Os filmes da minha vida (33)


Pedro Correia,

 

Não há sucesso como o fracasso

 

Alguns actores são assim: atingem um estatuto de primeira grandeza, andam uns anos aclamados por um vasto público, são idolatrados e invejados em proporções quase iguais até que um dia sentem na pele que não existe nada mais ilusório do que o efémero mundo da fama. Nesse dia, trocam a vida de fingimento pela vida real e deixam de ser confundidos com as suas personagens mais célebres.

Aconteceu isso com Farley Granger. No auge do sucesso como actor em Hollywood, quando era uma celebridade, reconhecida em qualquer parcela do globo, abandonou os estúdios de cinema, trocando o brilho ofuscante dos holofotes pela singeleza dos palcos teatrais. Rumou à Europa, viveu uns anos em Itália, fez ocasionais trabalhos em televisão, o seu nome foi-se diluindo na memória cinéfila, outros astros do celulóide ocuparam o seu lugar: o espectáculo cinematográfico, tal como a política, tem horror ao vácuo.

Quando morreu há poucos dias, com 85 anos, poucos se lembravam dele. E no entanto algumas obras-primas do cinema ficarão eternamente ligadas a este actor contratado aos 18 anos pelo produtor Samuel Goldwyn para integrar o elenco de um filme de guerra, North Star, realizado em 1943 por Lewis Milestone com argumento de Lillian Hellman. Em qualquer destes filmes Farley Granger – sempre com um rasto de inquietude no rosto – compõe personagens atormentadas pela duplicidade moral. O estudante capaz de assassinar sem motivo (A Corda, de Alfred Hitchcock, 1948), o jovem delinquente em fuga pelas estradas do sul da América (Os Filhos da Noite, a obra de estreia de Nicholas Ray, 1949), o ás do ténis disposto a matar o pai de alguém que não conhece (O Desconhecido do Norte-Expresso, também de Hitchcock, com base no primeiro romance de Patricia Highsmith, 1951), o oficial austríaco que despreza a aristocrata italiana apaixonada por ele (Sentimento, de Luchino Visconti, 1954), o milionário incapaz de entender que uma corista prefira o amor de outro à sua fortuna (A Rapariga do Baloiço Vermelho, de Richard Fleischer, 1955).

Todas estas personagens são apanhadas nas caprichosas teias do destino. Pressentimos, em qualquer dos casos, que poderiam ter uma sorte bem diferente. Mas em todos estes títulos clássicos do cinema Farley Granger ajuda a tornar mais credível a tese de que não basta ser rico ou talentoso ou fotogénico para se ser feliz.

Foi assim no cinema, foi assim na vida. Retirado dos ecrãs, regressou em aparições esporádicas. Cada vez mais espaçadas, cada vez mais desconcertantes – como em Trinità, Cowboy Insolente (1970). Depois de Hitchcock e Visconti, o western-spaghetti.

“Não há sucesso como o fracasso”, ensinou-nos Bob Dylan. O percurso de certos actores bafejados muito cedo pela fama parece dar razão ao criador de Simply Twist of Fate. Depois de conseguirem ser célebres quase sem esforço aparente, buscam incansavelmente o outro lado do espelho. Assim fez Farley Granger.

 

Imagem: Farley Granger com Alida Valli em Sentimento, de Luchino Visconti (1954)

Os filmes da minha vida (32)


Pedro Correia,

 

ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE MORRESTE:

TODAS AS APARÊNCIAS ILUDEM

 

À primeira vista, surge-nos como um thriller original, que decompõe as regras da cronologia, rodado em tons escuros e frios, acentuando as características formais de filme negro. Mas é, essencialmente, uma espantosa longa-metragem que nos fala da vertiginosa erosão dos valores morais no mundo contemporâneo, da progressiva dissolução dos laços familiares, que nenhuma engenharia social substitui, e nos mostra um mundo onde só o dinheiro conta – o mundo em que estamos mergulhados até à medula neste início de milénio que nada teve de redentor.

Neste filme em que não há bons, o menos mau é afinal o que no princípio nos parece pior, confirmando uma elementar regra do cinema (e da vida): as aparências iludem. A diluição da cronologia faz aqui sentido – para vincar que somos prisioneiros do passado e que este por sua vez condiciona as nossas acções futuras.

Tudo servido por um quarteto de magníficas interpretações – do melhor que tenho visto de há muito – sob a direcção do mais veterano cineasta ainda no activo em Hollywood: mestre Sidney Lumet, com 84 anos de vida e acima de meio século de carreira. Estreou-se no cinema em 1957, com o fabuloso Doze Homens em Fúria, e continua a difundir arte de filme em filme com uma vitalidade que raras vezes vemos hoje em realizadores com idade para serem seus netos. O que é um motivo acrescido para merecer um caloroso e prolongado aplauso.

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Antes que o Diabo Saiba que Morreste (Before the Devil Knows You’re Dead, 2007). Realizador: Sidney Lumet. Principais intérpretes: Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Marisa Tomei e Albert Finney.

 

Publicado aqui e reeditado como homenagem a Sidney Lumet, um mestre do cinema que ontem nos deixou 

Liz Taylor


Ana Vidal,

Para mim, um bom filme tem de ter, acima de tudo, uma boa história. Imediatamente a seguir, uma boa representação. E só depois, tudo o resto: realização, fotografia, som, cenários, figurinos, etc. Os aspectos técnicos de um filme não me prendem muito nem me empolgam, provavelmente porque não percebo o suficiente do assunto para que isso aconteça. Digamos que só reparo neles quando são excepcionalmente bons ou ostensivamente maus, o que já diz tudo sobre a minha capacidade crítica. Dêem-me um bom argumento, defendido por bons actores, e está garantida a minha paixão.

 

Quem tem medo de Virgínia Woolf? é um bom exemplo disso, e talvez por isso o elejo como um dos “filmes da minha vida”. Está entre o Teatro e o Cinema, ou não fosse este argumento uma obra prima de Edward Albee, um dos grandes dramaturgos americanos e mestre em tramas de labirintos psicológicos. E é esse despojamento de artifícios o que mais me apaixona no filme, porque, dispensando aparentemente tudo o que é acessório, não nos deixa escapatória ao colete de forças em que se vai transformando, a cada minuto que passa. E no entanto, o filme foi nomeado para TODOS os Oscares do ano em que concorreu (1967), façanha ainda hoje única na história do cinema. Das 13 nomeações ganhou 5, nas seguintes categorias: Melhor Actriz (Elizabeth Taylor); Melhor Actriz Secundária (Sandy Dennis); Melhor Direcção de Arte – Preto e Branco; Melhor Fotografia – Preto e Branco e Melhor Figurino – Preto e Branco. As outras 8 nomeações: Melhor Filme; Melhor Realizador; Melhor Actor; (Richard Burton); Melhor Actor Secundário (George Segal); Melhor Montagem; Melhor Banda Sonora; Melhor Argumento Adaptado e Melhor Som.


Albee convida-nos – ou obriga-nos, melhor dizendo – a um perturbante mergulho no abismo da intimidade de um casal maduro, desgastado e em queda livre. O meio intelectual a que pertencem não serve de bálsamo, mas antes de agravante, aos argumentos de ambos, sofisticadamente ácidos e letais. É uma luta de galos condenada a um desfecho trágico, por entre jogos de sedução e perversidade próprios de quem se conhece profundamente e se compraz numa auto-destruição lenta, torturante, sádica e falseada até à exaustão. A parada é alta, muito alta. O confronto é generosamente regado a álcool, tornando ainda mais terríveis as acusações, ainda mais expostas as fracturas, ainda mais patéticas as fragilidades, ainda mais desesperadas as tentativas de salvação. Somos arrastados para um sorvedouro de emoções que nos tira o ar dos pulmões, impotentes voyeurs diante de um espectáculo íntimo em que nos sentimos simultaneamente intrusos e cúmplices. Cúmplices de Martha e de George, à vez, ou de ambos, por percebermos que o cimento que une um casal nem sempre é feito de nobreza ou de beleza, mas não deixa por isso de ser cimento. E também cúmplices dos atónitos e manipuladíssimos Honey e Nick, dois jovens a quem as ilusões de um eterno romantismo conjugal são arrancadas de uma só vez e a sangue frio, pelo aterrador espelho de um possível (provável?) futuro. Uma simples e inocente visita de cortesia, após uma festa, transformada num pesadelo que os marcará para o resto da vida.

 

Quem tem medo de Virgínia Woolf? é o esplendor e a miséria da condição humana vista à lupa, à nossa disposição durante uma hora e meia. E nada nos perturba mais do que aquilo que nos serve de espelho. Nas palavras do próprio Edward Albee, “o Teatro do Absurdo serve para que possamos mergulhar um pouco mais nas nossas próprias loucuras e deixar de ver as dos outros com tanta supresa”.

 

 

Bette Davis e James Stewart (e também James Mason, ao que consta) chegaram a estar indicados para encarnar este casal psicótico, mas a escolha final da arrasadora dupla Taylor-Burton – casados na vida real por duas vezes e protagonistas de guerras e reconciliações antológicas – confere ao filme um misticismo especial e uma insubstituível chancela de realidade. A bela Elisabeth Taylor deixou-se engordar e desfigurou-se para melhor servir esta personagem devastada pela vida e pelo álcool, o que lhe valeu, além do Óscar, o respeito de quem não a considerava como actriz. Richard Burton, por excelência um homem do Teatro, está magistral no papel do frustrado George. E também os novos – Sandy Dennis e George Segal – parecem ter nascido para aqueles papeis. A tensão do texto foi de tal ordem que Sandy Dennis, grávida de poucos meses no início das filmagens, abortou espontaneamente.

