Ó tempo, volta para trás


cronicasnofeminino,

No tempo do Sócrates era comum que ele saísse pelos fundos, evitasse o confronto e, a partir de certa altura, acusasse terceiros pelas vaias e os apupos com que foi brindado ao longo do tempo de governação. Ido o tempo do Sócrates julgou-se que se teriam ido as desculpas esfarrapadas para admitir o óbvio: não há governação sem contestação a menos que se viva num desses regimes musculados que tanto respeitam as liberdades de cada um. Ao que parece, esse tempo voltou. Ser contestado não é o fim do mundo, senhores governantes.

10 comentários em “Ó tempo, volta para trás”

  1. Neste caso, parece-me que o Governo comprou uma guerra inútil. A extinção das freguesias, alegadamente proposta pelos tecnocratas do FMI, não vai diminuir em nada a despesa pública de Portugal. Por uma razão elementar: a generalidade dos autarcas das freguesias trabalha graciosamente pelas suas comunidades e as freguesias não têm dívidas, como sublinhou o líder da ANAFRE. Por isso, não sei onde é que o Governo vai poupar dinheiro com a extinção das freguesias mais pequenas, que são aqueles cujo presidente da Junta nem é remunerado.

    1. Não me choca pensar que tem de haver reformas e racionalização de recursos. Já era tempo das secretárias deixarem de ir ao pão com o carro da Presidência da Câmara, embora aqui se trate de freguesias. A questão é que é natural que algumas pessoas não o aceitem e que o manifestem ou se manifestem. Não concebo governação sem contestação e não consigo entender a necessidade constante em arranjar teorias da conspiração e cabalas.

    2. Luís Paulo Rodrigues: nada poderá ficar como está. Recordo-lhe que o memorando de entendimento negociado e assinado entre o anterior Governo (com o apoio expresso do PSD e do CDS) e as entidades internacionais que nos financiam determina expressamente o seguinte: «Reorganizar as administrações local e regional (ponto 1.7.III); «Com vista a aumentar a eficiência da administração local e racionalizar a utilização de recursos, o Governo submeterá à Assembleia da República uma proposta de lei (…) para que os municípios (…) atinjam a redução dos seus cargos dirigentes e unidades administrativas num mínimo de 15% até final de 2012 (ponto 3.41); «Reorganizar a estrutura da administração local. Existem actualmente 308 municípios e 4259 freguesias. Até Julho de 2012, o Governo desenvolverá um plano de consolidação para reorganizar e reduzir significativamente o número destas entidades” (ponto 3.44).

      Nem poderia ser de outra forma. Só o sector empresarial local, por exemplo, tem um passivo que ultrapassa já os 2,4 mil milhões de euros. Espantoso é verificarmos que seis meses depois o PS já pretende demarcar-se do memorando que negociou e assinou, como se isso nunca tivesse acontecido.
      Aqui para nós: mesmo num país sem as finanças ruinosas, você acha que se justificaria existirem 4259 freguesias? Devemos manter um mapa administrativo que, no essencial, remonta à monarquia liberal da primeira metade do século XIX? Faz algum sentido existirem largas dezenas de freguesias com menos eleitores do que certas ruas de Lisboa? Faz algum sentido passarmos o tempo a contestar a situação do País enquanto se critica de imediato todas as mudanças, sejam elas quais forem?

  2. Se, ao ter ido embora o tempo de Socrates, o governo que lhe sucedeu tivesse entrado no tempo do Humanismo, então os neoliberalistas não olhariam somente para as economias e os mercados e para as engenharias financeiras, e preocupar-se-iam com as pessoas e entenderiam que um país só tem possibilidade de se erguer, se as pessoas que o compõem sintam ânimo para participar nessa grandiosa tarefa.

  3. «Passos fala em “contestação organizada” a Relvas». Bom, Leonor, pelo menos, resta-nos a consolação de haver ainda alguma coisa neste país que é “organizada”. Se o actual ‘(des)governo’ pensasse em ter alguma organização para si, isso até nem me pareceria mal de todo. O pior é que é aquilo que se vê… e a teoria reinante é a do “quem não é por mim é contra mim”. Vêm fantasmas em todo o lado e chegam a ter medo da própria sombra. São ridículos, portanto.
    Isto não quer dizer que não concorde com muitas das medidas que têm sido anunciadas nesta matéria, nomeadamente na redução drástica do número de freguesias, (absolutamente astronómico e desajustado à dimensão real do país) e até de alguns municípios cuja existência se prove não ter razão de ser. Isto parece-me ser sensato e até amplamente consensual na opinião pública. Os autarcas directamente afectados com esta redução, esses estão obviamente descontentes e nem outra coisa seria de esperar. Mas nem por isso deixam de ter o pleno direito à contestação e então se for «organizada», muito melhor!

    1. Luís, como digo num dos comentários acima, eu até compreendo que as reformas nalgumas freguesias se justifiquem, embora, pelo que sei ainda está por explicar se isso vai trazer o tão desejado emagrecimento do Estado. O que me irrita profundamente, e que é referido também no seu comentário, é a incapacidade de conviver com a crítica sem que ela seja vista como uma consequência natural da vida em democracia. Não entendo.

      1. É exactamente isso que me faz também muita confusão, Leonor. Tanto se queixavam (e com razão, diga-se) da falta de ‘poder de encaixe’ de Sócrates e agora estão precisamente na mesma toada.

        1. É claro que tinham razão em relação a Sócrates. Sempre achei detestável que fugisse das vaias. O que constato é que é um problema dos políticos, Luís. Lamentavelmente.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *