O PS de Sócrates e o PS de Alegre


Pedro Correia,

Voltei a ouvir ontem, num debate televisivo, a habitual polémica em torno da hipótese de Manuel Alegre se "desvincular" do PS, não faltando – como sempre – quem garanta a pés juntos que isso jamais acontecerá. É uma falsa questão. Não vale a pena especular sobre a possível "desvinculação" de Alegre porque ela já aconteceu, mas nos termos inversos aos que geralmente são invocados por certos analistas políticos: não foi o histórico dirigente socialista que se afastou do partido – foi o PS que se "desvinculou" da sua matriz ideológica e programática, transformando-se primeiro com António Guterres num partido social-cristão, vocacionado para o assistencialismo, e já com José Sócrates num partido social-liberal, que prosseguiu, aprofundando-as, muitas linhas orientadoras do interregno PSD-CDS. Refiro-me, por exemplo, à "obsessão pelo défice" (longe de estar controlado), à subida de impostos (contrariando sucessivas promessas eleitorais) e à falta de consulta aos portugueses em matéria europeia (também à revelia das promessas).

Alguém imagina Alegre a fazer campanha de braço dado com Sócrates depois de uma legislatura em que o PS renunciou a boa parte da sua identidade, ao prosseguir o programa de privatizações de empresas públicas, impor um código laboral rejeitado pela esmagadora maioria dos trabalhadores e pôr em prática uma "reforma" da segurança social que promete penalizar ainda mais o poder de compra dos reformados?

Manuel Alegre jamais se desvinculará do PS histórico. O problema é que esse PS deixou de existir. O partido de José Sócrates já não é o partido que Mário Soares, Salgado Zenha e Manuel Alegre edificaram nos anos pioneiros da democracia portuguesa, entre 1974 e 1976.

 

Foto: José Carlos Carvalho

23 comentários em “O PS de Sócrates e o PS de Alegre”

  1. Excelente análise, compadre. É como os roubos do velho Arsène Lupin antes de retirados do local do crime: estão ‘escondidos’ tão à vista… que ninguém os vê!

    1. Ena, compadre, do que te lembraste agora! Arsène Lupin. Os livros dele também têm direito a menção nas nossas “velharias gostosas”. Nunca mais vi nenhum deles editado por aí.

  2. Aqui está uma análise ao PS actual com que concordo a 100% .
    Nem o PS é o mesmo nem os militantes o são vejam o modo como tratam Mário Soares e Manuel Alegre.
    Esta vaga de militantes socialistas são descontentes do
    PPD /PSD coma mesma matriz e sede de mordomias e probendas.
    Os meus parabéns ao Sr. Pedro Correia

  3. Caro Pedro Correia:

    Como sempre uma análise certeira e na mouche, parabéns, continue.
    Pobre país que tem de aguentar esta camarilha mais uns meses e esses poderão ser fatais para todos nós não para eles que se estão a safar e bem. Tristeza.

    Carlos Dias Ferreira

    1. Este último relatório da OCDE diz tudo sobre as «medidas de esquerda» deste Governo… Melhor mesmo é tratarmos de arranjar uns PPR para não termos de mendigar na idade da reforma.

      1. Mas nesse caso, onde está a justiça de tudo isto? Hoje o meu chefe desconta proporcionalmente o mesmo que eu, ou seja tem o mesmo esforço fiscal, ele vai ter a reforma quase por inteiro e eu tenho ainda que pagar um PPR .

        É como se eu estivesse condenado a uma carga fiscal superior para obter o mesmo direito (que ele tem como adquirido ) à mesma reforma.

  4. O desprezo silencioso
    pelos males da sociedade,
    revela um Sócrates pouco cioso
    e de suspeitável moralidade.

    Um político sofrível
    e de moral narcisista,
    espelha uma ideologia horrível
    defendida pelo Partido Socialista.

    O chinfrim é só fumaça
    com estes “socialistas” no poder,
    o mexilhão tem ficado sem massa
    e com a confiança a ceder!

  5. Nem o PSD é o partido de Sá Carneiro e Emídio Guerreiro, ou o PP é o CDS de Amaro da Costa e Freitas e o BE está no caminho de se tornar mais um cinzento partido politico do establishment. Fundamos as análises nos protagonistas, as ideias cada vez importam menos, não morreram as ideologias sepultadas com o fim da guerra fria?
    Ressuscite-se o gosto pelo confronto de ideias, respeite-se a divergência, por mais acutilantes que sejam os argumentos, e encontraremos um caminho, um caminho que não trilhe as mesmas veredas que nos trouxeram até aqui, sob pena de, daqui a uns anos, depois de uma viagem em circulo, aqui nos encontrarmos novamente. Nesse dia, ninguém se lembrará já de lideres menores, chamem-se J. Sócrates, M. Ferr. Leite, P. Portas ou F. Louçã.

  6. “O partido de José Sócrates já não é o partido que Mário Soares, Salgado Zenha e Manuel Alegre edificaram nos anos pioneiros da democracia portuguesa, entre 1974 e 1976.”

    Hum… A fundação foi antes disso… Salvo o erro um ano antes …

    1. Sei bem quando o PS foi fundado. Não falei em fundação, propositadamente. Escrevi «edificaram» que é coisa bem diferente. O PS, enquanto partido capaz de mobilizar multidões de apoiantes, não nasceu numa sala de reuniões da Alemanha: nasceu nas ruas, em Portugal, em 1974 e 1975.

  7. O PS é um partido de esquerda!. Age e reage á medida das suas conveniências momentâneas. Constantemente travestido de uma coisa ou outra, mas sempre com aquela arrogância moral típica da esquerda. Está a governar mal e isso acontece não como muitos gostam de dizer por ter virado à direita nas suas políticas. Acontece, porque as coisas são como são, e para o PS sempre foi assim…Que façam bom proveito da sua doutrina e cada um engula o que quiser, mas o PS é esquerda!!

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