 

Finalmente, last but not the least, o realizador: na sua primeira obra, Mike Nichols assina uma verdadeira peça de arte. E estava inspirado, já que logo no ano seguinte realizou outra – The Graduate – outro dos filmes da minha vida.

 

Nota: Republico hoje este post em memória de Liz Taylor.

Os filmes da minha vida (31)


Pedro Correia,

 

Sydney Pollack: regresso aos clássicos

 

Por muito que isso hoje nos pareça quase impossível, nesta era em que se veneram os efeitos especiais por computador, houve uma geração de cineastas que acreditou profundamente no trabalho dos actores e valorizou ao máximo a arte da representação.

Foi a geração a que pertenceu Sydney Irwin Pollack (1934-2008).

Ele sabia bem o que era ser actor: os seus primeiros passos em Hollywood foram dados como intérprete de filmes e séries televisivas. Como aconteceu com Arthur Penn, Sidney Lumet, Clint Eastwood, Mike Nichols e Woody Allen, entre vários outros cineastas que começaram por ser actores.

No caso de Pollack, representar foi uma verdadeira escola: chegou até a subir às tábuas da Broadway, entre aplausos generalizados, em peças como A Stone for Danny Fisher (ao lado de Zero Mostel). Na televisão, ficou memorável o seu desempenho na adaptação de Por Quem os Sinos Dobram, de Ernest Hemingway (realizada em 1959 por John Frankenheimer). Já atrás das câmaras, ainda em televisão, ganhou experiência como realizador de episódios de Ben Casey, Alfred Hitchcock Hour e Bob Hope Presentes the Chrysler Theatre. Esta última série valeu-lhe um Emmy em 1996.

 

Na era da TV, sentia-se em Pollack a nostalgia da idade de ouro do cinema. Na linha dos cineastas clássicos, ele estava à vontade nos mais diversos géneros – do drama à comédia, do melodrama ao filme de acção. Em duas dezenas de longas-metragens, foi um dos cineastas que devolveram aos espectadores o prazer de olhar, associando entretenimento a obra de arte – lição dos pioneiros que fora esquecida por alguma da geração intermédia.

Contrariando também as tendências dominantes à época, os seus filmes foram veículos para o desempenho quase sempre brilhante da mais diversa gama de actores: ele sabia tirar o melhor partido de cada um. Começando por Robert Redford, que dirigiu em sete películas. Mas também Dustin Hoffman (Tootsie), Paul Newman (A Calúnia), Jane Fonda (Os Cavalos Também se Abatem), Barbra Streisand (O Nosso Amor de Ontem), Faye Dunaway (Os Três Dias do Condor) e Tom Cruise (A Firma).

 

O olhar de Pollack devolve-nos também a confiança na condição humana contra o cinismo dominante na nossa época. Era liberal na tradição americana: acreditava nas virtualidades do indivíduo e na capacidade de regeneração das instituições – também aqui seguindo a linhagem clássica de Hollywood.

Continuou a representar (vimo-lo no cinema, em filmes como Maridos e Mulheres, de Woody Allen, O Jogador, de Robert Altman, ou De Olhos Bem Fechados, de Stanley Kubrick, e até na televisão, em alguns episódios dos Sopranos) e destacou-se ainda como produtor (de muitos dos seus filmes, começando por Os Cavalos Também se Abatem, e também de películas como Os Fabulosos Irmãos Baker, O Talentoso Mr Ripley, Iris, O Americano Tranquilo, Cold Mountain ou Michael Clayton).

Hollywood tratou-o bem: nomeou-o três vezes para o Óscar – por Os Cavalos Também se Abatem (1969), Tootsie (1982) e África Minha (1985). Ganhou com este último: 11 nomeações, sete estatuetas (melhor filme, realização, argumento adaptado, fotografia, direcção artística, som e partitura original de John Barry).

 

“I haard a faaarm in Aaafreekar” – a frase de abertura tornou-se instantaneamente uma das mais famosas do cinema neste inesquecível melodrama inspirado na vida da escritora dinamarquesa Karen Blixen que Orson Welles e David Lean já haviam planeado transpor para a tela.

Alguma crítica torceu o nariz, aludindo ao excesso de sotaque de Meryl Streep e à ausência de sotaque de Robert Redford. Mas o público aderiu sem reservas. Pollack foi, de resto, um cineasta que sempre teve melhor relação com o público do que com a crítica: é a sina de muitos grandes autores.

O Nosso Amor de Ontem (The Way We Were (1973), outro melodrama, recebeu vaias de muitos críticos, mas os espectadores aplaudiram a inesperada química no ecrã entre Katie Morosky (Streisand) e Hubbell Gardiner (Redford).

Como se tinham rendido ao desempenho de Jane Fonda em Os Cavalos Também se Abatem – retrato impiedoso da América de grande depressão que acabou por ser o primeiro filme norte-americano exibido na TV soviética. E viriam a adorar Tootsie, genial comédia sobre a identidade sexual e a fama televisiva, com um Dustin Hoffman em estado de graça.

Tootsie era o nome que chamavam a Dustin em miúdo – e foi dele a ideia para baptizar a personagem e o filme, inicialmente intitulado Would I lie to you?

 

É curioso lembrar os dez filmes preferidos de Pollack: Casablanca (Michael Curtiz); O Mundo a seus Pés (Orson Welles), O Conformista (Bernardo Bertolucci); O Padrinho II (Francis Ford Coppola); A Grande Ilusão (Jean Renoir); O Leopardo (Luchino Visconti); Era uma vez na América (Sergio Leone); O Touro Enraivecido (Martin Scorsese); O Sétimo Selo (Ingmar Bergman) e O Crepúsculo dos Deuses (Billy Wilder).

Escolhas de um cineasta versátil que ainda em vida se tornou um clássico.

Os filmes da minha vida (30)


Pedro Correia,

 

 

INDOMÁVEL:

UM MUNDO COM BONS E MAUS

 

O cinema clássico ama as suas personagens acima de todas as coisas e considera uma virtude saber narrar uma boa história. Partindo destas premissas, os irmãos Ethan e Joel Coen são legítimos herdeiros da herança clássica de Hollywood, como acabam de comprovar num dos melhores westerns ali produzidos de há muitos anos a esta parte.

Indomável reúne todas as convenções do género e potencia-as numa realização eficaz, tecnicamente irrepreensível e servida por um magnífico elenco do qual se destacam Jeff Bridges naquele que é porventura o melhor papel da sua longa carreira e a estreante Hailee Steinfeld, ambos nomeados para os Óscares – ele como actor principal, ela como actriz secundária, num critério que não deixa de suscitar estranheza, pois o papel que aqui desempenha nada tem de secundário: ela é a figura central do filme e a única que o percorre do princípio ao fim.

 

Bridges, na sua problemática relação com os Óscares, acabou de ser vítima do próprio sucesso: depois de ter sido negligenciado durante quase quatro décadas pela Academia, recebeu enfim a estatueta há um ano, pelo seu papel como cantor em Crazy Heart, que nenhum distribuidor português quis exibir nas salas de cinema; esse prémio impediu-o, na prática, de ser galardoado agora com esta soberba recriação do marshall Rooster Cogburn que já havia sido interpretado por John Wayne no original True Grit (realizado em 1969 por Henry Hathaway e que em Portugal recebeu o título d’ A Velha Raposa).

Wayne, justificadamente, ganhou o Óscar – aliás, o único que alguma vez recebeu. Bridges, que não lhe fica atrás na interpretação do agente da lei com uma tendência demasiado óbvia para premir o gatilho, também merecia ter sido distinguido: esta actuação ficará para a história como uma das grandes interpretações do cinema norte-americano contemporâneo.

 

Os irmãos Coen, que já haviam revisitado com sucesso o cinema negro em títulos como Fargo (1996) e Queime Depois de Ler (2008), mostram-se aqui exímios na recriação do western. Nomeadamente na acentuação do contraste entre as minúsculas paixões humanas e a imensidão da natureza: nenhum género cinematográfico ama tanto as paisagens naturais como este. E também na expressão de uma ética muito própria: aqui não há ambiguidades morais – os bons são mesmo bons (nomeadamente a manejar armas) e os maus são mesmo maus. A uns espera-os a devida recompensa, a outros estão destinados merecidos castigos.

Nada de anacronismos históricos, nada de ceder à tentação de transportar para a oitava década do século XIX os conceitos e os valores em voga na primeira década do século XXI. Nada de glamour pós-moderno, nada de moralismos de pacotilha, nada de correcção política.

Bridges é um digno herdeiro de Wayne, os Coen inserem-se na linhagem de Ford. E há mesmo uma citação explícita d’ A Desaparecida na cena em que Rooster pega em Mattie Ross ao colo para a resgatar de todo o mal. Nenhum cinéfilo pode dissociar este momento daquele em que Ethan/Wayne recupera enfim Debbie/Natalie Wood, conduzindo-a a casa.

