Legislativas (6)


Pedro Correia,

 

 

DEBATE PAULO PORTAS-PEDRO PASSOS COELHO

 

O presidente do PSD perdeu esta noite uma excelente oportunidade de invocar algumas bandeiras sociais do seu partido perante os eleitores indecisos que o escutavam. E a ocasião era até propícia para o efeito: Pedro Passos Coelho tinha pela frente, no estúdio da SIC, o líder do partido situado mais à direita no hemiciclo de São Bento. Passos preferiu, no entanto, falar de temas macro-económicos: poupança do Estado, receita adicional dos cofres públicos, taxa social única, crescimento económico, criação de emprego, um “esforço adicional” dos portugueses para a diminuição do défice das nossas contas. Questões importantes, sem dúvida. Mas insuficientes para quem esperaria do principal partido da oposição uma olhar menos economicista sobre os problemas que afligem o País. Paulo Portas, que recentemente se gabou de liderar um partido situado “à esquerda” do PSD em preocupações sociais, tinha razões para estar satisfeito quando Clara de Sousa deu por concluído o debate.

Portas e Passos mostraram-se cautelosos ao longo deste frente-a-frente. Sabendo que existem fortes probabilidades de coexistirem num governo a empossar por Cavaco Silva após as legislativas de 5 de Junho, mostraram uma notável contenção verbal que em certos momentos roçou a monotonia. José Sócrates, adversário de ambos, esteve mais ausente deste debate do que se esperava. E nos escassos minutos de real despique político a iniciativa coube quase sempre ao presidente do CDS-PP, certamente animado pelas sondagens. “Temos visto o PSD variar em muitos assuntos muito depressa”, afirmou Portas, ironizando acerca da “enésima versão do PSD sobre a taxa social única” ou as posições erráticas que os sociais-democratas têm assumido em matéria fiscal. “O senhor já uma vez teve que se desdizer quando disse que não aumentava impostos”, lembrou. E foi ainda mais incisivo ao apontar o dedo crítico ao partido laranja em questões agrícolas: “A política do PSD para a agricultura, nos últimos anos, foi um deserto.”

Passos, aparentando mais calma do que o seu interlocutor, aludiu a uma maioria absoluta em que nem sequer no PSD já ninguém parece acreditar: na sua opinião, “não é irrealista” que os eleitores dêem aos sociais-democratas “as mesmas condições que deram ao PS no passado”. Nenhum estudo de opinião sustenta tal tese. O presidente laranja sabe, portanto, que uma coligação com os democratas-cristãos constitui o maior seguro de vida política pós-eleitoral para o partido que lidera. Daí talvez a excessiva bonomia com que tratou Portas. Noutros tempos, com outros líderes, este jamais teria sido um debate entre iguais. Mas o PSD já não é o que era. E o CDS também não. Algo se vai movendo no aparente imobilismo da política portuguesa.

 

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FRASES

Portas – «As pessoas estão preocupadas em soluções para o País e não em tricas entre os políticos.»

Passos – «Um governo PS-CDS-PSD seria uma salada russa.»

Portas – «O PSD não fez o suficiente para ser premiado com o voto.»

Passos – «O programa desenhado pela troika é o preço da incompetência que tivemos durante seis anos a governar Portugal.»

Portas – «O senhor foi muleta de José Sócrates.»

Passos – «O PSD não é muleta de ninguém.»

 

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ADENDA

Por curiosidade, recordo o que escrevi sobre o debate Manuela Ferreira Leite-Paulo Portas da campanha legislativa de 2009.

26 comentários em “Legislativas (6)”

  1. Revi a visao do debate. Tenho simpatia pelo PP. Achava que houve empate. Empate nos fundamentos.

    De facto, o Pedro tem razão.
    No mercado do voto, Portas deu mais certeza, realismo e vertente na agricultura e no social. Passos esteve bem no diagnóstico.

    1. Certo. Julgo que Portas fixou melhor o seu eleitorado neste frente-a-frente do que Passos Coelho. O líder do PSD está claramente desgastado e fragilizado com as sucessivas trapalhadas e o clamoroso ruído de fundo que as segundas linhas do partido persistem em desencadear. Estas coisas têm um preço elevado em política. A história do PSD, de resto, é fértil em exemplos destes, liderança após liderança.

