Telefones e gravadores


Teresa Ribeiro,

 

É irresistível, agora que voltou à liça, comparar o caso do desvio dos gravadores com o do Público/Relvas. Factos: um confiscou os gravadores dos jornalistas que o entrevistavam, o outro perdeu as estribeiras ao telefone com uma jornalista, ambos na sequência de perguntas que os incomodaram. Quando posteriormente apresentaram desculpas pelo seu comportamento os dois alegaram sentir-se pressionados. Ricardo Rodrigues usou para o efeito a expressão violência psicológica. 

Francisco Assis, na época líder parlamentar do PS,  recusou-se a fazer comentários “sobre o que se passou exactamente, porque se tratou de uma reacção motivada por uma grande indignação“. Os deputados socialistas decidiram igualmente não discutir o assunto na Assembleia da República e a Comissão de Ética decidiu não analisar o caso, com os votos contra do PSD e CDS.

Quanto a Relvas, como se sabe, os apoios e acusações registam-se em idêntica proporção, com o PSD e o PS mais a ala do PSD que o odeia a assumirem posições inversas. Na bloga, esta alternância democrática também se registou, como lembra aqui Miguel Noronha.

O PS relativo


Teresa Ribeiro,

Apesar de ter sido condenado em primeira instância por atentado à liberdade de Imprensa, Ricardo Rodrigues vai continuar vice-presidente da bancada parlamentar do PS.

Os socialistas não escondem a esperança que depositam na justiça, já que a defesa do deputado vai recorrer da sentença. No íntimo esperam que confiscar gravadores a jornalistas possa passar como um acto irreflectido, um ataque de nervos, vá lá, uma maroteira. E continuarão, intrépidos, as suas actividades fiscalizadoras da liberdade de expressão. Ricardo Rodrigues, além de vice-presidente da bancada socialista também é representante no parlamento do Centro de Estudos Judiciários, actividade que, imagina-se, continuará a exercer sem quaisquer constrangimentos. 

 

Adenda: Ricardo Rodrigues acaba de suspender funções no PS. Ah, valente!

Pontos nos is (16)


jmmcc,

CASOS

I

O caso Miguel Relvas/Público descambou para um novo caso inacreditável e inesperado: o caso Arons de Carvalho. O que distingue os dois casos é ainda mais incrível: se o primeiro é um caso real, o segundo é surreal.

Como se sabe, o «processo de averiguações relativo ao caso das alegadas pressões ilícitas do Ministro-Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, sobre o jornal Público», conduzido pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), culminou com uma contida deliberação do conselho regulador da mesma ERC. Em tudo quanto as duas partes, ministro e jornal, não coincidem e perante as posições de palavra contra palavra, o conselho regulador da ERC não elabora considerações inconsistentes, ficando-se pela matéria recolhida: «não se deu por provada a existência de pressões ilícitas da parte do ministro», «não se verificou a existência de um condicionamento da liberdade de imprensa» e outras conclusões de teor igualmente provado durante as averiguações, assinalando sem quaisquer devaneios as discrepâncias encontradas.

Aquela deliberação, porém, não mereceu unanimidade na ERC: dos cinco votos do conselho regulador, dois foram contra. Um dos vencidos foi Alberto Arons de Carvalho, que entendeu pronunciar-se através de uma declaração de voto.

II

É essa declaração de Arons de Carvalho que constitui um caso que, por qualquer motivo ainda por explicar, não está a merecer o relevo que devia ter. O extraordinário pensamento de Arons de Carvalho devia dar que pensar. Devia dar que pensar, desde logo, à própria ERC, dar que pensar porventura ao ministro Miguel Relvas (para quem a comunicação social não é totalmente alheia às suas funções), dar que pensar talvez ao jornal Público (que aparenta preocupar-se com a ética e deontologia do jornalismo) e dar que pensar seguramente a todos nós.

Sem querer ser exaustivo, fico-me pelas duas razões de fundo apresentadas por Arons de Carvalho no voto de vencido, para que melhor se avalie a sua espantosa posição.

Inclina-se Arons de Carvalho para o juízo que diz fazer «da verosimilhança das declarações» da directora e da editora de política do jornal, que refere serem «duas experientes e prestigiadas jornalistas, sendo absolutamente inimaginável que tivessem inventado as frases que atribuem ao ministro». Está visto que Arons de Carvalho não é um admirador de Miguel Relvas, o que parece legítimo, ou não lhe reconhece experiência e prestígio, o que continua a ser legítimo, mas não deixa de ser uma deselegância inadequada ao promover as qualidades de duas intervenientes da parte contrária.