 

Esta é uma película que nos transporta a uma época de pioneiros e nos devolve as linhas divisórias entre o bem e o mal. Saímos do cinema com a convicção antecipada de que um dia regressaremos a ela, tocados de nostalgia.

Eis o maior elogio que se pode fazer a um filme: acabado de estrear, já é alvo de culto cinéfilo. De bem poucos hoje em dia se pode dizer o mesmo.

 

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Indomável (True Grit, 2010). Realizadores. Ethan Coen e Joel Coen. Principais intérpretes: Jeff Bridges, Matt Damon, Josh Brolin e Hailee Steinfeld.

Os filmes da minha vida (29)


Pedro Correia,

 

 A VERDADE 24 VEZES POR SEGUNDO

 

O cinema, ao longo da sua história já secular, foi sacudido por diversos momentos de viragem.

O primeiro desses momentos ocorreu na década de 10 do século XX, com a obra de David Wark Griffith, que estabeleceu as traves mestras da Sétima Arte em longas-metragens como em Intolerance e The Birth of a Nation. Seguiram-se, na década seguinte, três momentos-chave: a obra de Serguei Eisenstein – prodígio de narrativa visual, que fazia da montagem um poderoso instrumento de ficção; o expressionismo alemão, com Fritz Lang, que elevou de facto o cinema à categoria de arte; e o advento da fala, que tornaria o som para sempre inseparável da imagem.

Os anos 30 conheceram novos patamares de excelência no cinema, com o technicolor de E Tudo o Vento Levou e O Feiticeiro de Oz, além de registarem os primeiros passos na longa-metragem de animação, com Branca de Neve e os Sete Anões, de Walt Disney.

A década de 40 foi marcada não só por inovações formais mas também por inovações temáticas. No primeiro caso, nenhum filme foi tão longe como O Mundo a Seus Pés (Citizen Kane), de Orson Welles, e a sua originalíssima estrutura narrativa, cheia de saltos cronológicos, relatando ficção como se debitasse “jornais de actualidades” e pondo as personagens a falar em simultâneo, à revelia das técnicas teatrais. A revolução temática ocorreu sobretudo com o neo-realismo italiano numa Europa inundada pelas cinzas da guerra em que a câmara deambulava pelas ruas em busca de gente de carne e osso.

 

Parecia já ter sido tudo inventado.

Mas não. Vinha aí outro movimento destinado a transfigurar a Sétima Arte: a Nouvelle Vague, lançada em Paris, no final da década de 50. Nascera graças a um grupo de críticos da revista Cahiers du Cinéma. Eram jovens fartos do academismo formal das fitas francesas da altura e que se reviam nos mestres do cinema norte-americano, como Hawks, Hitchcock ou Fuller. Teorizaram um cinema ancorado à realidade e sem espartilhos formais. Queriam um cinema que rimasse com a vida.

«A câmara testemunha os factos, delineia-os, mas não explica, não conclui – não está manejada pelo escritor ou pelo pensador – é cinema.» É uma das melhores definições da Nouvelle Vague, no livro Um Filme é um Filme, do crítico brasileiro José Lino Grünewald, autor de inesquecíveis textos sobre uma arte que apaixonou intelectuais tão diversos como Jorge Luis Borges, Graham Greene ou Vinicius de Moraes.

Dois dos críticos dos Cahiers, Jean-Luc Godard e François Truffaut, estrearam-se em 1959 com obras que mudaram a maneira de fazer e ver cinema: O Acossado (À Bout de Souffle) e Os 400 Golpes (Les 400 Coups). Dois dos filmes mais imitados de todos os tempos. Ainda Grünewald: «A grande importância da Nouvelle Vague foi a de estabelecer uma dialéctica entre ficção e documentário – até então géneros separados, com suas prateleiras independentes de autores e obras.»

Godard disse o mesmo por outras palavras: «O cinema é a verdade 24 vezes por segundo.»

Já foi há mais de meio século. E parece que foi ontem. 

 

Imagem de cima: Jean-Pierre Léaud em Os 400 Golpes, de François Truffaut

Os filmes da minha vida (28)


Pedro Correia,

  

JANELA INDISCRETA:

TODOS SOMOS VOYEURS

 

Este é um filme sobre a incurável curiosidade do ser humano. Um filme em que o conceito de espaço impera sobre o conceito de tempo.

É um filme narrado de um ponto de vista subjectivo, em que a visão do espectador coincide quase sempre com a do protagonista. Um filme com unidade espacial, unidade temporal e unidade de acção: tudo se desenrola precisamente no mesmo décor, sem flashbacks, sem acontecimentos paralelos. Sabemos daquelas personagens que estão à nossa frente exactamente o mesmo que sabe o protagonista, L. B. Jeffries – soberba criação de James Stewart, no auge da sua longa carreira.

O que temos aqui? Uma larga janela que dá para um vulgar pátio de traseiras nova-iorquino. E o olhar treinado de Jeffries, repórter fotográfico de uma das principais revistas norte-americanas, calejado em cenários de guerra. Um homem habituado a fazer da mala de viagem a sua casa e a comer “coisas para as quais até temos nojo de olhar quando estão vivas.”

Não podia haver maior contraste entre o intrépido fotógrafo sem fronteiras e a sofisticada cronista mundana Lisa Fremont, com quem mantém um namoro intermitente. Ela está apaixonada por ele e sonha com o casamento. Ele, já há muito casado com a profissão, é um inimigo declarado e antecipado da rotina conjugal. O casamento, para ele, nada mais é do que “chegar a casa num dia quente e ouvir o barulho da máquina de lavar”, como confidencia à enfermeira Stella – aqui numa grande interpretação de Thelma Ritter, uma das mais fabulosas “secundárias” de sempre em Hollywood.

“Tornámo-nos numa raça de mirones”, sentencia Stella ao perceber como Jeffries, há sete semanas com uma perna imobilizada em gesso, está cada vez mais interessado em espiolhar a vizinhança. A escultora que gosta de tomar banhos de sol, a bailarina com uma intensa vida social, os jovens recém-casados que não abandonam o quarto, a solteirona viciada em álcool, o compositor que sofreu certamente um enorme desgosto, reflectido nas pautas de música. Em fundo, escuta-se a canção To see you is to love you. Nada aqui sucede por acaso.

E há ainda aquele misterioso vendedor ambulante de jóias, casado com uma mulher inválida. O que se esconde detrás daqueles estores misteriosamente cerrados numa noite tão quente em Greenwich Village? Terá ele cometido um homicídio? Jeffries, cada vez mais envolvido na vida dos outros, cada vez mais esquecido da sua, recorre ao binóculo e até a uma potente câmara fotográfica dotada de tele-objectiva – esse “buraco de fechadura portátil”, como lhe chama a desdenhosa Stella.

O prodígio de Alfred Hitchcock nesta sua obra-prima – que a miopia da Academia de Hollywood deixou à margem das nomeações para o Óscar – é transformar quase toda a acção física em mera acção visual num dos filmes mais “invisíveis” de que há memória (suprema ironia: por questões relacionadas com direitos autorais, Rear Window permaneceu 30 anos longe dos olhares dos espectadores). Somos o que vemos – e aqui somos todos voyeurs. Jeffries e nós, cada um dos espectadores. E também Stella e Lisa e até Tom Doyle, o céptico inspector de polícia. “Fazemos muitas coisas em privado que não expomos em público”, diz ao amigo fotógrafo, com aquela filosofia prática de quem não se deixa iludir pelas aparências.

O mais espantoso, neste filme, é que Hitchcock inverte com sucesso o axioma: aqui nenhuma aparência ilude e apenas o que vemos se torna verdadeiro. A propósito, é espantosa a evolução visual de Lisa Fremont (Grace Kelly), essa mulher “demasiado perfeita”, na definição inicial do seu indeciso namorado. Quando ela surge no ecrã, vão decorridos 16 minutos de filme, estamos perante uma das mais deslumbrantes aparições alguma vez ocorridas na Sétima Arte: só vendo se acredita. Mas o guarda-roupa dela e até o penteado vão perdendo requinte e aproximando-se do modelo de mulher aventureira e sem glamour que Jeffries idealiza como seu duplo e como seu par. É uma armadilha destinada a caçar o calejado caçador, como bem nos apercebemos na cena final, carregada de ironia hitchcockiana na sua óbvia metáfora da conjugalidade: ele adormecido, mais imóvel que nunca; ela com o glamour recuperado, trocando a leitura da revista dele pela revista dela.

Cerra-se a cortina, acentua-se o efeito de claustrofobia. Só não escutamos – mas bem podíamos – o ruído de uma máquina de lavar.

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Janela Indiscreta (Rear Window, 1954). Realizador: Alfred Hitchcock. Principais intérpretes: James Stewart, Grace Kelly, Wendell Corey, Thelma Ritter, Raymond Burr.

