, mais envelhecido: “Quem trabalhou uma vida inteira tem direito à sua reforma.” A Portas, obviamente embalado pelas boas sondagens, interessa roubar votos tanto a eleitores irritados com a governação socialista como com a inépcia dos sociais-democratas em assumir-se como oposição credível. Lembrou que o seu grupo parlamentar nunca aprovou PEC algum e só deu luz verde ao acordo com a troika por este motivo muito simples: “Já não havia dinheiro para pagar salários e pensões.”

O moderador do frente-a-frente, Vítor Gonçalves, é um bom jornalista mas falta-lhe visivelmente rodagem e rotina para uma missão deste género: em certas ocasiões mais parecia estar ali na qualidade de cronometrista. Não havia necessidade: Jerónimo e Portas são dois políticos bem experientes que nunca deixam de ter a lição estudada. Nenhum deles precisa que alguém lhes indique as horas. O líder comunista sabe que é tempo de ajustar contas nas urnas com um Bloco de Esquerda em queda contínua. O dirigente máximo do CDS não tem dúvida de que chegou o momento de regressar ao Governo, seja com quem for. Está escrito nas estrelas e tem data marcada: 5 de Junho, ao cair da noite.

 

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FRASES

Jerónimo – “Este acordo [com o FMI e o BCE] tem a assinatura do CDS para o congelamento dos salários e pensões, e para o aumento das taxas moderadoras. Não dá a cara com a careta.”

Portas – “Não se engane de adversário, Jerónimo de Sousa.”

Jerónimo – “Como é que os bancos, com mais lucros, pagam metade dos impostos?”

Portas – “Eu não fico parado quando o meu país fica a semanas de não pagar salários e pensões.”

Jerónimo – “Há momentos em que é preciso dizer não. Não quisemos passar credencial nem reconhecer legitimidade a quem quis impor condições leoninas à nossa soberania.”

Portas – “Quem manda em Portugal é o povo português que vai votar a 5 de Junho.”

Jerónimo – “Ó doutor Paulo Portas, aqueles que muito dificilmente chegarão ao Reino dos Céus continuarão a estar no paraíso deixando o inferno à maioria dos portugueses.”

Portas – “Eu não sou pela luta de classes. Sou pelo compromisso entre trabalhadores e empregadores.”

Jerónimo – “Muitos portugueses sérios não estão no meu partido.”

Portas – “Gente séria há em todos os partidos, Jerónimo de Sousa.

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ADENDA

Por curiosidade, recordo o que escrevi sobre o debate Jerónimo-Portas da campanha legislativa de 2009.

A primeira dádiva ao CDS


Pedro Correia,

 

Paulo Portas transformou o ministro Jaime Silva no alvo principal, passando toda a campanha para as legislativas a exigir a José Sócrates a exoneração definitiva do titular da pasta da Agricultura. Aí está a exigência a surtir efeito: Sócrates, o político que ainda há pouco se gabava de nunca ceder a pressões, acaba de confirmar aos portugueses – e a Paulo Portas em particular – que não conta mais com Jaime Silva, o ministro que tanto irritava o CDS, dando assim, numa bandeja, o primeiro brinde do novo ciclo político aos democratas-cristãos – único partido além do PSD que pode fazer maioria com o PS na Assembleia da República.

De facto, fazia pouco sentido ter um Silva a tomar conta da Agricultura: parece-me bastante mais adequado o apelido do novo ministro, António Serrano. O mundo da lavoura é capaz de gostar. E Portas também: enquanto o PSD continua entretido com as suas guerras intestinas, o líder do CDS vai marcando pontos.

 

Imagem: Angelus, de Millet

O ‘trilema’ popular


jmmcc,

Depois de alcançar (honra lhe seja feita) uma inesperada percentagem de votos e um lugar confortável no Parlamento com um número importante de deputados, Paulo Portas deve andar com insónias: por um lado, andou sempre mortinho por integrar um governo, que é para o que está sempre disposto; por outro, angariou um leque do eleitorado a que fez uma data de promessas anti-PS e que tem tendência a engrossar à custa do PPD/PSD, assim ele não desiluda quem acreditou no CDS-PP.

Convenhamos que este dilema tira o sono a qualquer um. Ou melhor: trilema. Porque uma parte dos novos votantes foi seguramente atraída pelo trabalho vigoroso de Nuno Melo, cujo regresso seria de toda a conveniência, mas também seria uma traição.

Enquanto isso, não falta no PSD quem esteja a observar o PP, como não falta no PP quem esteja a observar o PSD, para ver quem se chega à frente na resposta ao apelo do PS. Pelo-sim-pelo-não, depois de se reunir ontem com Sócrates, Portas dirigiu um insólito discurso ao País com ar de estadista que pode servir para tudo. Até para preparar uma aproximação ao governo sem deixar muito mal os seus eleitores.