Além disso, de discordância em discordância com aquela deliberação da ERC votada por maioria, Arons de Carvalho dedica o seu derradeiro pensamento a Miguel Relvas, nestes termos: «Uma ameaça não é grave pelo efeito que tem, mas pelo efeito que se pretendia que viesse a ter…»

III

Arons de Carvalho, ex-secretário de Estado socialista que teve o pelouro da RTP, não é magistrado judicial, o que prova que o mundo ainda não está todo às avessas.

Contudo, se ele fosse juiz, podia condenar um tipo por verosimilhança: tem cara de homicida e tem uma arma, logo é assassino. Não houve homicídio? Não interessa. O tipo com cara de homicida e uma arma de fogo é uma ameaça e, se a sua existência ainda não teve qualquer efeito mortal em alguém, vai dentro na mesma porque a ameaça indica que há-de vir a ter esse efeito, que é o que um tipo com cara de homicida e uma arma pretende que venha a ter.

IV

Espero que a vontade insistente do PS para ter Miguel Relvas de novo na Assembleia da República a responder sobre este caso se centre em argumentos mais sólidos do que as surrealistas subjectividades de Arons de Carvalho. Até porque a gente precisa de ministros a governar como de pão para a boca, não para andarem a responder repetida e infinitamente sobre casos que já cheiram mal.

Como se Arons de Carvalho e o PS tivessem um manual para ensinar como ser ministro e gerir as relações com os jornalistas. O mundo ainda não está todo às avessas, é verdade, mas aproxima-se perigosamente quando as pessoas deixam de respeitar os limites do mero senso comum. Condenar com base numa imaginada verosimilhança e no pretenso efeito não verificado de uma suposta ameaça? Não há paciência para este bafio socialista carregado de poeira, que não vai ser grave pelo efeito que terá, mas que deve dar-nos que pensar pelo efeito que Arons de Carvalho pretendia que viesse a ter…

A deliberação da ERC sobre o caso Relvas


Rui Rocha,

Li na íntegra as 48 páginas da deliberação da ERC relativa ao caso das pressões do ministro Relvas sobre o Público e a sua ex-jornalista. Como se sabe, esta deu como não provada a existência de uma ameaça de blackout generalizado do governo ao jornal e de divulgação de aspectos da vida privada de Mª. José Oliveira. É uma decisão previsível. Esta afirmação, ao contrário do que possa parecer, não encerra nenhum juízo de valor sobre a (im)parcialidade da ERC na apreciação desta situação. Sublinho que à desejável isenção deste órgão não ajudam afirmações sobre a gravata do ministro Relvas ou as relações pessoais de amizade de, pelo menos, um dos membros da ERC com o mesmo. Repito, todavia, que não é disso que se trata quando afirmo que a decisão era previsível. Digo-o apenas porque se tratava, como desde o princípio se viu, de uma situação em que se confrontavam duas versões contraditórias dos acontecimentos, apresentada uma por Leonete Botelho e outra pelo ministro. Ora, não existindo qualquer presunção legítima que aponte para a maior credibilidade de uma ou de outra (ao contrário do que defende Arons de Carvalho na sua declaração de voto), não era de esperar que se chegasse a outra conclusão que não fosse a de se considerarem não provadas as acusações (o que não quer dizer que os factos não tenham acorrido). Assim, e sendo este o fundamento principal da deliberação, o sentido desta afigura-se inatacável. Não deixarei entretanto de fazer um reparo a um argumento secundário também invocado: o de o próprio Público ter considerado que as pretensas pressões  não tinham natureza inaceitável. Noto que, estando em causa a liberdade de imprensa e sendo esta um bem público, nunca a apreciação que o jornal fizesse poderia tomar-se como critério definitivo. Feito este reparo, devo ainda dizer que o juízo de censura, é certo que inconsequente, que a ERC formula à actuação do ministro é, em função dos factos provados (irritação, nomeadamente, mas não mais do que isso), o mais longe que podia ir. Perante a deliberação, as questões de fundo permanecem. São elas a da prova das pressões, a da actuação do ministro no caso Secretas/Silva Carvalho, sobre a qual também me pronunciei oportunamente e a da utilidade da própria ERC. Tal como se esperava, a deliberação não resolveu nenhuma delas.

