DEBATE MANUELA FERREIRA LEITE-PAULO PORTAS
Basta por vezes uma só frase para decidir um debate. Paulo Portas proferiu-a esta noite, no frente-a-frente com Manuela Ferreira Leite na RTP. "Experimente um dia ser oposição na Madeira", disse o líder do CDS à sua interlocutora. A social-democrata, que tanto tem clamado contra a "asfixia democrática", ficou sem resposta. Para quem tivesse dúvidas, o vencedor deste debate estava encontrado. Portas contrapôs à ‘política de verdade’ do PSD a necessidade de "falar claro" nesta campanha legislativa. E ficou evidente que existem dois projectos distintos à direita do PS: democratas-cristãos e sociais-democratas distinguem-se na política fiscal, no discurso ‘securitário’ que serve de bandeira a Portas e nas questões sociais, com o CDS a pretender desviar 25 por cento das verbas do rendimento social de reinserção para aumentar pensões, proposta que mereceu a pronta rejeição de Ferreira Leite: "Seria incapaz de fazer um discurso como o de Paulo Portas. Não é correcto pormos um estigma nas pessoas que recebem esse rendimento. Todas as generalizações são perigosas."
Outra diferença substancial: Portas falou abundantemente do seu programa. Quer mais mil polícias nas ruas, julgamentos em 48 horas de delinquentes capturados em flagrante delito, melhorar o subsídio de desemprego a jovens e casais desempregados. Do programa do PSD, ficámos a saber pouco ou quase nada. Além disso, tal como tinha acontecido nos debates contra Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa, Manuela não deu sinais de ter lido uma só linha das propostas eleitorais do seu antagonista. Resta saber se por sobranceria ou por simples desinteresse.
Mas foi a propósito da Madeira que as águas verdadeiramente se separaram. Manuela Ferreira Leite insurge-se contra a ‘asfixia democrática’ do PS no continente enquanto olha para a Madeira como um vasto oceano de liberdade. "Um debate destes não seria possível na Madeira. Nunca houve. E Alberto João Jardim só vai uma vez por ano à Assembleia Legislativa Regional", sublinhou Portas, acrescentando: "Para se ter legitimidade há que ser coerente."
Se Judite Sousa, a moderadora, quisesse ter feito hoje mais uma das suas "perguntas giras" bem poderia ser esta: como conseguirão os líderes do PSD e do CDS entender-se? Deste debate, que foi vivo e com momentos estimulantes, ficou a sensação de que será muito difícil vermos alguma vez Manuela e Portas trabalharem num programa comum de Governo. E não se julgue que só existe a Madeira a separá-los.



Um detalhe: Paulo Portas quer desviar imediatamente 25 por cento das verbas rendimento social de reinserção para aumentar pensões, por haver indicadores que dão como certo que a quarta parte desse rendimento atribuído pelo Estado é uma fraude.
O problema, porém, é que ele não disse (não sabe, obviamente) como é que encontra os casos de fraude. Também é certo, claro, que ninguém (Manuela Ferreira Leite incluída) lhe perguntou isso. Ainda bem para ele.
Não admira: Portas sabe muito, está habituado a estes e outros debates. Manuela Ferreira Leite tem muito menos debates no seu currículo. Isso nota-se, e de que maneira.
Pedro, veja bem a sua responsabilidade, estou há uns dias deslocada e sem televisão, deliberadamente, os últimos debates tenho visto, sabido através de si. Estou preocupada, estou a ver que vamos ter um belo caldinho.
E, não querendo abusar, só lhe peço uma coisa, por favor, mude a fotografia da Senhora D. Manuela ferreira Leite, eu não acredito que ela se apresente sempre com o mesmo “tailleur”, tadita , estou a ficar com pena dela assim e tão desfocada, já basta a desvantagem que ela tem em relação aos outros candidatos – ser mulher – sou solidária :))
Não leve a mal o tom, Pedro, o “caso” é sério mas, mal ou bem, já estará decidido, digo eu.
Agradeço-lhe o reparo, Maria. Tentarei arranjar outra foto. Mas olhe: ainda não consegui uma melhor que esta. E acredite que procurei bastante.
Portas sabe que 25% da malta do rendimento mínimo é preguiçosa e mentirosa – 125 milhões de euros – e sobre as fortunas de milhares de milhões com fugas ao fisco ou taxas sobre os milionários, nada!
Curioso nº, 1 000 polícias, nem mais nem menos! 5 000 dava mais votos, pá!
O primeiro desses milionários, que é o Américo Amorim, deve votar PS Tem todos os motivos para isso.
Então a diferença entre PS e CDS não é muita?
Não me diga que Portas critica o empreendorismo de Amorim!
Neste aspecto, há uma diferença notória: o PS protege mais e melhor os milionários.
Vai ser tão fácil eles entenderem-se como será Sócrates com Louçã.
Não digo tanto, mas não andará longe da verdade.
É óbvio que Paulo Portas venceu o debate. Derrotou Manuela Ferreira Leite na maioria das questões e terminou em grande com a questão da Madeira.
