Presidenciais (11)


Pedro Correia,

Parte dos desempregados e pensionistas perdem isenção de taxas moderadoras na saúde – medida que abrangerá igualmente os cônjuges dos reformados com pensões de reforma inferiores ao valor do salário mínimo nacional, até agora isentos daquelas taxas. Pensionistas e desempregados vão passar também a pagar o transporte de ambulância. Tudo isto, como é evidente, agravará ainda mais os efeitos da crise nas bolsas dos mais desfavorecidos. Uma decisão do Governo tomada apenas a três semanas das presidenciais, para facilitar a vida ao recandidato Cavaco Silva contra o candidato oficialmente apoiado pelo PS. Bem pode Manuel Alegre, justamente indignado com esta acção interna de sabotagem à sua campanha, clamar contra a inconstitucionalidade da medida – um claro ataque ao ‘estado social’ por parte do Executivo socialista. Cavaco, reconfortado pelas sondagens e pelo esforço desenfreado do Governo em divorciar-se ainda mais dos portugueses, só tem motivos para sorrir. E para agradecer a José Sócrates.

É inútil fugir


Sérgio de Almeida Correia,

Está convencido de que uma parte do País está empenhada numa “campanha suja”. Já antes dele houve quem pensasse o mesmo.

 

Quando confrontado com os factos a única resposta que encontra para todas as dúvidas que surgem sobre a sua actuação e os factos políticos que rodeiam o seu mandato é dizer que é honesto.

 

Sejamos claros: o problema não está numa viagem a Paris ou numas férias na Alemanha, cruzando auto-estradas ao lado de Dias Loureiro. As companhias podem ter alguma importância para os lados de Boliqueime. Para os portugueses isso é indiferente desde que não tenham qualquer interferência nas funções que se exerce e se saiba explicar isso quando a dúvida surge. Não se é desonesto por causa disso.

 

O problema não é de honestidade. É de protecção de camarilhas. Perceber isto é básico para quem quer ser Presidente da República.

 

Para ler Keynes e Friedman, e trocar impressões com Fernando Lima ou Dias Loureiro, Cavaco Silva não deve ter tido tempo para ler Jorge de Sena. E se leu, por aquilo que tem vindo a dizer, não percebeu nada. Alegre devia ter-lhe dito isto. Olhos nos olhos.

 

Quando se veste o mesmo casaco durante demasiado tempo ele acaba por ganhar formas, vícios, jeitos, cotovelos coçados e às vezes também borbotos. O casaco nunca mais se livra deles, mesmo depois de pendurado no cabide. E a limpeza a seco, ao fim de mais de uma década, já não faz milagres. Os outros podem fingir que não reparam. Mas está tudo lá quando se olha para ele e voltamos a vesti-lo.  

 

Presidenciais (10)


Pedro Correia,

 

 

Debate Cavaco Silva-Manuel Alegre

 

Um Cavaco Silva surpreendentemente ao ataque, um Manuel Alegre excessivamente contido. Esta pode ser uma síntese daquele que foi – de longe – o melhor debate desta pré-campanha, há pouco transmitido pela RTP. Um debate que Cavaco conseguiu levar para o terreno que mais lhe interessava, o da estabilidade institucional como arma defensiva perante a actual crise económica, enquanto se mostrava muito agastado perante críticas antigas do seu antagonista, que o acusou de pretender destruir o estado social. Alegre pareceu perplexo com a táctica de Cavaco e perdeu preciosos minutos do frente-a-frente procurando justificar aquelas declarações, proferidas num tom que raras vezes associamos ao actual Presidente da República.

“Manuel Alegre acusou-me pelo menos 50 vezes de eu destruir o estado social. É uma afirmação falsa. Ele andou a enganar os portugueses”, afirmou Cavaco, entrando ao ataque no estúdio da estação pública. Alegre tentou contra-atacar, mas o primeiro tema que lhe veio à mente não terá sido dos mais eficazes: “Eu teria dado uma resposta imediata à humilhação que o Presidente checo fez a Portugal na presença do Presidente da República [Cavaco Silva]. Foi uma situação embaraçosa. O Presidente da República devia ter respondido imediatamente.”

O tiro fez ricochete. “Eu não actuarei, no domínio da representação externa, como sugere o candidato Manuel Alegre. Um Presidente que se metesse num avião para bater à porta da senhora Merkel ou de Sarkozy era um desprestígio para Portugal. Não nos levavam a sério. A política externa não se faz aos gritos na praça pública”, retorquiu Cavaco.

Houve divergências claras entre os candidatos em quase todos os domínios. Alegre acusou Cavaco de ter falhado a anunciada “cooperação estratégica” com o Governo. O candidato apoiado pelo PSD e pelo CDS deu uma rápida volta à questão, não hesitando em colar-se ao Executivo socialista – aliás confirmando o que foi o essencial do seu percurso em Belém nos últimos cinco anos: “O Governo está a tomar medidas [contra a crise]. A prova disso é que aprovou um Orçamento do Estado, que prevê a redução do défice para 4,6% e está a colocar as finanças públicas numa situação sustentada” Deu-se aliás esta coisa espantosa: ouvir-se um Cavaco mais próximo de José Sócrates do que o seu antagonista. De resto, Alegre deixou claro: “Eu não me candidato para defender este Governo.”