À atenção de algumas almas sensíveis


Teresa Ribeiro,

De pouco vale a ansiedade do conselho de redacção do Público – pressões assim sentem os jornalistas todos os dias. A mim, por exemplo, e durante os anos em que dirigi o Diário Económico, um primeiro-ministro não se coibiu de gritar ao telefone (apesar de lhe dizer que não estava sozinho na sala) que tivesse cuidado com o meu futuro. O que importa é o que se publica no dia seguinte, não o que se ouve na véspera – Martim Avillez Figueiredo, na última edição do Expresso.

“Pensemos filosoficamente”.


vidabreve,

O repto vem no “Retrato de Ricardina”, de Camilo Castelo Branco. Os irmãos Pimentel, na ruína, são abordados por um abade que pecara na juventude e queria casar duas filhas a troco de um dote de trinta mil cruzados por cabeça. Os irmãos recebem agastados a proposta, depois acalmam-se, depois pedem tempo para reflectir. Finalmente, escreve Camilo, “os noivos acederam, tirando a partido que a mãe das nubentes se recolheria em mosteiro, antes das núpcias das filhas”. Nada feito. “Voltaram os Pimentéis a reflectir. Acharam-se subitamente filósofos”. “Pensemos filosoficamente – dizia o irmão de Clementina. – As raparigas que venham com a condição de cá não pôr o pé a mãe. Comunicaram ao abade a modificação. – Não, senhor – retorquiu o padre. – Onde as filhas estiverem há-de ir a mãe. – Pensemos filosoficamente – disseram entre si os Pimentéis. – A mãe poderá vir alguma vez; mas o abade nunca.. – Não, senhor – insistiu o abade. – Eu hei-de ir ver minhas filhas, porque lhes quero muito, e decerto não dava sessenta mil cruzados com a obrigação de as não ver mais. (…) – Pois deixemos vir o abade. Pensemos filosoficamente. A desonra (…) é coisa em que ninguém já fala. Tudo esquece. Foi uma desgraça; todas as famílias têm destas nódoas. Já agora, sejamos filósofos como toda a gente.” Desde que eclodiu o “caso Relvas” vejo uma parte da nossa direita a meditar com angústia na imperscrutabilidade do mundo, na inacessibilidade do real, nos mistérios da “coisa em si”. É bom sinal. Tal como os irmãos Pimentel, estão a “pensar filosoficamente”.

Não me parece que Relvas esteja mais forte


Rui Rocha,

Na versão de Miguel Relvas sobre a sua relação com Jorge Silva Carvalho, a verdade constrói-se no sentido inverso ao dos ponteiros do relógio. A narrativa não relata o que efectivamente sucedeu. Adequa-se àquilo que se antevê que possa acontecer no futuro. E o futuro são os factos que os órgãos de comunicação social vão divulgar a seguir. A cada facto novo, a verdade de Relvas adapta-se, actualiza-se. Aproxima-se, a contragosto e na medida do estritamente necessário, da realidade. Silva Carvalho passa de alguém quase desconhecido, a contacto pontual em ocasiões sociais. E daí a interlocutor em reuniões de negócios. Neste modelo de verdade servida a conta-gotas, a transparência faz jus ao seu nome. Não se vê. Em tudo isto, Relvas cometeu, pelo menos, três erros. O primeiro consiste em não ter percebido que Silva Carvalho é, mais do que um espião, um agente. Altamente infeccioso. Qualquer contacto, na vida privada ou no exercício de funções públicas, implica uma forte probabilidade de contágio. A única forma de evitar a enfermidade é mantê-lo à distância. O segundo resulta de não ter aberto o jogo todo logo à partida. Não o tendo feito, arriscou-se a que a censura da opinião pública passasse da gravidade dos factos para a gravidade da sua ocultação. O terceiro ocorreu no episódio do Público em que não soube agir com a sobriedade de um titular de funções governativas e com a contenção própria de quem diz ter a verdade do seu lado. Relvas afirma que não mentiu, nem omitiu. Talvez seja assim. Provavelmente, omintiu. Uma conduta que fica algures entre a mentira e a omissão. Agora, tem a água pelo pescoço. É natural que se agarre a qualquer coisa para evitar afogar-se. Mas não podemos permitir que arraste para o fundo a nossa consciência. Sócrates nivelou por baixo os padrões morais do exercício de funções públicas em Portugal. Desanquei-o de forma regular e intensa. Não posso fazer menos relativamente a quem atribui à verdade uma natureza flutuante, em função das circunstâncias. Não foi para isso que, nas últimas legislativas, votei no PSD. Nem foi isso que o PSD me prometeu.