Se vier a dar jeito, aquela espantosa alocução de ontem foi o primeiro sinal para uma outra sempre possível sobre o "imperativo nacional". Onde é que eu já ouvi isto?

Autarquias: as locais são melhores


jmmcc,

Num acto talvez de solidariedade pelo horário duro da lavoura, que nem se permite descansar ao domingo, fico a saber pela televisão que Paulo Portas foi o primeiro líder partidário a votar. Mas madrugar é para quem está habituado, quando não tem alguns custos ao nível das ideias. Certamente por isso, ouço-o falar aos repórteres sobre a importância das «autarquias locais» blá-blá-blá-blá, vistas as vantagens das «autarquias locais» blá-blá-blá-blá.

Eu também gosto muito das autarquias locais. Já não posso dizer o mesmo das autarquias nacionais. E nem me falem das autarquias multinacionais.

Legislativas (32)


Pedro Correia,

 

DEBATE PAULO PORTAS-FRANCISCO LOUÇÃ

 

Ao contrário do que aconteceu com os restantes oito debates que já vi nesta campanha legislativa, cheguei desta vez ao fim sem uma convicção clara sobre o nome do vencedor. Isto já diz muito sobre uma certa equiparação intelectual entre os líderes do CDS e do Bloco de Esquerda, dois dos dirigentes com maior destreza mental e maior capacidade de comunicação de toda a nossa classe política. Foi um debate extremado: não tanto pelo facto de estarmos perante os líderes dos partidos que se situam nos pólos mais extremos do hemiciclo de São Bento como pelo elementar motivo de que a ideologia esteve esta noite muito em foco na RTP. De um lado, estava alguém assumidamente de direita; do outro, estava alguém assumidamente de esquerda. A política portuguesa, tão cheia de meias-tintas, ganha com este contraste de propostas, que no debate foi bem evidenciado em matérias tão diversas como as nacionalizações, a criminalidade, a imigração ou o código do trabalho. Louçã defende um reforço do papel do Estado na vida económica e nas áreas sociais (saúde, educação, segurança social). Portas defende uma redução da carga fiscal, reservando ao Estado um papel supletivo enquanto aponta as empresas como principal fonte capaz de produzir riqueza. "As empresas criam emprego. Mas também desemprego", replica o coordenador do BE. "Uma coisa é falar, outra é fazer", sustenta Portas, lembrando a sua acção, enquanto titular da pasta da Defesa do Governo PSD/CDS, para salvar as Oficinas Gerais de Material Aeronáutico.

Foi um debate acalorado, sem pontos mortos, perante uma moderadora (Judite Sousa) quase inexistente, entre dois políticos que levavam as respectivas lições bem estudadas. Louçã terá surpreendido alguns ao invocar a Igreja Católica em abono das suas teses de integração social dos imigrantes: "Uma política de imigração sensata não pode ter preconceitos racistas." Portas lembrou algumas medidas de carácter social tomadas por Bagão Félix, ministro do CDS, no Executivo de centro-direita: 14º mês para os pensionistas, 13º mês para os beneficiários do abono de família, convergência entre as pensões e o salário mínimo.

Houve alguns pontos de acordo. Sobre a necessidade de reforçar os efectivos policiais, por exemplo, embora com ressalvas de parte a parte. "Precisamos de uma sociedade mais segura, não de uma sociedade mais vigiada", advogou Louçã. "Há um problema sério de segurança nas áreas metropolitanas de Lisboa, Porto e Setúbal", alertou Portas.

Existem boas razões para votar em qualquer neles? Sem dúvida, por mais que os estados-maiores dos dois principais partidos, embalados pela "indústria das sondagens" (Portas dixit), tentem reforçar a ideia de uma bipolarização muito mais aparente que real. Poderá haver um problema de ingovernabilidade após 27 de Setembro, como alguns sustentam? "Ingovernabilidade há agora. Com o código do trabalho, o desemprego, a fractura social, a violência social contra as pessoas", concluiu o líder do Bloco. E é difícil não lhe dar razão.

