6. Sem tempo para Saramago
Aníbal Cavaco Silva proclamou-se “Presidente de todos os portugueses”. Obviamente, também dos portugueses que se assumem como comunistas. Obviamente, também dos portugueses que nada têm a ver com o comunismo mas sempre apreciaram a obra literária de José Saramago. Obviamente, também daqueles que, não apreciando a figura nem a obra de Saramago, consideraram prestigiante que este cidadão português em concreto tenha sido distinguido com o Prémio Nobel da Literatura, nunca antes ou depois confiado a outro representante do nosso idioma. Nenhum destes portugueses se sentiu representado por Cavaco Silva quando o Presidente da República entendeu faltar às exéquias oficiais de Saramago em Lisboa. Um Presidente não deve agir à mercê de estados de alma: a dignidade da função que desempenha e a notoriedade do escritor impunham a presença de Cavaco no funeral de um homem que em vida nunca deixou de o criticar. Pior ainda foi o pretexto invocado para a ausência: uma deslocação aos Açores, anteriormente prometida pelo avô Aníbal aos seus netos. Como se as conveniências pessoais ou familiares devessem sobrepor-se aos gestos de cidadania e às missões de serviço público.


Como reagiu à ausência de Cavaco Silva no funeral de Saramago?
Muito bem. Cavaco fez-nos o favor de não ir ao funeral e Saramago agradece.
Mas como se justifica que um Presidente da República não compareça no funeral de um dos maiores escritores da língua portuguesa?
Uma pessoa que o rejeitou durante toda a vida podia mudar o quê com a morte? Foi digno. Saramago nunca quereria uma farsa. Eles nunca partilharam as mesmas ideias. O embaixador foi a minha casa e levou as condolências de Cavaco Silva. Isso chegou.
Excerto da entrevista de Pilar del Rio ao “I”
Esta 6ª razão.. sim… merecia o prémio Nobel da … Estupidez !!!
Prémio Nobel da Estupidez merece quem só sabe usar este argumento quando não concorda. Lamentável.
E o anónimo artur merecia o Prémio Nobel da Cobardia, pois está claro.
Claramente, Teresa.
Leonor e Teresa: por motivos pessoais, estive desligado do blogue durante dois dias. Só agora li o inteligente “argumento” expresso mais acima que motivou a vossa indignação. Há, de facto, gente que persiste em abusar da nossa hospitalidade.
Agradeço muito as vossas palavras.
Ora, fique lá a saber uma coisa, sr. Correia: o facto de Cavaco não ter participado nessa hipocrisia é precisamente uma das razões por que vou votar nele.
E esta, hein!?
Pois que lhe faça muito bom proveito. Tem a garantia de levar durante mais cinco anos com um PR que se gaba de nunca vetar um diploma do Governo.
Hipocrisia é palavra que não consta na maneira de ser de Cavaco Silva. Limitou-se a cumprir o protocolo e amais não era obrigado.
Neste caso, a meu ver, faltou-lhe um rasgo que outro provavelmente teria. Um PR não pode fazer só o que lhe é exigido no protocolo. E o motivo alegado para a ausência foi ridículo.
Nas exéquias oficiais de um prémio nobel da literatura não é obrigatório que participe o mais alto magistrado da Nação. Não tendo sido galardoado com o prémio nobel, Eduardo Prado Coelho foi igualmente um escritor (e ensaista) de renome sobretudo nacional a quem foram atribuídos vários prémios, e não me recordo de, nas suas exéquias, ter participado o presidente da República…
A notoriedade de um escritor pode ser discutível, sobretudo quando essa notoriedade é essencialmente fundamentada pela entrega de galardões.
Estou a tentar ser objectiva uma vez que gosto bastante das obras de Saramago. Só lamento é que ao «Memorial do Convento» tenha sido, a seu mando, extraída a dedicatória a Isabel da Nóbrega…
Saramago era criticável a vários títulos – muitos, aliás. Eu próprio o critiquei várias vezes. E nunca esqueci a conduta lamentável que teve no DN. Mas factos são factos: ele é o nosso único Nobel da Literatura. O único Nobel até hoje concedido a um autor de língua portuguesa. Bastaria isto para que o Estado português, ao mais alto nível, se fizesse representar nas exéquias oficiais. Cavaco esteve mal. E o presidente da AR, Jaime Gama, também esteve ao não comparecer igualmente à cerimónia.