Ajudando o José Navarro de Andrade.


vidabreve,

Parece que ser mentiroso é, além de um pecadilho inocente, uma questão de opinião que deve ser demonstrada. Pois bem, eis um bom resumo que respeita apenas às declarações do ministro na AR : “O jornal Expresso salienta quatro contradições de Miguel Relvas nas declarações que fez na Assembleia da República: 1. O ministro afirmou então: “Nunca recebi nenhum relatório de reestruturação de serviços, não tenho nenhuma relação estreita com Jorge Silva Carvalho, nunca foi meu conselheiro nesta área, nem tinha de ser porque esta não é matéria que eu acompanhe”. Porém, isso não bate certo com as reuniões havidas e com as sugestões do espião. 2. Disse que só conhecia Jorge Silva Carvalho desde abril de 2010 e, desvalorizando as informações que recebia do espião, citou o primeiro clipping que recebeu: uma notícia da Reuters sobre a visita de George Bush ao México. A notícia é de 2007 e não existe nenhuma outra posterior a essa data. 3. O ministro afirmou que nem ele, nem membros do seu gabinete tinham contactos com o espião, mas nesta sexta feira o seu adjunto Adelino Cunha demitiu-se por ter sido conhecido que manteve vários contactos com Silva Carvalho já depois de ter rebentado o escândalo. Na comissão parlamentar, a deputada Cecília Honório do Bloco de Esquerda perguntou por duas vezes se o ministro ou alguém do seu gabinete recebia informações ou tinha ligações à questão das secretas. “Era importante que fosse muito claro e dissesse que nem o senhor nem alguém próximo de si, nomeadamente no seu gabinete, não tem de facto contacto com o ex-diretor do SIED, nem tem de facto recebido informação que não seria da vossa competência, e não tem qualquer responsabilidade em matéria de serviços de informações”, questionou a deputada. Perante a falta de resposta, Cecília Honório insistiu: “Volto a perguntar: o senhor, desde que é ministro não tem contactos, nem informações particulares, nem qualquer espécie de responsabilidade sobre serviços de informações? Nem o senhor ministro nem ninguém do seu gabinete mexe naquilo que diz respeito aos serviços de informações?”. Miguel Relvas respondeu: “Não, não, não, não e mais um não”. 4. O ministro afirmou que as sugestões que recebeu de Jorge Silva Carvalho não envolviam nomes de funcionários das secretas, o que é mentira. O jornal salienta que o ministro foi questionado se eram pessoas dos serviços e alertado pela deputada do PS Isabel Oneto de que se fossem pessoas dos serviços se tratava de violação de segredo de Estado, uma vez que a identidade dos funcionários desses serviços é segredo de Estado, afirmou. “Não eram agentes, eram pessoas para responsabilidades, para lugares de topo, que não eram agentes (…) Aqui não há segredos de Estado”. Ora, dois dos nomes sugeridos por sms eram de dois funcionários das secretas: Filomena Teixeira e João Bicho. O ministro mentiu. (…).” Não encontrei o artigo original do Expresso, o resumo vem daqui: http://www.esquerda.net/artigo/“ministro-faltou-à-verdade-ao-parlamento”/23307

E…?


enlil,

O caso-Relvas deve estar na recta final porque o Professor Marcelo já opinou. E quando ele opina a sua mágica opinião é terminal e decisiva, seja quanto ao plantio da batata, seja relativamente à fusão do átomo. Mesmo que não passe de uma opinião libérrima do estorvo dos factos apurados e discriminados, como ele próprio Professor o afirma para melhor certificar a sua opinião.

Peço por isso muita desculpa que mal pergunte:

Haverá por aí alguém que me elucide, só com factos demonstrados, o que afinal se passou?

Press clipping.


vidabreve,

O relatório sobre Francisco Pinto Balsemão não foi a única encomenda de Jorge Silva Carvalho enquanto já estava ao serviço da Ongoing. Em Setembro de 2011, o ex-director do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED), mandou fazer um relatório sobre a Finertec, a empresa de capitais luso-angolanos que opera no sector da energia e ao qual estão ligados dois dos homens com quem se se relacionava: Miguel Relvas, que foi administrador da Finertec até ser eleito dirigente do PSD, e José Braz da Silva, que hoje dirige a empresa.