Os filmes da minha vida (25)


Pedro Correia,

All that Roy
Alguns actores acompanham-nos em períodos decisivos das nossas vidas. Servem-nos de modelos, tornam-se nossos confidentes, transmitem-nos um gesto, um esgar, uma expressão, uma frase que logo tornamos nossa. Um dia verificamos que desapareceram para sempre. É como certas amizades, que se evaporam quase sem nos darmos conta disso.
Aconteceu-me em Fevereiro de 2008 com Roy Scheider: li a notícia de que morreu, aos 75 anos, e estranhei o facto de não sentir sequer um fio de emoção. Porque Roy Scheider acompanhou-me durante quase uma década de idas assíduas às salas de cinema. Lá estava o seu rosto angular, de onde sobressaía um par de olhos tristes, dialogando com Jane Fonda em Klute. Lembro-me também dele em Os Incorruptíveis Contra a Droga e O Homem da Maratona. Recordo-o igualmente em Tubarão – esse filme nuclear, que marcou o regresso de Hollywood ao grande cinema depois de vários anos errantes a querer macaquear o pior dos filmes europeus enquanto as produções britânicas amealhavam Oscares. E lembro-me dele sobretudo em All That Jazz, de Bob Fosse: raras vezes um actor levou a representação a tais limites de esforço físico e psicológico: li algures que estava arrasado quando acabou de rodar o filme.
Valeu a pena o esforço: All That Jazz teve várias nomeações para o Óscar e conquistou a Palma de Ouro em Cannes.
Depois perdi-me dele. Ou ele perdeu-se de mim. Vi-o ainda, quase de fugida, em Na Calada da Noite (Robert Benton, 1982), um daqueles múltiplos filmes que se reclamavam da herança de Hitchcock sem lhe chegarem aos calcanhares. O mesmo rosto angular, os mesmos olhos tristes, a mesma expressão de quem já se decepcionou com quase tudo. Decepcionantes foram também as várias “sequelas” de Tubarão em que esbanjou talento. Aí já não parecia aquele Roy de outros tempos.
Nunca mais o vi. Ou, se o vi, foi como se não o reconhecesse. Correspondia a um período da minha vida ultrapassado para sempre. O cinema também é isto: enche-nos de emoção, seca-nos as emoções em ritmos e ciclos alternados. So long, Roy. Foi bom ter-te conhecido naqueles anos irrepetíveis em que descobria o encanto do cinema e ao mesmo tempo me descobria a mim próprio.

Os filmes da minha vida (24)


Pedro Correia,

 

O melhor filme português de sempre.

No dia em que Manoel de Oliveira festeja 102 anos

 

Durante muito tempo, quando fazia a mim próprio a pergunta sobre qual seria o melhor filme português de sempre, hesitava na resposta.

Podia ser A Canção de Lisboa (1933), extraordinária comédia ‘à portuguesa’, como muito mais tarde se convencionou chamar -, prodígio de escrita cinematográfica, ímpar entre nós, com um trio de actores em estado de graça e uma agilíssima realização do arquitecto Cottinelli Telmo. Beatriz Costa, Vasco Santana e António Silva ainda hoje, tantas décadas depois, provocam gargalhadas no espectador com os seus diálogos saídos da inspiração de Chianca de Garcia e José Gomes Ferreira. É um filme cheio de momentos antológicos, como o da ida do falso veterinário Vasquinho ao jardim zoológico e a sua frase “Chapéus há muitos”.

Podia ser O Pai Tirano (1941), outro filme único na nossa cinematografia – prova evidente de que o seu realizador, António Lopes Ribeiro, era não só um produtor de rasgo e um divulgador de mérito mas também um cineasta capaz de assinar um trabalho que transcendeu a sua época. Como Jean Renoir faria muito mais tarde em A Comédia e a Vida, aqui também o cinema e o teatro se enlaçam na banal existência quotidiana, gerando de caminho um singular retrato de um certo Portugal desses anos em que a guerra assolava o mundo. É um filme cheio de segundas intenções, começando pelo próprio título, e também percorrido por momentos antológicos protagonizados por excelentes actores, como Ribeirinho, Teresa Gomes, de novo Vasco Santana e uma fugaz diva do cinema português chamada Leonor Maia que passaria a ser conhecida por Tatão, o nome da sua personagem em O Pai Tirano. Haverá maior enlace entre a comédia e a vida?

 

Mas além destes dois houve sempre outro. Um filme que vi na altura apropriada, ainda criança. Porque é de crianças que trata. E não me lembro de mais nenhum produzido antes dele, em Portugal ou qualquer outra paragem, que soubesse tratar o mundo infantil de forma tão sensível e tão credível. Desde os instantes iniciais, com aquele inesquecivel pré-genérico que culminava no súbito aparecimento de um comboio em grande velocidade e um grito de horror. Falo de Aniki-Bóbó (1942): nada sabia do nome do realizador nem daquelas informações adicionais que fui acumulando sobre esta primeira longa-metragem de Manoel de Oliveira, produzida por Lopes Ribeiro. Mas impressionou-me como nenhuma outra, naquela época, esta história de uns meninos humildes na Ribeira do Porto que poderia servir de metáfora à condição humana. Adorei a personagem da menina Teresinha, aqueles cenários naturais que prenunciavam o fabuloso neo-realismo italiano e aquela pronúncia genuína e autêntica dos actores, nenhum deles profissional excepto Nascimento Fernandes.

(Sublinho o papel do sotaque porque é um pormenor técnico totalmente descurado nos filmes portugueses contemporâneos: hoje todos falam da mesma maneira nas longas-metragens, independentemente do lugar onde nasceram ou onde residem as personagens. Infelizmente a pronúncia do Norte quase desapareceu do cinema nacional.)

 

Pormenor interessante: Oliveira, que seria depois considerado o mais artificial dos nossos cineastas, assinou aqui aquele que seria durante muito tempo um dos filmes portugueses rodados em atmosfera mais real. Um pouco à semelhança de um Picasso, que subverteu as formas depois de mostrar ao mundo que sabia reproduzi-las com mestria clássica.

São poucos os filmes pelos quais nos apaixonamos e que conseguimos admirar em simultâneo. Aniki-Bóbó é um deles. Cada vez que o revejo vou consolidando a mnha convicção de que se trata do melhor filme português de todos os tempos.

Não sou o único a pensar assim: a Sight & Sound, uma das mais prestigiadas publicações sobre cinema à escala mundial, elaborou há uns anos a lista das 500 melhores películas de sempre. Só há uma portuguesa. Qual? Aniki-Bóbó.

 

ADENDA: Excelente notícia para os cinéfilos: Aniki-Bóbó está de regresso aos cinemas em cópia restaurada.

Os filmes da minha vida (23)


Pedro Correia,

 

HERÓIS DE UM MUNDO QUE JÁ NÃO HÁ

 

Não sei porquê, este diálogo vem-me com frequência à memória. É do filme A Última Fronteira (The Westerner, 1940), de William Wyler, e parece espantosamente simples e destituído de qualquer artificio. Mas tem vários níveis de leitura, além de revelar, só por si, um dos grandes atributos dos heróis do western – indivíduos de carácter, que preferiam ser donos do silêncio em vez de serem escravos das palavras. É, além disso, uma espécie de homenagem a Gary Cooper, uma das grandes figuras míticas do cinema, que interpreta na perfeição o forasteiro deste filme – homem que alia um perdurável amor à terra a um indomável espírito de aventura, alguém de poucas falas e vistas largas, sempre em demanda de novos horizontes. Precisamente ao inverso dos políticos dos nossos dias.

 

A cena passa-se entre um juiz e Gary Cooper:

Juiz – De onde vens, forasteiro?

Gary Cooper – De nenhum sítio em particular.

Juiz – E para onde vais?

Gary Cooper – A nenhum sítio em particular.

 

Eram assim os heróis do Oeste. Sem raízes que os prendessem e prontos a lançar raízes em qualquer lugar. Aventureiros, na melhor expressão que podemos dar a esta palavra. Protagonistas de um tempo de pioneiros de que cada vez somos mais nostálgicos por termos a certeza de pertencerem a um mundo que já não há.

Os filmes da minha vida (22)


Pedro Correia,

Ninguém foi tão bom a fazer de mau

A morte de Richard Widmark – um dos últimos actores da época áurea de Hollywood – mereceu há dois anos grande foto a duas colunas ao alto na capa do Le Monde. Widmark, que desapareceu com 93 anos, foi talvez o melhor dos piores: nunca vi ninguém desempenhar tão bem o papel de mau. Rodou com Ford, Kazan, Mankiewicz, Fuller, Sturges, Preminger. Terá o seu nome associado para sempre a filmes como Pânico nas Ruas, No Way Out e Terra Bruta – neste último, um excelente western, trava com James Stewart um dos mais inesquecíveis diálogos da história do cinema.

Começou nos filmes em 1947 com Kiss of Death, de Henry Hathaway, mas esteve a um passo de ser rejeitado: parecia demasiado “culto” e demasiado certinho. Quem diria que estava ali um dos maiores psicopatas da ficção negra, capaz de encarnar no grande ecrã o mais brutal dos criminosos? Mesmo quando surgia do lado do Bem, havia sempre algo de inquietante na forma como compunha as personagens. Foi assim, por exemplo, em Mãos Perigosas (1953), de Fuller – um thriller que se tornou emblema da guerra fria e da paranóia anticomunista nos Estados Unidos.

Guardo dele as melhores memórias, mesmo nos piores papéis: Widmark tinha instinto de representação, tinha fibra, tinha garra, tinha classe – nenhum dos seus desempenhos foi alguma vez manchado pela banalidade. Por isso os cinéfilos o lembram com saudade crescente em interpretações tão diferentes como a de Jim Bowie no subvalorizado Álamo (John Wayne, 1960), a do procurador americano em Julgamento em Nuremberga (Stanley Kramer, 1961) ou a do oficial que protege os cheyennes nesse fabuloso western crepuscular de Ford intitulado O Último Combate (1964). No Way Out (Joseph L. Mankiewicz, 1950) mereceu um belíssimo poema de Ruy Belo, que várias vezes trouxe o cinema para a sua obra: “Sei hoje que sou pequeno / e não é esse o meu menor mal / mas faço meus os problemas / da gente de beaver canal.”