As coisas são o que são.
Apesar de discordar, permito-me respeitar a sua opinião.
Agradeço a elegância e a correcção com que o faz, ao contrário de outros intervenientes nesta caixa de comentários.
Se vc amar o diabo….concerteza ganhará tambem um nobel.
Isto é:Se de facto vc tiver potencial que possa servir para o diabo…
Se nao tiver, vc aos olhos dele não passa de carne para canhão.
Mas quem pertence Cristo, não se deixa vender, mesmo tendo grande potencial.
A fama do mundo significa para nós palha.
Existe um alvo sim…
Um algo que representa uma pedra de tropeço.
Esse alvo se chama Yeshua (Jesus Cristo).
Os vossos doutores, celebridades, nobeis, religiosos ou politicos não passam de marionetas, que servem para “atacar”o Alvo…
O mundo vive num egocentrismo egoista.
Todos se julgam importantes.
Vaidades sobre vaidades.
Nada sois e nada sereis.
Quem na verdade são os legitimos e verdadeiros seres humanos, são os humildes que amam a Deus sem dependerem de filosofias humanas.
São esses que aceitam o verdadeiro evangelho de Jesus Cristo e o praticam confiando plenamente no Senhor Salvador.
Apenas Deus tudo conhece.
Quem O ama deve tambem confiar Nele plenamente.
O Senhor Jesus Cristo nosso Deus sabe muito bem o que faz.
Deus nao depende dos homens, mas os homens dependem de Deus.
Eu também não punha os pés no funeral de um malcriado que me tivesse insultado com termos próprios de um hooligan do futebol.
O problema não se põe: você não é Presidente da República.
Sinceramente, acho que foi a única coisa sensata que fez em todo o seu mandato. Fez muito bem em não ter ido. Um Prémio Nobel não é uma condecoração nacional; portanto, não há nenhuma exigência protocolar nem bem-parecer que o obrigasse a ter ido. Estar no funeral de Saramago, implicava que o Presidente da República estivesse em todos os funerais de todos os escritores, apenas por princípio. Com esta razão, que não acho que seja razão, não concordo.
Temos estado de acordo noutras matérias. Nesta não estamos: nada de mal. No entanto, goste-se ou não do homem e da obra, o facto é que Saramago é o único escritor de língua portuguesa galardoado com o Nobel. A meu ver, bastava isto para merecer que o PR não trocasse a presença no funeral por um passeiozinho aos Açores, por mais que detestasse a pessoa em causa. Os presidente também são pagos por todos nós para comparecer em cerimónias onde talvez preferissem não estar. É a vida.
É verdade que não ando satisfeito com muitas das atitudes de Cavaco e até sou fã de Saramago. Não só li grande parte da sua obra por paixão, como conhecia o escritor como vizinho, mas estou grato por Cavaco não ter alinhado na hipocrisia do politicamente correcto em relação ao funeral de Saramago. Portugal seria bem melhor com menos hipocrisia da classe política.
Já agora, estou a aguardar pela melhor alternativa de candidato que tenha estofo para conseguir endireitar este país falido.
Não basta não gostar, é preciso que surjam melhores.
Certo. Deste, no entanto, já sei que não gosto. Porque está lá há cinco anos. Os outros ainda não estiveram.
Já agora acrescento, Pedro: obrigado por estar a dar razão a quem vai votar em branco. É pena que o voto em branco não conte. Retirar legitimidade é, politicamente, um valor muito maior do que votar nulo ou ter que votar num pateta qualquer só porque não se encontra alternativa. Coisas que deveriam estar na Constituição…
Caro Javali (?!),
Para todos os efeitos, um voto em branco, ou um voto em Manuel Alegre à 1ª volta, representará a mesma coisa. No fundo, o seu voto está a ocupar um espaço que, ao não existir, beneficiaria Cavaco Silva.
A ironia das coisas é que foi precisamente Saramago quem advogou o voto em branco generalizado num dos seus romances…
Outra:
Não gosto dele e nunca me senti representado por ele enquanto cidadão.