Parece que há aqui um padrão, não é verdade? Isto, claro, presumindo inocências a eito desta gente toda, porque não estamos no tempo do Sócas e agora há estado de direito, liberdade e muitos caldos de galinha.

A importância dos detalhes – 2


Teresa Ribeiro,

“Se há palavras que os jornalistas devem ter cuidado em usar, “pressões” é uma delas. Faz parte do jornalismo sofrer pressões. Sofrer e resistir. Denunciar só se for caso disso. Porque o que mais irrita quem pressiona é ser educadamente ignorado e ver a notícia seguir o seu caminho. Admito que se consiga fazer jornalismo sem sofrer pressões, mas não sei o que isso é. Sofremos pressões com frequência e não vale a pena armarmo-nos em heróis. A maior parte não tem valor para ser pregada ao peito. São pequenos arrufos ao pé do que se passa em tantos locais do globo, onde a liberdade da Imprensa é disputada no dia a dia” – Ricardo Costa, na edição de ontem do Expresso, demarca-se do coro de indignados, começando por afirmar o óbvio, sobre o caso das “pressões do Miguel Relvas” que diga-se, a cada dia que passa fica mais interessante.

Ontem chamei-lhe novela, mas depois de ler isto, acho que se começa a parecer mais com uma ópera bufa.

A importância dos detalhes


Teresa Ribeiro,

Ler na Imprensa que “um ministro ameaçou divulgar na Internet dados pessoais de uma jornalista” tem um impacto tremendo. A indignação é inevitável, o escândalo previsível. Mas quando se sabe que a intenção enunciada era a de divulgar que essa jornalista vive com o militante de um partido da oposição percebe-se os contornos da contenda e já não é bem sobre inadmissíveis abusos de poder que ficamos a cismar mas sobre as vicissitudes das relações entre políticos e jornalistas. 

Hoje o Público esclarece que não fosse a jornalista em causa levar todo este caso ao Conselho de Redacção, o assunto nem teria chegado a transpirar para fora do jornal. A fazer fé no que este artigo revela, Miguel Relvas exaltou-se ao telefone, disse o que não devia, mas depois pediu desculpa. É certo que um ministro de Estado não se deve exaltar ao telefone com jornalistas, mas fazer deste incidente o seu auto de fé político parece-me manifestamente exagerado. Nunca fui fã de Relvas, mas por princípio sempre que um ministro cai, gosto que seja por razões que o justifiquem.

Sob pressão


Rui Rocha,

 

Sinto tanta distância dos que garantem que Relvas é uma criatura cheia de virtudes, incapaz de quaisquer aleivosias, como daqueles que sumariamente exigem a sua cabeça. É certo que, confirmando-se a existência da ameaça de divulgação de aspectos da vida privada, não pode haver qualquer dúvida sobre as consequências: demissão imediata. Mais, tendo a acreditar na versão dos factos que diz que tais ameaças ocorreram. Mas não creio que esta seja matéria em que uma posição definitiva possa depender de uma impressão não suportada em evidências. Se a liberdade de imprensa é um valor a preservar, o reconhecimento à imprensa da liberdade de apear um Ministro pela simples alegação da existência de pressões constituiria um ataque à democracia igualmente grave. Isto dito, importa recordar que Relvas, continuando a negar a existência das ameaças, admitiu hoje que: a) manifestou a sua indignação à editora do jornal por lhe terem sido dados 32 minutos para responder; b) referiu a possibilidade de um blackout pessoal (não extensivo ao restante governo); c) apresentou desculpas à directora do Público pelo tom (que não pelo conteúdo) que utilizou. Ora, estes factos permitem abrir duas linhas de reflexão. A primeira, de carácter geral, aponta para a existência de uma relação pouco saudável entre jornalistas e políticos. Demasiados telefonemas, cumplicidades, tricas, deslealdades, panelinha e conversas de botequim ali onde se impunha sobriedade, respeito e formalismo. A segunda diz respeito à situação em que o próprio Relvas se colocou. Se os factos já apurados podem não ser suficientes para provar que exerceu pressões inadmissíveis, aqueles que o próprio Ministro reconhece permitem concluir que não resistiu à pressão das circunstâncias.  A sua actuação no caso SIED/Silva Carvalho já tinha os contornos de uma tremenda trapalhada. Na melhor das hipóteses, a interacção com o Público foi nervosa e incontida, o que revela inabilidade e falta de sangue-frio. Independentemente dos factos que os próximos dias trouxerem, a sua margem de actuação situa-se agora entre a demissão e a extrema fragilidade política.

