Os filmes da minha vida (20)


Pedro Correia,

454687042_2e0360597b_o[1].jpg

 

BONECA DE LUXO :

NO TEMPO EM QUE NA LUA HAVIA RIOS

 

Há aparições que ficam para sempre gravadas na memória do cinema. Uma das mais inesquecíveis é a de Audrey Hepburn à janela do seu apartamento novaiorquino, de viola na mão, cantando uma melodia que Henry Mancini compôs para ela como se estivesse em estado de graça: Moon River.

Cantava num sussurro, ao jeito da bossa nova. Talvez não por acaso: nesse filme – Breakfast at Tiffany’s (1961) – ela representava uma “boneca de luxo”, pronta a rumar ao Brasil, onde daria um presumível golpe do baú. E chega até a pronunciar umas frases num português bem perceptível.

O golpe jamais se concretiza: Audrey troca a miragem da fortuna por um amante sem dinheiro. E em nenhuma outra actriz isso soava tão credível. Da novela ácida de Truman Capote, Blake Edwards fez uma deliciosa comédia romântica que ainda hoje parece não ter ganho rugas. Um filme só possível por incluir Audrey à cabeça do elenco: ela deixava sempre um rasto de fascínio na tela. Todas as películas que protagonizou perduram no subsconsciente do espectador.

O que havia nela de tão especial? Uma espantosa fotogenia que desafiava os padrões de Hollywood à época, sem dúvida. Mas, mais que isso, dela se poderá dizer o que Truman Capote escreveu sobre Holly Golighly, a rapariga de província que desembarca em Nova Iorque para satisfazer todos os sonhos: «Ele triunfava sobre a fealdade, o que tantas vezes é mais sedutor que a verdadeira beleza.» Como se o autor de Música Para Camaleões soubesse de antemão quem encarnaria a sua criação literária na adaptação para cinema.

7350407_Tr9nH.jpeg

Com aquela silhueta esguia e um par de olhos capazes de iluminar a escuridão de uma viagem ao fim da noite, Audrey Hepburn triunfou sobre a fealdade numa sucessão de obras-primas que a transformaram num dos maiores ícones da modernidade forjados nas salas de espectáculo. Quer fizesse de manequim (Funny Face, de Stanley Donen, 1957) ou de religiosa (A História de uma Freira, de Fred Zinnemann, 1959), em épicos como Guerra e Paz (de King Vidor, 1956), em westerns como O Passado não Perdoa (de John Houston, 1960) ou até em fitas de espionagem (Charada, outra vez de Donen, 1963). Milhões de jovens dos anos 50 imitaram-lhe o original penteado quando a viram cortar o cabelo numa cena de Férias em Roma (William Wyler, 1953), filme que lhe valeu o Óscar com apenas 24 anos. Lançaria uma nova moda de calçado baptizada com o nome da sua personagem ao interpretar Sabrina (Billy Wilder, 1954). E deu uma sofisticação sem par ao cockney londrino com a sua fabulosa Eliza Doolittle, em My Fair Lady (George Cukor, 1964).

 

«As pessoas julgam que uma estrela de cinema tem necessariamente um ego gigantesco. Na verdade, é essencial não ter ego nenhum.» São ainda palavras de Capote nesse tratado sobre as luzes e sombras da sedução que é Breakfast at Tiffany’s. Palavras que parecem aplicar-se em cheio à tocante fragilidade de Audrey, actriz mais etérea do que carnal, nos antípodas de várias divas suas contemporâneas, como Kim Novak ou Ava Gardner.

Tantos anos depois, é ainda o fio da sua voz em Boneca de Luxo que irrompe entre as nossas melhores recordações das noites de cinema: «Oh dream maker, you heart breaker, / Wherever you’re going I’m going your way…»

Onde quer que vamos, ela acompanha-nos. E se ela nos disser que existem rios na lua, nem por um instante somos capazes de duvidar.

 

 

………………………………………………….

 

Boneca de Luxo (Breakfast at Tiffany’s, 1961). Realizador: Blake Edwards. Principais intérpretes: Audrey Hepburn, George Peppard, Patricia Neal, Buddy Ebsen, Mickey Rooney, Martin Balsam.

20 comentários em “Os filmes da minha vida (20)”

    1. Digo o mesmo, compadre. Ainda hoje não consigo ver uma foto dela sem sentir que foi uma das mulheres mais deslumbrantes que vimos desde sempre no cinema. E ouvi-la falar português neste filme é inesquecível.

  1. É um filme fantástico, e realmente o filme não ganha rugas.

