O melhor filme português de sempre.
No dia em que Manoel de Oliveira festeja 102 anos
Durante muito tempo, quando fazia a mim próprio a pergunta sobre qual seria o melhor filme português de sempre, hesitava na resposta.
Podia ser A Canção de Lisboa (1933), extraordinária comédia ‘à portuguesa’, como muito mais tarde se convencionou chamar -, prodígio de escrita cinematográfica, ímpar entre nós, com um trio de actores em estado de graça e uma agilíssima realização do arquitecto Cottinelli Telmo. Beatriz Costa, Vasco Santana e António Silva ainda hoje, tantas décadas depois, provocam gargalhadas no espectador com os seus diálogos saídos da inspiração de Chianca de Garcia e José Gomes Ferreira. É um filme cheio de momentos antológicos, como o da ida do falso veterinário Vasquinho ao jardim zoológico e a sua frase “Chapéus há muitos”.
Podia ser O Pai Tirano (1941), outro filme único na nossa cinematografia – prova evidente de que o seu realizador, António Lopes Ribeiro, era não só um produtor de rasgo e um divulgador de mérito mas também um cineasta capaz de assinar um trabalho que transcendeu a sua época. Como Jean Renoir faria muito mais tarde em A Comédia e a Vida, aqui também o cinema e o teatro se enlaçam na banal existência quotidiana, gerando de caminho um singular retrato de um certo Portugal desses anos em que a guerra assolava o mundo. É um filme cheio de segundas intenções, começando pelo próprio título, e também percorrido por momentos antológicos protagonizados por excelentes actores, como Ribeirinho, Teresa Gomes, de novo Vasco Santana e uma fugaz diva do cinema português chamada Leonor Maia que passaria a ser conhecida por Tatão, o nome da sua personagem em O Pai Tirano. Haverá maior enlace entre a comédia e a vida?
Mas além destes dois houve sempre outro. Um filme que vi na altura apropriada, ainda criança. Porque é de crianças que trata. E não me lembro de mais nenhum produzido antes dele, em Portugal ou qualquer outra paragem, que soubesse tratar o mundo infantil de forma tão sensível e tão credível. Desde os instantes iniciais, com aquele inesquecivel pré-genérico que culminava no súbito aparecimento de um comboio em grande velocidade e um grito de horror. Falo de Aniki-Bóbó (1942): nada sabia do nome do realizador nem daquelas informações adicionais que fui acumulando sobre esta primeira longa-metragem de Manoel de Oliveira, produzida por Lopes Ribeiro. Mas impressionou-me como nenhuma outra, naquela época, esta história de uns meninos humildes na Ribeira do Porto que poderia servir de metáfora à condição humana. Adorei a personagem da menina Teresinha, aqueles cenários naturais que prenunciavam o fabuloso neo-realismo italiano e aquela pronúncia genuína e autêntica dos actores, nenhum deles profissional excepto Nascimento Fernandes.
(Sublinho o papel do sotaque porque é um pormenor técnico totalmente descurado nos filmes portugueses contemporâneos: hoje todos falam da mesma maneira nas longas-metragens, independentemente do lugar onde nasceram ou onde residem as personagens. Infelizmente a pronúncia do Norte quase desapareceu do cinema nacional.)
Pormenor interessante: Oliveira, que seria depois considerado o mais artificial dos nossos cineastas, assinou aqui aquele que seria durante muito tempo um dos filmes portugueses rodados em atmosfera mais real. Um pouco à semelhança de um Picasso, que subverteu as formas depois de mostrar ao mundo que sabia reproduzi-las com mestria clássica.
São poucos os filmes pelos quais nos apaixonamos e que conseguimos admirar em simultâneo. Aniki-Bóbó é um deles. Cada vez que o revejo vou consolidando a mnha convicção de que se trata do melhor filme português de todos os tempos.
Não sou o único a pensar assim: a Sight & Sound, uma das mais prestigiadas publicações sobre cinema à escala mundial, elaborou há uns anos a lista das 500 melhores películas de sempre. Só há uma portuguesa. Qual? Aniki-Bóbó.
ADENDA: Excelente notícia para os cinéfilos: Aniki-Bóbó está de regresso aos cinemas em cópia restaurada.


Grande homenagem a Manoel de Oliveira.
A pronúncia do Norte, só o Rui Reininho se lembra dela.
Com Aniki-Bobó de regresso, já só fica a faltar O Costa d’ África, que espero há anos.
Espera sentado, compadre. Eu faço o mesmo. A incorrecção política tornou esse filme invisível apesar de nele figurar o grande (em todos os sentidos) Vasco Santana.
É divertidíssimo, mas há muito que percebi que nunca mais lhe poremos os olhos em cima. Lastimável.
Havemos de falar tantas vezes disso aqui até alguém nos dar ouvidos.
Apesar de não ser grande cinéfila e portanto não conhecer muitos dos filmes que por cá se fizeram tendo bastante a concordar consigo.
Esta trilogia Aniki-Bóbó-A Canção de Lisboa-O Pai Tirano está ao nível do que melhor se fez na Europa naquele tempo, Ana. Passamos a vida a dizer mal de nós próprios. É uma espécie de doença incurável. Somos tantas vezes incapazes de ver o que de bom também se faz por cá. Espero também falar um dia destes, em separado, d’ O Pai Tirano e d’ A Canção de Lisboa.
Sou fã incondicional dos filmes desta época e do realizador António Lopes Ribeiro, em especial.
Não perdi um e vejo-os repetidamente.
São filmes intemporais, da época mais rica do nosso cinema, recheados de estrelas que não mais se esquecem. E de frases que ainda hoje enchem o nosso vocabulário.
Não tendo a mesma opinião sobre Manoel de Oliveira, tenho naturalmente de me render à sua jovialidade e génio.
Vi apenas Aniki-Bóbó.
O que acima está descrito, é exactamente o que cada um de nós sentiu ao ver este filme. Os miúdos da Ribeira, não eram actores. Eram, apenas, miúdos. E Manoel de Oliveira soube aproveitá-los para “colher” o que havia de mais natural.
Magnífica, foi mesmo esta comparação com Picasso, que subverteu as formas depois de mostrar ao mundo que sabia reproduzi-las com mestria clássica.
É fantástico seguir o seu raciocínio, Pedro.
Quando visitei o Museu Picasso, fiquei absolutamente maravilhada e sem palavras.
Um quadro, em especial, fez-me confirmar o nome do autor.
Um retratista excepcional.
Fica aqui a vénia este post.
Muito obrigado, uma vez mais, pelas suas palavras tão simpáticas. Manoel de Oliveira inovou, antecipando-se alguns anos aos italianos, trazendo o cinema para a rua e confiando os principais papéis a actores não profissionais. Com uma sensibilidade artística espantosa. Bastaria este filme – produzido por Ant. Lopes Ribeiro – para o colocar na história do cinema.
Partilho do que disse sobre o Museu Picasso, que adorei conhecer em Paris. Também gostei de conhecer a casa onde o pintor nasceu, em Málaga.