A minha maior perplexidade ocorreu, no entanto, quando Alegre trouxe para o debate a questão das alegadas escutas telefónicas do Governo no Palácio de Belém suscitada por colaboradores muito próximos de Cavaco no Verão de 2009 – aquele que foi, sem qualquer dúvida, o pior momento do mandato do actual Chefe do Estado. “Este caso pôs em causa a lealdade institucional”, acusou o socialista. Cavaco fez como costuma quando uma questão o incomoda: não respondeu. Estranhamente, Alegre não deu sequência ao assunto, que morreu ali. Ele próprio, aliás, também ficou sem resposta quando a moderadora, Judite Sousa, lhe pediu uma apreciação sobre o Orçamento do Estado para 2011.

Houve alguma proposta original neste debate? Sim. E veio da boca de Alegre. Se for eleito, o candidato apoiado pelo PS e pelo BE convocará uns Estados Gerais da Justiça. “Para uma reflexão muito profunda sobre a justiça” em Portugal. Cavaco, por seu lado, fez uma revelação ao confessar ter manifestado “muitas dúvidas” sobre o decreto que nacionalizou o BPN, em 2008, e sobre a competência da actual administração deste banco. Alegre não chegou a incomodá-lo muito neste tema apesar de ter estado bem ao alertar para as situações de “promiscuidade entre política e negócios” e ao apontar sem rodeios que figuras como Dias Loureiro e Oliveira Costa “nasceram politicamente com Cavaco Silva”.

Manuel Alegre precisava mais de uma vitória clara neste debate do que Cavaco. Para contrariar a convicção dominante – indiciada por todas as sondagens – que as presidenciais ficarão decididas logo à primeira volta, tal como aconteceu há cinco anos. Esse objectivo não foi conseguido. Por um motivo muito simples: Cavaco preparou-se melhor do que o socialista. Em política, estas coisas contam.

 

Vencedor: Cavaco Silva

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Frases do debate:

 

Alegre – Tenho uma visão mais aberta, mais tolerante e mais progressista em relação a determinados valores. A lei da interrupção voluntária da gravidez, a lei da paridade e a lei do divórcio, entre outras, representaram avanços civilizacionais.

Cavaco – Portugal depende muito do estrangeiro.

Alegre – Em política não há inevitáveis. Devemos resolver os nossos problemas com as nossas próprias forças.

Cavaco – Pode-nos faltar dinheiro para muita coisa. Mas não pode faltar dinheiro para situações de emergência social.

Alegre – [Oliveira Costa e Dias Loureiro] nasceram politicamente com Cavaco Silva.

Cavaco – Lamento que o candidato Manuel Alegre alimente uma campanha de insinuações e de intrigas.

Alegre – Não estou a insinuar coisíssima nenhuma. (…) Cavaco Silva confunde crítica política com insulto.

Cavaco – Este não é um tempo de fazer experiências, não é um tempo de aventuras. (…) Precisamos de soluções de segurança.

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A ‘gaffe’:

 

“O BPN já custou cinco mil milhões de contos.”

Manuel Alegre, confundindo confundindo euros com escudos

Presidenciais (6)


Pedro Correia,

 

  

Debate Fernando Nobre-Manuel Alegre

 

Manuel Alegre tem uma notória dificuldade nesta campanha presidencial: os valores da “cidadania” que lhe serviram de bandeira na corrida a Belém de 2006 estão a ser hoje levantados pelo candidato que notoriamente mais o irrita. Fernando Nobre, que Alegre defrontou esta noite pela primeira vez, num frente-a-frente na TVI, faz lembrar muito o Alegre de há cinco anos: procura captar votos em vários terrenos ideológicos, proclama aos quatro ventos a “independência” como valor político supremo e assume um discurso antipoder que entra como faca em manteiga num país que vive a maior crise económica dos últimos 30 anos.

Alegre é político profissional desde 1974. Mas hoje Nobre – o amador – ultrapassou-o em profissionalismo na forma como arquitectou o debate, sem dúvida o mais interessante de todos quantos ocorreram nesta campanha. Foi contundente sem se tornar impertinente, roubou a Alegre o habitual discurso em defesa dos mais desfavorecidos e teve ainda a subtileza de citar perante o poeta que se orgulha de ter cátedra em Parma dois outros grande vultos da nossa poesia, Sophia e Torga.

“Tenho dificuldade em entender Manuel Alegre. Em 2006, dizia que Francisco Louçã é um Cavaco do avesso. Em 2007, dizia que o Governo do PS estava a destruir o estado social.” Frases de Nobre, que obrigaram Alegre a abandonar a atitude de bonomia com que se apresentou em estúdio: “Não gosto de pessoas que se apresentam com uma pretensa superioridade moral.” Ambos invocaram – significativamente – o nome de Mário Soares. Nobre caiu no erro de recordar novamente que testemunhou a tragédia de Beirute em 1982: as repetições soam mal nestes debates. Melhor andou Alegre ao deixar um rasgado elogio à “excelente prestação” de Francisco Lopes, que na véspera vencera Cavaco Silva num debate igualmente moderado por Constança Cunha e Sá na TVI. O candidato apoiado pelo PS e pelo Bloco de Esquerda não ignora que podem fazer-lhe falta os votos comunistas.