    Quanto à Audrey, é ainda uma fixação! Para mim é a mulher representa o glamour de Hollywood dos anos 50.

    Pedro, só faltou o rio da Lua para acompanhar a leitura do texto. Fico a aguardar se é uma das suas músicas do século.

  2. Uma Audrey linda de morrer num filme que se via com todo o agrado, com o “happy end” a ajudar — que bela sequência aquela, à chuva, com Holly a chamar pelo gato e George Peppard também à procura do bicho… Kissing in the rain, e etc. Mas, e se, por acaso, não houvesse “happy end”, como na novela de Capote? Será que gostaríamos tanto do filme?

    1. É um dos melhores finais de filmes que conheço. Quanto à sua pergunta: acho que sim. Repare que alguns dos melhores filmes que nos perduram na memória não têm finais felizes. ‘Casablanca’, ‘Citizen Kane’, e um longo etc.

    1. Este é um dos filmes que já vi mais vezes, Cristina. E nunca – nunca mesmo – me canso de o ver. Ainda por cima com um excelente lote de secundários – Mickey Rooney, Martin Balsam, Patricia Neal (falecida há poucos dias)…

  3. Audrey Hepburn era um misto de beleza, fragilidade, classe e carácter. No conjunto, uma personalidade fortíssima que deixou marca em todos os que a viram no cinema. Uma mulher especialíssima e completamente diferente das divas da época.

    1. De facto, é quase estranho como uma mulher de ar tão frágil, quase etéreo, podia ter uma presença tão forte – e deixar um rasto tão persistente no cinema, tantos anos após a sua morte prematura. Chama-se a isto, à falta de melhor definição, “it”. Only stars get it.

  4. Um dos filmes que mais vezes revi, Pedro.
    E que estou pronto a rever novamente.
    Já!
    Nem que seja só para rever Audrey Hepburn a cantar Moon River.
    Vou ao Youtube e volto já.

    1. Aquele fio de voz a cantar ‘Moon River’ à janela – criação do grande Henry Mancini para este filme – é absolutamente imperdível. Foi lamentável que 3 anos depois a Warner tenha colado a voz de outra cantora à de Audrey na versão cinematográfica de ‘My Fair Lady’. Já escutei a versão que saltou na montagem final, com a voz dela, e achei excelente.

  5. Ah, um raio de luz nestes tempos deprimentes. Também vou ter que ver o filme outra vez, claro…

    E quanto ao gato sem nome, a própria Audrey era um pouco como um felino: olhos grandes; ar frágil mas parecendo esconder uma força inusitada; elegância natural, sem afectação; espírito independente mas carinhoso; um lado brincalhão, quase infantil; uma pitada de mistério; uma faceta (de que suspeita mais do que se vê) ligeiramente triste e pensativa mas não torturada. Audrey suscita termos como «limpidez». É o tipo de mulher por quem a maioria dos homens sente poder apaixonar-se sem que o factor sexual tenha um papel muito relevante no assunto – coisa que nunca se poderá dizer em relação à maioria das restantes actrizes, da época ou actuais. É um ideal masculino (uma mulher bonita, aparentemente frágil – o que permite manter a sensação de que ainda se desempenha o papel de protector – mas inteligente e, na verdade, independente) que, pela ausência de presunção, pela aparência não declaradamente sexual (não predadora), pela elegância discreta, pela inteligência e bom humor, não se torna agressiva para as mulheres. Claro que há um lado de fantasia na forma como olhamos para ela (de certa forma, todos gostaríamos de ver o mundo pelos olhos com que ela parecia conseguir vê-lo) mas who cares?

  6. Meu caro amigo, aqui discordo, por uma razão muito simples. Nem um PR deve ir ao funeral de um defunto cuja última vontade poderia ser não o querer lá. Cavaco fez bem em não ir porque ia violentar a memória do falecido e ofendia a família. E podia tê-lo dito que saía airosamente. Mas nunca por nunca a desculpa esfarrapada dos Açores. Ele ainda não percebeu que já não colam aquelas desculpas do “ah, não sei de nada, estava no Pulo do Lobo!…”

    1. Viva, Vítor. Estás a comentar no local errado mas és bem-vindo à mesma. Concordando ou discordando, o ideal é que haja debate – e é para isso mesmo que esta (esta não, aquela) série existe.
      A desculpa, de facto, foi tão esfarrapada que se tornou quase inacreditável. Só mesmo ouvindo.

      (agora totalmente a despropósito: quando é que vocês indicam os vossos endereços lá no blogue? Ando há semanas a tentar contactar contigo)

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *