Debate Defensor Moura-Manuel Alegre
O que levou Defensor Moura a candidatar-se à Presidência da República? O ex-presidente da câmara de Viana do Castelo, hoje deputado do PS, perdeu esta noite uma excelente oportunidade de esclarecer os portugueses sobre tão enigmática questão. Num frente-a-frente com Manuel Alegre na RTP, o médico minhoto revelou-se uma figura afável mas inócua. Quer “regionalizar” o País – uma bandeira que talvez lhe valha uns votos a norte do Douro – e lutar contra a “corrupção e o clientelismo”, que define como os dois “maiores cancros nacionais”. Há largos milhares de pessoas que pensam o mesmo sem lhes passar pela cabeça concorrer a Belém.
Manuel Alegre, sem um verdadeiro adversário pela frente, tratou com amabilidade e sem sobranceria o seu camarada de partido, o que lhe ficou bem mas só reforçou a ideia de que não estávamos perante um debate a sério. Foi quando muito, nesta noite tão fria, um debate de aquecimento para outros confrontos. Alegre e Defensor mostraram-se em sintonia nas críticas ao actual Presidente da República, nos reparos quase cavalheirescos às anunciadas alterações do Governo à lei dos despedimentos e na necessidade imperiosa de o País bater o pé aos mercados financeiros. Cavaco Silva, naturalmente, foi quase em exclusivo o foco das críticas, mas não terá chegado a ficar com as orelhas a arder. “O Presidente da República já devia ter dado uma palavra sobre esta pressão que está a ser exercida sobre Portugal”, declarou Alegre, sem se esquecer de citar o nome de Mário Soares. “O Chefe do Estado deve ser cúmplice do Governo nesta resistência ao exterior”, disse Defensor, quase em coro.
Este frente-a-frente (que melhor deveria ser classificado de lado-a-lado) permitiu perceber qual será o mote dominante do poeta na sua segunda tentativa de vencer umas presidenciais: Alegre vai apelar até que a voz lhe doa à defesa intransigente do “Estado social”, sem tolerar alterações ao Serviço Nacional de Saúde e à escola pública.
Talvez o momento mais interessante deste debate que Judite Sousa mal necessitou de moderar foi aquele em que o candidato apoiado pelo PS e pelo Bloco de Esquerda vaticinou a provável vitória eleitoral do PSD nas próximas eleições: “Pode muito bem acontecer que haja outro ciclo político nas legislativas.”
Sócrates certamente não gostou.
Vencedor: Manuel Alegre
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Frases do debate:
Defensor – Neste momento Manuel Alegre é mais conhecido que eu.
Alegre – O que seria, num país como o nosso, se as pessoas tivessem de pagar para ir à escola?
Defensor – Sou um deputado que tem massa cinzenta dentro da sua cabeça.
Alegre – É espantoso como não há uma rebelião do Estado democrático contra o capital financeiro.
Defensor – Os dois cancros da democracia portuguesa são a corrupção e o clientelismo. Aliados ao centralismo, são a asfixia total das potencialidades dos portugueses.
Alegre – Os défices da pobreza e da desigualdade são défices terríveis no nosso país.
Defensor – Cavaco Silva devia ter pressionado o Governo e a oposição para um acordo estável.
Alegre – A função do Presidente da República é uma função de mediação política e mediação social. O actual Presidente da República falhou nestas mediações.
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A ‘gaffe’:
“O que conquistar mais votos é que irá à segunda volta [com Cavaco]. Boa sorte para ele. E boa sorte para mim.”
Defensor Moura



Só faltou um começar uma frase e o outro acabar.
É verdade, Daniel. Excelente síntese.
Alegre dentro da sua sobranceria ” a mim ninguém me cala” ( votei contra todas as revisões constitucionais) deixou o “plebeu” Defensor discorrer a “velha” retórica do “mainstream” político (mais a regionalização): estado social/estado social/estado social.
Defensor fez jus ao apelido: jogou à defesa. Só. Militante do PS, deputado socialista, lançou-se na campanha presidencial alegadamente por discordar da candidatura presidencial do partido. Mas não disse uma frase neste debate em que se demarcasse de Manuel Alegre. Então corre para quê?
Anedótico.
Dois candidatos ligados ao partido que está no Governo, um dos quais oficialmente apoiado por esse mesmo partido, que têm que refrear os seus comentários para não embaraçar os seus camaradas de partido, e que se limitam a atacar um outro candidato.
Qual é o interesse em transmitir em directo esta conversa de café entre amigos?
Qual o critério jornalístico que fundamenta tal decisão?
Confesso que não entendo.
Caro Pedro: pela minha parte, continuo por entender o motivo que levou o ex-presidente da câmara de Viana a concorrer à presidência. Depois deste «debate» fiquei sem qualquer dúvida de que ele acabará por votar Manuel Alegre.
Já agora achei curioso a lei permitir,aparentemente, debates televisivos entre candidatos presidenciais que ainda não tinham as candidaturas formalizadas.Aconteceu com Fernando Nobre,candidato oficial só desde ontem,salvo erro,com debate televisivo ocorrido já há dias “contra” o camarada Xico.
Excelente observação.