Um notável trambolhão


Pedro Correia,

Se José Sócrates volta a dar ouvidos a conselhos deste género, como fez em 2005, arrisca outro enorme fracasso numas presidenciais. Como se não lhe tivesse bastado o fiasco encabeçado por Mário Soares, que o forçou a surgir na galeria dos derrotados em Janeiro de 2006…

Diz-se, à laia de argumento, que "cadelas apressadas parem cachorrinhos cegos". O lançamento da candidatura de Jorge Sampaio em Fevereiro de 1995, a 11 meses do escrutínio presidencial, também terá parido "cachorrinhos cegos", para usar a elegantíssima terminologia do José Teles, que cruza política com zoologia a (des)propósito de Manuel Alegre?

Já agora, convém escolher melhor os exemplos quando se mencionam candidatos que baixaram imenso de umas eleições para outras. Se é verdade que Otelo Saraiva de Carvalho caiu de 792.760 votos (16,2%) nas presidenciais de 1976 para 85.896 (1,5%) nas presidenciais de 1980, é muito mais esmagadora a diferença obtida por Mário Soares entre os escrutínios de 1991 e de 2006: 3.459.521 (67,9%) no primeiro, 778.781 (14,34%) no segundo – abaixo do "folclórico" Otelo de 1976. Um notável trambolhão do qual ainda não se refez por completo. Nem muitos dos seus apoiantes.

6 comentários em “Um notável trambolhão”

  1. «muito mais esmagadora a diferença obtida por Mário Soares entre os escrutínios de 1991 e de 2006: 3.459.521 (67,9%) no primeiro, 778.781 (14,34%) no segundo»

    A comparação com a eleição de 1991 é enganadora. Seria melhor comparar com a primeira volta de 1986, em que teve 1 443 683. Mesmo assim, passa para metade. Mas é uma comparação mais justa, porque em 1986 havia mais dois candidatos à esquerda (em 2006 havia três) e o PSD apoiava o candidato da direita, o que não aconteceu em 1991.

    1. Meu caro, devemos comparar as eleições que estão cronologicamente mais próximas, não as que estão mais distantes. No caso de Soares, como diria La Palisse, a eleição mais próxima de 2006 foi a de 1991. Os números falam por si.

      1. Pedro Correia,
        a eleição de 1991 foi um caso muito excepcional: foi a única eleição presidencial em toda a duração do regime democrático em que um dos dois maiores partidos (no caso, o PSD, que na altura era até o maior partido) não apoiou um candidato. Por isso me parece mais correcto comparar com a primeira volta da eleição de 1986.

        Mas quer comparar eleições em circunstâncias totalmente diferentes, com certeza. O espaço é seu. Só fiz um pequeno reparo.

        1. Cada eleição tem uma história diferente, Ricardo. As de 1976 e de 1980 também são de algum modo incomparáveis, o que, não explicando nada, ajuda a perceber por que motivo Otelo teve votações tão díspares. Mas continuo na minha: nenhum político teve votações com uma margem tão vasta como Mário Soares.
          Este espaço também é dos leitores, meu caro, e não faz sentido sem vocês. Vá aparecendo por cá.

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