Quando em 1995 a Cinemateca Francesa lhe prestou uma merecida homenagem, com uma retrospectiva dos seus filmes, Widmark era já uma lenda viva da Sétima Arte. Mas numa entrevista concedida ao Le Monde não escondia a sua profunda decepção pela rota dominante nos filmes surgidos desde que se retirara dos ecrãs, quatro anos antes. “A imbecilidade tornou-se um valor positivo. Por isso Forrest Gump, um elogio da estupidez, é um triunfo”, observou então, com o desencanto característico de quem já vira tudo e já não se deixava comover com quase nada.

Tinha todo o direito de falar assim: ele integrou a galeria dos melhores, em dias irrepetíveis, numa colecção de películas que a passagem do tempo só consagra e valoriza.


Os filmes da minha vida (21)


Pedro Correia,

 

NUNCA HOUVE UM ANO ASSIM

  

Foi um ano mágico para Hollywood. A sisuda Greta Garbo soltou pela primeira vez umas sonoras gargalhadas em Ninotcha, de Ernst Lubitsch – um filme que passou logo a ser conhecido pelo slogan publicitário: “Garbo ri.” John Wayne protagonizava o “primeiro western adulto”, como lhe chamou Peter Bogdanovich – era Cavalgada Heróica. James Stewart ascendia ao estrelato num papel inesquecível em Peço a Palavra (Mr. Smith Goes to Washington), de Frank Capra, pelo qual a exigente Associação de Críticos de Nova Iorque lhe deu o prémio de melhor actor. O produtor David O. Selznick trouxe de Estocolmo uma actriz muito jovem e muito tímida, a quem os jornais, com aquelas fórmulas demasiado fáceis a que gostam de recorrer, não tardaram a chamar “nova Garbo”. À beira do fim do ano, o mesmo Selznick estreou aquilo a que os mesmíssimos jornais se apressaram a intitular “filme da década”: E Tudo o Vento Levou.

O ano era 1939 – não houve outro assim na meca do cinema. Um ano em que as obras-primas se sucediam numa vertiginosa sucessão de estreias. Foi o ano em que William Wyler – ainda com o dedo de Selznick – mostrou ao mundo que o universo romanesco de Emily Brontë era filmável, dirigindo Laurence Olivier e Merle Oberon em O Monte dos Vendavais. O ano em que George Cukor (que liderou as filmagens de E Tudo o Vento Levou antes se incompatibilizar com o protagonista, Clark Gable) rodou Mulheres, só com papéis femininos. O ano em que Bette Davis, ferida no seu amor-próprio por não ter sido escolhida para o papel de Scarlett O’Hara, rapou as sobrancelhas para protagonizar Isabel de Inglaterra, de Michael Curtiz. O ano em que Henry Fonda fez de Abraham Lincoln em A Grande Esperança, de Ford. O ano em que Humphrey Bogart se firmava definitivamente no cinema, ao lado de James Cagney, em Heróis Esquecidos, de Raoul Walsh. Um ano em cheio para Judy Garland, que passou De Braço Dado (Babes in Arms, de Busby Berkeley) com Mickey Rooney e foi visitar O Feiticeiro de Oz (de Victor Fleming, o realizador de E Tudo o Vento Levou).

 

Ford rodou o seu primeiro filme a cores (Ouvem-se Tambores ao Longe). Marlene Dietrich parodiou a personagem que a tornou célebre, a Lola d’ O Anjo Azul, num western genial – A Cidade Turbulenta, sob a direcção de George Marshall. George Stevens realizou um modelar filme de aventuras com Cary Grant e Douglas Fairbanks Jr – Gunga Din. Grant, grande isco de bilheteiras, protagonizou Paraíso Infernal, de Howard Hawks, contracenando com uma estreante chamada Rita Hayworth. Ingrid Bergman, a tal caloira sueca que afinal era superior à Garbo, comoveu as plateias pela sua actuação em Intermezzo, de Gregory Ratoff. Carole Lombard casava com James Stewart em A Vida Começa Amanhã, de John Cromwell. E Bette Davis, recuperadas as sobrancelhas, fez chorar as pedras da calçada em Vitória Negra, de Edmund Goulding.

“Foi um ano extraordinariamente vigoroso para o cinema americano”, viria a sublinhar Bogdanovich, ele próprio nascido em 1939. A indústria cinematográfica americana estava no auge, a guerra desencadeada por Hitler ainda não ultrapassara o solo europeu, a máquina de sonhos estava bem oleada (nesse ano estrearam-se 476 filmes norte-americanos), estúdios como a MGM gabavam-se de ter mais estrelas sob contrato do que as existentes no firmamento. “Imaginem um realizador do calibre de Ford – mesmo que houvesse algum – hoje estrear três filmes por ano. E ninguém deu grande importância a isso nesses dias misericordiosamente naturais. Era apenas uma ‘missão cumprida’, como diria Ford.”

 

São ainda palavras de Bogdanovich, que nos lembra a forma como a chamada “imprensa de referência” ridicularizara um ano antes o filme As Duas Feras (Bringing Up Baby), de Hawks. O crítico do conspícuo New York Times chamou-lhe “fita tonta”, desaconselhando os espectadores de a verem por se tratar de “uma perda de tempo”. Foi preciso esperar duas décadas e o reconhecimento de respeitáveis críticos franceses como André Bazin e François Truffaut para que Hawks fosse enfim celebrado nos Estados Unidos como o grande autor que sempre foi e As Duas Feras ser enfim reconhecido em Nova Iorque como uma das mais geniais comédias de todos os tempos. Ninguém é profeta na sua terra…

Quantas obras-primas não passam hoje pelos nossos olhos sem estarmos preparados para as reconhecermos? E quantos críticos, munidos com arsenais de bolas pretas, chamarão hoje “fitas tontas” às obras-primas de amanhã?

Os filmes da minha vida (20)


Pedro Correia,

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BONECA DE LUXO :

NO TEMPO EM QUE NA LUA HAVIA RIOS

 

Há aparições que ficam para sempre gravadas na memória do cinema. Uma das mais inesquecíveis é a de Audrey Hepburn à janela do seu apartamento novaiorquino, de viola na mão, cantando uma melodia que Henry Mancini compôs para ela como se estivesse em estado de graça: Moon River.

Cantava num sussurro, ao jeito da bossa nova. Talvez não por acaso: nesse filme – Breakfast at Tiffany’s (1961) – ela representava uma “boneca de luxo”, pronta a rumar ao Brasil, onde daria um presumível golpe do baú. E chega até a pronunciar umas frases num português bem perceptível.

O golpe jamais se concretiza: Audrey troca a miragem da fortuna por um amante sem dinheiro. E em nenhuma outra actriz isso soava tão credível. Da novela ácida de Truman Capote, Blake Edwards fez uma deliciosa comédia romântica que ainda hoje parece não ter ganho rugas. Um filme só possível por incluir Audrey à cabeça do elenco: ela deixava sempre um rasto de fascínio na tela. Todas as películas que protagonizou perduram no subsconsciente do espectador.

O que havia nela de tão especial? Uma espantosa fotogenia que desafiava os padrões de Hollywood à época, sem dúvida. Mas, mais que isso, dela se poderá dizer o que Truman Capote escreveu sobre Holly Golighly, a rapariga de província que desembarca em Nova Iorque para satisfazer todos os sonhos: «Ele triunfava sobre a fealdade, o que tantas vezes é mais sedutor que a verdadeira beleza.» Como se o autor de Música Para Camaleões soubesse de antemão quem encarnaria a sua criação literária na adaptação para cinema.

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Com aquela silhueta esguia e um par de olhos capazes de iluminar a escuridão de uma viagem ao fim da noite, Audrey Hepburn triunfou sobre a fealdade numa sucessão de obras-primas que a transformaram num dos maiores ícones da modernidade forjados nas salas de espectáculo. Quer fizesse de manequim (Funny Face, de Stanley Donen, 1957) ou de religiosa (A História de uma Freira, de Fred Zinnemann, 1959), em épicos como Guerra e Paz (de King Vidor, 1956), em westerns como O Passado não Perdoa (de John Houston, 1960) ou até em fitas de espionagem (Charada, outra vez de Donen, 1963). Milhões de jovens dos anos 50 imitaram-lhe o original penteado quando a viram cortar o cabelo numa cena de Férias em Roma (William Wyler, 1953), filme que lhe valeu o Óscar com apenas 24 anos. Lançaria uma nova moda de calçado baptizada com o nome da sua personagem ao interpretar Sabrina (Billy Wilder, 1954). E deu uma sofisticação sem par ao cockney londrino com a sua fabulosa Eliza Doolittle, em My Fair Lady (George Cukor, 1964).