Legislativas (31)


Pedro Correia,

  

DEBATE MANUELA FERREIRA LEITE-PAULO PORTAS

 

Basta por vezes uma só frase para decidir um debate. Paulo Portas proferiu-a esta noite, no frente-a-frente com Manuela Ferreira Leite na RTP. "Experimente um dia ser oposição na Madeira", disse o líder do CDS à sua interlocutora. A social-democrata, que tanto tem clamado contra a "asfixia democrática", ficou sem resposta. Para quem tivesse dúvidas, o vencedor deste debate estava encontrado. Portas contrapôs à ‘política de verdade’ do PSD a necessidade de "falar claro" nesta campanha legislativa. E ficou evidente que existem dois projectos distintos à direita do PS: democratas-cristãos e sociais-democratas distinguem-se na política fiscal, no discurso ‘securitário’ que serve de bandeira a Portas e nas questões sociais, com o CDS a pretender desviar 25 por cento das verbas do rendimento social de reinserção para aumentar pensões, proposta que mereceu a pronta rejeição de Ferreira Leite: "Seria incapaz de fazer um discurso como o de Paulo Portas. Não é correcto pormos um estigma nas pessoas que recebem esse rendimento. Todas as generalizações são perigosas."

Outra diferença substancial: Portas falou abundantemente do seu programa. Quer mais mil polícias nas ruas, julgamentos em 48 horas de delinquentes capturados em flagrante delito, melhorar o subsídio de desemprego a jovens e casais desempregados. Do programa do PSD, ficámos a saber pouco ou quase nada. Além disso, tal como tinha acontecido nos debates contra Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa, Manuela não deu sinais de ter lido uma só linha das propostas eleitorais do seu antagonista. Resta saber se por sobranceria ou por simples desinteresse.

Mas foi a propósito da Madeira que as águas verdadeiramente se separaram. Manuela Ferreira Leite insurge-se contra a ‘asfixia democrática’ do PS no continente enquanto olha para a Madeira como um vasto oceano de liberdade. "Um debate destes não seria possível na Madeira. Nunca houve. E Alberto João Jardim só vai uma vez por ano à Assembleia Legislativa Regional", sublinhou Portas, acrescentando: "Para se ter legitimidade há que ser coerente."

Se Judite Sousa, a moderadora, quisesse ter feito hoje mais uma das suas "perguntas giras" bem poderia ser esta: como conseguirão os líderes do PSD e do CDS entender-se? Deste debate, que foi vivo e com momentos estimulantes, ficou a sensação de que será muito difícil vermos alguma vez Manuela e Portas trabalharem num programa comum de Governo. E não se julgue que só existe a Madeira a separá-los.

Por falar em sobras


jmmcc,

Yellow SubmarineO ainda ministro da Agricultura mostrou-se muito preocupado com a possibilidade de vitória da direita e o regresso do CDS-PP ao poder, por achar que, dos três anos em que Paulo Portas esteve no governo, só sobraram «a compra de submarinos e 60 ou 70 mil fotocópias». Jaime Silva esqueceu-se do restante material de guerra, mas não deixa de ter razão.

Já agora, por falar em sobras, o que é que sobra de positivo dos quatro anos e meio de Jaime Silva? Não é curiosidade: é só para que póssamos lembrar-nos dele por um bom motivo.

Legislativas (28)


Pedro Correia,

 

DEBATE JERÓNIMO DE SOUSA-PAULO PORTAS

 

Às vezes sabe bem escutar uma frase surpreendente da boca de um dos líderes partidários portugueses. Aconteceu esta noite, no debate entre Jerónimo de Sousa e Paulo Portas na SIC, quando o líder do CDS apontou o caso das três operadoras de mensagens de telemóveis como um bom exemplo da concorrência de produtos que faz baixar os preços, beneficiando o consumidor. Portas, que ambiciona contribuir para a próxima solução governativa em Portugal, e Jerónimo, que pareceu claramente revigorado com a recente Festa do Avante, estiveram em bom nível neste debate cordial que serviu para vincar diferenças ideológicas mas também vários pontos de convergência. Mostraram-se ambos de acordo na redução do IVA, no fim do pagamento especial por conta, na crítica ao encerramento das urgências hospitalares pelo ex-ministro Correia de Campos, na denúncia do falhanço generalizado das entidades reguladoras e na contestação ao ministro da Agricultura. Neste último ponto, Portas proferiu uma das frases da noite: “Pior que a chuva, pior que a seca, só o [Jaime] Silva.”

Nenhum deles competia com o outro, o que contribuiu para o tom ameno do debate. “O meu adversário é José Sócrates”, disse logo de início o democrata-cristão, que competia com a prestação da véspera de Manuela Ferreira Leite e marcou claros pontos em relação à presidente do PSD em questões fulcrais, como a saúde e os impostos. Enquanto Ferreira Leite foi atabalhoada, dando a sensação que conhecia mal a matéria, o líder do CDS foi claro na defesa de parcerias entre o Serviço Nacional de Saúde e os hospitais das misericórdias para cirurgias às cataratas ou de ortopedia. Em matéria fiscal, Portas foi também muito mais claro do que a social-democrata ao defender pontos fundamentais do seu programa eleitoral, como a devolução do IVA no prazo máximo de 30 dias: “A administração fiscal não pode ser eficiente só para fazer penhoras.”