Já nem falo enquanto cidadão-trabalhador…
Até agora, ainda não vi uma razão que não subscrevesse. Mas, francamente: Tirando o pau-de-sabão calculista que Cavaco é, fica o bardo Alegre, P’tanto Lopes e o outro senhor simpático que diz não sei bem o quê. É preciso votar, por muito que custe …
Diz bem: é preciso votar. Até para depois termos autoridade moral para criticar os outros.
Como comentei na altura, Pedro, é inadmíssivel que o Presidente da República não se tivesse deslocado para as exéquias de Saramago, mas Cavaco nem sequer é uma alternativa para mim.
Cara Leonor,
Sem querer refutar, necessariamente, o seu comentário, não lhe parece que o facto de se achar “inadmissível” que o Presidente da República falte a um “evento” destes é sintomático da nossa pequenez?
E porque não no de Raúl Solnado ou António Feio, que muito contribuiram para as nossas “artes” muito embora não tenham “ganho” nada além fronteiras?
Acha que o Presidente dos EUA, da França, a Chanceler Alemã, and so on, se vêem obrigados a estar presentes nos funerais de todos os nobelizados?
Acha que a Chanceler Alemã estará nas exéquias de Gunter Grass? Ou Jacob Zuma no de Nadine Gordimer?
Para além disso, gostaria de saber o que diriam de Cavaco Silva se tivesse ido e cometido essa hipocrisia…
PS – Note-se que referi ser um “evento” porque foi precisamente com estes contornos que a nossa classe política, e muitos outras e outros para a foto, encarou o funeral de Saramago… Como um evento ao qual não podiam faltar… E quantos deles terão lido uma linha do autor?…
De facto, Leonor, nada disto é novo: logo na altura ambos criticámos a conduta do PR, que nada conseguiu arranjar melhor para fazer em alternativa, nesse fim de semana, do que ir passear com os netinhos aos Açores – como se fosse para isso que os portugueses que o elegeram lhe pagam o salário de Presidente. O facto de Saramago ser o único Nobel da literatura portuguesa faz toda a diferença neste caso e não pode confundível com os outros exemplos apresentados pelo Pedro Ulrich – Solnado, António Feio, etc.
A questão de fundo é esta: não se pode tomar posse das funções presidenciais dizendo que se é “Presidente de todos os portugueses” e depois demonstrar que afinal esta frase não significa nada.
Claro, Pedro, já tínhamos concordado na altura. Cavaco, que gosta de se afirmar ‘isento’, mostrou não o ser.
Aí é que está… acharia muito mais natural que estivesse nas exéquias de quem o país sente como um dos seus, do que de Saramago. Essa é que é a questão… É que o país não “chorou” por Saramago, mas “chorou” por muitas outras figuras que sentimos como nossas… E não é o facto de ter sido galardoado por uma academia sueca que o vai mudar… goste o senhor Correia, ou não…
Nuns casos é excessivamente protocolar, noutros é demasiado pessoal… Em que é que ficamos, afinal?… Ao menos seja coerente.
Pode refutar à vontade, nada como uma conversa civilizada, Pedro. Obviamente não tenho nada contra a presença do PR em exéquias fúnebres de quem honra e marca o país. Saramago, independentemente da destemperança, é um nome incontornável da Literatura Portuguesa. Não será preciso especificar a profusão de traduções da sua obra noutras línguas e o facto de ter colocado Portugal no mapa literário internacional. Acresce que é único Nobel português da Literatura e também como tal merecia outro respeito pelo Chefe de Estado.
Não podemos comparar países como os que cita com Portugal. São realidades diferentes. De resto, não é uma questão de se verem obrigados, é uma questão de respeito por alguém que levou o nome do país mais longe e de representação do país. Ficou-lhe muito mal ter-se deixado ficar nos Açores e ainda por cima ter-se deixado fotografar em férias. Assim, se Cavaco tivesse ido jamais o acusaria de hipocrisia. Não é o homem Aníbal Cavaco Silva que está em causa, é o Presidente da República. Faz toda a diferença.
E sim, muita gente não leu Saramago. Conheço até gente que não leu, mas que afirmou publicamente e escreveu também que Saramago arrastou o nome de Mafra pela lama com o ‘Memorial’. Sou de Mafra, infelizmente assisto de vez em quando a episódios tristes.
Caso (e bato várias vezes na Madeira) o nosso CR7 morresse, seria institucional e pessoalmente correcta a presença de Cavaco Silva nas exéquias?