Mas em relação à possibilidade de os dois virem a trabalhar juntos num programa de Governo já tenho algumas dúvidas. Apesar das diferenças e da determinação do CDS em conquistar o seu próprio espaço e deixar de ser um mero reboque, fiquei com a sensação de que, obviamente dependendo dos resultados eleitorais de cada um, PSD e CDS abriram hoje caminho a uma coligação pós-eleitoral. Mesmo apesar de cada um defender a sua dama.
Também me pareceu óbvia a vitória de Portas. Ferreira Leite tem enchido a boca com a ‘asfixia democrática’ enquanto elogia a Madeira de Jardim. Diz tudo e o seu contrário. Portas fez bem em salientar a necessidade de ‘falar claro’. Se existe alguém que não fala claro é a presidente do PSD.
Este não vi mas ouvi-o na radio, em viagem de regresso. E não tenho dúvidas sobre quem foi o vencedor, como penso que ninguém terá. Uma vitória facílima, aliás. Mas tenho pena de não ter contado as vezes que Paulo Portas disse as palavras “claro” e “clareza” (foram umas dezenas, aposto), como se achasse que ainda ninguém tinha ouvido. Um chavão que resultou a favor dele, disso não duvido.
Campanha sem chavão nem chega a ser campanha…
PP ficou um pouquinho abaixo do esperado; MFL superou o que se esperava dela.
Foi um debate ganha-ganha, no global ambos transmitiram a sua mensagem. Nesse objectivo a discordância no RSI até foi bastante útil: MFL sossegou os sociais democratas divididos entre o PS e o PSD, PP garantiu os votos da ala direita.
ahh, esquecia-me da parte negativa.
Como é que MFL disse que ia cortar nas despesas para compensar a prometida descida de impostos?
Num acto de grande coragem, clareza e verdade política: ia esperar que a economia melhorasse – sem alterar nada. Niente. Determinação :/
Achei que este foi, dos três debates em que já participou, aquele em que MFL esteve melhor. Mesmo assim, foi suplantada por um Portas que se mantém em boa forma.
Foi confrangedor ver a falta de preparação que MFL levou para este debate que PP ganhou com toda a facilidade. Depois das ‘gaffes’ da Madeira e das imperdoáveis (e repisadas) confusões que fez entre IRS e IRC no debate com JS, ontem, (lembremo-nos ‘apenas’ que esta senhora já foi ministra das Finanças e quer agora ser 1º Ministro), é caso para nos interrogarmos se MFL estará no pleno uso das suas faculdades. Cada dia que passa é mais visível a falta de ideias do programa do PSD para a governação, que ela, ao contrário do que seria de esperar, só vem confirmar e corroborar. Tudo são generalidades e vacuidades que MFL não sabe precisar nem explicar. Se isto já está como está com Sócrates, imagine-se agora como ficará com Manuela… E para escolher um dos dois, nem seria preciso haver eleições: – venha o Diabo e escolha.
E este, Luís, foi o debate em que a senhora esteve melhor. Pelo menos na minha opinião.
É verdade, mas isso é pouco importante para a eleição. Só iria prejudicar MFL se chegasse ao mainstream e se aí fosse discutido/repetido. Isso dificilmente acontecerá, porque apresentados os factos, é demasiado consensual.
Atenção: estes debates estão a ter uma audiência que suplanta todas as expectativas. Isto vai pesar na hora da decisão.
Quanto ao último dado, não tenho opinião formada, talvez sim, talvez não.
Quanto à frase do debate fiquei com a “sensação” de que MFL foi acometida por um súbita falta de ar, mas isto é só uma “sensação”, claro.
A colagem de Manuela F. Leite a Jardim foi mais um passo em falso nesta campanha laranja. Depois da exclusão de opositores internos das listas eleitorais e do acolhimento dado a A. Preto e HLCosta nas mesmas listas. Sócrates agradece.
Se dúvidas houvesse bastaria vir aqui ler os artigos e os comentários para se perceber como uma certa Direita continua fascinada por José Sócrates ao ponto de arrasar com a líder do PSD.
Tem todos os defeitos e mais um: não é habilidosa, por isso perde todos os debates.
Por acaso não concordo consigo quando diz que a líder do PSD tem vindo a perder todos os debates. Acho que, à tangente, venceu o debate com Jerónimo de Sousa.
O segundo parágrafo era irónico, Pedro.
Confirma-se que, em geral, os portugueses lidam mal com esta figura de estilo.
Noto também que passou despercebida a provocação do primeiro parágrafo. Porque será?
O meu parágrafo também era irónico, caro Núncio.
Mais uma vez não vi debate, ser Pai tem destas coisas boas…, mas pelo que leio do texto e comentários parcece que ambos conseguiram transmitir as suas ideias.Provavelemente Portas não quis hostilizar MFL, pois sabe que isso seria prejudicial para uma eventual coligação.
abr
Pois. Mas o facto é que não se vislumbrou ali qualquer empatia entre eles, Pedro.