Jerónimo competia consigo próprio. E esta noite, no debate (bem) moderado por Clara de Sousa, superou as suas apagadíssimas intervenções frente a Louçã e Sócrates: estava mais determinado, mais categórico, mais seguro de si. E teve o mérito de falar em questões concretas, despindo a habitual ganga ideológica dos seus discursos. Esteve bem ao insurgir-se contra os numerus clausus nos cursos de medicina num país que precisa desesperadamente de médicos, ao denunciar a concertação de preços entre as gasolineiras nas auto-estradas em claro prejuízo do consumidor e ao lembrar que continua por esclarecer o destino de cem mil milhões de fundos comunitários atribuídos pela Europa para o desenvolvimento da nossa agricultura. “Todos os países estão em crise, mas uns estão mais em crise que outros”, sustentou.

Portas move-se na televisão como peixe na água e tem um discurso muito fluente, atributos que lhe deram vantagem neste confronto. Mas apreciei a réplica que lhe deu o comunista, hoje enfim relativamente libertado da pilha de papéis que costumam acumular-se à sua frente. Até ao momento, foi o debate de que mais gostei. Desvantagem, neste caso, para os que não estiveram lá.

Legislativas (23)


Pedro Correia,

  

DEBATE JOSÉ SÓCRATES-PAULO PORTAS

 

É possível dois políticos ganharem o mesmo debate na televisão? Sim, se ambos tiverem eleitorados muito diferentes e conseguirem fixar esses eleitorados com o seu desempenho televisivo. José Sócrates, muito desgastado por quatro anos e meio de governação e recém-surgido de uma derrota eleitoral nas europeias, abriu esta noite uma série de dez debates pré-legislativas com Paulo Portas (na TVI). Não esteve na sua melhor forma, longe disso, mas teve uma prestação suficiente para manter mobilizados os seus fiéis. Portas, que ambiciona sair deste escrutínio com capacidade para decidir a próxima solução governativa, precisava de marcar pontos neste frente-a-frente inaugural e conseguiu cumprir a tarefa. Nenhum deles cometeu erros clamorosos. Mas Portas foi um pouco mais eficaz, sobretudo em dois temas fulcrais: a economia e a educação. Neste último tópico, que encerrou o debate, resumiu quase tudo numa só frase: "O senhor quis virar o País contra os professores."

Sócrates foi superior nos momentos em que lembrou a reforma da segurança social – sem dúvida a melhor marca do seu Executivo. E desmontou com alguma perícia a "demagogia" do presidente do CDS nas questões da segurança. "É inacreditável que tenha votado a favor da alteração das leis penais e depois venha cá para fora falar contra elas", disparou o líder socialista. Esteve muito pior ao lembrar até à exaustão as responsabilidades governativas de Portas no triénio 2002-05, como se fosse isso que estivesse em jogo nestas legislativas: Sócrates, que no próximo dia 27 será julgado pelo que fez e sobretudo pelo que não fez, deveria ser o último a pretender suscitar comparações entre o País que encontrou ao chegar ao Governo e o País que existe agora.

"O senhor é perseguido pelo seu passado porque já esteve no Governo", atirou Sócrates.

"O senhor primeiro-ministro é perseguido pelo seu presente", retorquiu o líder do PP.

São talvez as duas frases que melhor resumem este debate.

 

Aqui ficam algumas outras:

 

Sócrates: "Portugal foi um dos primeiros países a sair da recessão económica."

Portas: "Este optimismo perante uma crise social significa que este primeiro-ministro não compreende as pessoas."

Sócrates: "Quando o senhor foi governo houve um agravamento das contas públicas."

Portas: "Para José Sócrates, em 2005, o desemprego de 6,9% era ‘a marca falhada de uma governação’. O que será um país com 9,2% de desempregados?"

Sócrates: "O desemprego está a subir em Portugal, mas está também a subir em toda a Europa e em todos os países do mundo."

Portas: "Para o primeiro-ministro, tudo é culpa do passado ou culpa do mundo."

Sócrates: "Quando cheguei ao Governo, o senhor deputado tinha deixado a segurança social em elevado risco, segundo a Comissão Europeia."

Portas: "O senhor teve quatro anos e meio no poder, uma maioria absoluta obediente, um Presidente da República colaborante. As maiorias absolutas convertem-se em ignorância, falta de sentido do compromisso, falta de sensibilidade social."