O poeta orgulha-se de conciliar hoje apoiantes do Governo e da oposição: “É bom conseguir unir dois partidos que parecem inconciliáveis.” E advertiu o seu antagonista: “Ninguém é proprietário da cidadania.” Mas foi ambíguo em questões como o apoio à recente greve geral e em momento algum do debate pareceu o Alegre dos melhores tempos – aquele que enfrentou com eficácia Mário Soares no decisivo frente-a-frente da campanha eleitoral anterior, por exemplo. Nobre mostrou-se superior ao dirigir-se a segmentos muito significativos do eleitorado que vão sofrer os efeitos do Orçamento do Estado. “Não há maior falência da nossa democracia do que a fome instalada entre nós, do que a pobreza, do que haver 300 mil idosos com reformas inferiores a 300 euros”, sublinhou.

Há cinco anos, seria Alegre a dizer isto. Nobre é o Alegre de 2011.

 

Vencedor: Fernando Nobre

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Frases do debate:

 

Alegre – Ninguém tem o monopólio da cidadania.

Nobre – Não sou pessoa para me deixar condicionar ou empurrar seja por quem for.

Alegre – Não misturemos uma candidatura presidencial com percursos de vida.

Nobre – Há cinco anos [Alegre] candidatou-se contra o candidato do seu partido. São estas incoerências que tenho dificuldade em entender.

Alegre – Conhece mal essa história. É estranho. [Nobre] parece que é mais do PS do que os próprios dirigentes do PS.

Nobre – Sou apenas dono do meu voto. Sou casado há mais de duas décadas e nem sei em quem vota a minha mulher. O voto é livre e secreto.

Alegre – Fernando Nobre entrou no sistema. É candidato, é político. Penso que não está aqui para derrubar o sistema. (…) É muito perigoso fazer o discurso antipartidos.

Nobre – Perigoso para a democracia é termos chegado à situação social a que chegámos.

Alegre– [Nobre] não tem o exclusivo da preocupação.

Nobre – Manuel Alegre sabe quanto custa um litro de leite? Sabe quanto custa um pão? Sabe quanto custa um ticket da Carris em Lisboa?

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A ‘gaffe’:

 

“Vasco Gonçalves contribuiu para a construção da nossa democracia.”

Fernando Nobre

Presidenciais (4)


Pedro Correia,

 

 

Debate Francisco Lopes-Manuel Alegre

 

Nunca me lembro de ter visto o PCP tão pouco internacionalista como nos dias que correm. O discurso anti-europeu, noutros tempos bandeira de Paulo Portas e Manuel Monteiro, foi apropriado pelos comunistas portugueses, actuais campeões do isolacionismo. Falam permanentemente em “soberania nacional”, bradam contra tratados já tão remotos como os de Maastricht e Amesterdão, revelam saudades do velho escudo. “O euro significou 20% da perda de competitividade do nosso país”, declarou esta noite o candidato do PCP, Francisco Lopes, no debate que o opôs a Manuel Alegre na SIC. Clara de Sousa bem se esforçou para introduzir alguma dinâmica, mas em vão: foi até agora o mais monótono e maçador dos debates desta campanha presidencial. Alegre, ao contrário do que sucedera com Fernando Nobre, tratou Lopes com grande amabilidade. Nunca o criticou e chegou mesmo a elogiá-lo: “A candidatura de Francisco Lopes é uma candidatura positiva que contribui para o debate e a clarificação de posições.” Pressentia-se o incómodo de Lopes, que procurou – sem sucesso – apontar a Alegre pecadilhos tão variados como o apoio ao Orçamento do Estado para 2011, os tratados europeus e “a política do Governo”. Alegre, que passou uma legislatura inteira a criticar o Executivo do PS, pode bem com estas acusações, respondendo a Lopes da forma adequada: com total indiferença. Lembrando, de passagem, que é candidato a Presidente da República e não “a outra coisa qualquer”. Secretário-geral do PCP, por exemplo.

Houve perguntas da moderadora que ficaram sem resposta: o comunista recusou responder se preferia ver Portugal fora do euro, o socialista nada disse sobre o seu eventual desejo de receber o voto do ex-amigo Mário Soares. De resto, Alegre cortejou sem rodeios o eleitorado comunista. Lembrando ter sido ele o autor do preâmbulo da Constituição da República, que continua a apontar o “caminho do socialismo” para Portugal, e mostrando-se indignado com a “ofensiva especulativa dos mercados financeiros contra os órgãos democráticos de países democráticos”.

Não faltaram críticas a Cavaco. A mais convincente veio de Alegre: “Cavaco Silva acrescentou problemas ao funcionamento do sistema, até pela maneira como promulga as leis, manifestando dúvidas e reservas. É um factor de instabilidade, até pela maneira como exerce os mais simples poderes, como o de promulgar leis.” Não falou mais que Lopes, não falou muito diferente, mas falou melhor.