  2. Não perceber a impossibilidade de um partido com 10% dos votos (nos anos bons) poder ter, dentro de duas semanas, 23,5% para poder liderar a direita, é ingenuidade ou irrealismo. Só Sócrates ganha com estes calculismos balofos do CDS e de certos comentadores distraidos.
    Todos os votos que passem do PSD para o CDS são votos perdidos, favoráveis por isso a Sócrates.

      1. Oh Pedro não seja sarcástico sobre propriedades. Cada eleitor é dono do seu voto e faz com ele a porcaria que quiser.
        Mas aqui neste assunto de que estavamos a tratar, basta saber fazer umas continhas. Se o partido líder da direita tiver 23,5 % dos votos, quantos terá o PS? Pois é, nesse caso o PS ganhará sempre as eleições. Claro que se o PS ganhar será convidado a formar governo. E quem vai com o Sócrates para o governo? O seu CDS? Para fazer de office-boy e apanhar a trampa que o PS vai continuar a fazer no governo, com o mesmo líder que lá anda há 15 anos?
        Se é isto que defende Pedro, reconheça-o e deixe-se de sonhos.
        Marcelo Rebelo de Sousa disse-o com clareza, há uma semana. Portas com 15% dos votos será uma marioneta nas mãos de Sócrates. Entendamos isto e fujamos de tal hipótese, se pudermos.

        1. O Presidente da República já foi claro: não voltará a empossar um governo sem apoio maioritário no Parlamento. Faz muito bem. Aliás, já o devia ter feito em 2009. O Governo que sair das eleições será, portanto, aquele que a aritmética parlamentar determinar. Resta ver quem tem habilidade suficiente para transformar esta aritmética parlamentar numa aritmética política.

          1. Habilidade não falta, nem nunca faltou ao Sócrates. Só não acho inteligente votar na plasticina que se oferece às mãos de Sócrates, para ele a modelar a gosto.
            Dar 15% a Portas para este se unir a Sócrates no governo, parece-me um erro que qualquer português médio deve pesar e rejeitar.
            Nem outros militantes sólidos do PS, como Vitorino, António Costa ou Assis conseguem dominar Sócrates. É uma veleidade de ingénuo pensar que Portas faria com Sócrates o que nenhum socialista conseguiu até à data.
            Votar Portas pode ser tão errado como votar Sócrates. A não ser que Portas diga, com a clareza que ainda não disse, que NUNCA e por motivo nenhum se aliará a Sócrates.

          2. Se Portas declarasse isso, com esse carácter tão irreversível, estaria a desvalorizar o potencial eleitoral do seu partido. Compete aos dois maiores partidos clarificar a política de alianças pós-eleitoral. O PSD já o fez. Sócrates, como de costume, nada diz sobre este assunto.

      2. Um partido pode ter 100 000 votos e não estar representado no parlamento, teoricamente, estes votos não são perdidos, na prática são-no.

        Os pequenos partidos vêm fugir-lhe dezenas de milhares de votos nos círculos pequenos, porque os eleitores sabem que não serão traduzidos em mandatos.

        ps: nunca foi o meu caso.

        1. Teoricamente, existe esse risco – muito menor em Portugal do que num sistema como o britânico, por exemplo, em que ficam ‘perdidos’ todos os votos que não recaiam na força maioritária de determinado círculo eleitoral. Mas o voto verdadeiramente perdido é aquele que se submete à lógica do mal menor.

  3. Falta ao líder do PSD a agilidade das mil e uma maneiras de fazer bacalhau, dando de barato que o defeito reside apenas na suposta e assustadora ingenuidade em que navega. Aquela da cedência ao professor Castilho é do outro mundo, quando podia ter dito simplesmente: Estamos sempre atentos aos sinais da sociedade.
    Notável o descaramento de Portas quando acena com os “seus” 25% ainda a mastigar o alegado ridículo da “maioria absoluta de Passos”. A reserva a que se arroga o direito sobre a aplicação da TSU em vez de mostrar o jogo, não é uma tirada menos “brilhante”. Passam melhor o cinismo apalhaçado de Portas e a roleta do engano de Sócrates. Inegável.

    1. A rábula dos 25% vale o que vale: destinou-se a demonstrar que o CDS é um partido com um grande potencial de crescimento. Nenhuma percentagem é imutável. Lembremos que o PS já teve 20% numas legislativas. E que o PSD já teve 51%.
      Apesar de tudo, a Terra move-se.