Não concordo quando dizes que eles não se poderão entender em coligação. A haver um governo de coligação, este parece-me o mais viável. Portas adaptar-se-á ao estilo de MFL a bem do CDS e dele próprio.
Não pude ver o debate, mas já tive algum “feedback”. Achei curioso que ela tivesse sugerido à Judite para contratar MMG. Isto de meter cunhas em directo, não me parece bem, mas MFL já deve estar habituada ao género.
Quanto ao PP coligar-se-á com qualquer um. Para ele, o importante é estar no governo, seja com PS ou PSD. Embora saiba que é só por dois anos…
Essa cunhazinha em directo foi um autentico achado, hesitei entre rir ou chorar. Não sei se o Prof. Marcelo se sentirá muito confortado com a comparação utilizada, mas isto já será um tema para ser dirimido entre eles…
Portas coligar-se-ia até com Garcia Pereira se isso lhe valesse o regresso a S. Julião…
Portas coligar-se-ia até com Manuela Ferreira Leite, imagine você do que ele é capaz…
Jesus, credo!
Isso não, Pedro, que a velha é bruxa e má! Mal por mal antes a Carmelinda Pereira…
Antes ela, tem razão. A Carme é Linda.
Solta MFL vs Claro Portas
O debate começou com Paulo Portas a demarcar-se do centrão tentando fidelizar votos à direita e ganhá-los ao centro-direita. Tenho dúvidas que seja bem sucedido, em relação ao eleitorado do PSD. No entanto Manuela Ferreira Leite também não terá sido muito bem sucedida quando, logo a seguir, apelou ao voto útil no PSD.
Na questão das finanças e impostos Portas tentou novamente colar PSD e PS mas MFL ganhou pontos sendo verdadeira: “Não aumentarei impostos”… e realista: “Se puder baixarei impostos”.
É um facto que as propostas do CDS são de fácil compreensão e caem bem à opinião pública, mas são de um partido que sabe que não será governo, e portanto não as terá de executar. Já as apostas do PSD são de mais dificil compreensão à população em geral, mas têm um alcance muito maior.
Duas coisas em que estou de acordo com Portas: taxar as SCUT (essa ideia peregrina do PS de Guterres) e dar o RSI “em géneros”. Em França por exemplo, o estado oferece alojamento, ticket restaurant e ajudas para bens essenciais.
Nessa questão MFL não poderia dizer outra coisa. Principalmente nesta altura de campanha eleitoral, e com o país a atravessar grave crise social. Segundo a líder do PSD o RSI é para manter nos actuais moldes.
No final, pressionada pelo tema, MFL soltou-se… e saiu-se bem. Admitir gostar do estilo de AJJ seria mentir com todos os dentes. MFL foi extremamente clara ao dizer que têm estilos diferentes e que ela por vezes não aprecia o do líder Madeirense. Ganhou pontos com a verdade.
O à vontade de MFL continuou e permitiu-lhe sair-se bem da questão dos média que envolveu MRS e MMG, sugerindo que Judite convidasse MMG para a RTP.
Portas acabou “por cima” – mas à traição – com aquela alusão aos militantes PSD que consideraram o bloco central.
E não é verdade que destacados sociais-democratas defendem o bloco central, Luís? João de Deus de Pinheiro, cabeça de lista por Braga, fez isso já duas vezes nos últimos 15 dias.
Por que será?…
O repto foi lançado
em forma de invitação,
num assunto forçado
que causou irritação.
O repto foi esquecido
por muitos comentadores,
num caso desvanecido
por princípios castradores.
Adenda:
Por que será?…
Certo espírito ditatorial
esconde-se na mansidão,
é uma verdade sensorial
contra a baixa devassidão.
Certos budas ditosos
foram alvo de indignação,
alguns valores desditosos
ficam-se pela resignação.
Pedro,
De acordo com quase tudo menos com a parte final. É mais fácil do que podemos pensar o entendimento entre MFL e PP. Neste momento, a Portas só interessa consolidar a posição do CDS/PP. Mesmo que o PSD não ganhe as eleições, a simples hipótese de uma votação massiva no CDS/PP poder fazer a diferença em relação ao PS seria o suficiente para esquecerem as divergências. Nessa altura lá viria PP com o discurso do interesse nacional, de que seria mais fácil continuar a fazer oposição, etc. A Madeira é apenas um grão de areia na engrenagem. Com um pincel para tirar o pó e um pouco de óleo, o PSD e o CDS/PP voltam a entender-se. É nisso que Portas é bom, na maneira como consegue falar de clareza e usar duas máscaras, uma para a TV e para as feiras e outra para os bastidores quando se trata de fazer acordos. O cinismo também é uma arma política importante para quem sabe manejá-la.
Sérgio,
Creio que Portas é mais ambicioso que isso. Planeia transformar o CDS num partido charneira do sistema, género Liberais na Alemanha, de geometria variável, podendo fazer maioria com o PSD ou o PS. E trabalha há vários anos para concretizar esse objectivo.