 

«As pessoas julgam que uma estrela de cinema tem necessariamente um ego gigantesco. Na verdade, é essencial não ter ego nenhum.» São ainda palavras de Capote nesse tratado sobre as luzes e sombras da sedução que é Breakfast at Tiffany’s. Palavras que parecem aplicar-se em cheio à tocante fragilidade de Audrey, actriz mais etérea do que carnal, nos antípodas de várias divas suas contemporâneas, como Kim Novak ou Ava Gardner.

Tantos anos depois, é ainda o fio da sua voz em Boneca de Luxo que irrompe entre as nossas melhores recordações das noites de cinema: «Oh dream maker, you heart breaker, / Wherever you’re going I’m going your way…»

Onde quer que vamos, ela acompanha-nos. E se ela nos disser que existem rios na lua, nem por um instante somos capazes de duvidar.

 

 

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Boneca de Luxo (Breakfast at Tiffany’s, 1961). Realizador: Blake Edwards. Principais intérpretes: Audrey Hepburn, George Peppard, Patricia Neal, Buddy Ebsen, Mickey Rooney, Martin Balsam.

Os filmes da minha vida (19)


Pedro Correia,

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NO PRINCÍPIO ERA O WESTERN

 

No princípio era o western. Foi com O Grande Assalto ao Comboio, uma fita de 1903 com apenas 12 minutos de duração, que nasceu o cinema como arte ficcional.

A força da imagem impressa em película era tão grande que permitia ao cinema ir mais longe e mais fundo do que a História: a mitologia do Velho Oeste recriada nas salas de espectáculo impôs-se ao que realmente aconteceu. Cada país tem direito às suas epopeias: os Estados Unidos ganhavam enfim a sua. Na larga tela, todos os sonhos se tornavam possíveis. Ou, como diz uma célebre personagem de John Ford, «when the legend becomes fact, print the legend.»

Onde começa a ficção, onde acaba a realidade? A pergunta tem pleno cabimento nos casos dos westerns protagonizados por John Wayne. Porque, se como disse alguém, o cinema americano é o western, do mesmo modo este género cinematográfico nada seria sem John Wayne.

O mítico, o único, o inconfundível John Wayne.

Não terá havido actor mais “tarimbeiro” no cinema americano do que Marion Morrison, nascido a 26 de Maio de 1907 (era um típico Gémeos, o signo de todas as transfigurações). Os registos de Hollywood contabilizam cerca de cem películas que terá rodado entre 1926, ainda no tempo do mudo, e 1939. Quase todos westerns baratuchos, de série B, quase todos filmes medíocres, rodados em meia dúzia de dias nos estúdios da Republic.

Foi uma longa aprendizagem até se recriar aos 32 anos, no papel de Ringo, em Stagecoach (Cavalgada Heróica). Surgia o western tal como o conhecemos, Marion Morrison dava lugar a John Wayne. Print the legend.

Nascia uma estrela. E nenhuma foi maior do que Wayne. Ao ponto de se confundir com todo um género cinematográfico, transportando a mesma personagem de filme para filme. Uma personagem com espessura, com passado, marcada pelo tempo e magoada por conflitos de toda a espécie mas que nunca perde uma certa integridade interior.

Não há moralismo mas há sempre uma moral nos filmes de Wayne, cowboy que nunca abandona os códigos de honra num mundo onde a única lei é a da bala.

 

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Peter Bogdanovich escreveu em 1972 esta frase que hoje nos parece uma evidência: «Podemos estar contra as posições da direita de Wayne, mas isso não tem a mínima importância quando analisamos o seu trabalho.»

É ainda Bogdanovich, nas páginas de Pieces of Time (um dos mais fascinantes livros sobre cinema de todos os tempos), que elabora o melhor retrato de Wayne como actor: «Uma figura familiar, clássica – inconfundível seja qual for o ângulo -, que se move num mundo de ilusão que conquistou em absoluto.»

No fundo, as estrelas de cinema são assim. Nunca interpretam tão bem como quando se interpretam a si próprias.

 

Wayne era genial a fazer de Wayne: o passo lento e bem medido, a fala breve e ríspida, o olhar duro onde ainda perpassa um rasto de candura.

Dirigido por John Ford e Howard Hawks, protagonizou mais obras-primas do que qualquer actor do seu tempo e provavelmente do que qualquer actor de todos os tempos.

Fiquemo-nos pelo western: depois de Cavalgada Heróica, rodou Forte Apache, Os Dominadores, Os Três Padrinhos, Rio Grande, A Desaparecida, O Homem que Matou Liberty Valence (de Ford), Rio Vermelho, Rio Bravo e El Dorado (de Hawks). Além de outras que jamais se apagarão da memória de qualquer cinéfilo, como Homens Para Queimar e O Homem Tranquilo (ainda de Ford).

 

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Mas em nenhum outro ele vai tão bem como no seu filme-testamento: O Atirador (The Shootist, de Don Siegel, 1976).

Aqui personagem e intérprete fundem-se como nunca: na vida real, Wayne é um homem à beira do fim, devorado por um cancro; o mesmo se passa com o protagonista, John Bernard Books, um mito ainda em vida, sobrevivente do Velho Oeste em pleno século XX.

Aquele mundo em que o cavalo dava lugar ao automóvel já não era o seu. Mas Books-Wayne mantinha intacto o lema que o tornara célebre: «Não serei enganado, não serei insultado, não deixarei que outros me deitem a mão.»
Nessa Carson City que já nada tinha a ver com o tempo dos pioneiros, o temível “atirador” confessava afinal à viúva Rogers (interpretada por Lauren Bacall): «Sou um homem à beira da morte que tem medo do escuro.»

Frágil Wayne, vulnerável Wayne, enfim regressado à condição humana neste maravilhoso western crepuscular que marcava também o fim de uma era em Hollywood.

 

John Wayne não voltaria a filmar. O western praticamente desapareceu como género cinematográfico. E nós não voltaríamos a ver cinema com os nossos olhos encantados de meninos.

Os filmes da minha vida (18)


Pedro Correia,

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CALOR NA TELA, FRIO NOS BASTIDORES

 

Tony Curtis, agora desaparecido aos 85 anos, era um dos últimos actores ainda vivos que filmaram ao lado de Marilyn Monroe, falecida em Agosto de 1962. Quase todos os parceiros de tela do maior mito feminino de Hollywood desapareceram já – Clark Gable em 1960, Montgomery Clift em 1966, Cary Grant em 1986, Laurence Olivier em 1989, Yves Montand em 1991, Tom Ewell e Joseph Cotten em 1994, Robert Mitchum em 1997, Jack Lemmon em 2001, Tony Randall em 2004, Richard Widmark em 2008. Restam Eli Wallach, sobrevivente do fabuloso quinteto de actores que protagonizou Os Inadaptados (John Huston, 1961), hoje com 94 anos – e que podemos rever no elenco do recém-estreado Wall Street 2 – O Dinheiro Nunca Dorme -, e Don Murray, o cowboy urbano que contracena com ela em Paragem de Autocarro (Joshua Logan, 1956), agora um ancião de 81 anos. Ambos já com lugar garantido na galeria de ídolos eternos do cinema.

Curtis celebrou-se em vários filmes das décadas de 50 e 60. Mas nenhum deles tão célebre como aquele em que se desentendeu por completo nos bastidores com Marilyn – Quanto Mais Quente Melhor (Some Like it Hot), extraordinária comédia de 1959, talvez a melhor de todos os tempos.

 

Marilyn, que nunca foi actriz para se deixar condicionar pelos ponteiros do relógio, batia recordes pessoais de falta de pontualidade durante a rodagem deste filme, em que encarnava uma personagem chamada Sugar Kane. E por vezes não chegava sequer a aparecer no set, fazendo exasperar o realizador, Billy Wilder, e os colegas do elenco – com Curtis à cabeça. Ele vingou-se com a mais terrível das frases jamais ditas sobre ela: «Beijá-la é como beijar Hitler.» Marilyn, que não era a loura burra que muitos imaginavam, devolveu-lhe a injúria com troco irónico: «Ele só disse isso porque no filme eu usei vestidos mais bonitos do que os dele.»

Era uma evidente alusão ao papel de Curtis, vestido de mulher em grande parte do filme de Wilder, que troca as voltas a todos os estereótipos sexuais – e também a alguns mitos de Hollywood. O actor inspirou-se em Cary Grant – e no seu inconfundível sotaque – para fazer de milionário alegadamente impotente e em Grace Kelly nas suas hilariantes cenas de travesti.

A insegurança de Marilyn durante as filmagens, que se arrastaram por longos meses, era tão notória que só quase por milagre Quanto Mais Quente Melhor não arrefeceu por completo. A certa altura Wilder chegou a ponderar retirar-se do cinema. Uma cena em que Marilyn perguntava «Onde está o bourbon?» teve de ser repetida 59 vezes: a actriz não conseguia dizer a frase. Outra cena, em que se limitava a dizer «Sou eu, Sugar», levou 47 vezes a filmar apesar de, a partir do 30.º take, Marilyn ter a frase escrita a giz numa ardósia que lhe punham diante dos olhos.

 

«Ela tem seios de granito e um cérebro semelhante a um queijo suíço, cheio de buracos», desabafou o realizador austríaco, fazendo coro com o azedume de Curtis. O clima complicou-se de tal maneira que Marilyn nem chegou a ser convidada para a festa que assinalou o fim das filmagens.