Vencedor: Manuel Alegre

 

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Frases do debate:

 

Lopes – O Orçamento do Estado para 2011 vai cair em cima do povo português em cada dia de cada mês do próximo ano.

Alegre – Não há estabilidade política sem estabilidade social.

Lopes – O candidato Manuel Alegre associou-se à votação dos tratados europeus.

Alegre – Eu sempre discordei do Tratado de Maastricht. (…) Eu se fosse Presidente da República já teria pedido uma audiência à senhora Merkel e ao Presidente Sarkozy.

Lopes – O Presidente [Cavaco], em vez de ser a voz de Portugal, foi a voz dos mercados.

Alegre – [Cavaco] acrescentou pessimismo ao pessimismo.

Lopes – [Cavaco] foi o padrinho deste orçamento.

Alegre – A pobreza não deve ser explorada para fins de campanha eleitoral.

 

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A ‘gaffe’:

 

“Fui a única candidatura que tomou uma posição portanto que este orçamento portanto não devia ser aprovado. Portanto o rumo do País tem que ser outro e há uma responsabilidade portanto do PS e do PSD portanto que está muito patente neste orçamento.”

Francisco Lopes

Presidenciais (2)


Pedro Correia,

    

 

Debate Defensor Moura-Manuel Alegre

 

O que levou Defensor Moura a candidatar-se à Presidência da República? O ex-presidente da câmara de Viana do Castelo, hoje deputado do PS, perdeu esta noite uma excelente oportunidade de esclarecer os portugueses sobre tão enigmática questão. Num frente-a-frente com Manuel Alegre na RTP, o médico minhoto revelou-se uma figura afável mas inócua. Quer “regionalizar” o País – uma bandeira que talvez lhe valha uns votos a norte do Douro – e lutar contra a “corrupção e o clientelismo”, que define como os dois “maiores cancros nacionais”. Há largos milhares de pessoas que pensam o mesmo sem lhes passar pela cabeça concorrer a Belém.

Manuel Alegre, sem um verdadeiro adversário pela frente, tratou com amabilidade e sem sobranceria o seu camarada de partido, o que lhe ficou bem mas só reforçou a ideia de que não estávamos perante um debate a sério. Foi quando muito, nesta noite tão fria, um debate de aquecimento para outros confrontos. Alegre e Defensor mostraram-se em sintonia nas críticas ao actual Presidente da República, nos reparos quase cavalheirescos às anunciadas alterações do Governo à lei dos despedimentos e na necessidade imperiosa de o País bater o pé aos mercados financeiros. Cavaco Silva, naturalmente, foi quase em exclusivo o foco das críticas, mas não terá chegado a ficar com as orelhas a arder. “O Presidente da República já devia ter dado uma palavra sobre esta pressão que está a ser exercida sobre Portugal”, declarou Alegre, sem se esquecer de citar o nome de Mário Soares. “O Chefe do Estado deve ser cúmplice do Governo nesta resistência ao exterior”, disse Defensor, quase em coro.

Este frente-a-frente (que melhor deveria ser classificado de lado-a-lado) permitiu perceber qual será o mote dominante do poeta na sua segunda tentativa de vencer umas presidenciais: Alegre vai apelar até que a voz lhe doa à defesa intransigente do “Estado social”, sem tolerar alterações ao Serviço Nacional de Saúde e à escola pública.

Talvez o momento mais interessante deste debate que Judite Sousa mal necessitou de moderar foi aquele em que o candidato apoiado pelo PS e pelo Bloco de Esquerda vaticinou a provável vitória eleitoral do PSD nas próximas eleições: “Pode muito bem acontecer que haja outro ciclo político nas legislativas.”

Sócrates certamente não gostou.

 

Vencedor: Manuel Alegre

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Frases do debate:

 

Defensor – Neste momento Manuel Alegre é mais conhecido que eu.

Alegre – O que seria, num país como o nosso, se as pessoas tivessem de pagar para ir à escola?

Defensor – Sou um deputado que tem massa cinzenta dentro da sua cabeça.

Alegre – É espantoso como não há uma rebelião do Estado democrático contra o capital financeiro.

Defensor – Os dois cancros da democracia portuguesa são a corrupção e o clientelismo. Aliados ao centralismo, são a asfixia total das potencialidades dos portugueses.

Alegre – Os défices da pobreza e da desigualdade são défices terríveis no nosso país.

Defensor – Cavaco Silva devia ter pressionado o Governo e a oposição para um acordo estável.

Alegre – A função do Presidente da República é uma função de mediação política e mediação social. O actual Presidente da República falhou nestas mediações.

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A ‘gaffe’:

 

“O que conquistar mais votos é que irá à segunda volta [com Cavaco]. Boa sorte para ele. E boa sorte para mim.”

Defensor Moura

Não percebi


Rui Rocha,

Em entrevista ao Sol, Manuel Alegre declarou: “a adopção gay ainda me causa engulhos”. De acordo com o dicionário online de Língua Portuguesa da Porto Editora, é a seguinte a definição de “engulho” (nome masculino):

1. náusea.

2. ânsia que precede o vómito.

3. figurado desejo veemente.

4. figurado tentação.