Perfeito.


vidabreve,

Foi uma boa semana para a república. Miguel Relvas ameaçou revelar detalhes da vida pessoal de uma jornalista, que obteve talvez por “press clipping”, e as reacções iradas dos defensores da liberdade não se fizeram esperar.

Mário Crespo inaugurou outra campanha temerária contra a “asfixia democrática”. Alguns blogues da direita, liderando pelo exemplo, organizaram manifestações à porta da Assembleia a que compareceram dezenas de cidadãos indignados. Rodrigo Moita de Deus vestiu-se de palhaço e fez marketing de guerrilha na Sant’Ana à Lapa.

Deputados do PSD distanciaram-se dos ataques à liberdade de imprensa, “por não admitirem no partido o opróbrio que manchou o Governo de José Sócrates”. Pedro Passos Coelho, compungido, afirmou que em matéria de valores fundamentais “não há esquerda nem direita, e que a todos se exige o mesmo respeito pela democracia”. José Relvas acusou o toque e demitiu-se esta manhã. Ao “Público”, a quem pediu desculpa, confessou que fará umas “curtas férias, para visitar amigos em Angola e no Brasil”.

A nossa opinião pública, e os seus líderes, estão mais uma vez de parabéns.

O número dois que se vê


escafandro,

Seria sempre difícil. Um número dois é invariavelmente olhado com desconfiança. O que terá feito para chegar tão perto do poder? Qual o seu grau de lealdade? Manterá segundas intenções? Andará a extravasar as suas competências? Ainda por cima, já não estávamos habituados. Antes de Miguel Relvas, há pelo menos uma década que não dávamos pela existência de um número dois político num governo.

 

Claro que, em termos de relevância global, o número dois dos últimos governos tem sido o Ministro das Finanças. Mas não é função do Ministro das Finanças preocupar-se com justificações políticas das medidas que impõe ou ajuda a impor. Para isso, há ministros políticos. Mas será que estamos habituados a dar por eles? Quem – respondam depressa – era o número dois político nos tempos de Durão Barroso? Não, Paulo Portas estava no governo mas nunca foi número dois (nem podia sê-lo: pertence a outro partido e era olhado com grande desconfiança por muita gente no interior do PSD, tendo que gerir a exposição mediática com imenso cuidado). Então? Pois, não é resposta que surja de imediato – talvez Marques Mendes mas, na verdade, ninguém parecia destacar-se no apoio ao Primeiro-Ministro (sim, eu sei: se era Marques Mendes, não surpreende que não se destacasse – mas vocês percebem o que quero dizer). E depois vieram os governos Sócrates. Em ambos, o lugar de número dois político era, evidentemente, ocupado por Pedro Silva Pereira. Mas Pedro Silva Pereira possuía uma característica que Relvas não possui nem poderá obter (há a cirurgia mas vamos partir do princípio de que ele não está disposto a tanto): era um clone do Primeiro-Ministro; uma extensão de José Sócrates; uma emanação de José Sócrates. Façam um exercício: tentem pensar em Pedro Silva Pereira sem pensar em Sócrates. Tentem vê-lo como uma pessoa independente, com vida própria, um casamento (ou uma união de facto, que estamos a falar de um socialista moderno), filhos; tentem imaginá-lo sentado no sofá, em pijama e chinelos, assistindo a uma partida de futebol na televisão. Conseguem não ver Sócrates algures? Admitam: é Sócrates que vêem e não Silva Pereira; ou então as imagens sobrepõem-se; ou, no mínimo, Sócrates encontra-se no outro sofá ou de pé junto à porta ou, no mínimo dos mínimos, numa fotografia emoldurada por cima da lareira. Tenho razão, não tenho? Excelente. Só mais um teste: pensem em Pedro Silva Pereira a falar. Conseguem ouvir a voz dele e apenas a voz dele na vossa cabeça? Bem me parecia. A voz política dos governos Sócrates foi sempre Sócrates (mesmo à posteriori, que pensamento aterrador).