Hoje, no entanto, Some Like it Hot surge em quase todas as listas dos dez melhores filmes americanos de todos os tempos. E não falta quem considere um escândalo que Marilyn Monroe e Tony Curtis não tenham sido sequer nomeados para os Óscares: ambos mereciam a estatueta, que aliás nunca viriam a conquistar. Basta pensar que os papéis que aqui interpretaram estiveram para ser entregues a Mitzi Gaynor e Bob Hope. O que seria desta obra-prima com tal elenco?

 

Imagens: Tony Curtis com Marilyn Monroe em Some Like it Hot (1959).

Em cima, parodiando Cary Grant; em baixo, parodiando Grace Kelly.

Os filmes da minha vida (17)


Pedro Correia,

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Comecei a ver cinema muito cedo. Era ainda um garoto, leitor assíduo de revistas de banda desenhada, quando me deixei seduzir pelo ecrã mágico de onde irrompiam heróis de todo o género, emanados do mundo dos adultos.

Fixei para sempre um sorriso de Fernandel, um silêncio de John Wayne, um trinado de Marisol, uma expressão dura de Bogart, um esgar trocista de Belmondo, Errol Flynn conquistando as matinés e o coração de Olivia de Havilland em As Aventuras de Robin dos Bosques. E as pernas de Silvana Mangano, os olhos de Michèlle Morgan, o rosto magoado de Ingrid Bergman à beira de um vulcão a preto-e-branco em Stromboli.

 

Puto de calções, largava as brincadeiras da bola ou do berlinde para me pôr defronte da pantalha, quando a RTP oferecia bom cinema aos espectadores, e lá ficava, de olhos arregalados, mergulhado no fascínio da Sétima Arte oferecida ao domicílio da geração privilegiada de que fiz parte.

São imagens que me ficarão gravadas para sempre: o inquietante sobrolho de Gregory Peck no Caso Paradine, o trenó em chamas de Citizen Kane, Gene Kelly dançando à chuva, um grão de areia no olho de Celia Johnson, a radiosa Audrey Hepburn andando de lambretta nos dédalos de Roma.

 

Filmes de Verão, com Johnnny Weissmuller, Totò e Fred Astaire.

Filmes de Inverno, com Giulietta Masina, Henry Fonda, Alec Guinness e Marlene Dietrich.

Títulos perdidos na memória dos tempos mas recordados à simples evocação de uma cena imortal: Shirley Temple fazendo sapateado, Vasco Santana falando a uma girafa, Grace Kelly beijada por Cary Grant, Alice Faye cantando “With a Song in My Heart”, Alida Valli caminhando ao som da cítara vienense de Anton Karas.

Tardes de cinema, noites de cinema. O mundo que se movia à velocidade de 24 imagens por segundo.

Os filmes da minha vida (16)


Pedro Correia,

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O CAÇADOR:

A VIDA NÃO É UMA ROLETA RUSSA

 

Poucos filmes foram tão mal acolhidos, logo após a estreia, como esta densa e singular obra de Michael Cimino. A actriz Jane Fonda, então epígono da esquerda radical chique de Hollywood, apressou-se a contestá-la na praça pública, ainda antes de a ver, dando o mote a legiões de críticos que a vergastaram pelo seu suposto «reaccionarismo» e pela defesa intransigente da participação norte-americana na guerra do Vietname. Caso notável de miopia generalizada nesse final da década de 70. Miopia estética e política, exacerbada meses após a estreia, quando O Caçador recebeu o Óscar de melhor filme e ao jovem Cimino era entregue a estatueta de melhor realizador. Não faltou sequer quem lhe chamasse fascista.

Raras películas foram igualmente tão reavaliadas como esta – prova evidente de que também no cinema as aparências iludem.

The Deer Hunter é um filme que nos fala de valores em desuso – a coragem, o companheirismo, o esforço, a amizade, a abnegação, a integridade – em tom de envolvente cumplicidade, sem sequer um fio de retórica, enquanto nos apresenta uma comunidade operária de origem eslava na vila de Clairton, Pensilvânia. É uma viagem à América profunda – à que produz riqueza e se integra num vasto esforço colectivo a partir de uma pequena comunidade. Não a América protestante de raiz anglo-saxónica, mas os verdadeiros Estados Unidos da América, nação enriquecida pela presença de imigrantes com o seu mosaico de crenças e culturas.

 

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Poucos filmes como este nos mostraram de forma tão impressiva e convincente o quotidiano da classe trabalhadora. O Caçador foi também a película que melhor soube mostrar – apenas três anos após a partida dos marines da Indochina – o absurdo da guerra do Vietname, bem ilustrado na metáfora da roleta russa, como corpo estranho e adverso ao incomparável sonho americano. Mike, Nick e Steven, os três amigos de infância que para lá partiram aureolados de heróis, regressam de modo muito diferente: a guerra marcou cada um deles de forma irremediável.

Aqui nada acontece por acaso: as nuvens que formam um determinado desenho no céu indicam que o tempo está propício para caçadas, segundo a ancestral sabedoria índia, e as gotas de vinho derramadas no vestido da noiva constituem um sinal de tragédia iminente que o desenrolar da acção naturalmente confirma.

Também não é por acaso que Mike Vronsky (interpretação prodigiosa de Robert de Niro) recusa ser recebido com uma festa de homenagem. E já nem consegue sequer alvejar o veado que vê no seu ponto de mira: no momento do disparo, o caçador lembra os amigos que foram caçados no Vietname e sente-se mais humano que nunca, incapaz de matar um animal.

«Alguma vez pensaste que a vida daria estas voltas?», pergunta Linda (Meryl Streep) a Mike. Ela só pressente aquilo que o espectador sabe desde o início: Can’t take my eyes off you, título da fabulosa canção de Frankie Valli que – não há coincidências – escutamos duas vezes neste filme, ilustra o que ele sente pela namorada do melhor amigo.

 

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Longo romance cinematográfico, rodado quase como se fosse um documentário, onde toda a carga emotiva nos é sugerida por olhares, gestos e perturbantes momentos de silêncio, O Caçador é um filme onde as linhas de diálogo são surpreendentemente ténues e a frase mais vezes pronunciada é «Are you OK?»

É um filme que começa com um casamento e termina com um funeral – duas faces do mesmo espelho. Mas é um filme que não nos fala de uma América crepuscular: fala-nos de uma América capaz de ressurgir com maior vigor de cada desaire da História, digam o que disserem os críticos acometidos de miopia.

Uma América que, para esse efeito, não necessita de heróis: necessita de gente comum. Gente como Linda, Axel, Angela, Steven, John, Stanley e Mike. Gente que trabalha e que se diverte e que bebe cerveja e que vai à caça e que reza e que chora e que ri e que canta God Bless America. Não como um louvor patrioteiro mas como um hino à vida. O que tem duplo valor para quem viu a morte de frente.

 

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O CAÇADOR (The Deer Hunter, 1978). Realizador: Michael Cimino. Principais intérpretes: Robert de Niro, John Cazale, John Savage, Meryl Streep, Christopher Walken, George Dzundza.

Os filmes da minha vida (15)


Pedro Correia,

 

 O que terá acontecido a Karen Black?

 

Durante um certo período – um período demasiado longo, podem crer – todo o glamour parecia ter sido banido do cinema. Sei do que falo: fui vítima disso. As actrizes belas e vaporosas, que pareciam irreais e nos faziam sonhar, eram um símbolo do passado. Elizabeth Taylor e Natalie Wood, por quem estive estupidamente apaixonado, haviam deixado praticamente de filmar. E todas as outras a que justamente chamávamos estrelas tinham sumido sem deixar rasto.

Quando me tornei espectador regular de cinema, no lugar das estrelas havia a “mulher comum” – último grito de guerra feminista contra a visão “estereotipada” da beleza feminina posta num pedestal.

 

Essa moda limitou-se afinal a substituir uns estereótipos por outros, bem menos estimulantes. A “mulher comum”, com uma absorvente carreira profissional e as preocupações de todas as mulheres, era personificada nos ecrãs por actrizes que mal nos fariam virar a cara num movimento de instintiva, irreflectida e patética admiração se as encontrássemos na rua.

Actrizes cheias de talento mas desprovidas de glamour, como Diane Keaton, Mia Farrow, Sally Field, Meryl Streep.

Actrizes que ocultavam os traços congénitos de beleza para surgirem na tela como epítomes da “classe trabalhadora” ou do radicalismo político, como Jane Fonda e Vanessa Redgrave.

Actrizes que podiam ser iguais a qualquer mulher com quem nos cruzávamos num transporte público, como Karen Allen e Geneviève Bujold. Insuportáveis ruivas britânicas, como Samantha Eggar e Sarah Miles.

Actrizes desprovidas de qualquer traço de beleza, como Karen Black, Liza Minnelli ou Shelley Duvall.

Acreditem: foram tempos pavorosos.

Papei as estreias de todos os filmes de todas estas inenarráveis “mulheres comuns” e abominei a minha má sorte de espectador. Havia encanto no nariz de Barbra Streisand? Talvez não. Mas nessa era onde o romantismo havia sido praticamente varrido dos ecrãs por estar fora de moda até Barbra Streisand parecia esbanjar charme num filme ousadamente romântico como O Nosso Amor de Ontem (Sydney Pollack, 1973). Que, não por acaso, nos transportava aos anos 40.

 

Mero problema de geração, que me fazia olhar para as actrizes dos tempos dos meus pais e avós com um fascínio que só agora entendo devidamente.