5. figurado aborrecimento.

Qual o sentido a atribuir à afirmação do candidato presidencial?

Alegre, Sócrates e Belém


Pedro Correia,

 

Em Janeiro de 2006, sem o apoio do PS e até com a hostilidade do aparelho socialista, quando a popularidade de José Sócrates estava em alta, Manuel Alegre conseguiu mais de um milhão de votos e suplantou a percentagem obtida nas urnas pelo candidato oficial do partido. Agora, que a popularidade do primeiro-ministro atinge os níveis mais baixos de sempre, o poeta parece tolhido, à espera de um apoio que lhe será sempre dado com reservas, condicionalismos e sem a menor sombra de entusiasmo. Como se o partido lhe fizesse um enorme favor. Acontecerá no próximo domingo, dizem. Se não chover.

Confesso não entender por que motivo o autor de Senhora das Tempestades aguarda com infinita paciência o veredicto de um líder político cuja palavra não se traduz em votos. Se fosse esse o caso, Mário Soares teria pelo menos forçado Cavaco Silva a disputar uma segunda volta há quatro anos. Todos sabemos o que aconteceu: Soares, com o apoio expresso de Sócrates, não conseguiu melhor do que um humilhante terceiro lugar, recolhendo apenas 14% dos votos, o que deu imenso jeito a Cavaco.

Sócrates, cada vez mais confinado a um reduto de fiéis, precisa hoje mais de Alegre do que este precisa de Sócrates. Confrontado com as declarações hostis de alguns elementos de terceira linha do PS, que não ganhariam sequer uma eleição para a junta da freguesia onde residem, o autor de Praça da Canção deveria revelar-se agora como se mostrou em 2006: acima dos partidos, com a frontalidade de sempre, falando directamente aos eleitores sem necessidade de qualquer intermediário oriundo das sedes partidárias. Se fizer isso, amplia sem dificuldade a votação de 2006; se aparecer colado a um primeiro-ministro tão desacreditado como o actual, ficará com uma nova derrota antecipadamente garantida a pesar-lhe no currículo.

Cavaco venceu ontem, na SIC N


Pedro Correia,

Manuel Alegre lançou ontem a sua candidatura, nos Açores. A SIC Notícias, sempre em cima do acontecimento, logo tratou de analisar a iniciativa. Para o efeito, convidou Maria João Avillez a juntar-se a Ricardo Costa, jornalista da casa.

Maria João começou por estranhar a ausência de dois açorianos nesta iniciativa em Ponta Delgada: Jaime Gama e Medeiros Ferreira. Em vão Ricardo Costa lhe lembrou que o presidente do Governo Regional, Carlos César, esteve presente – o que é muito mais significativo. A sua parceira de “debate” já ia lançada, a grande velocidade, no discurso anti-Alegre. Falando em nome do País, transformou o debate num tempo de antena à proto-candidatura de Cavaco Silva.

“Não é isto que o País quer. Não é isto que o País precisa”, dizia a comentadora convidada da SIC N. “Isto”, bem entendido, é Manuel Alegre. “Suprapartidário não é. Neste momento é uma presa do Bloco de Esquerda”, prosseguiu. “Enquanto Portugal caminha para o abismo, ele fala de Antero de Quental”, insistiu. “O País não quer excessos, retóricas, pessoas pouco esclarecidas”, advertiu. Alegre “é a pessoa mais errada que podia aparecer agora para este específico momento”, concluiu.

Depois mudou de tom. O facto do dia era a candidatura de Alegre, mas ela preferiu falar de Cavaco. Sempre de Cavaco. Para dizer o seguinte: “Ele tem um bom entendimento do cargo. Ele é uma pessoa muito rigorosa, teve uma enorme experiência governativa. Percebe muito de finanças públicas.”

Tendo o actual inquilino de Belém todos os atributos enunciados por Maria João Avillez, nestas suas comparações a preto e branco entre Alegre e Cavaco, percebe-se mal como é que Portugal “caminha para o abismo”: um Presidente com tão manifestas qualidades não é capaz de travar esta marcha fúnebre? Isto ia eu pensando com os meus botões, mas minudências deste género não faziam travar a comentadora da SIC N nas suas reiteradas proclamações pró-Cavaco: “Percebe muito de finanças publicas. É isto que o vai fazer ganhar.”

Fantástico. Cavaco ainda nem sequer é candidato e já tem a vitória assegurada. Venceu ontem cerca das 22.25, nos ecrãs da SIC N. Em directo, ao vivo e a cores. A preto e branco, só mesmo os comentários.

Tanto barulho para quê?