 

Miguel Relvas surge, assim, particularmente estranho – e inquietante. Trata-se de um número dois que intervém com frequência, que aqui e ali parece sobrepor-se a Passos Coelho, que é maçon (pormenor irrelevante não se desse o caso da Maçonaria parecer ter trocado os elevados ideais do Iluminismo pelos prosaicos ideais da troca de favores), que tem a seu cargo reformas delicadas (por exemplo: redefinição do mapa do poder local e privatização da RTP) e que, tutelando a área da comunicação social, pode facilmente cair na tentação de procurar manobrar a informação. Ora se a questão das reformas já suscita alguma preocupação, pelo nevoeiro que parece envolvê-las (em especial a da privatização da RTP), por estes dias torna-se inevitável abordar o caso Pedro Rosa Mendes. Das duas, uma: ou Relvas mandou afastar Rosa Mendes ou a administração da RTP (e RDP) decidiu antecipar qualquer desagrado superior e tratou do assunto com o excesso de zelo típico dos lambe-botas (estúpidos, ainda por cima) que tendem a ocupar posições do género neste país. No primeiro caso, nem há espaço para hesitações: Relvas devia abandonar o governo. No segundo, devia demarcar-se – e demitir a administração da RTP. Das piores coisas que o governo pode fazer numa época em que o espírito de boa vontade não abunda é começar a transmitir a ideia de que aprecia o silenciamento de vozes discordantes. E quem achou que o caso Fernando Charrua/Margarida Moreira (ou lá como se chamava a triste senhora) era um péssimo indício dos tempos que se viviam sob a batuta do quase engenheiro e futuro filósofo, não pode agora contemporizar. De resto, já era tempo de entendermos que tentar silenciar comentários negativos gera quase sempre mais ruído do que permiti-los (mas trata-se de um tique ditatorial que nos vem de longe). Sendo um homem inteligente, Miguel Relvas deve perceber que constituirá sempre um alvo: it comes with the territory de ser um número dois que se vê, ainda por cima em tempos de crise profunda. Acontecimentos deste género só farão com que tenha de pagar por isso mais depressa. Ou então pagará Passos Coelho.

Ó tempo, volta para trás


cronicasnofeminino,

No tempo do Sócrates era comum que ele saísse pelos fundos, evitasse o confronto e, a partir de certa altura, acusasse terceiros pelas vaias e os apupos com que foi brindado ao longo do tempo de governação. Ido o tempo do Sócrates julgou-se que se teriam ido as desculpas esfarrapadas para admitir o óbvio: não há governação sem contestação a menos que se viva num desses regimes musculados que tanto respeitam as liberdades de cada um. Ao que parece, esse tempo voltou. Ser contestado não é o fim do mundo, senhores governantes.

Assobiam bem, mas não me alegram


Rui Rocha,

O Ministro Miguel Relvas foi ontem vaiado pelos delegados ao Congresso da Associação Nacional de Freguesias. Uma parte significativa deles abandonou a sala. A avaliação destas atitudes depende de percebermos o que as motiva. Está em causa defender um poder autárquico forte e interessado em prover aos interesses legítimos das populações, ou a mera indignação oportunista, interesseira e egoísta na defesa de uma situação disfuncional e ultrapassada? A revisão do mapa autárquico é uma necessidade evidente. Portugal  tem mais de 4.200 freguesias. Não é a redundância, o excesso e a fragmentação para lá do razoável dos poderes e dos recursos que defende o poder local. O que esteve em causa foi, por isso, a defesa do interesse pessoal de cada um dos que vaiaram. Miguel Relvas esteve ontem no papel de árbitro que marca uma grande penalidade contra a equipa da casa. A bancada revoltou-se. Mas, vistas as imagens em câmara lenta, conclui-se que o castigo máximo foi bem assinalado. Resta agora dar cumprimento às leis do jogo. É necessário concretizar as expulsões, trazendo o número de freguesias para aquilo que a dimensão real do país e as necessidades das populações impõem. Em rigor, este processo de racionalização não devia ficar por aqui. Numa próxima fase deveria questionar-se a utilidade das próprias freguesias enquanto instituições do poder local (a sua existência faz sentido?) e desenhar-se um novo mapa dos municípios também ele ditado pela racionalidade, não deixando tal objectivo, como agora se fez, na dependência da iniciativa dos autarcas.