No período dos grandes estúdios, quando era uma “fábrica de sonhos” sem complexos de qualquer espécie, Hollywood mostrou ao mundo as melhores mulheres de sempre. Carole Lombard, Heddy Lamarr, Paulette Goddard, Olivia de Havilland, Ginger Rogers, Gene Tierney, Rita Hayworth, Ava Gardner, Ingrid Bergman, Joan Fontaine, Kim Novak, Audrey Hepburn, Cyd Charisse, Grace Kelly, Jane Russell, Alida Valli, Lauren Bacall, Shirley MacLaine, Jean Peters, Lee Remick, Marilyn Monroe. Que, não raras vezes, eram também excelentes actrizes – como podemos comprovar hoje melhor que nunca.

Não admira que me tivesse tornado adepto fervoroso de filmes antigos: para ver “mulheres comuns” não era preciso ir ao cinema…

 

Até que um dia, como sucede a todas as modas, também esta mudou.

O glamour deixou de ser pecado. O mundo cansou-se dos exageros feministas e as mulheres voltaram a surgir nos ecrãs irradiando beleza, sem recearem excomunhões políticas nem o discurso iracundo da sociologia de pacotilha que antes as proibia de agradar aos homens.
Foi com alívio que vi chegar a nova era. Demi Moore moldando barro n’O Espírito do Amor. Michelle Pfeiffer subindo para um piano n’Os Fabulosos Irmãos Baker. Meg Ryan a ser cortejada à moda antiga por Billy Crystal em Um Amor Inevitável.

No topo dos cartazes passaram a figurar os nomes (e os rostos e os corpos) de Sharon Stone, Diane Lane, Nicole Kidman, Gwyneth Paltrow, Charlize Theron, Kate Winslet, Cameron Diaz, Salma Hayek, Catherine Zeta-Jones, Natalie Portman, Rachel Weisz. E – thank heaven for little girls – Scarlett Johansson.

Tão belas como as deusas de outrora.

Às vezes interrogo-me o que será feito de Karen Black. E de Karen Allen. Mas, com toda a franqueza, quero lá saber…

 

 

Os filmes da minha vida (14)


Pedro Correia,

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O ESPÍRITO E A CARNE

 

 

De que me lembro quando me lembro de Deborah Kerr?

De Karen Holmes, a esposa adúltera que troca um capitão por um sargento numa praia do Havai.

De Terry McCay, que se apaixona perdidamente por Cary Grant nesse inesquecível melodrama que é O Grande Amor da Minha Vida.

Da freira que partilha uma ilha quase deserta com o bebedolas Robert Mitchum numa deliciosa comédia de John Huston, justamente intitulada O Espírito e a Carne na versão portuguesa.

Recordo-a em bastantes outros filmes – de Júlio César a Vidas Separadas. Mas lembro-a sobretudo noutro papel de freira, para o qual parecia predestinada, numa das mais admiráveis obras-primas do cinema: Quando os Sinos Dobram, da dupla Michael Powell-Emric Pressburger. Filmada num fabuloso technicolor, com cores cada vez mais quentes à medida que a acção progride, ela era muito mais carne que espírito, apesar das vestes religiosas.

Aprendi definitivamente com esse filme que o hábito não faz o monge. O cinema, está visto, também serve para nos iluminar por dentro.

 

Havia mais inquietação por detrás da força tranquila do olhar azul de Deborah Kerr – uma inquietação que só cineastas de muito talento souberam desvendar. E ela trabalhou com vários – de Leo McCarey a Elia Kazan, passando por Joseph L. Mankiewicz.

Faltou-lhe talvez só filmar com Alfred Hitchcock, que tinha uma notória inclinação por louras de olhar gélido, talvez frígidas sem remissão, talvez vulcões ocultos por uma ilusória camada de gelo. Na década de 50, que foi a década de ouro de Deborah, Hitch andava encantado com outras louras, chamadas Grace Kelly ou Kim Novak, e não fez caso desta compatriota de voz de veludo e perfeita dicção londrina.

Azar dele, infortúnio dela: se tivessem filmado juntos, estaríamos hoje certamente a venerar em todas as cinematecas do planeta essa película que afinal nunca existiu.

 

Deborah Kerr deixou de ser carne, tornou-se espírito: morreu em Outubro de 2007, aos 86 anos. Apenas com um Óscar honorário no currículo: espantosamente, Hollywood nunca a premiou no auge da carreira. Fala-se tanto em injustiça a propósito dos Óscares: esta foi uma das mais evidentes.

Disse que deixou de ser carne? Exagero meu. Basta revermos uma vez e outra aquela cena antológica do mar a afagar-lhe as pernas, a humedecer-lhe o corpo enquanto Burt Lancaster a estreita nos braços com a urgência do primeiro ou do último beijo trocado entre dois seres errantes nos confins do universo.

É esta a grande força do cinema: permite sempre a ressurreição da carne, projectada no infinito. Até à eternidade.

Os filmes da minha vida (13)


Pedro Correia,

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TAXI DRIVER:

NO CORAÇÃO DAS TREVAS

 

Qual é a diferença entre um vilão e um herói num mundo onde todas as barreiras morais foram transpostas e as tradicionais fronteiras entre o bem e o mal estão diluídas? Esta é a pergunta-chave de Taxi Driver, um filme que não cessa de nos perseguir noite fora, anos fora. Vê-lo uma vez é vê-lo para sempre: jamais nos libertaremos daquela atmosfera viscosa de Nova Iorque, daquelas ruas onde se exibe a devassidão, daqueles vidros embaciados que nos transmitem a imagem de uma cidade que é a antítese perfeita de um bilhete postal.

Viajamos num táxi conduzido por Travis Bickle, ex-veterano de guerra que combate a insónia de mãos no volante enquanto anseia por um dilúvio que «lave toda a porcaria das ruas». 

Nunca Nova Iorque pareceu tão irreal como neste filme só aparentemente realista: porque afinal a vemos sempre pelo olhar desfocado dum ex-fuzileiro de 26 anos que guia sem destino ao som da banda sonora de Bernard Herrmann – compositor de Alfred Hitchcock -, falecido horas após concluir esta magnífica partitura que lhe serviu de testamento.

 

«Não consigo dormir», diz o taxi driver que Robert de Niro interpreta com uma intensidade quase dolorosa, como se fosse o último papel da sua vida.

Perguntam-lhe por habilitações literárias. «Algumas.»

Tem a folha limpa? «Tão limpa como a minha consciência.»

Horário? Qualquer serve: das seis da tarde às seis da manhã, «às vezes até às oito». Seis dias por semana, «às vezes sete».

 

A noite funciona como cenário quase exclusivo desta espécie de western urbano a que só a fugaz aparição luminosa de Betsy (Cybill Shepherd) confere um toque de claridade. Travis vê-a vestida de branco, «pura como um anjo», na sede de campanha do senador Charles Palantine, candidato à Casa Branca com o demagógico slogan «Nós somos o povo». Ele acabará por ser um dos seus passageiros ocasionais. «Aprendi mais sobre este país a andar de táxi do que em todas as limusinas», garante Palantine, que há-de conseguir a nomeação.

Passageiro bem diferente é o marido enganado, interpretado pelo próprio realizador, Martin Scorsese, noutro momento inesquecível deste filme: fá-lo estacionar à porta de um prédio onde está a mulher, que o trai «com um preto», e revela que há-de matá-la com uma Magnum 44.

«Esgoto a céu aberto», a Nova Iorque de Taxi Driver.

 

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Outro motorista, mais cínico e mais sábio, dá-lhe uma saraivada de bons conselhos: «Sai, embebeda-te, leva uma mulher para a cama. Não te rales tanto. Descontrai.» 

Mas este é um idioma estranho a Travis, que deixou uma parte de si mesmo no Vietname e conserva apenas uma memória distante dos pais, a quem envia um lacónico postal sem remetente, esquecido já das datas de todos os aniversários.

Nós vamos com ele, vendo os néons faiscar à nossa volta na cidade que nunca dorme.

É uma viagem ao coração das trevas, onde não se vislumbra o povo do demagogo Balantine: só «chulos, drogados, prostitutas, travestis», exploradores de carne humana. Travis Bickle, “misto de São Paulo e Charles Manson” (a definição é do próprio Scorsese), vê ali, quarteirão após quarteirão, o sucedâneo dos vietcong que não conseguiu vencer na selva da Indochina. Rapa o cabelo, arma-se até aos dentes, mergulha numa orgia de violência contra uma guerrilha imaginária, confundindo as ruas do Bronx com o trilho de Ho Chi Minh. Reserva a última bala para si próprio, mas por um capricho do acaso a arma não dispara.

É quanto basta para a imprensa o proclamar herói: ganha direito aos 15 minutos de fama que nunca ambicionou. «Os jornais têm a mania de exagerar», diz para Betsy na última vez que falam antes do desencontro definitivo.

Taxi Driver jamais poderia ter um happy ending: este é o mais inclemente, perturbante e devastador filme que conheço sobre a solidão e a absoluta impossibilidade de se ser feliz.

 

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Taxi Driver, 1976. Realizador: Martin Scorsese. Principais intérpretes: Robert de Niro, Cybill Shepherd, Jodie Foster, Peter Boyle, Harvey Keitel, Albert Brooks.