Pedro Correia,

 

José Sócrates está a ser muito criticado por ainda não ter anunciado o apoio oficial do PS à proto-candidatura de Manuel Alegre quando faltam nove meses para a eleição presidencial. Estas críticas fazem pouco sentido, por vários motivos. Desde logo porque Alegre ainda não oficializou sequer a candidatura. Depois porque isso faria apressar uma clivagem com o Presidente em funções – presumível recandidato a Belém – numa altura em que Sócrates, agora sem maioria no Parlamento, precisa mais que nunca de manter uma relação de equilíbrio institucional com Cavaco Silva. Além disso o líder socialista sabe que o assunto está longe de ser pacífico dentro do partido, onde Alegre divide opiniões: o apoio a um candidato presidencial só deve ocorrer após um debate interno aberto, franco e muito participado. Finalmente, nestas presidenciais a lógica de Sócrates é inversa à de Francisco Louçã. O líder do Bloco de Esquerda apressou-se, ainda em Janeiro, a antecipar o voto dos bloquistas ao autor de Senhora das Tempestades com a intenção exclusiva de condicionar a margem de manobra do PS: perante a opinião pública, os socialistas apareceriam a reboque do Bloco com tanto mais probabilidade quanto mais curta fosse a diferença de datas entre as duas declarações de apoio.

O silêncio de Sócrates torna-se ainda mais compreensível dada a natureza conflitual das relações entre o Governo socialista e o Bloco, como os debates quinzenais no Parlamento bem documentam. É um silêncio que incomoda Alegre mas que se justifica do ponto de vista do PS: acelerar o calendário político, no contexto actual, traz mais problemas que vantagens aos socialistas. A última coisa de que um país em crise necessita é de nove meses de campanha eleitoral. De resto, o poeta não necessita da bênção do Largo do Rato para formalizar a candidatura: como é sabido, a eleição presidencial é a única, no quadro político português, que não depende de uma lógica partidária. Isso ficou aliás bem demonstrado em 2006, quando Alegre, concorrendo sem o apoio do partido, recebeu muito mais votos do que o candidato oficial socialista.

É por isso que apetece perguntar: tanto barulho para quê?

O Presidente de Sócrates (8)


Adolfo Mesquita Nunes,

Em Janeiro escrevi uma série de posts através da qual procurei demonstrar que José Sócrates prefere ter Cavaco, e não Manuel Alegre como Presidente da República. Esta preferência, como então referi, não impede que José Sócrates apoie Manuel Alegre, sendo por isso de demonstração impossível. Mas essa preferência pode ser indiciada, como então tentei explicar, através de sinais vários, dados por José Sócrates, destinados a certificar-se de que Alegre perde: José Sócrates, disse na altura, pode começar por deixar Alegre queimar no lume brando do Bloco de Esquerda o tempo suficiente para assustar o eleitorado do centro, ao mesmo tempo que encomenda vozes autorizadas para denunciar o esquerdismo terceiro-mundista de Alegre. Depois, pode fazer avançar a guarda obediente destinada a criar as fracturas necessárias no PS, sob o ar angelical de José Sócrates, perturbando a campanha e obrigando Alegre a falar mais vezes das críticas que lhe chegam do PS do que da sua campanha. E por fim só tem de criar a ocasião para deixar escapar o vazio de Alegre que o PS tanto escondeu.

 

Nada do que então escrevi, nem mesmo a entrada de Fernando Nobre na corrida, está desactualizado. Mais de três meses volvidos, Alegre continua desesperadamente à espera do apoio de Sócrates e este teima furiosamente em fingir que Alegre não está ainda na corrida.  

BE aceso


oanonimoanonimo,

Parece que as coisas andam um bocadinho acesas no Bloco de Esquerda. Pelo menos no Porto. Causa imediata: o apoio à candidatura presidencial de Manuel Alegre, a quem muitos começam a apontar defeitos de percurso. Causas remotas: dizem que são mais que muitas. Previsível. O BE é um daqueles partidos que se incha mais um bocadinho, rebenta.

Receita antecipada para o desastre


Pedro Correia,

A candidatura de Manuel Alegre divide o PS? Pois claro que divide. E o melhor retrato desta divisão, eventualmente para surpresa de alguns, é-nos fornecido pelos dois autores do blogue Causa Nossa. Repare-se. Ana Gomes embandeira em arco com a corrida do poeta à presidência, em nome da unidade do partido (argumento verdadeiramente extraordinário, vindo de uma antiga apoiante da candidatura de Mário Soares em 2005-06), pelo simples facto de "estar já no terreno". E chega ao ponto de proclamar que o PS "não tem alternativa" senão secundar o Bloco de Esquerda no apoio a Alegre. Por sua vez, Vital Moreira aponta um dedo acusador ao poeta, considerando que este padece de "óbvio ‘gaullismo’ presidencial" – acusação gravíssima, partindo da esquerda socialista (recorde-se que François Mitterrand, figura de referência para o PS, foi adversário do general De Gaulle nas presidenciais francesas de 1965). "Se há cinco anos Alegre surgiu contra o candidato oficial do seu partido, capturando boa parte do seu eleitorado, desta vez antecipou-se, retirando espaço de manobra ao PS. Agora seria Sócrates a assumir a responsabilidade de fraccionar o partido e dividir o seu eleitorado. Quer isto dizer que o PS se deve pura e simplesmente render sem condições ao avanço unilateral ‘potestativo’ de Alegre? Não é crível que assim seja", conclui o ex-cabeça de lista do PS às europeias de 2009.