  4. Resumindo Passos deveria ter apostado no discurso social que nos levou até onde estamos. Não querem mesmo mudar…vão ver quando baterem com a cabeça na parede…
    Portas é o pro-estatista, mais ou menos socialista,
    nesse sentido o que mais se aproxima do socialismo total coorporativista dos Portugueses- isto é o portugueses só são favoráveis ao socialismo se tiver lá alguma coisa para eles, não é um socialismo a favor dos pobres.
    Passos é uma coisa inconsistente, mais socialista que Portas ás quartas e sextas, liberal às terças e quintas. Poderia ter falado de liberdade, de liberdade de escolha, de criar, de concorrer, construção de reputação. Nada.

    1. Sim, faltou discurso social – nada mais surpreendente num partido que se intitula Social (Democrata). Um partido que pretende ser interclassista nunca pode esquecer o discurso social, sobretudo num período como aquele que atravessamos. Se quiser ser liberal, mude o nome e assuma-se como Partido Liberal (o do Reino Unido vale actualmente 13% nas intenções de voto).

  5. Com os OLHOS nos OLHOS talvez Passos ponha Paulo a deixar de olhar para o lado, o Sócrates para o espelho, Louçâ para o espaço, e o PCP para o passado.

    Há muitas minas e armadilhas para Passos pisar mas vai sobreviver.

    O País foi aramadilhado ee não governado.

  6. Com os OLHOS nos OLHOS talvez Portas deixe de olhar para o lado, Sócrates deixe de olhar para o espelho, Louçã deixe de olhar para para o espaço e o PCP deixe de olhar para o passado.

    Passos Coelho, continua a olhar para o povo olhos nos olhos mesmo que pises as muitas minas e armadilhas com que o país está armadilhado por estes especialistas que tens pela frente.

    1. Não me parece que o facto de Paulo Portas não olhar os seus interlocutores nos olhos quando estes se lhe dirigem revele algum traço de carácter particular ou suspeito. É apenas maneira de estar. PPC não devia ter pedido a PP que o olhasse nos olhos; é feio. Compreende-se que PPC tenha sentido irritação por estar a falar com PP e este estar a olhar para baixo, para os seus papéis (por acaso é irritante), mas não me parece que essa postura resulte de uma estratégia para desvalorizar o que lhe diz o seu interlocutor, mas mais de naturalidade. Nada de mais. Pintelhos.

      1. Também me parece irrelevante perder tempo a analisar para onde Portas fixa os olhos. É uma questão de estilo, cada qual é como é. O que importa é a mensagem emitida, não o facto de se estar a olhar para um papel poisado na secretária ou para um teleponto ‘high tech’.

  7. Também comento estes debates lá no meu cantinho. http :/ quintaemenda.blogs.sapo.pt 68099.html )Tento fazê-lo com a objectividade possível nestas coisas e com um grande desígnio: que o país se consiga unir para afastar um tipo perigoso, como no meu Benfica se fez há uns anos. Sei que, na circunstância, não se consegue mandar o homem para a prisão – como acho que seria da mais elementar justiça – mas contentar-me-ia com o objectivo de o empurrar para que, depois do próximo dia 5, fossem os que agora o aclamam a mandá-lo para a reforma dourada a que certamente este Estado já o habilitou.
    Mas Passos Coelho não pode limitar-se a ser Manuel Vilarinho… Eu, que não gostaria que o fosse, acho-o cada vez mais parecido. Ainda se o país fosse como o Benfica… Mas não é! Para o bem e para o mal!

      1. Não se trata de comparar Passos Coelho a Vilarinho, não foi essa a minha ideia nem me parece que se possa concluir isso do meu comentário. O que eu disse, e penso que se percebe, foi que PPC não pode limitar-se à simples condição de catalisador de descontentamentos. Gostaria que se “fizesse à vida”, com atitude mobilizadora e de conquista. Que não fosse um mal menor… Que fosse de debate em debate até à vitória final! Mas se tiver de ser de derrota em derrota até à vitória final… vamos a isso!

        1. Julgo que o desfecho destas legislativas se jogará muito em torno da política de alianças pós-eleitoral. Tenho escrito bastante sobre isto. À direita, existe uma coligação potencial entre PSD e CDS. À esquerda, resta o PS isolado. Sócrates está, de resto, ainda mais isolado hoje do que já estava em 2009, quando foi incapaz de constituir um governo com apoio maioritário no Parlamento. Pormenor fundamental, neste contexto: o Presidente da República já deixou bem claro, sem ambiguidades, que não voltará a empossar um governo minoritário.

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