Está tudo dito sobre a fractura que a candidatura provoca nos socialistas. O melhor que o PS tem a fazer é lançar desde já um grande debate interno sobre as presidenciais. Para que aos erros lapidares cometidos há cinco anos, em matéria de estratégia presidencial, não se somem outros, que ainda podem ser evitados. Aguardar em silêncio pela decisão do homem providencial que há quase seis anos conduz os destinos do partido é a receita antecipada para o desastre. Depois não digam que não avisei.

Um notável trambolhão


Pedro Correia,

Se José Sócrates volta a dar ouvidos a conselhos deste género, como fez em 2005, arrisca outro enorme fracasso numas presidenciais. Como se não lhe tivesse bastado o fiasco encabeçado por Mário Soares, que o forçou a surgir na galeria dos derrotados em Janeiro de 2006…

Diz-se, à laia de argumento, que "cadelas apressadas parem cachorrinhos cegos". O lançamento da candidatura de Jorge Sampaio em Fevereiro de 1995, a 11 meses do escrutínio presidencial, também terá parido "cachorrinhos cegos", para usar a elegantíssima terminologia do José Teles, que cruza política com zoologia a (des)propósito de Manuel Alegre?

Já agora, convém escolher melhor os exemplos quando se mencionam candidatos que baixaram imenso de umas eleições para outras. Se é verdade que Otelo Saraiva de Carvalho caiu de 792.760 votos (16,2%) nas presidenciais de 1976 para 85.896 (1,5%) nas presidenciais de 1980, é muito mais esmagadora a diferença obtida por Mário Soares entre os escrutínios de 1991 e de 2006: 3.459.521 (67,9%) no primeiro, 778.781 (14,34%) no segundo – abaixo do "folclórico" Otelo de 1976. Um notável trambolhão do qual ainda não se refez por completo. Nem muitos dos seus apoiantes.

Contra a lógica das ditaduras


Pedro Correia,

 

Em 4 de Março, escrevi aqui o seguinte: "Alguém imagina Alegre a fazer campanha de braço dado com Sócrates depois de uma legislatura em que o PS renunciou a boa parte da sua identidade, ao prosseguir o programa de privatizações de empresas públicas, impor um código laboral rejeitado pela esmagadora maioria dos trabalhadores e pôr em prática uma ‘reforma’ da segurança social que promete penalizar ainda mais o poder de compra dos reformados?" Em 8 de Maio, desenvolvi a ideia anterior, antecipando a posição hoje divulgada pelo histórico socialista: "A desvinculação – não desfiliação – do poeta deste PS capitaneado por José Sócrates, recusando um lugar nas listas eleitorais, dá uma acrescida caução moral aos habituais eleitores socialistas que se sentem tentados a mudar de voto. É um drama? Só para a actual direcção rosa. O País não se torna ingovernável por causa disso. É a vida, como diria um destacado socialista. Habituem-se, como diria outro."

Agora confirmou-se: Alegre mantém-se no PS – que já era o partido dele quando José Sócrates militava com Paulo Portas na JSD. Não construirá um novo partido, mas também não aceita figurar nas listas eleitorais socialistas. Ao contrário do que alguns afirmam, nada há de incoerente neste percurso, aliás bem fácil de antever, como demonstrei atrás. Alegre está convencido de que o balanço da governação socialista é negativo, tanto em termos sociais como económicos, e por isso Sócrates não merece nova maioria absoluta. Isso não implica que devolva o cartão de militante. Foi, aliás, o que fizeram em 2004 e 2005 alguns ilustres sociais-democratas que recusaram colaborar com Santana Lopes – incluindo a actual presidente do PSD. Ninguém é obrigado a escolher entre o partido e o líder: essa é a lógica das ditaduras. E tanto quanto sei ainda vivemos em democracia.

Cane Come Noi


Pedro Correia,

Nas últimas semanas, Augusto Santos Silva tem-se desdobrado em entrevistas e declarações: raras vezes me lembro de um ministro com uma presença tão assídua nas televisões, rádios e jornais. Mas os resultados não são brilhantes – longe disso. Aqui, obsequioso, dizia que Manuel Alegre era bem vindo ao congresso socialista. Aqui, castigador, sugeria que Alegre devia sair das listas dos deputados. Aqui, de novo obsequioso, voltava a afirmar que o PS tinha todo o gosto em incluir o poeta nos seus candidatos ao Parlamento. Há quem diga que Santos Silva é um dos ideólogos do Executivo socialista. Se o ‘ideólogo’ anda nesta maré de contradições, imagine-se como não andarão todos os outros. Tudo por causa de Manuela Ferreira Leite? Nem por sombras. Tudo por causa de Alegre, o verdadeiro líder da oposição, como aqui escrevi em Junho de 2008. Agora é António Costa, o número 2 do PS, a sugerir que a solução para uma próxima maioria governativa passa por uma espécie de ‘coligação’ entre o partido e Alegre. Admitindo implicitamente que este é já uma entidade exterior ao PS.

Confusos? Isto ainda não é nada: esperem pela próxima entrevista de Santos Silva. Entretanto Alegre tem mais em que pensar: o seu excelente livro Cão Como Nós acaba de ser lançado em Itália numa sessão com sala cheia que registou a presença do autor.

O caminho de Alegre


oanonimoanonimo,

Também acho que foi deslocada a forma como José Lello se referiu ao carácter de Manuel Alegre. E também acho que Almeida Santos, ao criar a dicotomia "nós" e "ele", denota que o PS já não considera Alegre um dos seus. E também me parece evidente que nada disto teria sido dito se não tivessem o beneplácito do chefe supremo. Mas também acho que a posição que Alegre vem assumindo começa a tornar-se intolerável.

Manuel Alegre não pode estar e não estar no PS conforme lhe dá jeito ou não. Não pode usufruir da vantagem de ser um "histórico" do PS e andar de braço dado com o Bloco de Esquerda, que parece ser o principal adversário do seu partido. Não pode andar a fustigar permanentemente o PS e deixar de ir debater o PS ao congresso ou noutros fóruns do seu partido.

Lendo o Expresso deste fim de semana, vê-se que é o próprio Alegre quem admite que está a esticar a corda até ao limite. A táctica ate pode ser boa, se Manuel Alegre pretende ser candidato presidencial com o apoio de toda a esquerda. Mas, confesso, que tanto tacticismo já me está a criar urticária. Se Alegre é mesmo um caso de gente séria que está a tentar refundar a esquerda à sua imagem, então está na hora de ser consequente e fazer o seu caminho â margem do PS. Ou corre o risco de se tornar igual aos que critica.

Tristes críticas a Alegre


Pedro Correia,

No PS, a coisa já não se faz por menos: as divergências de opinião transformaram-se em falhas de carácter. José Lello, o poderoso membro do Secretariado que tem a tutela directa da gestão do partido – e que nunca falaria desta maneira sem o acordo prévio de José Sócrates – acaba de dar o mote. Utilizando a argumentação errada para contestar Alegre: se há defeito que o autor da Praça da Canção não tem é falta de carácter. Isso mesmo, aliás, ficou evidente nas últimas presidenciais, em que enfrentou com sucesso a candidatura oficial do partido para honrar um compromisso anteriormente assumido. Nessa altura, alguns que agora se queixam da "falta de solidariedade" de Alegre, como o líder federativo do Porto, Renato Sampaio, não estranharam a falta de solidariedade que o partido lhe manifestou.

Alegre, ao contrário de muitos socialistas que só surgem nos telejornais para dizer ámen ao chefe, tem currículo e biografia. Ainda José Sócrates andava na JSD, ao lado de Paulo Portas, e já ele travara muitos combates difíceis, antes e depois do 25 de Abril. Basta lembrar o modo como virou o primeiro congresso do PS, a favor de Mário Soares, num momento crucial da vida portuguesa.

Por tudo isto, são ainda mais para lamentar as palavras de Lello. E também foram infelizes as declarações de Almeida Santos, hoje no largo do Rato: "Ele [Alegre] tem direito às suas opiniões, nós temos direito às nossas." Está criada oficialmente a fractura, por sentença do presidente do PS: o histórico socialista é um dissidente, voz solitária que se distingue do corpo partidário. Ele de um lado, nós do outro. Ao contrário do que Almeida Santos supõe, há no entanto muitos eleitores socialistas que pensam como Alegre. E que se revêem, hoje mais que nunca, nas palavras desencantadas do poeta. Sócrates jamais revalidará a maioria absoluta sem estes eleitores.

 

Ler também:

– Manuel Alegre e José Lello. De Bruno Pires, no Corta-Fitas

O PS de Sócrates e o PS de Alegre


Pedro Correia,

Voltei a ouvir ontem, num debate televisivo, a habitual polémica em torno da hipótese de Manuel Alegre se "desvincular" do PS, não faltando – como sempre – quem garanta a pés juntos que isso jamais acontecerá. É uma falsa questão. Não vale a pena especular sobre a possível "desvinculação" de Alegre porque ela já aconteceu, mas nos termos inversos aos que geralmente são invocados por certos analistas políticos: não foi o histórico dirigente socialista que se afastou do partido – foi o PS que se "desvinculou" da sua matriz ideológica e programática, transformando-se primeiro com António Guterres num partido social-cristão, vocacionado para o assistencialismo, e já com José Sócrates num partido social-liberal, que prosseguiu, aprofundando-as, muitas linhas orientadoras do interregno PSD-CDS. Refiro-me, por exemplo, à "obsessão pelo défice" (longe de estar controlado), à subida de impostos (contrariando sucessivas promessas eleitorais) e à falta de consulta aos portugueses em matéria europeia (também à revelia das promessas).

Alguém imagina Alegre a fazer campanha de braço dado com Sócrates depois de uma legislatura em que o PS renunciou a boa parte da sua identidade, ao prosseguir o programa de privatizações de empresas públicas, impor um código laboral rejeitado pela esmagadora maioria dos trabalhadores e pôr em prática uma "reforma" da segurança social que promete penalizar ainda mais o poder de compra dos reformados?

Manuel Alegre jamais se desvinculará do PS histórico. O problema é que esse PS deixou de existir. O partido de José Sócrates já não é o partido que Mário Soares, Salgado Zenha e Manuel Alegre edificaram nos anos pioneiros da democracia portuguesa, entre 1974 e 1976.

 

Foto: José Carlos Carvalho